Meu Deus, como me enganei! – Clóvis Cavalcanti

Publicado por em maio 2, 2017 em Artigos, Blog | 0 comments

Meu Deus, como me enganei!

Clóvis Cavalcanti

Clóvis de Vasconcelos Cavalcanti – GNF e CNF de 1952 a 1959

Presidente da Sociedade Internacional de Economia Ecológica (ISEE); cloviscavalcanti.tao@gmail.com

 

No dia 10/11/2002, saiu aqui no DP (Diário de Pernambuco) um artigo meu, de opinião, intitulado “Agora, mãos à obra!” Eu falava sobre a vitória de Lula, dias antes, no segundo turno das eleições presidenciais. Dizia: “É para se pensar como será o Brasil sob o governo do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Afinal, não é só alguém dos grupos subalternos de nossa sociedade que vai ascender à máxima instância do executivo nacional. Trata-se de um cidadão decente, ético, de passado respeitável em todos os sentidos. De alguém que, por exemplo, nunca teve uma empregada doméstica […]. De alguém que não pôde freqüentar escola, que teve de trabalhar quando criança, que foi retirante do Nordeste, que sobreviveu sem pai, criado, junto com mais sete irmãos, por mãe corajosa e digna (como tantas neste país). Estamos diante de uma situação absolutamente nova, especialmente porque Lula tem noção de tudo isso, nunca se afastou de suas raízes, e sua trajetória política forjou-se nos embates sindicais para defesa dos direitos de uma categoria profissional. Discreto, Lula mantém fora do foco de atenções sua vida familiar, sua prática religiosa. No dia do primeiro turno das eleições deste ano, conta seu amigo Frei Betto, para comemorar os 57 anos de Lula, na casa do presidente eleito, apagou-se uma vela, cortou-se um bolo, rezaram-se o Pai Nosso e o Salmo 72 na versão de Frei Carlos Mesters (‘o bom governante escuta os pedidos dos pobres’). E foi tudo. O Brasil precisa de dirigentes assim, austeros, frugais, tanto na vida pessoal – para exemplo da Nação – quanto nas escolhas para a realização do programa de governo”.

Empolgado, eu falava mais: “Essa mensagem de luta, de severidade […], de espírito titânico, representa requisito indispensável para que se enfrentem os problemas brasileiros atuais. Entretanto, Lula sozinho será incapaz de qualquer sucesso, se não contar com seguidores em seu modo de ser e de agir. As administrações petistas no Brasil […] devem procurar emular o grande líder eleito para governar o Brasil a partir de 2003. É necessário que todos trabalhem 24 horas por dia, tal como também faz, a propósito, o atual vice-presidente da República, Marco Maciel, uma figura austera e frugal. Fala-se muito em ‘austeridade fiscal’, porque é preciso gastar dentro dos limites rigorosos das contas públicas. O Brasil, porém, precisa de um choque de austeridade em estilos de vida esbanjadores que adota. É conhecida a farra da corte brasiliense com suas mordomias, com a facilidade com que permite que seus integrantes viajem sem nenhum pudor para cima e para baixo do território nacional (e para fora dele). Um presidente austero e trabalhador tem que disciplinar o uso das receitas públicas, submetendo-as a freios que sirvam de paradigma para todos os níveis da administração pública”.

Eu comentava que, na versão clássica “do Estado do bem-estar, proposta pelo economista inglês William Beveridge (1879-1963), cumpre ao governo espantar os demônios da doença, das privações, da fome, da miséria, da falta de teto. Não se trata, portanto, de criar situações de parasitismo, luxo ou opulência. O Brasil necessita de avanços sociais nítidos assim. Não se pode admitir que a exclusão persista, sobretudo nos níveis indecentes que o País ostenta. O compromisso de Lula é claramente com o combate às carências identificadas por Beveridge, que não foi nenhum revolucionário. A assunção ao poder de alguém com sua formação deve servir para que se realize entre nós um choque de valores humanos, aproveitando o que a sociedade tem de bom (e eu estou certo de que o potencial para isso é grande). Algum antídoto para a miséria tem que se amparar em mecanismos redistributivos” cuja importância “será percebida quando ficar patente que a redistribuição da riqueza levará a menos insegurança, a menos crianças de rua, a menos sobressalto. Que é o que nós desejamos. Não se pode é tolerar a convivência do festim perdulário de uns poucos em face das enormes carências […]. Lula aqui tem que fazer o que diz o Salmo 72 (ou será que é para jogá-lo fora?): ‘Que o rei faça justiça aos humildes do povo, salve os filhos do pobre’”.

Salientei: “Infelizmente, temos visto que o sofrimento das camadas despossuídas do País não comove os que alimentam crenças obsessivas no poder do mercado de resolvê-lo. Karl Polanyi (1886-1964), na Grande Transformação, já comentava o tipo de sociedade que se regula por esse ente, quando o certo seria a sociedade regular o mercado, submetê-lo ao interesse público. Esta percepção tem se manifestado no discurso de Lula, que não quer frustrar aqueles que lhe deram o voto consagrador. É certo que os limites da realidade impõem condicionantes duros […]. Para evitar que a insensibilidade à maneira de Margaret Thatcher (1925-2013), Ronald Reagan (1911-2004) ou Augusto Pinochet (1915-2006) prevaleça, a proposta do diálogo das partes interessadas ou pacto social que Lula tem enfatizado como parâmetro de seu governo é algo que merece a maior atenção. A sociedade toda tem que ser mobilizada, inclusive como forma de capitalizar a enorme energia social que sinaliza agora o desejo de mudanças. Mãos à obra, portanto!” Meu Deus, como me enganei! Como fomos trapaceados!

 

Artigo publicado no Diário de Pernambuco em 26 de abril de 2017.