Caminhada – Afonso Chermont

Publicado por em abr 23, 2017 em Artigos, Blog | 0 comments

Caminhada 

 

Afonso Brito Chermont(*) 

 

Eu, outro dia, resolvi caminhar. Sou desses que entende que uma caminhada faz bem para o físico e para a alma. Faz bem para a parte respiratória e ao espírito, que se enche de sonhos e pensamentos. 

Escolhi o Portal da Amazônia para esse meu esforço durante uma hora. O lugar é bonito e se enquadra bem para esse tipo de atividade. Está limpo e razoavelmente bem tratado. Eu estava estreando um tênis e o aprovei. Calçou bem e é confortável para os pés. Aprovei-o mais por tê-lo comprado por menos de R$200,00, quando eu vi, na mesma loja, tênis de pouco menos de R$1.000,00. 

Gostei muito de ter sido cumprimentado por um senhor, que em um ascender e descender de cabeça me desejou um bom dia. Lembrei-me de Belém antiga quando as pessoas, invariavelmente, trocavam sorrisos e a saudação era feita com enorme prazer. Recordei de Nova Friburgo, onde estudei e onde havia um lugar, na praça Getúlio Vargas, em que as moças e rapazes faziam um footing. Olhávamos as moças e as cumprimentávamos com sorrisos. Acho que isso era o flerte; era o início de um possível relacionamento e os sorrisos identificavam alguma possibilidade. 

Continuando minha caminhada vi um casal sentado em cadeiras leves, de alumínio, bem em frente ao rio como que contemplando o volume de água que estava à sua frente. A maré estava cheia e uma brisa forte soprava em direção à terra e isso satisfazia ao casal um tanto ocioso e fora de forma. 

Mais adiante vi um grupo de pessoas, a maioria de jovens, fazendo exercício sob o comando de um treinador, com uma música que vinha de um carro som e ditava o ritmo dos movimentos, fazendo o grupo parecer bastante satisfeito. 

Seguindo, havia uma quadra esportiva multiuso  e um técnico ensinava os movimentos de esporte chamado handball. Parei para ver: destacava-se uma jovem bem alta, cujos movimentos além de rápidos, como exige o esporte, eram precisos no lançamento da bola como que driblando o goleiro. A jovem usava roupas improvisadas e calçava sapatos inadequados para aquela prática. Lembrei-me do Colégio Nova Friburgo que, quando íamos para a prática de esportes, dispúnhamos de roupas e tênis de muito boa qualidade. Lembrei de que o Ginásio de Esportes, em Friburgo era de primeira linha: quadras de diversos usos, roupas próprias para cada esporte, iluminação e vestiários completos. Essa lembrança me fez pensar no destino daquela moça que ali se esforçava. Pelo seu jeito, ela, possivelmente, deve ter pensado no esporte para romper o estágio da pobreza. Essa jovem merecia um ginásio, um tênis, roupas bonitas de atleta e o conforto para se tornar uma . 

E lá vou eu já passando da metade de minha caminhada quando fui surpreendido com um forte cheiro de maconha. Vi uma pessoa nova, que enrolava um matinho acondicionando em um papel e que, carinhosamente, refazia um cigarrinho e o consumia com imenso prazer. O cheiro é bem menos desagradável que o do cigarro comum e o prazer eu não poso identificar, pois nunca experimentei essa erva. Na minha juventude não fui um careta, mas maconha não fazia parte do meu cardápio de consumo. Bebia bastante, festivamente, muito para ter coragem de tirar uma moça para dançar, mas não tive contato com essa droga, nem com a desculpa de uso medicinal. Tive o prazer, esse sim, de praticar esportes e entendi que o esporte ajuda em muito no desenvolvimento físico e intelectual do ser humano. Não sou sedentário, pratico regularmente exercícios,  como a caminhar, achando que não terei problemas como um infarto. Os exercícios feitos continuadamente proporcionam benefícios, diminuindo os riscos de doenças cardíacas e dão à pessoa um aspecto saudável. 

Pois é, a caminhada me fez refletir  sobre: a vida saudável e de alguns exageros; me fez pensar no privilégio de ter morado em cidades em que o simples ato de cumprimentar as pessoas, embora nunca as tivesse visto, refletia educação e felicidade; me fez recordar o ato de tomar uma bebida para ter coragem de tirar uma moça para dançar, pois tinha receio de ser rejeitado e ainda sofrer a gozação dos amigos de plantão; do esporte, principalmente competindo, que me fez compreender que podia ganhar e perder e que isso estava ligado à intensidade de minha preparação; das diferenças em poder ter à minha disposição o que havia de melhor em preparação física; de não ter sido ou ficado dependente de qualquer vício. 

Pude sonhar e recordar e dizer que fiz algumas opções certas na minha vida, e não entender como pessoas, às vezes, com talento, se envolvem com drogas e não conseguem delas se desligar. 

Entendo, hoje, um pouco, o porquê das drogas. Não me aproximava de uma moça em um baile se não estivesse muito doido. Verdade, além do mais, elas deveriam consentir a aproximação e, aqui para nós, elas percebiam a nossa aflição e  se distanciavam ou faziam que não estavam nem aí. 

Na minha época (prefiro dizer na minha juventude) também adorava viver e as drogas levaram à morte ídolos nossos como Elvis Presley, que teve a morte resultante de falta de exercícios e o uso de drogas. De Jimi Hendrix que possivelmente morreu de overdose de drogas. Todos no auge de suas carreiras. 

 

Abril de 2017 

(*) CNF 58/64