Caminhada II – Afonso Chermont

Publicado por em maio 18, 2017 em Artigos, Blog | 0 comments

Caminhada II

Afonso Brito Chermont (*)

O Portal da Amazônia é bom lugar para se caminhar muito, em função de Belém ter trânsito de automóvel bastante intenso. Na caminhada, nesse lugar menos conturbado, reflito sobre a vida, ou tendo maior pretensão, sobre a Economia do estado do Pará.
Isso me veio à cabeça motivado pela quantidade de navios que ancoram do outro lado da Bahia do Guajará e Rio Guamá, na expectativa de atracar no porto de Barcarena, para o carregamento dos lingotes de alumínio. Esses lingotes são produzidos, finalmente, nessa região, nas proximidades de Belém.
O processo industrial tem início, desde a mina, em Paragominas, onde é extraída a bauxita transportada para Barcarena e, posteriormente, transformada em alumina e, finalmente, chegar ao alumínio. No processo industrial, um dos insumos importantes, talvez o mais importante, é a energia despendida, vinda de Tucuruí. A complexidade do processo envolve uma quantidade de pessoas com qualificação. Desde a extração do minério, o transporte da mina até a indústria em Barcarena, o embarque em lingotes do porto para o exterior, nos dá certeza das tecnologias desenvolvidas e nos faz imaginar o quanto de conhecimento está contido nesse conjunto industrial.
Também reflito sobre as pessoas que habitavam essa região antes da descoberta de minérios. Eram ribeirinhos que viviam da coleta, da pesca artesanal e da criação de animais. Penso que hoje fazem parte do processo industrial do alumínio levando sua força física para o crescimento da atividade.
Hoje, tais pessoas estão ou continuam pobres como no passado. Se o setor industrial cresceu, se tecnologias foram adquiridas e adotadas, se há toda essa complexidade no processamento industrial, isso não significou desenvolvimento. Desenvolvimento no sentido amplo do conceito. Persiste a pobreza e ela se evidencia com os baixíssimos índices de desenvolvimento humano.
Lembro-me de um então Governador do Pará que dizia, revelando total indignação: — O Estado do Pará é tão rico (referindo-se aos recursos minerais) e tem um povo tão pobre.
Venho ao longo de minha vida profissional tentando explicação para essa circunstância. Duas justificativas se afiguram e de difícil solução: uma, que se refere à política tributária, que não admite impostos para os bens produzidos, que se destinam ao mercado externo. A chamada Lei Kandir isenta do imposto estadual (ICMS) o produto que vai para o exterior e, assim, o Governo não arrecada e não pode investir nas áreas consideradas prioritárias, o que mantém o povo, permanentemente, em nível de pobreza; a outra justificativa ou explicação é a que trata de tecnologia. Em plena Revolução Tecnológica nos no Pará, não percebemos a revolução que o mundo está atravessando. Não desenvolvemos tecnologias e entendemos que, comprando técnicas, muitas vezes de outros países, estamos resolvendo o problema da atividade industrial.
A crise pela qual passa o país, com a indignação sobre a identificação da corrupção que assola o Brasil, nos permite raciocinar que estamos muito distantes de uma reforma tributária que corrija essa distorção. Não há ambiente no Brasil para uma reforma dessa magnitude!
Então, temos que nos contentar, melhor, aceitar, ver o povo pobre, sem emprego, sem perspectiva, sem que nada possa ser feito para mudar esse quadro obscuro que atravessa. Que o estado do Pará é rico não temos a menor dúvida, basta ver as exportações crescentes que as estatísticas indicam, porém sem que haja benefícios ao povo paraense.
Quando estudei em Nova Friburgo tive a oportunidade de ser aluno de um professor que, nas aulas de Geografia Econômica, antevia que nas duas décadas seguintes o Brasil seria uma grande potência mundial. Isso, lá pelos meados do século XIX, deu-me a impressão, com o processo de industrialização que se iniciou com Juscelino Kubitschek, que o gigante havia despertado. O país, eminentemente agrícola, como escrevia Aroldo de Azevedo, havia se transformado em produtor de bens industrializados.
O Pará possui, hoje, nove regiões de extração de minérios, constituindo-se no estado de maior potencial de minérios e com riquezas no subsolo sem comparação no Brasil. A continuidade desse processo perverso de extração de minerais, sem agregação de valor, manterá duradouros os níveis de pobreza.

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