O Mate – Afonso Brito Chermont

Publicado por em jun 20, 2015 em Artigos, Blog | 2 comments

O Mate

Afonso Brito Chermont (*)

Fui ao supermercado e identifiquei, logo na entrada, uma variedade de refrigerantes, inclusive, boa quantidade de Mate Leão.

Lembrei de minha juventude e recordei quando ia à praia em Ipanema com meu amigo Rafael Augusto Roquete Bruno. Rafael morava na Visconde do Pirajá, número 423, entre a Garcia D’Ávila e Maria Quitéria. Na esquina funcionava um Bob´s que chamavam bobs de Ipanema, o que dava a certeza de que em cada bairro havia uma daquelas lanchonetes, que imitavam as lanchonetes americanas.

Íamos à praia, o que era um programa sensacional! Levávamos um dinheirinho preso ao short para um eventual refrigerante ou um ligeiro lanche. A praia era o que havia de mais bonito, não só pela beleza do local, mas, e sobretudo, pelas moças que lá frequentavam, que eram umas deusas.

Observava a ousadia das meninas que começavam, naquele final de anos 50, a usar maiô duas peças ou engana papai. Esse constituído de uma peça só e que, na parte de trás, a alça marcava a pele pela exposição ao sol. Dava a impressão que haviam usado um biquíni quando vestidas para ir a um cinema ou mesmo lanchar no Bob’s. Isso as faziam imaginar-se mais avançadas. Ipanema era só felicidade!

Na praia, em Ipanema, costumávamos andar até a Montenegro (hoje Vinícius de Moraes) e ficávamos deslumbrados com todo aquele conjunto de bonito, belo, beleza. Eram coisas deslumbrantes: o céu, o mar, as pessoas, a moda, as maneiras, o sotaque, a vida, etc. O Rio era o sonho de qualquer brasileiro de outra cidade que lá chegando encontrava tudo que havia de melhor. Os hábitos e costumes saíam do Rio e se espalhavam pelo Brasil.

Sim, fui à praia e, em determinado momento, com sede, pedi a um ambulante que me servisse um mate. Era uma bebida muito gostosa aquela que vendiam na praia. Ou era mate ou limão. Preferia o mate. Foi quando houve a interferência do Rafael, que a mim disse: — não toma mate; mate é brochante.

Como é, mate é brochante? Eu não queria aceitar aquela ideia. Não podia ser, toda vez que ia à praia eu tomava um mate. Isso só poderia ser gozação do Rafael. Ele, então, em reforço, argumentou comigo: Vê que, no colégio, o Prof. Talvane (naquela época, administrador do colégio), vez por outra manda servir mate para que nós fiquemos calmos. Pensei: o forte no CNF é o suco de uva, mas, de vez em quando servem mate. Será que Rafael tem razão?

Sei que fiquei na dúvida, mas resolvi não mais tomar mate. Sabe lá como são essas coisas! Cortei mate da minha vida. O Rio irradiava não só beleza como sabedoria e eu passei a aceitar aquela orientação como uma verdade absoluta.

Tempos depois entraram para o CNF o Rui Leão e Gilberto Leão. Eram irmãos, vinham do Paraná. Lopinho (Luiz Eduardo Simões Lopes) me disse que a família deles era quem produzia o Mate Leão, que era um produto nacional e de aceitação plena. Certa vez falei com Gilberto Leão, que era meu colega de turma, e indaguei sobre o assunto. Ele riu muito e disse que aquilo não passava de invenção de concorrente, não tinha nada a ver. Acreditei no meu caro amigo Gilberto.

Hoje tenho convicção de que isso passou a ser uma criação de alguém que, repetida mil vezes, se tornou uma verdade. Tomo mate regularmente, mas por via das dúvidas, tomo um chá chamado Carmilitano que, aqui no Pará, dizem que é um forte estimulante. Prudência não faz mal a ninguém.

(*) CNF 58/64

Junho de 2015

  • Roberto Cunha

    Chermont:
    Ótimas lembranças, só que o “biquini” era chamado “engana mamãe” e não “engana papai”.
    Saudades sempre,
    Rato Cunha

  • Afonso Brito Chermont

    Meu caro Roberto que bom que você escreveu. Fui traído pela memória. O biquíni era engana mamãe sim. Um abraço Afonso Chermont