Os Netos do CNF
Afonso Brito Chermont
 
Um dia desses estava eu assistindo um programa de Televisão no Globo News que se não me engano chamava-se Via Brasil e percebi que o programa se passava em Belém. Era um local muito aprazível, Mangal das Garças. Chama-se assim porque é uma área de mangue com todas a flora e a fauna dessa região muito bem, fica na Bahia de Guajará, perto da foz do Rio Guamá, logo em frente de Belém

O técnico entrevistado era o biólogo Igor Chamon Seligmann. Ouvi, com atenção, a descrição do trabalho que é feito com os animais que habitam a natureza naquela beira rio. Ele falava da possibilidade de que os pássaros especialmente as garças e guarás, tivessem um lugar seguro de reprodução e, portanto, a garantia de que se afastava a ameaça da extinção dos animais que não só enfeitam nossas paisagens como cumprem função importante na cadeia biológica de nosso eco sistema.

Igor é filho de meu amigo Rui Seligman e colega do Colégio Nova Friburgo, que quando jovenzinho cansei de perturbá-lo o irritando com apelidos e brincadeiras, muitas delas inspiradas naquelas que vivi no colégio. Hoje o vejo forte, competente e qualificado!

No mesmo sentido, tenho tido também satisfações imensas com o Guy Benchimol Veloso que é filho de Zeno Veloso e meu afilhado de batismo. Guy é formado em Direito, mas seu trabalho assemelha-se a de um antropólogo, pois registra por escrito, fotografa e filma minuciosamente, com rara inspiração, os elementos e as pessoas componentes das imagens que se formam por meio de um olhar relativizado. Tal um escritor que descreve a fotografia com ensaios realizados ligado a religiosidade. Estive em uma exposição sua em que ele descreve o Caminho de Santiago de Compostela, acho que nos anos 90, e fiquei impressionado com aquele misto de antropólogo, fotografo e muitas coisas mais.

Outro que faz sucesso e que acabou de retornar a Belém é Gustavo Cunha Chermont. Sempre que estamos eu e meu irmão Paulo e sua mulher Lívia lembramos que eu dizia, com maldade e brincadeira de mau gosto, quando me referia ao menino Gustavo de que ele "iria dar muito desgosto". Ele é hoje justamente o contrário da ironia que eu fazia. Medico formado pela Escola Paulista de Medicina tendo estudado em São Paulo, durante mais de uma década, e, em seu retorno a Belém, tem sido reconhecido pela sua brilhante atuação como médico reumatologista.

Tenho a sensação de que muito desses ensinamentos foram passadas pelos seus pais que, por sua vez, aprenderam nos bancos do CNF. São os netos do CNF que passam a ter influência em na sociedade.

Estou me referindo a três que estão mais próximos de mim somente aos do Pará, mas estou certo de que existem muitos "netos" que tem se destacado no cenário brasileiro.

Dezembro de 2008

 
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Dora Bria
Afonso Brito Chermont
 
Certa vez, um bom tempo depois de ter saído do Colégio Nova Friburgo, estava eu no Rio e, como sempre fazia quando ia a essa cidade, contatava com meus amigos do CNF. Assim, fui ao encontro do Bruno Kuroviski, no Bar Luiz.

Bruno era uma das figuras mais excêntricas que conheci. Tinha várias paixões a maior delas era tomar uns Uísques com seus amigos e isso poderia ser a qualquer hora e a qualquer tempo. Um dia, então, estava eu na sua sala no mezanino do Bar Luiz, na hora do almoço tomando então um escocês e falando da vida do CNF de sua casa que ele tinha em Muri, ali pela estrada do Lumiar, onde sempre nos recebia para intermináveis seções de comida e bebida.

Pois bem, no Bar Luiz, Bruno me disse que estaria recebendo uma moça que era muito bonita e que pratica um desses esportes com vela, que depois eu vim saber quem era, e que, possivelmente, o Bar Luiz estaria patrocinando a jovem que deslizaria nas ondas das praias do Rio.

Realmente, quando anunciaram a presença da moça de uma beleza emocionante, na flor de seus vinte anos, talvez. Além de linda tinha ela um corpo moldado pelo esporte o que a fazia parecer uma Deusa. Da conversa com Bruno, a qual pediu para que eu presenciasse, lembro que tratou justamente do patrocínio do Bar Luiz e como deveria figurar na vela do Hobi Kat.Isso eu não gravei tanto!Na minha mente ficou gravado, definitivamente, a imagem de uma atleta belíssima e de uma autêntica carioca.

Entendi que o patrocínio do Bar Luiz seria uma forma de divulgar o tradicional restaurante que havia sido criado pelo avô de Bruno e que se mantinha como rígido na linha mais tradicional servindo uma comida como salsichão acompanhado de salada e chucrute ou um finíssimo rosbife acompanhado de batata. Havia, também, na mesma linha, um croquete de carne de um sabor fantástico. O chope, preto ou o comum, era muito bem tirado em umas máquinas próprias para tal. O Bar tinha, melhor, tem até hoje, uma decoração mantendo peças usadas no século retrasado.

Os móveis no mesmo estilo clássico com mesas de ferro com tampo de mármore branco polido e as cadeiras do tipo austríacas com palinha. Tudo muito requintado! As pessoas que lá freqüentam o fazem há décadas e são conhecidos comerciantes do bairro da Rua da Carioca e adjacências.

Sempre que o nome de Dora Bria era comentado na mídia lembrava eu daquela passagem, muito rápida é verdade, no tradicional Bar Luiz. Lembrava da moça linda exima praticante de esportes no mar e de meu caro amigo Bruno Kuroviski cuja característica principal era a de fazer amigos.

Agora que ambos se encontraram no céu fico imaginando quem convenceu quem: Dora ao Bruno pela prática de esportes ou Bruno a Dora para que tome um Uísque.

Março de 2008

 
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Amigo Lopinho
Afonso Brito Chermont
 
Vou ser indiscreto ao responder seu e-mail e tornando pública minha resposta, no site CNF. Também, na minha relação contigo, meu amigo, nada haverá de indiscreto, pois mantivemos, sempre, uma amizade de elevadíssimo nível e você é uma pessoa que guardo com muito carinho no meu coração, pois somente recebi de sua parte atenções múltiplas.

Sabe o que eu me lembro muito: dos teus quarenta anos. Acho que foi em 1987. Você me convidou e eu fui de Belém para o Rio para uma festa monumental na Mikonos. Seus pais me olharam, depois de tantos anos e reconheceram em mim o amigo lá do Pará que veio a festa. Maria Clara estava lá e conversei com ela que me disse estar trabalhando como designer de jóias e me contou dessa sua atividade.
Não consigo entender esses desígnios de Deus... Desço quase que diariamente, pela manhã, para a área de lazer do prédio onde moro e encontro com uma senhora de 94 anos. Trocamos sempre cumprimentos e elogiamos a forma física, muito por educação, um do outro e, um dia, ela me disse: Deus esqueceu de mim!
Pensei muito nessa frase e me volto para o meu filho que se foi aos três anos e Maria Clara, jovem e bonita, que Deus os levou logo, muito cedo, como que requisitando seus serviços no céu.

Com relação ao meu filho não esqueci a assistência que você deu a ele, no Rio, quando ele foi, com sua mãe, em busca de cura. Sou sempre grato a você, meu amigo, pelos momentos de consolo que você dispensou a mim e minha família.

Muitas vezes eu me pego pensando em meu filho – estudando, se formando, fazendo esportes, constituindo família e, de repente, tudo isso se apaga da minha mente e eu sinto uma saudade do futuro. Eu tive muitas compensações com Larissa. Sempre foi muito estudiosa e extremamente responsável. Faz mais de dez anos que ela está estudando, com idas e vindas da Europa, mantendo uma regularidade em suas atividades que me impressionam. O que eu perdi de um lado Deus me compensou de outro e acabo me considerando feliz com o que está acontecendo.

Ainda na festa dos teus quarenta anos, lembro que encontrei com amigos nossos que lá foram para te abraçar. Estavam: meu grande amigo de sempre, Paulo Perobo; Sérgio Bopp. O Perobo é meu amigo de mais de quarenta anos. Sérgio eu nunca mais vi. Não sei como está o irmão do Jorge Porrorroca.
Do Paulista, tenho notícias por e-mail. Um encontro desses em setembro, faz uns dez anos, o cara foi e eu havia levado umas fotos, de nossa época, onde estávamos com nossas namoradas. Ele me pediu e disse que mandaria escanear e me remeteria posteriormente. Aquiesci ao tão nobre pedido e, agora, não faz muito tempo, quis rever as fotos e pedi de volta Ele escreveu lamentando mais não está bem lembrado do fato. Isso é típico dele. A qualquer momento ele vai lembrar e as teremos de volta.

Você em sua carta lembrou do Leopoldina, grande Evandro Guimarães e toda vez que encontro com o pessoal da afiliada da Rede Globo aqui sou indagado pelo meu namorado da Rede Globo. Verdade, ele com suas maluquices que ainda bem não são levadas a sério. Lembra de uma ocasião, isso já faz quase meio século, que fomos visitá-lo no Solar da Fossa que era um casarão que ficava onde hoje é o Rio Sul. Leopoldina nos deu explicações de seu projeto sobre bicicleta que era o meio de transporte ideal para o futuro – barato, não gasta gasolina, faz bem para saúde, não polui, etc. Nós nos entreolhamos e fascinados com as indústrias automobilísticas, que não havia completado uma década, e imaginamos que aquilo não daria certo. A verdade é que ele tinha toda razão em muitos aspectos!

Temos outro amigo comum: Oswaldo Aranha Neto. A nobreza em pessoa, elegante nos gestos e no trato. No nosso encontro de setembro, ele chegou a se deslocar até lá, mas não conseguiu passar num engarrafamento gigante que havia por ser um fim de semana prolongado.

E seu irmão? Dadado para a família e Lopinho (também) para os cenefistas. E Marcos Rezende? Deve estar agora lá no Cais do Oriente, na Visconde de Itaboraí, tocando seu mais clássico piano esperando que chegue o Roberto Fragoso para contar o historinha do Galinha do Deserto que coçava o saco dando a volta no braço por trás das costas.

Outro dia o Zeno Veloso me ligou pedindo seu telefone no Rio e me disse que iria visitá-lo. Não sei se vocês se encontraram.

Recordo de uma namorada sua, chamada Marli. Anos depois que saímos do CNF eu a vi na TV fazendo propaganda do Desodorante Mistral. Sabe que em um encontro desses, estive com ela. Estava casada com um músico, etc. e tal. Ao mesmo tempo da Marli, você falava na Caroline e o França lhe enchia o saco no dia seguinte do porre.

Já bem mais tarde, lembro da Cris, a outra que era um amor de menina. Um dia ela, com pena que vínhamos para Belém pela estrada (Paulo Perobo, Rui Seligman e Eu), preparou um lanche com mãe benta e tudo mais. Saímos da casa dela em Ipanema, casa que ficava ao lado do prédio onde morava sua família e lá fomos estrada a fora para chegar três dias depois em Belém. Fomos abastecer o fusca do Rui e logo na saída na Avenida Brasil e pensamos em abrir a caixa cuidadosamente preparada por Cris. Sabe aquela nossa fome de jovem? Pois é, bateu forte na gente e liquidamos o nosso lanchinho e não mais do que dez minutos e nos deu vontade de voltar e pedir nova remessa.

Quis te escrever e acabei falando de nossos amigos comuns. Foi bom que isso tivesse acontecido, pois tenho em meus amigos o melhor de mim. Também me ocorre ‘uma’ que se passou no CNF: Estávamos na aula do Prof. Helênio, de Ciências Naturais era o nome da matéria, hoje é bem capaz de ter o nome mudado para Meio Ambiente, sei que estudávamos os reinos: animal, vegetal e mineral.
Na aula, o Professor explicava o fenômeno do mimetismo – consiste na forma de diversos animais tomarem a cor e configuração dos objetos em cujo meio vivem, ou de outros animais de grupos diferentes. Ocorre no camaleão, em borboletas, etc. Ele trazia uma caixa em que mostrava o bicho pau que se disfarçava em madeira. Seu corpo se confundia com os gravetos das árvores e tinha a mesma cor. Havia uma borboleta que cujo nome era Jequitiranabóia e nas suas costas havia um desenho que assumia a forma da cabeça de um jacaré. Logo, os predadores se afastavam com receio do terrível animal. Aí que lembro de sua intervenção dizendo:
_Prof. Helênio, a jequitirana está pousada na árvore?
_ Sim, respondeu o Professor.
_ Então, o predador sabe que jacaré não sobe em arvore, vive no chão. Então, esse disfarce é fajuta. A jequitirana está arriscada a levar um tiro do primeiro caçador que passar por ela.

Lembro do riso geral na turma. Também o fato de termos assumido sua idéia e o questionamento que fizemos ao professor Helênio de que o exemplo não se tratava de mimetismo.

Lembro de você sempre: uns anos atrás num desses encontros, em Friburgo, havia a proposta de trocar o nome do CNF para Parque Simões Lopes achei a idéia corretíssima . Se houve alguém que lutou pela implantação do nosso colégio foi o seu pai e o fez de forma exemplar. Nada mais justo do que essa homenagem!

Recordo o dia do lançamento do decreto municipal que propunha a mudança ( *1) e por acaso fomos os oradores. Confesso, dado o estado de emoção que fomos tomados que não me lembro do que falamos no palanque montado na Avenida Alberto Braune. Certamente, enaltecemos a figura do Dr. Simões Lopes nada mais justo.

Quero me encontrar com você por muitas vezes e ter o prazer de sua companhia e amizade.

Um forte abraço. Apertado e com emoção que nos envolve. Recomendação a Cristina, de quem tenho uma profunda admiração e aos filhos.

(*1) A área, onde foi construído o CNF chama-se: Parque Ambiental Dr. Luiz Simões Lopes )

Janeiro de 2008

 
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Oswaldo Aranha Neto
Afonso Brito Chermont
 
Não faz muito tempo recebi um telefonema de um prezado amigo do Colégio Nova Friburgo – CNF. Aliás, nas montanhas de Friburgo foi onde fiz muitos amigos e, com alguns deles, tenho mantido com convicção e solidez uma permanente amizade. Realmente, há um grupo de colegas que, de uma forma ou de outra, mantém os vínculos do nosso CNF e, interessante, é que quando nos encontramos parece que nossa convivência é diária e nunca foi interrompida.

Com enorme prazer atendo ao telefonema o meu caro Oswaldo Aranha Neto. O meu querido Vado me perguntou de minha vida: relevei meus sucessos e com relação aos meus fracassos fui, simplesmente, sucinto.

Conheci Vado em 1960. Era um jovem extremamente elegante e carregava consigo a importância de seu nome. Seu avô, homônimo, foi político, Ministro no governo Getúlio Vargas e estadista sendo o primeiro brasileiro orador da Assembléia Geral da ONU, embaixador do Brasil em Washington e quando Ministro das Relações Exteriores em 1947, lutou pela criação do estado de Israel.

Quem me contava as façanhas do avô de Vado era outro amigo meu o Luis Eduardo Simões Lopes que, aliás, tinha a mesma origem no Rio Grande do Sul. Sim, quem confirmava os detalhes da reunião em Washington sobre o estado de Israel era o amigo Roberto Kasinski que, de família judaica, sempre relevava o feito maior de avô de Vado, o conhecido homem público Oswaldo Aranha.

Vado passou uma temporada em Belém quando aqui quis criar uma Trading Company e além da venda do café, seu produto comercial mais forte, queria incluir os produtos do Pará na pauta mundial, em especial, a castanha do Pará. Nessa ocasião tivemos oportunidade de conversar e me recordo de um episódio que muito me sensibilizou: Ele mostrou vontade, para que Zeno Veloso, também seu amigo do CNF, que gostaria de conversar com uma pessoa daqui que se chamava Cléo Bernardo Braga. Tratava-se de um militante político que era ligado ao Partido Socialista Brasileiro e muito conhecido por tal atuação e que no passado foi amigo do pai de Vado.

Zeno, providenciou o encontro e o fez com um almoço no restaurante do Hotel Vila Rica e, quando estávamos todos reunidos – Vado, Rui Selligman, Zeno e Eu –, apresentou Vado sem mencionar quem era seu pai e, no meio de já uma animada conversa, indagou a Cléo Bernardo se ele conhecia o Sr Oswaldo Aranha. Ao confirmar a informação Dr. Cléo descreveu o pai de Vado e falou de seu amigo, que serviu como ele na Força Aérea Brasileira, de forma terna e emocionada.

Somente depois dessa descrição é que Zeno disse que aquele encontro foi provocado por Vado a pedido de seu pai que fazia questão de que seu amigo conhecesse seu filho. Eu percebi, com aquela circunstância, o quanto importante era a amizade para o pai de Vado e que ele procedia da mesma forma para com seus colegas do CNF.

Aliás, certa ocasião, estive no Rio e fui conhecer o pai de Vado em um almoço que ele promoveu com o propósito de que aproximar a nós todos.

Vado, no mesmo telefonema, contou a mim que havia aberto no Centro do Rio, uma cafeteria chamada Rubro Café com uma filial no Rio Design que tem o reconhecimento do mercado carioca e está por abrir outras duas em locais tradicionais e dinâmicos do Rio de Janeiro. O meu caro amigo fala de café com amplo conhecimento, pois atua nesse ramo faz muito tempo, e se orgulha do café que comercializa, pois se trata de um processo especial com sabor e aroma fora do comum.

Fico satisfeito quando um contato com amigo se renova como nesse caso do prezado Vado. Espero, certo momento, tomar um café com meu amigo a quem tenho débitos de amizade pela sua sempre atenção para comigo. Que seja um café longo e bem do tamanho da afeição que tenho pelo amigo reforçada pelo fato de que foi forjada nas atividades extra classe do CNF.

Março de 2007

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Os Parnasianos
Afonso Brito Chermont
 
Fui passar o reveillon em Mosqueiro, praia de rio que fica próximo de Belém, na casa de meu irmão Paulo Chermont que, lá pelas tantas, após umas generosas doses de whisky, começamos a lembrar algumas coisas do Colégio Nova Friburgo: dos nossos colegas, de nossos atos pensados e não pensados, premeditados e improvisados. De repente, Paulo se lembrou que estudando Português aprendeu o que era parnasiano e logo de uma poesia que fez em 1959, aliás a primeira e única, e começou a recitá-la com o entusiasmo dos grandes declamadores:

Beija-me querida com teus lábios sensuais
Pois quem beija nessa vida na outra não beijará jamais
Os teus lábios são de fogo, teus cabelos cor do mar

Querida te quero tanto, pois és tudo para mim
Te peço em sincero pranto que nosso amor não tenha fim

Lembrou de sua grandiosa obra que, inclusive, saiu publicada no Galo da Serra o que o deixou muito orgulhoso de tão importante feito. Até porque, os poetas, à época, eram considerados grandes personagens. Não sei qual foi sua fonte de inspiração: não foi de sua mulher Lívia com quem vive há, quase, quarenta anos; não foi pela sua namorada de Nova Friburgo, que não creio que conseguiria motivá-lo a esse grandioso feito.

Lívia ficou impressionada com a poesia e também pelo fato de eu lembrar a obra de meu caro irmão. Claro, lembrei, pois se tratava de um feito de alguém ligado a mim que, cheio de delicadeza, o que não era muito da sua, conseguiu algo que eu não podia imaginar.

Naquela época acho que não comentamos com nosso pai pelo fato dos poetas, personagens importantes, é verdade, serem ou viverem um pouco à margem da sociedade, mas eu gostei bastante pela seriedade do amor que ele estava envolto e conseguiu colocar no papel.

Eu havia mal aprendido com meu professor de Português no CNF que os parnasianos eram uma corrente de poetas que eram muito delicados e se preocupavam com a forma da poesia. As rimas poderiam estar juntas ou alternadas.

Então, meu irmão Paulo, conhecido como Jack Palance, fez uma grande obra. Não o posso considerar um poetaço, pois estaria chamando de mau poeta. Sim, lembrei de um colega nosso que se transformou em um poetaço: Artur Álvares Jr., Xingu para todos, não só os íntimos, que certa vez querendo encher o saco do Sérgio Bopp, conhecido como Francês, fez a seguinte obra prima:


Sonhei com o Francês
Lá no quarto seis
Joguei no veado e ganhei;

Quando questionado para informar sobre a delicadeza e a rima ele dizia não ser parnasiano e que era um poeta moderno e que a rima poderia ser francês com seis ... Era o estilo do Grande Xingu.

E por falar em poeta lembrei de outro nosso colega que me impressionou por outra magnífica obra, Zeno Veloso, que um dia brindou a todos nós com essa genial combinação de palavras:

Minha terra tem palmeiras
onde canta o urubu
Tiro Zero nessa prova,
mas não tomo mais no cu

Essa foi feita logo após uma aula de matemática do professor Talvane que para facilitar o entendimento de trigonometria usava de alguns artifícios como: Minha terra tem palmeira onde canta o sabiá; Seno A co-seno B; Seno B co-seno A.

Zeno é hoje membro da academia Paraense de Letras e bem que eu poderia encaminhar seu poema para seus pares na academia. Não o farei porque sua eleição poderia ser revista dada a magnitude dessa sua obra.

Encaminho, isso sim, minhas lembranças de tão importantes poetas, parnasianos ou não, mas, com certeza, de grandiosas inspirações.

Janeiro de 2007

 

 
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Nossos Ídolos
Afonso Brito Chermont
 
Quando abro meus e-mails e vejo a chamada com o comentário de Noticia Triste fico tremendo nas bases. Ultimamente esse fato tem sido muito freqüente: Não faz muito tempo foi o Professor Yurgen, depois o Teixeira Leite, na seqüência o Adilson e agora no dia oito de dezembro, o Bruno da Silveira.

Foi um final de ano bem sentido para nós da comunidade do Colégio Nova Friburgo - CNF. Estive recordando da personalidade de cada um de nossos colegas e professores e me passou o pensamento de quando estávamos no CNF comentávamos muitos sobre a personalidade de cada um de nós. A forma de ser de cada um. Chego eu a conclusão, de que eles se constituíam em verdadeiros ídolos.

Verdade, naquela época não havia a televisão e os ídolos fabricados por essa máquina têm, hoje, uma repercussão tão grande que esquecemos de nós próprios. Nossos ídolos, na nossa escola, éramos nós mesmos. Ali em carne e ossos! Quando havia um jogo de basquete torcíamos pelo nosso time com muito fervor. Nas olimpíadas, discutíamos quem era o bom atleta e se ganharia essa ou aquela prova. Quando saía o boletim mensal observávamos quem se destacou no período e quem estaria entrando para o quadro de honra. Nas eleições do Conselho de Alunos, fazíamos uma acirrada campanha eleitoral. O grande ídolo era aquele que reunia um pouco de todas as qualidades!

A começar pelo Professor Yurgen: O fato dele ser alemão já me impressionava. Andava sempre de paletó e gravata se protegia bastante do frio e a fisionomia de ariano assegurava-lhe um ar de superioridade.

Teixeira Leite era um colega extremamente gentil, educado, inteligente, absolutamente calmo. Uma tranqüilidade. Nunca vi o prezado Teixeira com qualquer atitude agressiva. Um pouco mais velho do que eu e com suas maneiras sempre elevadas. Eu tinha a vontade de obedecer ao que meu pai me ensinou:- “Aos mais velhos não dispense o tratamento de Senhor, Seu...” Era assim em 1958, Quando cheguei ao Colégio, tinha vontade de tratar o Teixeira de Seu Teixeira e chamá-lo de Senhor.

Adilson impressionava pela sua inteligência. Havia uma disputa de quem era mais inteligente na época: Ele ou o Langoni? Alguns destacavam que aquele era melhor na área social o esse, melhor nas ciências exatas. Sim, mas ambos, eram cobrões (forma de dizer, da época, que o sujeito era o tal). Sempre obtinham as melhores notas e se destacando junto aos outros alunos que tinham muito boa performance.

O Bruno da Silveira, Grande Bruno, um atleta de primeira linha um líder no dia a dia do Colégio. Disputava os cargos de Presidente do Conselho de Alunos, Aluno Diretor e Capitão dos Times de Futebol e Basquete. O líder de todas as horas!

Acho que o céu ficou enriquecido com a elevação do Professor Yurgen, com a fidalguia do Teixeira Leite, com a inteligência do Adilson e a liderança lúcida do Bruno. Peço a eles que arrumem tudo lá em cima, não esqueçam das atividades extraclasse: Fotografia; PR Chacrinha; Clube do Teatro; Clube do Automóvel (mecânica); Cineminha nas quintas feiras com direito ao drops de anis; um joguinho de basquete; descida à cidade (no caso a Terra) para ver nossas namoradinhas que ninguém é de ferro. Que preparem um ambiente com a mesma ordem e respeito que tivemos no CNF, com os mesmos ideais, com a mesma forma de ser e que comecem a pintar o céu de Azul, Branco e Grená.

Vamos-nos encontrar fatalmente, um dia. Que a nós, calouros que seremos, nos seja dispensada a atenção que merecemos em vida no nosso mundo particular do CNF.

Dezembro de 2006

 
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Guarda de Honra
Afonso Brito Chermont
 
Era o ano de 1964, meados de agosto e já havia iniciado o treinamento da banda o que anunciava a chegada da Semana da Pátria e o Colégio Nova Friburgo deveria, como fazia todo ano, desfilar na Avenida Alberto Braune.

Sra. Lourdes secretária do Professor Amauri me procurou no prédio do científico dizendo que o Diretor queria falar comigo. Obedeci ao chamado e de imediato me apresentei no gabinete do Professor, no segundo andar do prédio, e na ante sala encontrei, além da própria Sra. Lourdes, pessoa extremamente simpática com voz baixa e de uma docilidade extrema, com outros funcionários os quais lembro bem: Afonso, não só por ser meu xará mais porque, também, vez por outra, fazia a capa do nosso jornal Galo da Serra trabalhando em uma caixa de madeira que na parte superior tinha um vidro que vazava a luz e permitia que com um estilete, o prezado Afonso, fizesse os desenhos ilustrativos das primeiras capas; Paulo Quaresma a quem chamava de Paulinho por ter mais intimidade pois disputávamos o campeonato de basquete na cidade e era ele quem nos convidava para as disputas. Colocava-se como uma espécie de responsável por nós na cidade; e, o Carioca que por ter um apelido tão marcante, não lembro do seu nome. Ele era, também, o melhor juiz de basquete do campeonato de Nova Friburgo e comentávamos que isso era um prejuízo grande para nós, pois quando apitava nossos jogos, era rigoroso muito mais conosco que com o adversário.

Entrei no gabinete do Professor Amauri que, então, muito formalmente, me comunicou que eu havia sido escolhido para fazer parte e coordenar a Guarda de Honra do desfile de 1964. Recomendou que eu deveria ser rígido na escolha das pessoas e, principalmente, com os uniformes que deveriam estar impecáveis no dia do desfile.

Comecei a arregimentar os colegas: o primeiro foi o Paulo Rufino (Paulista), disse a ele que deveria participar de qualquer maneira que aquilo era uma distinção embora tenha argumentado que ele era o “bumbo mor” e que faria falta na banda. Disse que haveria outros que poderiam substituí-lo, mas que, dificilmente, conseguiríamos pessoal para a Guarda de Honra. Disse-lhe que iríamos conduzir a Bandeira do Brasil e do CNF. Nossa função se afigurava mais importante que qualquer outra. Paulo, meu prezado amigo, aquiesceu e prontificou-se a conduzir a bandeira do CNF.

Chamei outros, obedecendo ao mesmo argumentando e, ainda, o critério de que deveriam ser alunos do último ano que estivessem saindo do colégio naquele ano de 64. Não fui atendido na minha argumentação, pois havia um certo fanatismo pela banda. Lembro de ter convidado o Hilton Machado (The Best ou simplesmente Bestial), o Luis Simões Lopes (Lopinho) que logo me despachou dizendo da importância de sua caixa tarol para o ritmo das batidas da banda. Não me lembro se o José Rubens Rosa França aceitou desfilar na Guarda de Honra, a fotografia que tenho não mostra dois dos outros componentes e estou quase certo que ele preferiu ficar na banda.

Assim, como os que estavam saindo, não estavam aceitando a idéia do desfile na Guarda de Honra comecei a procurar meus amigos obedecendo outras circunstâncias e, aí, chamei o Sérgio Bopp (Francês) que ficou bem empolgado com a função.Meu amigo havia passado férias em Belém, em casa, no mês de Julho. Seu pai o Embaixador e Escritor Raul Bopp, antes que saíssemos para férias me presenteou com um livro que era sucesso à época, Cobra Norato, com a seguinte dedicatória:

“Ao Afonso Chermont

O Sérgio leva-lhe esse exemplar da Noratinho, com os meus agradecimentos pela acolhida que deres a ele, pois ele está desejoso de conhecer algumas coisas do Pará.

Muito cordialmente
15/7/64
Raul Bopp”

Outro que participou da Guarda de Honra foi o Antonio Carlos Moraes Rego Filho (Cataguases) que não era do último ano, não tinha muito prestígio com os professores porque era um cão de moleque no colégio, apenas quis prestigiá-lo simplesmente porque ele era nosso amigo especialmente porque jogávamos basquete. Era contador de casos e um boa praça como se dizia naquela época.

Recordo do professor Amauri que quando viu nos ensaios o Cataguases participando da GH ponderou que ele deveria ser substituído. Fui duro com o meu caro Diretor Amauri dizendo que não poderia voltar atrás, visto que o cara estava empolgado e isso não ficaria bem retirá-lo naquela altura.

A foto do pelotão da guarda quem tirou foi minha namorada e me deixou bem vaidoso: aproximou-se de nós e com uma Zeisse alemã colheu a fotografia que me permite ter essas recordações. Fiquei vaidoso, pois a “máquina” era belíssima e fazia parte da seleção especial da moças bonitas de Nova Friburgo. Penso que ela cortou os dois outros componentes do pelotão para dar destaque a mim e a Paulo Rufino que era namorado de sua prima e ligadíssima a nós, naqueles bons tempos.

Estávamos, então, todos vestidos com um terno azul, camisa branca, gravata grená conduzindo as bandeiras do Brasil empolgados, duplamente, por que logo mais haveria o festival da Cerveja no Caledônia Clube que ficava um pouco afastado da cidade e o festival reunia muita cerveja, muita mulher bonita, inclusive de turistas que subiam para Friburgo no fim de semana prolongado.

Está bem na minha mente a festa, os excessos, nossas namoradas, meus colegas, a vida que era marcada pelos desfiles, pelas festivais, pelos momentos mais que agradáveis que sabíamos construí-los.

Dezembro de 2006

 
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Pepeu, Clóvis, Afonsinho e Eu
Afonso Brito Chermont
 
Faz pouco tempo recebi um telefonema do meu prezado Pepeu. Fiquei muito satisfeito com a comunicação que Pedro Wanderley Vasconcellos Cavalcanti, filho de Clóvis de Vasconcellos Cavalcanti, fez a mim dizendo que sua namorada Thais ia ter um bebe e que havia escolhido o nome de Afonso para a criança que deverá nascer no mês de abril próximo.

Pepeu veio de Olinda, Pernambuco, para morar em minha casa em Belém, Pará, em 1995, a meu convite. Aqui ficou dez anos, estudou arquitetura, estagiou no escritório de um amigo meu Dr. Jorge Derenji, indo, posteriormente, já formado, trabalhar no Infraero, com uma firma de prestação de serviço, Tecnosolo.

Em Belém fez muitos amigos, teve várias e muitas namoradas! Vez por outra encontro com algumas delas que me perguntam pelo “Pernambucano”. Thais, foi aquela que fisgou seu coração. Seus colegas de arquitetura quando reúnem me convidam para participar de sempre agradáveis encontros.

Minha amizade, após a convivência no Colégio Nova Friburgo, com Clóvis Cavalcanti vem de muito tempo: Pelos idos no final dos anos sessenta Clóvis veio a Belém e do Hotel contatou comigo dizendo que estava a serviço no CNPq e que passaria uns dias em Belém. Convidei-o para ir à minha casa e, até hoje, nos visitamos em momentos especiais.

A filha de Clóvis, Claudinha, convidou a mim para que fosse seu padrinho de casamento. Fui a Olinda e testemunhei o ato onde estavam do CNF, dentre os convidados: Sérgio Trindade, que veio de Nova Iorque com a família e Marivaldo Cavalline, com esposa e filha, vindo de São Paulo. Foi uma festa bonita e fiquei mais que feliz por recordar coisas do colégio com meus diletos amigos.

Algum tempo depois nasceu o filho de Claudinha e me convidou para ser seu padrinho. Claudinha se deslocou de São Paulo, onde mora, para que, em Belém, o garotão Vitor fosse batizado. Foi mais uma emoção que contribuiu para consolidação de uma amizade que iniciou nos anos do CNF e perdura até hoje e todo o sempre.

Foram várias as visitas que recebi de Helenilda, mãe de Pepeu, em minha casa. Tiago, seu irmão, que morou muitos anos, estudando nos Estados Unidos, passava por Belém e ficava conosco em casa.

Larissa, minha filha, recebeu uma forte influência de Clóvis. Ela é Economista Ambientalista, estudou em Glasgow na Escócia e quando a visitei conheci seus professores na Glasgow University e alguns deles conheciam o trabalho de Clóvis como cientista. Um professor mais próximo ofereceu a mim um jantar onde comi estomago de carneiro recheado com batatas e a conversa foi regada a Whiski nacional. Ele indagou como eu morando em Belém fui estudar em Friburgo e era amigo de Clóvis que sempre morou em Olinda!?...Com forte influência do melhor nacional do mundo compliquei um pouco a questão dizendo que saí direto do Marajó montado em um búfalo. O fato maior é que Mr. Simon ajudou Larissa no seu dia a dia e no seu trabalho na dissertação de Mestrado, em Glasgow.

Algum tempo depois Larissa foi para Londres, agora, então, fazer seu doutorado na London Shcool of Economics e se hospedou, logo que chegou, em casa de uma amiga de Clóvis, Mrs. Fanni. Tornaram-se amigas e quando veio ao Brasil, para uma visita, e ficou hospedada em casa. Assim, comecei a me tornar amigo dos amigos de Clóvis.

Meu caríssimo Clóvis tem prestígio em todo canto: certa ocasião estava eu em Olinda, hospedado na casa dele, quando fui até à porta de saída vi que um ônibus estacionava e os turistas subiriam a ladeira até uma igreja que fica nas proximidades. Posicionei-me para ver as pessoas e registrei que era um grupo bem grande e diverso. A guia, logo que chegou à frente onde eu estava disse para os turistas: - essa é a casa do Cientista Social Clóvis Cavalcanti... Aquilo me impressionou muito e fiquei com vontade de dizer: - e Eu sou amigo de Clóvis lá do CNF... eu também sou foda!

Recentemente Clóvis telefonou para saber se eu iria ao encontro de setembro. Expliquei minhas dificuldades de não poder comparecer. No seu retorno ele voltou a contatar-me para relatar os acontecimentos da festividade maior do CNF.

É, assim, uma amizade que iniciou em 1958 e se tornará cinqüentenária daqui a dois anos. Pepeu me deu mais essa alegria. Fiquei muito feliz de ser homenageado e até comentei que será meu primeiro neto. Obrigado Pepeu e Thais pelo carinho. Não poderei esquecer esse gesto de grande significação. Vou contar a todos meus amigos do CNF.

Espero que Afonso Pantoja Cavalcanti seja muitíssimo feliz. Que tenha seu coração dividido entre o Norte e o Nordeste seja torcedor do Paysandú (sofredor 1) e do Sport (sofredor 2). Cabra macho, bravo, forte e filho do Norte, com vínculos em Nova Friburgo. Que dê orgulho ao seu avô o meu mais que dileto amigo Clóvis Cavalcanti.

Outubro de 2006

 
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Presidente Fernão Gondin da Fonseca
Afonso Brito Chermont
 
Lembro de você, faz muito tempo, desde que éramos alunos do nosso Colégio Nova Friburgo – CNF. Lembro: Menino, mais novo do que eu, com um permanente sorriso na face; que você esperava, como muitos do ginásio, o pessoal do científico descer para que trocássemos algumas palavras sobre a vida do colégio, de nossas alegrias, de nossas tristezas, que as tínhamos em função da distância que nos encontrávamos de nossas casas; e, até mesmo, de nossas angústias, pois éramos levados a pensar muito mais e imaginar como seria nosso futuro, nosso Brasil, etc.

Recordo de ter ouvido falar de seu pai, jornalista conhecido por sua postura democrática e de esquerda intelectualizada, o que me faz refletir do quanto era importante um colégio do nível do CNF. Acho que a expectativa de nossos pais era a de que tivéssemos uma sólida formação.

Devo confessar a você, que passei a acreditar que o básico que um pai poderá almejar para seus filhos se refere fundamentalmente à educação. O CNF nos proporcionava isso: educação no sentido mais amplo; educação propriamente dita associada à atividade de esporte que, sem sombra de dúvida, era praticado por nós nas melhores instalações do Brasil.

Mais do que isso havia as tais atividades extraclasse que a princípio, logo que cheguei ao colégio, não as compreendia bem. Posteriormente, entendendo melhor, hoje, considero que essas atividades é que faziam a grande diferença de um colégio comum para o nosso CNF. Elas nos proporcionavam conhecimentos ecléticos, generalistas. Observei muitos colegas de nossa época que eram brilhantes em literatura e tinham ou eram levados a conhecer um pouco de mecânica no clube de automobilista; colegas nossos mais ligados matemática se sensibilizavam com voltado as artes no clube da poesia; outros, muitos, ligados mais ao esporte que se envolviam com música, teatro, etc.

Ligo tudo isso a você menino que com os olhos bem abertos a tudo observava demonstrando uma sede por conhecimentos e mostrava um enorme desejo de tudo saber e aprender. O seu conteúdo político estava bem na frente do meu, a exemplo do episódio que o envolveu na festa de formatura na entrega dos diplomas com a presença de políticos...Quem sabe não foi o momento mais ousado, dentre tantos, de um menino, apenas, adolescente?

Passei a conviver novamente com você nos nossos encontros de setembro e passei a ver você com os olhos de quem admira um grande homem. Acho notável sua presença nos encontros cenefinos acompanhado de sua esposa e amigos ex-colegas do CNF, como em especial o meu prezado Sérgio Fernandes. Em um de meus escritos fiz menção à forma dedicada como sua esposa e a de Sérgio se envolveram nas atividades da associação, melhor nas nossas atividades.

Recordo de uma carta sua para mim falando do final dramático de nosso colega Gastão Guimarães. Mantive um contato com o Gastão até próximo de sua morte e percebia o quanto era importante, para ele e para mim, falar das coisas de nossa juventude!

Considero você um grande homem – a exemplo daquilo que se imaginava no nosso CNF – e quando soube que você agora é o novo presidente da nossa associação fiquei deveras satisfeito. Acho que você tem o interior parecido com o meu que continua convencido da importância de nosso educandário para a formação de nossas personalidades com os ideais: saúde, saber e virtude e as cores azul, branca e grená.

Caro Fernão, quero fazer a você, um pedido: O primeiro refere-se ao nosso livro. Acho que já temos material suficiente, artigos, manifestações etc. referentes ao CNF no nosso site para fazermos uma primeira edição. Penso que poderíamos fazer algo dentro do padrão de qualidade que aprendemos no CNF. Nosso caríssimo Clóvis Cavalcanti tem um bom material em sua mão e poderia ser o coordenador dessa empreitada.

Finalmente queria pedir desculpas por não ter comparecido ao encontro de setembro 2006. Estava atravessando um momento de dificuldades que me impediram de estar no local muito especial para mim espero me recuperar nos anos vindouros e desfrutar de tão agradáveis companhias.

Outubro de 2006

 
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Consulta Oftalmológica - Da Preocupação ao Agradável
Afonso Brito Chermont
 
No início do mês de maio eu fui ao oftalmologista com intuito de verificar o grau de meus óculos e fazer um exame de rotina. Queria também consultar da possibilidade de poder usar lentes de contato para, eventualmente, jogar uma pelada de basquete já que, de noite, minha visão fica diminuída. Com as lentes, imaginei que poderia ter mais desembaraço.

Marquei uma consulta com o Dr. Sérgio Cruz, médico que é muito cotado em Belém, e como referência obtive o estímulo de minha filha Larissa, usuária de óculos e lentes desde tenra idade, e cliente do jovem médico. Passei por uma serie de exames acompanhado pelo Dr. Sérgio que, ao final, mostrou certa preocupação com minha vista e disse estar suspeitando de um glaucoma, uma vez que eu apresentava indícios da doença.

Fiquei atormentado em função de que meu pai, nos últimos anos de sua vida, perdeu parcialmente a vista e o mundo ou a vida acabou para ele a partir desse momento.

Continuei os exames, na semana seguinte, me submetendo a uma retinografia, decisiva para finalizar o diagnóstico. Independente do resultado, recebi a recomendação do médico para que voltasse de seis em seis meses ao consultório, para acompanhamento da evolução daqueles outros indicadores. Tentou me tranqüilizar dizendo que havia tratamento para a doença, caso fosse confirmada. Recomendou o uso de um colírio para diminuir a pressão ocular.

Confesso que tremi nas bases! Pensei, algumas noites, que não consegui dormir, que poderia ficar cego e como tal teria o mesmo sofrimento pelo qual passou meu pai. Senti-me extremamente infeliz eu que me considerava uma pessoa com muito boa saúde. Sempre enalteci que o fato de ter parado de fumar, faz mais de dez anos, e de praticar exercícios físicos, a minha vida toda, me fez ter uma saúde razoavelmente boa.

Meu pai que era um homem muito ativo perdeu a visão, quase que totalmente, aos setenta e sete anos, e se tornou extremamente amargurado. Mais tarde, acompanhei o drama de um vizinho meu, deputado federal, que, por ter diabete, teve sua vida seccionada. Não pude admitir que um dia eu deixasse de enxergar! Enquanto eu realizava os exames com extremo nervosismo mais aumentava minha angústia.

Resolvi ir até o Rio e consultar um outro médico para minha maior tranqüilidade. Comentei com uma pessoa minha amiga sobre o meu drama e me foi sugerido consultar o Dr. José Guilherme Pêssego, que é o titular de um instituto em Ipanema, na Vinicius de Moraes, bem próximo à Nascimento Silva.

Minha mente processou rápido: Vinicius com Nascimento Silva isso é a cara do Rio. Rio esse que eu conheci nos anos sessenta e que enorme prazer eu teria de rever local que se constituía como bem agradável para mim. Pensei, também, que quando estava no Colégio Nova Friburgo, tive um colega que se chamava Pêssego e como o nome não é tão comum achei que poderia ser, quem sabe, o oftalmologista.

Então, marquei o vôo, a consulta, conseguida através de uma oftalmologista paraense que atua no instituto. E, na hora certa, lá estava eu com o Dr. Pêssego. Nos olhamos como quem diz eu conheço esse cara. Depois de explicar meu problema, arrisquei a pergunta: você estudou em Friburgo? A resposta veio de imediato. - Sim, estudei sim, mas meu irmão era mais conhecido que eu, Marcos Pêssego... Aí tudo ficou claro: Marcos era mais velho e da minha idade mais ou menos, Jose Guilherme o irmão mais jovem.

Você é o Chermont do Pará que jogava basquete, disse o Dr. Pêssego. Aí a consulta se tornou uma conversa entre colegas de Friburgo o que sempre é muito agradável para mim. Mostrei meus exames e no final ele confirmou o diagnóstico do médico de Belém e me tranqüilizou dizendo que jamais ficaria cego.

Confesso que fiquei extremamente feliz: por ter certeza de que não tenho um problema tão grande que não possa ser tratado e, segundo, o contato agradável com um ex-colega do Colégio Nova Friburgo.

Junho de 2006

 

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Rosemary Kauark Chianca
Afonso Brito Chermont
 
O Colégio Nova Friburgo tinha seu ensino considerado, no Brasil, como um modelo de pedagogia moderna e era visitado, todos os anos, por um grupo de professores, dos diversos cantos do país, que até lá se deslocavam em busca de aperfeiçoamento profissional.

Na realidade, os estagiários, como eles eram chamados, passavam um período – uma quinzena ou um mês –, assistindo as aulas que eram ministradas pelos professores mais experientes, acompanhavam às atividades extra classe e acabavam por participar da vida integral do educandário padrão, então, da didática do ensino secundário.

Era, normalmente, um grupo de professores bem jovens que eram recebidos por nós com certa euforia, pois animavam, e muito, a vida do internato e constituíam-se em atração que ficávamos na expectativa que pintasse uma (ou mais) professora bonita naquela turma de visitantes. Sempre ocorria a presença de alguém que se destacava por sua beleza não havia dúvida. Lembro de uma gaúcha de Santana do Livramento, com uns olhos verdes que parecia sei lá o que. Quando assistia uma aula se tornava o centro das atenções e provocava os sonhos mais bonitos em nossas mentes de jovens embalados pelo ideal: saúde, saber e virtude.

Lembro que os mais eufóricos: Helvécio Mattana Saturnino, Julo de Miranda, José Rubens Rosa França, Caio Ortiz, Artur Álvares Jr., Ibsen Omar, faziam descrições muitos entusiasmada das professoras visitantes.

Sim, num desses grupos de estagiários, lá apareceu a Professora Rose, como, depois, passamos a chamá-la. Era uma baiana, muito bonita, vinda de Ilhéus na Bahia. Além de beleza ela possuía algo de ternura: falava com um permanente sorriso; olhava nos olhos das pessoas e mostrava vivo interesse pela família o que nos sensibilizava, pois como estávamos distantes de casa alguém lembrar de teu pai tua mãe era sempre agradável. Rose, então, combinava beleza e ternura.

Havia os que não estavam na classificação dos eufóricos com o meu estimado professor Chianca. Jamais pensei que aquele homem sério pudesse ser um namorador e principalmente de estagiária. Ele nunca havia falado de mulher na nossa presença, nunca havia feito qualquer comentário sobre sua vida sentimental. Certo dia, o professor João Vianna chega para uma roda em que eu estava presente e diz: sabem quem vai casar? O Chianca. Contra quem, perguntamos nós com certo ciúme. Entendíamos que ele estava ali para tomar conta de nós, dar seus exemplos de pessoa boníssima, mostrar sua profunda honestidade, mostrar seus conhecimentos de grande professor de educação física, de nos ensinar a vida como ela devia ser vivida.

Verdade! Casou o nosso Chianca! Porém, rapidamente, sentimos que não havíamos perdido o grande Chianca, havíamos sim ganho outra figura com o mesmo espírito que nós envolvia no CNF. O caro Mestre ficou mais feliz ainda. Constituiu com Rose uma família bonita e numerosa. Conheci seus filhos: André, Thomas, Gustavo e Belaniza e quando os vejo tenho a sensação de são meus irmãos mais novos. Na década de setenta levei minha filha Larissa para uma visita ao CNF, em Friburgo, e ela foi acolhida como filha passou dias em constantes brincadeiras. Quando fui pegá-la Rose me contou das peripécias de Larissa, então uma menina esperta que me confessou um dia que gostaria de estudar no colégio entusiasmada por um lugar de deslumbrante beleza e com pessoas tão especiais e que queria conviver com a garotada de Rose e Chianca.

Rose me emocionou várias vezes na vida: quando jovem por perguntar por meus pais em especial por minha mãe a quem me lembro de tê-la descrito certa vez. Emocionava-me, agora, já doentinha, quando perguntava pela minha família. Senti-la sofrendo e sofrida pela doença, mas, assim mesmo, comparecia, como que reunindo todas as forças, nos encontro de setembro e conseguia doar seu sorriso de ternura.

Imagino a dor o sofrimento, hoje, de André, Thomas, Gustavo, e Bela. Compartilho com eles tal sofreguidão. Não consigo ver meu prezado mestre e amigo Chianca sozinho. Eu que no passado no CNF o queria só para nós, não o queria dividi-lo. Somente me conformo, pois estou certo de que Rose os fez muito feliz com seu sorriso, com sua ternura.

Peço a Rose que inicie como estagiária um novo período perto de Deus. Prepare didaticamente o Céu para nós todos: duas família Kauark Chianca e a Cenefista que, aliás, se confundem especialmente em beleza e ternura qualificativos que tiveram de sua parte contribuição muito efetiva.

Fevereiro 2006

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Um Mundo Diferente de Palavras e Expressões
Afonso Brito Chermont
 
Estávamos no curso ginasial no pátio do Colégio Nova Friburgo e em um dia desses qualquer, talvez pelos idos de 1958, o meu amigo Silvério Ortiz, chegou perto de mim e disse: Oh paraense! vamos jogar bola de gude!. Quando o Silvério fazia um convite, mais parecia uma ordem do que propriamente uma solicitação. Atendi não só pela amável ordem, como pelo impositivo convite.

Ocorre que eu não tinha a menor idéia do que era bola de gude, pois na minha terra ela tem o nome de peteca. Comentei isso com ele e recebi de volta o seguinte comentário: Peteca ô paraense, era aquela de penas e se jogava batendo com a palma da mão em uma almofada, coisa meio de viado!.....Então pensei comigo: se peteca é bola de gude, eu sei jogar.

Vamos lá, disse eu me fazendo de superior, pois me afirmavam que na relação com os fortes, você deveria ser também forte.

Nos deslocamos então para uma área perto do pátio coberto do prédio do ginásio, onde tinha a parte descoberta, cujo solo era de terra e a bola de gude correria adequadamente. Havia três buracos no chão, feitos com o calcanhar do pé, que ele chamava de búlica...... Para iniciar o jogo, olhou para mim e disse: Marraia!...

Eu não entendi porra nenhuma e ele percebendo minha dificuldade, explicou-me que quem pede marraia joga por último, pois levaria vantagem perseguindo a bola ou a búlica. Não vai dar para jogar, pensei eu.... o jogo é diferente, as regras são completamente distintas daquelas que eu, na condição de moleque de rua, jogava no meu estado do Pará.

Estava acostumado a jogar peteca (gude) casando umas bolas que ficavam dentro de um triângulo e alguns metros distantes ficava uma linha que era traçada e dali se jogava as bolinhas (insisto em dizer que eram petecas...) e à medida que tirávamos as outras bolas de dentro do triângulo, íamo-nos apossando das ditas bolinhas.

Sim, nessa maneira de jogar dos paraenses, levava vantagem quem jogava por primeiro e quanto mais chegasse mais perto da linha poderia atacar as bolas no interior do triângulo. Pedi, então, para jogar por primeiro para sair na frente e assim o pedido a cada rodada de apostas, deveria ser através do pronunciar de uma palavra: fona.

Caso houvesse mais de um competidor o outro pedia antes fona.... Tudo era muito diferente: marraia era o correspondente ao fona e o meu antes fona correspondia a uma outra palavra: companha. Porra que coisa complicada desses caras!

Lembro que quando Silvério pedia marraia eu pedia fona..Lembro-me dele me gozar muito dessas diferenças, que se tornavam mais acentuadas à medida que o jogo se desenvolvia, pois além de fona, marraia, companha, antes de fona havia também outras palavras definidoras de certas circunstâncias que ocorriam no jogo. Por exemplo: quando a bola ficava em cima da linha para mim a palavra apropriada era fedeu e para ele era queimou
(vai entender?...). Eta joguinho pai dégua!!!!!..Mas terminamos tudo numa boa (nem lembro quem ganhou....(deve ter sido o Silvério, pois eu sempre era flexível e dizia que ele era melhor para evitar frustrações, naquele meu amigo, com quem vivia competindo), mas saímos abraçados e rindo muito...

E quando me diziam que fulano é pele!.... E eu exclamava égua! (traduzindo essa palavra, ele tem o mesmo sentido do porra, quando exclamado); e bacana que para mim significava o Pai dégua.

E na hora do início da comida que gritávamos: primeiro peru!... que vinha a significar, o direito de se servir primeiro.... Achava que essas palavras e expressões, do meu lugar de nascença, eram muito mais masculinos, não sei porque.... Pai dégua, por exemplo, é muito mais forte que bacana. Achava muita graça quando chamavam os outros de babaca que logo traduzia para o meu paraensez: leso E isso não ficava por aí.......

Uma outra estorinha bem interessante, ocorrida em 1959, foi a origem do apelido do Paulinho (Perobo). Num domingo, quando serviam aquele famoso queijo, ele além de pedir primeiro peru, quis se apossar de todas as fatias que estavam dispostas, alegando que novato não tinha vez. Levantou-se então o Caminha (Cearense com cara de brabo), e reagiu, energicamente, contra aquela ousadia dizendo: não sou perobo não!..., tu não vais ficar com o meu queijo não!... e ameaçou o hoje Perobo (Paulinho) de dar-lhe umas boas porradas.... Paulinho então veio se queixar a mim do Caminha e eu achei que era melhor dar força a um apelido do que questionar a atitude do Caminha...... Desde então, começamos a fazer uma análise de como eram chamados os veados de cada estado do país: no Ceará era Perobo; no Rio era Bicha, Bichona; na Bahia era Chibungo; no Piauí era Bicó; no Maranhão era Qualira; no Pará não tinha veado.Hoje mudou.....Virou tudo Gay....chique, não? Tivemos que apelar para o Inglês para definir viado...

E os pronomes.... no Norte, conjugávamos na segunda pessoa: tu jogas, tu ficas; tu vais.... aliás, como disse o Caminha para o Paulo Perobo..... Ainda no Pará, quando tratávamos o outro de você, era com a intenção de aproximação para namoro. Se eu estivesse querendo me aproximar de uma moça para namorar, eu a tratava como você que era mais cerimonioso ao invés do tu, que era forte e tratamento de macho pra macho. Então eu achava muito estranho ser tratado com o pronome você e o verbo na segunda pessoa por que aquilo não era coisa de macho.....

Eu realmente estava num outro mundo e, assim, fui percebendo o quanto havia diferenças entre nós do CNF que vínhamos das mais diversas regiões do Brasil. Realmente aquela integração que o colégio proporcionava era algo de fantástico. Talvez, hoje, não se perceba tanto, dado a enorme evolução tecnológica, principalmente no âmbito da comunicação, que permite uma integração mundial, on line.

Não sei se isso foi bom ou ruim, porque hoje, estamos todos unificando nosso sotaque e falando com as palavras e expressões que a Dona Rede Globo determina..... Parecemos todos protagonistas das novelas das seis, das oito, das mini série, etc,etc ... infelizmente.

Saudades dos inocentes termos: marraia, fona, companha ... que talvez o Cabral, o nosso PhD em português, possa explicara a origem dessas palavras.

Janeiro de 2006


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Quando Setembro Vier (I)
Afonso Chermont
 
Faz muito tempo, por volta de 1960, eu assisti a um filme que tinha, justo, esse título. Estava pensando em dar um nome a um relato sobre o encontro dos Ex-CNF, no mês de setembro, como sempre acontece, e lembrei-me do filme de título sugestivo e tudo de bom acontecia no nono mês do ano.Quando Setembro Vier é uma comédia americana que se passava na Itália e tinha como atores Gina Lolobrígida, Sandra Dee e Rock Hudson.

Na realidade, o que eu quero é descrever o último encontro de setembro. Sempre é muito bom rever os amigos da juventude especialmente quando ela foi vivida em ambiente bastante agradável. Lá estavam todos: os presentes lembrando os ausentes e os que já se foram.

Com o filme, algumas circunstâncias, que nós envolviam no CNF, me vieram a mente. Existiam dois cinemas em Nova Friburgo: O Eldorado e o Marabá. Acho que assisti Quando Setembro Vier no Eldorado que era mais freqüentado por nós, pois ficava perto do ponto da camionete, mais central, muito próximo do footing das garotas no sábado à noite e perto da igreja matriz. Lembrei que, no auge dos filmes, normalmente a mocinha ia dar um beijo do mocinho e o Luciano Delle Vedove (Bambino – era um cara de São Paulo) tocava uma gaitinha quando no momento do maior silêncio. Recordo que o Silvério Ortiz adorava essa situação. Mantínhamos isso em absoluto sigilo para que na próxima seção a coisa se repetisse.

Havia também o cinema do colégio que se realizava todas quintas e sábados. Recebíamos um dropes de anis na entrada e, então, aquilo tornava-se em grandes farras principalmente quando o filme era mais forte e havia alguma mulher bonita. Em compensação aos filmes românticos cansei de ver soldado americano, saindo do forte, obedecendo a um toque de corneta e enchendo os índios de porrada sem dó nem piedade. Vi mocinho, rápido no gatilho, matando os forasteiros e malfeitores que se aproximavam das cidades do Faroeste e ganhar o direito de uns amassos nas moças do saloon. Curti os piratas tomarem de assaltos os navios e saquearem os tesouros e mercadorias que cruzavam os mares e os espadachins cuja maior expressão era Errol Flin.

Sobre o dropes o Silvério abria de uma só vez o invólucro metia-os na boca e depois jogava nos outros que lá estavam. Sei que as japonas, os agasalhos azuis de frio, ficavam todos melados com os dropes de anis cuspidos. Hoje, será que jogando no Silvério um dropes bem melado ele iria revidar?!

Lembrei do Julo de Miranda, o rei do fio mal cheiroso. Não sei onde ele obtinha essa arma mortal, sei que, de vez em quando, surgia no auditório um cheiro insuportável e o Julo estava lá firme e forte com a sua pinta de David Niven.

O cinema era a maior diversão, pelo menos duas vezes na semana havia seção no colégio e quando descíamos para cidade, para encontrar as meninas, íamos ao Eldorado e, alternativamente, ao Marabá. Interessante que antes do filme passava um jornal da semana chamado Canal 100: aplaudíamos o nosso time de futebol, ficávamos alvoroçados quando aparecia uma mulher nos concursos de miss e vaiávamos os políticos. Hoje em dia existe um canal de cinema na TV chamado Clássico onde passam todos os filmes daquela época e sempre que procuro esse canal aciono minha memória e, invariavelmente, já assisti ao filme.

Certa ocasião, fui ver Teorema de Píer Paolo Pasoline. Não entendi nada do filme, mas falavam que era o cinema moderno e tive de dizer, nos nossos comentários, que era um bom filme. Havia isso também: bom era aquele filme que a pessoa normal não entendia, mas achava que era bom para mostrar percepção e intelectualidade.

Teorema para mim era o que eu aprendi com o Mestre Talvane Barros que enunciava: dois triângulos são iguais ou congruentes quando têm os ângulos internos iguais.Ou o Teorema de Pitágoras: num triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual à soma do quadrado dos catetos. Então, fui para o cinema imaginando que teria uma demonstração em que houvesse tese, hipótese, desenvolvimento e conclusão. No Teorema de Pasolini a demonstração se referia a uma família onde um filho queria comer a mãe... e, decididamente, não tem nada a ver com matemática.

Toda vez que retorno a Friburgo, ao CNF, me recordo de situações especiais ora engraçadas ora embaraçosas, sempre muito alegres, como era nossa vida! A prova está no início desse relato onde queria falar sobre o encontro Setembro / 05 e acabei falando de cinema, misturando com aula, matemática, o quadrado da hipotenusa e os catetos. Acho que quem se der o trabalho de ler pode não entender nada e até gostar como eu tinha de dizer que gostava do filme de Pasolini.

Sim e a festa de setembro? ela começa bem antes da viagem. No encontro desse ano procurei, pela nossa rede CNF na Internet, uma carona para subir logo pela manhã de sexta feira, imediatamente, do aeroporto para Friburgo. Recebi algumas ofertas inclusive do Roberto Malheiros que eu não tinha notícia há quarenta anos. Não subi com ele, pois somente o faria pela parte da tarde, reencontrei o amigo Malheiros já na Majórica que me apresentou sua esposa – pessoa de extremamente educada e gentil.

Subi com o Paulo Rogério Mussi – craque no futebol e baterista da melhor qualidade. Mussi vem registrando os gols que faz em peladas que participa e imagino que ele já tem mais de 5.000 gols muito mais que Pele. Sobre sua habilidade como baterista todos nós sabemos pois é titular do papoula faz mais de quarenta anos. Conversamos muito na subida ele me contou sobre as dificuldades econômicas que o país está passando e que afeta a nós todos. As empresas sofrem com os juros altos e as dificuldades se multiplicam especialmente com as de porte pequeno..

Na subida verifiquei que a estrada Rio Friburgo, agora, tem três cabines de pedágio e está bem melhor que no passado recente quando não era privatizada. Quando passei por Cachoeiras de Macacú lembrei-me de duas pessoas: uma moça razoavelmente bonita, caixa da parada que nos atendia logo na entrada da lanchonete e do meu prezado Jayme Baltazar. Esse, como sempre, enxuto com aspecto de atleta. A menina do caixa, quando retornamos a Friburgo para os encontros da associação, ela me reconheceu e disse: agora vocês já são uns senhores! Fiquei pensando nela e acho que ela poderá estar com seus 150 anos sem maldade. No momento que a reencontrei ela já não estava mais com o semblante que o outro morador ilustre de Macacú, ainda hoje, ostenta.

Chegando a Friburgo encontrei com o meu prezado Ronaldo Lobianco. Fomos almoçar e o meu amigo me ofereceu uma truta com molho de alcaparras. Tenho Ronaldo na conta de uma pessoa muito dileta. Sempre muito cortês me mostrou as transformações nos seus negócios comerciais e seu avanço na área da construção civil e seus projetos de arquitetura.

Encontrei, também, tão logo, minhas amigas Marga e Márcia (esposa e filha de meu falecido amigo Maurição) quando nos vemos sentimos um pouco de tristeza que é compensado pela lembrança do bom humor que era implícito no Maurício. Falamos dele e da forma singular de sua maneira de ser. São intermináveis conversas que ele, muitas das vezes, se faz presente fortemente como era forte sua personalidade. Nos deslocamos para a casa de Marília, a outra filha, e lá, como era hábito na casa do pai, a mesa fica posta permanentemente e sempre se tem de comer algo sob pena de fazer desfeita. Conversei com Marcelo marido de Marília e Zé Maurício (e sua mulher Stéfani) o filho mais novo de Maurição. O lanche de Marília estava delicioso e elogiei o pão. Disseram-me que era da padaria da família do marido de Dada, filha do Professor Chianca, no largo Paysandu, e, vez por outra, o Chianca estava por lá. A nova geração fez um negócio moderno e de grande porte. Pela manhã, no sábado, antes da caminhada no Country Club, passei em frente ao shopping do pão e fiquei impressionado com o tamanho e a movimentação do negócio.

Ainda, na sexta à noite, no encontro da Majórica, sentimos, ali, pelo entusiasmo dos cumprimentos que teríamos um final de semana bem feliz. De fato: os velhos amigos estavam lá relembramos as facetas da época do colégio, as situações mais engraçadas e tudo mais se transformando em alegria.

Nessa ocasião o João Marcos Moraes (Tof Tof) estava com um texto que eu havia escrito e me censurava por um lapso de minha memória. Escrevi eu que do Hotel Novo Mundo, em 1958, poderíamos ver o presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete que ali morava. Errei: o comentário que eu ouvi dos funcionários do hotel era que os presidentes após Vargas não mais habitavam no Catete, pois muitos haviam visto o fantasma de Vargas que ali morou e morreu. Peço desculpas pelo erro e espero me redimir de tão grave falta.

Do mesmo Tof ouvi que o Silvério não viria, pois havia escorregado do alto de um carro alegórico, em uma parada recente em São Paulo, se machucado na perna e não estava podendo andar. O Tof não está falando a verdade acho que o Silvério caiu da bicicleta mesmo, não creio que da forma como ele é fortão e esbelto ele cairia tão facilmente de carro alegórico.

Na Majórica, revi: Marga Hanning (irmão do Sven) uma das mulheres mais bonitas que conheci na minha juventude. Fomos inseparáveis durante pelo menos dois anos, pois com sua prima fui muito ligado. Marga ficou viúva, seu marido era um médico Colombiano, e levou o filho para que nós o conhecêssemos.

E por falar em mulher bonita estavam, na Majórica, nossas ex-colegas: Teresa, Maria Alice, Silvia ... Elas dão indícios do que foram no passado. Muitos indicadores físicos, perfeitamente aproveitáveis ainda hoje, sem nenhum problema, demonstram a importância delas. Sinto ciúmes delas todas e as tenho como coisas permanentes e tombadas na associação. Se elas não se fizerem presentes uma parte de nós estará faltando. Como era bom ter uma menininha por perto da gente a nos perturbar o juízo. Elas eram amadas e nos despertavam os sentimentos mais difusos.

Coloco nesse rol a Ângela Fabris Bastos que foi aluna no período de 1973/74, portanto, pelo menos dez anos depois de termos saído do colégio. Ela me revelou que, junto com suas colegas, tinham seus programas favoritos: ver os alunos mais velhos namorar, não sei se nos bailes, nas visitas das meninas ao colégio, não sei bem em que circunstância. Ela me contou esse fato em um encontro de setembro e como ela estava, agora, na Majórica poderia ter perguntado ou pedido mais esclarecimentos não o fiz por pura timidez.

E os amigos: Vejo o Julo como se fosse o mesmo. Está ainda melhor, agora, pois sua esposa é pessoa extremamente agradável. O Luiz Otávio Bela, em certa época, estivemos muito juntos no Rio e convivi com sua mãe de quem me lembro com muita comoção. Ela generalizava sua atenção e os amigos de seus filhos passavam a ser seus filhos.A mulher do Bela me confessou que gosta dessa nossa farra e que com esse é o terceiro encontro que está presente. No pensamento me vem a figura do Belinha – um dos caras mais travessos que conheci no colégio que , inclusive, conseguiu a façanha de cair do terceiro andar do prédio do ginásio.

Grande Osório: ele gosta de ser chamado de Zé Bombeiro II, para diferenciar bem do I que era metido a machão. Certo dia houve uma festa junina no pátio do ginásio, anos sessenta, bem ao lado da janela da enfermaria onde eu estava curando uma gripe com a assistência da D. Maria e Dr. Ratisbona. Não resisti e fugi para a festa e lá conheci, a irmã do Zé. Encontrei-me com ela no Rio e fiquei encantado com sua beleza que até hoje não a esqueci. Do Bombeiro recordo que ele distribuía as cartas que chegavam pelo correio, se vestia de carteiro para cumprir importantíssima missão. Com sua esposa, na Majórica, iniciei uma conversa sobre Belém, mais especificamente sobre o porto de Belém que foi revitalizado e hoje é uma área de lazer, mas não consegui terminar a conversa.

Quem apareceu dessa vez foi o Paulo Roberto Vasconcelos: Paulinha, filha de Paulo, fez concurso para o TJE em Belém e me deu o prazer de sua visita. Aliás, tenho sido procurado por filhas de nossos ex-colegas: Sandra, filha de Marivaldo Cavallini; Thais, filha do Artur Alvarez Jr.Como tenho Pepeu, filho de Clóvis Cavalcanti que mora em minha casa, divido com ele a tarefa de recepcioná-los.

Falar com o presidente Robert Gayer é sempre uma honra. Fico impressionado com a dedicação do mesmo para a grande associação do G/CNF, impressionante como ele transmitiu à Therezinha o amor que temos por tudo que nos circunda. Ele mantém a rede, o site, as informações do dia a dia. Obrigado Gayer e Therezinha pelo nosso convívio, o mais elevado.

Outro dia estava em Brasília e, à noite, saí e fui a um shopping e encontrei o caro Reinaldo Henriques. Que imenso prazer, fico feliz em ter essas surpresas. Na Majórica, mais uma vez, comentamos esse outro encontro.

Fernão Gondin da Fonseca e Sérgio Fernandes Rodrigues eu os cumprimente juntamente com as esposas e soube que estavam elas responsáveis pela feijoada do dia seguinte. Fico imaginando e sinto como é intenso o trabalho da associação e fico com vergonha porque tiro uma de turista e pouco valorizo as tarefas desgastantes que alguns se desdobram em fazê-las.

A esposa do Capelluto nasceu para ser mulher do Capelluto. A verdade é que meu caro Mário gosta de música romântica, pintura clássica, tudo, pela certeza de que é uma pessoa amada. Sua tranqüilidade está expressada pela ternura que é transmitida pela simpática italiana (se não for tem todo o jeitão) invariavelmente presente aos encontros.

Aprecio, muito mesmo, a Ana do Tof Tof. Acho-a elegante! Um dia perguntei a ela se conheceu o Tof quando ele tinha as formas de uma atleta. No mesmo instante ela tirou uma foto da bolsa e mostrou um atleta com uniforme do Lá Vai Bola (time de futebol de praia) e pude constatar o físico privilegiado do Tof de décadas atrás, muito tempo atrás, mesmo.

O Nils Aune em nova versão (bem magro) e é uma presença constante nos encontros sempre na companhia da esposa. Perguntei pelo seu irmão John que não foi com a desculpa de que precisava descansar. Sabe, tenho comigo umas coisas diferentes eu gosto de ficar é bem cansado quanto mais agito me sinto melhor. Digo em casa que vou descansar e não paro um minuto. Acho que John está precisando de ficar exausto.

E o Marcelo Palavrinha? O prof. Talvane me contou que uma vez ele que ouviu vários estrondos no banheiro do prédio do científico. Indo até lá para ver, era o Marcelo que com um peso (usado como lançamento na Olimpíada) na mão estava a bom quebrar piso por piso de cerâmica. Houve uma áspera discussão e desde esse fato os dois ficaram estremecidos. Lembro que em um desses encontros eu estava perto do Marcelo quando chegou o Talvane e não houve um cumprimento tão cordial. Não sei se eles já se perdoaram.Também chamar atenção do Marcelo por tão insignificante brincadeirinha!

Osmarino tem um apelido que não tive coragem de pronunciar perto de sua namorada. Se fosse Bestial (Hilton Machado Jr.), Tripé (Curi), tudo bem, pois isso denota certos privilégios que poucos ostentam, agora Zé Meleca é demais.

Na Majórica eu confundi o Caramigo (Carlos Ferreira da Silva Jr.) com o Zigfried e quando o cumprimentei perguntei por uma antiga namorada de Zig que eu a conheci. O Cara ficou me olhando e deve ter pensado que eu sou doido. Somente no dia seguinte é que fui esclarecer que o Caramigo que é de São Paulo, Piracicaba, foi aluno um pouco antes de mim, fazia esporte, bateu alguns recordes nas olimpíadas. Trouxe umas fotos de eventos no CNF, se queixou que pelo menos um record eu quebrei e, porra, não tem nada a ver com Zig.

Ainda quero escrever sobre o segundo dia de encontro, o almoço e o baile, e como esse está muito longo vou dividi-lo em duas partes.

 
Quando Setembro Vier (II)

Setembro veio e eu fui. Fui a Nova Friburgo, como tenho feito dentro de uma rotina nos últimos vinte anos, para o nosso encontro dos Ex-CNF. Esse de 2005 foi diferente: um pouco menor, por causa do feriado de sete de setembro que caiu numa quarta feira e não houve o desfile. De outra forma, para mim, foi mais longo, pois coincidiu com a primeira terça feira do mês e houve o chopapo no Rio, evento que não tenho muita chance de participar e que nesse ano contou com uma boa presença na Taberna Atlântica.

No sábado, após a reunião na Majórica do dia anterior, subi ao CNF. A estrada de paralelepípedo que comento, comigo mesmo, da qualidade da obra de mais de cinqüenta anos que se mantém intacta, perfeita, não necessitando maiores reparos. Subi no carro de meu amigo Ronaldo Lo Bianco e pensei, em outro sentido, de como os carros evoluíram, pois me parecia que as camionetes do colégio, pilotadas pelos Srs. Zé, Ataíde e Russo, sofriam para subir a ladeira, quase sempre lotadas. Lembro-me dos comentários da época que a Fundação Getúlio Vargas tinha que trocar os motores todo o ano para que elas se mantivessem em condições de fazer o permanente transporte entre o campus e a cidade.

Na ladeira lembrei de grandes aventuras, fugindo à cidade, certa vez, não posso me esquecer, para ver a seleção de futebol treinar: a de 1958 com a devida e competente orientação do Silvério Ortiz que, veterano, estava acostumado a esse tipo de infração. Recordo ter visto Pelé sem que a ele desse muita atenção, pois sua fama ainda não era tão grande. Gostava do Didi por sua forma clássica de jogar, os passes longos, a folha seca. Em 1962 os jogadores eram mais famosos e eu já não mais precisava fugir para descer, fui direto ao Hotel San Sussi e o meu preferido era Quarentinha, por ser paraense e, na verdade, ser um craque, com chute muito forte, atlético, de passadas largas e um, acima de tudo: bravo, forte e filho do Norte.

Lembrei, também, que uma vez estávamos subindo: Julo, Paulo Perobo, Baroni, Neville e tantos outros. De repente avistamos um cavalo e a rapaziada improvisou um cabresto, montaram no animal e tocaram para subir a ladeira. O pobre do bicho com dois no lombo tinha extrema dificuldades em subir pelo peso e a declividade da ladeira. Olhando por trás vi Julo rindo muito daquela passagem e comentando comigo: eles vão quebrar a suspensão do cavalo! Do caro Julo tenho muitas coisas para contar, coisas boas e engraçadas, uma hora vou reunir todas e torná-las públicas.

Cheguei ao CNF e fui estacionar no prédio do Ginásio. Encontrei com o Camilo, aliás Dr. Camilo, médico com consultório na Praça Nossa Senhora da Paz onde já o encontrei andando por àquelas plagas. O cumprimento entre nós é sempre cordial, carinhoso como o de velhos amigos que realmente somos. Entrando no antigo refeitório, onde está implantado o memorial, observo cada objeto, cada utensílio, que me fazem recordar certas situações da nossa permanente alegria. Falei com os meus colegas e percebi que a turma, um pouquinho mais velha, tem dado prestígio aos encontros muito mais que os de minha geração, que por sua vez, é muito mais constante que os ex-alunos dos anos setenta. Falei, de passagem, com meu dileto e caro amigo Lopinho Sou eternamente grato a esse meu amigo pois me socorreu com apoio amigo e carinhoso quando minha mulher Ilka chegou para tratar de um filho doente que no Rio foi buscar cura. Quando ele fez quarenta anos telefonou para Belém e convidou-me para eu estar presente no seu aniversário que seria comemorado na Boite Mikonos. Parti para o Rio e fui ao niver de meu amigo, com muito prazer, com muita alegria, queria levar meu abraço ao prezado amigo.

No memorial olhei rapidamente para uma parede em que fui distinguido com uma foto e achei que deveria ser ao contrário queria que meus amigos estivessem na foto e eu, vez por outra, pudesse recordar de todos os momentos que passamos em ambiente de alta camaradagem.

Pedi a Açoce (logo no início da As dos Ex CNF pensei que o nome de nossa colega secretária fosse a sigla da Associação) que me permitisse ver meus e-mails e na mesa do computador olhei para alguns objetos em volta da sala de entrada. Vi aqueles bules de alumínio que serviam suco ou leite para nós e recordei-me de algumas passagens: dos sucos de laranja que fazíamos espremendo a laranja com a mão e, após, uma invariável guerrinha de bagaço. O amigo Helvécio Mattana Saturnino deve se lembrar disso muito bem. Outra, uma porrada entre o Jorge Maurício (prematuramente falecido) e não me lembro contra quem, mas sobrou para o Joel Novita que levou um bule e um açucareiro na cabeça que o deixou em estado lamentável.

Subi para o Científico, estacionei perto de uma casa dos professores, verifiquei que as construções estão bem mantidas com as mesmas características: feitas com pedra, pintadas de branco, com portas e janelas azuis, justamente, como à época que lá estávamos. Na garagem das casas, alguns professores, tinham um Mercedez Benz o que conferia a eles um padrão de vida bastante razoável. Era dignificante a função de professor!

Encontrei: Lulu, sempre muito solícito, e que tem invariavelmente desfilado na guarda de honra junto comigo, Fifico, Parkinson, etc. Lamentamos que em 2005 não haveria desfile em função do feriado cair na quarta feira. Alguns que não foram de minha época, mais velhos alguma coisa, como o Jose Altino me ofereceu uma bebidinha, lingüiça mineira e falamos rapidamente sobre a Amazônia.Lembrei de perguntar se o filho mais novo dele estava lá, pois li em uma crônica sua, publicada no site CNF que ele havia tido essa ventura de ser pai, mais uma vez, recentemente.

Conversei longamente com o meu inesquecível amigo professor Ezequiel Monteiro. Em ano não muito distante, tive a honrosa visita de meu mestre amigo que viajava pelo Brasil afora dando aula para o Senai. Recebi em minha casa, tomamos um whisky paraense, exageramos na dose e na madrugada, no adiantado da hora, perguntei o horário ele teria de viajar e se não haveria perigo de perder o avião? Respondeu-me: - eu aprendi no CNF que os problemas posteriores se resolvem posteriormente. Entendi que aquele momento era de certa alegria e que não deveria ser interrompido e o vôo era um problema para ser tratado posteriormente. Não poderia nunca me esquecer do Zequi, como eu o chamava mais intimamente: no final do ano de 1964, nos últimos dias e com o curso concluído ficamos apenas esperando a formatura. Não sei por que decidimos assaltar a dispensa com a finalidade única de diversão, aliás esse fato está narrado por um por um autor ou coautor da façanha Carlos Verilson Japiassu e está publicado no site. Em determinado momento o Prof . Ezequiel me chama e pergunta se eu havia participado daquilo. Disse-me mais: Você foi escolhido o Aluno Excelente (Prêmio Saúde, Saber e Virtude), na reunião do conselho e agora essa situação ficou muito ruim... Confesso que se arrependimento matasse eu teria morrido ali, em 1964. O professor entendeu que se tratava de uma molecagem sem muita maldade e disse que não deixaria que aquilo interferisse na concessão do prêmio. Acho que devo a ele o perdão que obtive. Admito que eu não era nenhum santo, mas não era um caba safado, pelo contrário não creio que tenha existido alguém que gostou do CNF tanto mais do que eu. Meu caro Ezequiel, peço perdão pela falha e agradeço a confiança. Tenho pautado minha vida com a dignidade que assimilei no colégio e muito consigo de quem sou admirador.

Depois da feijoada, feita com todo carinho pelas esposas de nossos colegas Fernão Gondim da Fonseca e Sérgio Fernandes, desci para cidade para um leve período de descanso, pois a noite haveria o Baile e todos estariam presentes. Não pude descansar: Márcia Etz me convidou para assistir o concerto da Euterpe Friburguense que é uma banda centenária, uma das mais antigas do Brasil e que acompanharia um coral onde sua mãe, minha dileta Marga (viúva de meu inesquecível amigo Mauriçâo) iria cantar. Assim, lá fui eu deslocando-me para o Hospital Naval (chamávamos de Sanatório Naval) encontrando um ambiente bonito, bem arrumado, com muita ordem. A banda estava em uma das entradas do prédio e logo alguns degraus acima, por trás, o coral se situou.

Gostei muito do espetáculo, tocaram alguns dobrados, musica brasileira, Tom Jobim, Vila Lobos, Pixinguinha, em destaque para bossa nova,The Girl Fron Ipanema. Achei belíssima a performance da Euterpe e do Coral. O que me fez gostar mais do concerto foi a presença do Prof. Paulo Jordão que fazia a apresentação a cada intervalo de música – definia o autor, o arranjo da banda o solista etc.Chamava atenção para os músicos, todos amadores em vias de profissionalização. Entendi, também, que a Euterpe Friburguense funciona como uma escola de músicos o que a tornou, no meu íntimo, ainda mais relevante.

No intervalo maior procurei pelo Prof Jordão e fui recebido com muito carinho sendo por ele conduzido até sua esposa a quem cumprimentei retribuindo a ternura de como fui tratado. As pessoas que conviveram em Friburgo, naquela nossa época, mantêm um espírito de fraternidade que não consigo definir. Acho que estávamos todos envoltos em um programa muito mais amplo de que uma simples escola colegial. A forma moderna de educar não se limitava à aula e atividade extraclasse, ia além: às pessoas, todas, eram sempre os centros das maiores atenções e preocupações.

Encontrei na platéia com Lola Madeira. Os que são de minha época sabem o quanto foi bonita a menina Lola e, hoje, uma belíssima mulher. Disse-lhe que estava ali a convite de Márcia e que iria depois para o Baile do CNF. Ficamos perto um do outro e, na conversa, ela me contou que não estaria no Queijos e Vinhos porque sua inseparável amiga Sônia Barroso não havia subido. Lamentei e pedi para que não falte no ano que vem, pois sua presença faz bem para os olhos e para a imaginação.
Em resumo: havia pessoas lindas, um lugar bonito, uma música de qualidade, uma noite com o clima agradável de setembro, aí, imaginei que a diretoria da Ass.do Ex-CNF bem que poderia integrar-se à programação do Hospital Naval (no passado isso era muito comum) e, no mês de setembro, fizéssemos algo em conjunto e com a participação do Prof. Jordão ligando, nesse quadro, a música também. Gostaria que meus colegas e seus familiares tivessem o prazer que eu tive ao participar de um evento simples, é verdade, mais de relevante sensibilidade e com enorme benefício à alma.

Mais tarde, ainda no sábado à noite, subi o morro, ladeira acima, junto com meu amigo Ronaldo Lo Bianco, e lá estou, no nosso já tradicional Queijos e Vinhos, a encontrar pessoas com quem eu tive momentos dos mais prazerosos.
Estavam os professores: Edmar Dias Teixeira e sua esposa Profa. Terezinha pessoas da maior dignidade. Tive uma relação com o Prof. .Edmar com a maior elevação e seriedade. Confesso que eu era chegado a um privilégio e se fosse possível poderia até abusar de reivindicar, para mim, certas condições e meu caro amigo sempre entrava em acordo comigo: se v. acordar no horário durante a semana v. poderá descer a cidade à noite. Eu tinha intensas atividades: Tiro de Guerra; disputava o campeonato de basquete por clube da cidade; Clube de Teatro, etc. e, ainda, minha namorada que quando eu não descia ela subia. O fato era que o Professor era o coordenador do científico e professor de matemática, uma das disciplinas mais levadas a sério como sério era o próprio homem e o principal: um justiceiro. Lembrei de Valéria, sua filha, uma simpática criança que andava de chupeta na área ajardinadas daquele campus de rara beleza. Profa. Terezinha lembrou que esteve em Belém. O Prof. Délio Freire e esposa, outro educador e formador de personalidade com as mesmas características de seriedade, honestidade profissional, estudiosíssimo, gostava como ninguém de dar aula de física. Lembrei de Ani, sua filha mais velha, que naquela altura era um bebe, e no ato ele me mostrou que ela estava presente acompanhada do marido. Do estimado Prof. Ezequiel falei um pouco, agora mesmo lembrei que à noite tomávamos cachaça ouvindo serenata com Carlinhos Baú cantando e tocando violão e, no dia seguinte, como se nada tivesse existido, estávamos assistindo sua aula com a respeitabilidade necessária e adequada para uma escola avançada sob o ponto de vista da educação.

Vi o Prof. Trota com quem não convivi mais tenho informações e mesmo pelo seus livros percebo a importância do homem e do professor. Estava lá sentadinha observando a tudo D. Alice na sua mais plena ternura. Em outro encontro conheci Darlam seu filho e, agora, sua filha, que, aliás, se parece muito com ela. Foi excelente a lembrança de homenagear essa pessoa que a nós dedicou sua vida, enfrentando-nos, feras e mais feras, e, sempre, com absoluta calma resolvendo todos os problemas que nos eram inerentes.Tinha em D. Alice uma grande amiga e, sempre fui tratado como um filho.

Estou curioso para ver no próximo setembro a silhueta do Nils Aune o cara deu uma reformada digna de elogios. Lulu sem Cristina é menos Lulu, mas mesmo assim é grande nas atitudes e na devoção a tudo que envolve a nós cenefinos. Gayer e Therezinha o nosso grande presidente e maior anfitrião. E o Dr. Camilo um dos mais constantes nos encontros. Vasco Ferraz que o Silvério acha que ele é ex-aluno virtual é um boa praça e tem sido freqüente nos chopapo de São Paulo. Estavam animados: Sérgio Fernandes, Fernão Gondim da Fonseca, Ozório, Sérgio Jofili (que de Abacate não tem nada); uma mesa animada – Julo, Bela, Osmarino, Tof, Paulo Vasaconcelos, Mussi na bateria qualquer que fosse o músico, aliás acho que o Mussi poderia ser ou um grande jogador de futebol ou um baterista bem cotado. Sérgio Fernandes e Fernão Gondim da Fonseca estavam sentados e em determinado momento olhei para a escada que dava acesso para as salas de aulas e voltei no tempo: para mim parece que foi ontem que eu subia dita escada em duas passadas sem maiores esforços. E o Demóstenes (Acre) quando olho para ele me vem na mente seus cadernos nobres, sempre muito bem feitos, com desenhos ilustrativos e dignos de um artista.

Despertavam em mim uma sensação de inferioridade, pois, diziam, que você passando a matéria do caderno de rascunho para o caderno nobre você estava estudando e, importante, é fazer com arte que adicionam um ponto na sua nota no fim da unidade. Eu não conseguia fazer o tal caderno nobre e não obtinha nenhum ponto adicional. Não era meu negócio, agora subir a escada com dois passos eu era mais eu e achava mais relevante que fazer caderno nobre.

Interessante, também, era a divisão da matéria: era uma tal de fim da unidade que nem era no fim do mês nem no fim da permanência, seguia uma seqüência cronológica totalmente diferente, pois o primeiro dia não era na segunda feira, mas, às vezes, era. Cansei de chegar com o orientador e perguntar: Hoje é o primeiro dia ou já será o segundo? Sabe aqueles horários que os cadernos traziam: segunda feira, terça ferira.. não serviam para nós! Didática moderna é foda!

Em determinada hora vi o Moises Baffi Agreste (Limonada, Limão para os mais íntimos, apelido, que até hoje, não sei porque) estava muito animado. Trata-se de pessoa elegante de fácil convivência e admirado por todos. Acho-o feliz e, invariavelmente, está sorrindo e tem ao seu redor muitos amigos e amigas daquela época.

E as meninas? As nossas: Teresa, Sílvia, Maria Alice e as outras nossas: Wilma, Vera, Neiva, Márcia, Sônia, Marga Haning, Lola, Ani, Regina, Kica, Therezinha (ex Limão ) e muitas outras. Estavam quase todas lá. Lembro que nos bailes daquela época havia uma camionete para trazer as meninas. Como era esperada essa caravana! Guardada no mais absoluto segredo conseguíamos ter uma bebida alcoólica, para que o frio e a aflição, principalmente, diminuíssem. O meu coração batia mais forte quando ouvia o ronco do sofrido motor do micro ônibus chegando ao colégio e eu era tomado dos mais primitivos sentimentos de caba do norte.

Quero eternamente poder revê-las e confessar,hoje, uma menor aflição, mas possivelmente, grandes sentimentos não tanto primitivos.

Foi um sábado feliz de setembro!

 
Quando Setembro Vier (final)
 
No mês de setembro o clima de Friburgo, geralmente, tem sido agradável exceto determinado ano que choveu e o desfile foi interrompido. Eu nem saí da cama, pois tinha certeza que não haveria desfile. O setembro de 2005, a temperatura estava amena, não choveu o que tornou o nosso encontro bem aprazível.

Não tendo acontecido o desfile, o feriado somente na quarta, voltamos para o Rio mais cedo. Pedi ao presidente amigo Robert Gayer que incentivasse o Chopapo da primeira terça feira do mês na Taberna Atlântica. Deu tudo certo: de minha parte falei com os que moram no Rio e telefonei para alguns que, quem sabe, poderiam ir . Sempre imagino que somos uma categoria em extinção e qualquer oportunidade deve ser aproveitada com o máximo de intensidade.

Desci de Friburgo para o Rio com Ronaldo Lo Bianco marcamos com as Irmãs Eberius – Regina e Kika, amigas de longas datas, para que almoçassem conosco. Ronaldo combinou e nos encontramos em restaurante em Ipanema e lá conversamos sobre a vida: do passado, a atual e do futuro...

Fomos à casa de Ronaldo onde tive o prazer de rever seus filhos: Caio, Lana e Mila. Estão todos lindos! As meninas tomando o rumo de moças e prometem com graça e beleza tornar ainda mais bonita Ipanema, bairro que tenho grandes e indeléveis recordações de minha vida. O som que predominava a época era a Bossa Nova e as variações giravam em torno da música americana com alguma preferência por Frank Sinatra. Recordo, mais recentemente, que foi lançado um Long Play (era isso mesmo) em que ele formou uma dupla com o nosso Tom Jobim, que mostrava a fusão da música brasileira com a americana, para o meu orgulho Tupiniquim. Peguei a revolução dos Beatles na música internacional.

As moças da minha época começavam, audaciosamente, a usar biquíni que chamávamos duas peças e lá íamos nós atrás de tamanha imponência. Ia à praia em Ipanema entre Garcia Dávila e Maria Quitéria. A Vinicius de Moraes chamava-se Montenegro e era um reduto badalado e de lindíssimas mulheres. O Rio era uma festa! Hoje deve ser o mesmo só que não sou mais personagem.

Então, prosseguindo, à noite, na Segunda-feira me hospedei com meu amigo Paulo Souza (Perobo) na Barra. Jantei com o casal Paulo e sua encantadora Kátia. Gosto muito de Kátia que nos trata como se tivéssemos a idade de quando estávamos em Friburgo. Do meu amigão Paulo tenho as melhores recordações. Convivemos há quase quarenta anos, nossos filhos se tornaram amigos e convivem sempre que possível. Percebendo essa amizade, certa vez o Tof Tof (sacanear os outros é com ele mesmo) disse pro Paulo: eu vi o Chermont no Rio desde a semana passada e ele não te ligou; isso é que é sacanagem... Não passo um mês sem que não me comunique com meu caro amigo. Na situação mais difícil que passei com meu filho doente, no Rio, Paulinho apoiou com carinho e com amizade. Temos uma ligação forjada nas montanhas de Friburgo e ainda jovem lutamos para vencer. Trata-se de um amigo que quero manter pela vida toda. Obrigado meu caro Paulo ou Perobo (tenho intimidade para chamá-lo de Perobo e vou chamar a vida inteira) pela tua amizade.

Na terça, fui à praia na Barra e fiz uma longa caminhada. Fui almoçar no Shopping da Barra, fiz pequenas compras, que em Belém não consigo obtê-las, fui ao cinema motivado pelo fato de que o autor do filme chamava-se Breno Silveira. Acho que é filho do Cydno Silveira. Certa vez, encontrei Cydno no Nordeste que me falou de um filho seu que era ligado a cinema e fotografia e me deu uma foto do Rio tirado por ele. Os Filhos de Francisco, que assisti, está cotado para receber o Oscar de melhor filme estrangeiro. Estou querendo dizer que o CNF está tão entranhado em minha vida que faço associações, aproximo certas situações e consigo estabelecer uma correlação até onde não existe. Vou rogar, com convicção, que o filme seja vitorioso para que eu possa me orgulhar de um descendente de um Cenefista.

À noite fui a Taberna Atlântica pegando um engarrafamento monstro da Barra até Copacabana, disseram-me que houve uma guerra entre os polícia e traficantes e parte do Rio estava interditada. No carro de Paulo Perobo estavam, além de sua mulher Kátia, seus filhos Sérgio e Pedro e a conversa foi tão divertida que a hora passou e não percebi a lentidão do trânsito. Fiquei um pouco preocupado, pois havia marcado com Magaly ex- aluna do CNF e imaginei que ela somente entraria na Taberna Atlântica se estivéssemos por lá.

De fato, Magaly ficou esperando e quase desistia e não eu não teria o prazer de rever a minha amiga que muito prezo pela sua educação e finesse (fiquei nessa palavra para não dizer que ela é muito bonita). Indaguei por quê ela não entrou na Taberna Atlântica e, de pronto, respondeu-me que não conhecia ninguém que lá estava. È possível! Magaly estudou no CNF nos anos setenta sendo, portanto, ligeiramente (uns quinze anos) mais nova do que o pessoal de minha turma.

Foi extremamente agradável estar novamente no seio de pessoas que se ligam por uma instituição que foi extinta, mas que permanece viva no pensamento de todos que por lá passaram. Foi um prazer estar com meus amigos que já havia encontrado em Friburgo dias atrás e alguns outros que não estiveram.

Encontrei o Fernando Franco conhecido como Feijão (sei que é Feijão por que seu irmão, mais velho, era Feijão). Lembramos de uma temporada que Feijão passou em Belém e trabalhamos um projeto de um overkraft (embarcação que serve para andar sobre a água e a terra e, assim, apropriada para andar na Amazônia) para a Universidade Federal do Pará. E o caro Paulo Sérgio Longo: recordamos que fizemos o Tiro de Guerra, juntos, na mesma turma, e de alguns amigos da época. Falamos de família e de filhos; Longo é meu amigo e sempre nutrimos muita simpatia um pelo outro: invejava seu modo extremamente calmo em tudo inclusive jogando de becão central. Falei com o Nuno que já não via faz algum tempo. Bella me apresentou sua filha mais velha acho que a conheci bebe. Meu caro presidente Gayer, com muita gentileza, me presenteou com um CD com as fotos da Majórica, Almoço e Queijos e Vinhos, do encontro de setembro. Dos fundadores, rever o Teixeira Leite é sempre um prazer. Tenho boas lembranças dos meus amigos, compartilhamos na época de estudantes do CNF de momentos muito felizes e, agora, já estamos nos tornando um corpo considerando o fato que estamos nos reunindo desde 1983, portanto há mais de vinte anos.

A reunião na Taberna Atlântica corria normalmente com a cordialidade que é nossa marca. Em dado momento Lopinho me convida para darmos uma passagem “rapidinha” com o nosso ex-colega Marcos Resende na sua casa Cais do Oriente. Argumentou que havia marcado e que convidou um outro nosso colega, Roberto Fragoso (Baiano Fragoso), para lá estar. Seria uma ida ligeira e estaríamos de volta logo a seguir.

Convidei Magaly para que nos acompanhasse e nos deslocamos para o Centro. Realmente, Marcos Resende estava na sua belíssima Cais do Oriente, na rua Visconde de Itaboraí nº 8, aberta e esperando por nós. O acompanhavam: sua mulher, Roberto Fragoso e mulher. Fiquei impressionado com a beleza da casa, que é um misto de centro cultural, bar e restaurante, recepção, decorada em motivos orientais e tudo de extremo bom gosto. Marcos mostrou sua sala ambiente onde toca sua música e tem ouvintes certos e cativos com ambiente jazzi e bossa nova.

Sentamos em volta de uma mesa grande e o papo voltou-se para o CNF. Rimos muito de situações ocorridas em nossa permanência no colégio. Falamos de tudo: a situação mais engraçada que agora me ocorre foi relembrada por Roberto Fragoso e se refere a um rapaz Goiano cujo apelido era Galinha do Deserto. Galinha era um tipo diferente, magro, alto com longos braços e mãos e que gostava de exibir essa sua desproporção dando um espetáculo bem diferente. Toda vez que ele estava perto de nós pedíamos para que ele coçasse os culhões; a senha era essa. O grande Galinha, então, passava o braço por detrás das costas e vinha com as mãos até seu saco. Belíssimo espetáculo! Vibrávamos e antevíamos um futuro brilhante para aquele contorcionista de primeira linha.

Preocupado com as pessoas que nos esperavam na Taberna Atlântica tivemos de voltar logo lamentando que tudo tenha sido muito corrido, pois cada conversa que mantemos rende muito com as lembranças sempre indeléveis do CNF. Setembro de 2006 virá e retornaremos a nos encontrar pode ser com os mesmos casos, mas, quem sabe, com mais emoção, voltar a sonhar aqueles sonhos.

Setembro passou a ser um mês importante na minha vida é como reviver um sonho. Faz-me lembrar o poeta: quando eu era criança, eu dormia, eu sonhava e se repentinamente eu acordava eu tentava, novamente, dormir para voltar a sonhar aqueles sonhos.


Novembro 2005

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Miguel Arraes
Afonso Brito Chermont
 
Sobre a estima que nutrimos pelo Colégio Nova Friburgo, vez por outra, fico indagando, a mim mesmo, o significado da união que ficou, tomou conta de nós, perdurando ao longo desses anos todos.

No CNF, impressionou-me: a qualidade de ensino; as salas de aulas especiais por disciplina; o moderníssimo material didático auxiliar; a elegância de muitos dos professores no trato com os alunos. Outros detalhes que me causavam deslumbramento: o uso, na vertical, pelos professores, do quadro negro de giz de gesso, que, segundo um deles, era para compatibilizar com o caderno que era disposto no mesmo sentido vertical; o caderno nobre que recebia a matéria passada a limpo e permitia que a assimilássemos melhor; o esporte, disputado com vigor, técnica e era elemento indissociável da educação; as atividades extraclasse, etc.

Poderia sair listando o que causava mais impacto e fazer uma análise daquilo que mais despertava atenção: verdade, num país carente de leitura, o CNF dispunha de duas bibliotecas, uma para o ginásio e outra no prédio do científico. Todo o mês via sair a estatística dos maiores leitores e isso fazia com que os menos ligados à leitura, como eu, se interessassem pelos livros.

Toda a inovação que se processava no âmbito da educação era, de imediato, assimilada pelo CNF. Havia sempre a preocupação que os alunos viajassem como também as pessoas ilustres no Brasil visitavam o CNF, rotineiramente. No campo político, lembro, do governador do Rio de Janeiro Dr. Carlos Lacerda que paraninfou uma turma de colandos do ginásio, a quem cumprimentei. Ficávamos em fila e íamos ao seu encontro no refeitório, dizíamos nosso nome e recebíamos um aperto de mão. Senti-me distinguido quando ele perguntou se eu era do Pará. – “Chermont é família do Pará”...

A visita de Jorge Amado! Recordo do grande escritor brasileiro, na biblioteca do ginásio, conversando com a garotada. Em circunstância toda especial, em Belém, estive com ele, há poucos anos atrás, quando recordei de sua estada no CNF. Ele elogiou o colégio e fez a mim melhores referências e lamentamos seu fechamento.

Lembro de grandes atletas como Ademar Ferreira da Silva ensinando como se fazia um salto triplo. José Teles da Conceição que foi o primeiro brasileiro a atingir 2,00 m no salto em altura.Havia uma atleta, mulher, cujo nome não mais lembro, mas, também, bastante famosa.

Visitaram, o CNF, grandes artistas do teatro e me recordo, como se fosse hoje, da interpretação de Rodolfo Maia em As Mãos de Eurídes, de Procópio Ferreira que, na peça Essa Noite Choveu Prata, mostrava a diferença de interpretação de um menino na escola primária e um profissional a declamar poesia de Casemiro de Abreu: Oh! que saudade que tenho, da aurora de minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais!...

Um visitante ilustre, no campo da política, foi o Dr. Miguel Arraes então governador de Pernambuco. Ele esteve no colégio, pois seu filho, José Almino Arraes de Alencar, lá estudava. Os dois outros, Augusto Arraes de Alencar e Miguel Arraes de Alencar, entraram, logo, no ano seguinte.

O Walter Dantas de Assis Baptista, o conhecido Pau de Arara, o mais politizado de nós todos, convocou a mim para que participasse de uma comissão de recepção para saudá-lo. Lá fui eu fazer parte dessa comitiva. Lembro que a idéia que surgiu foi de fazermos uns cartazes e um deles dizia: Miguel Arraes o Jesus Cristo do Nordeste.

Dr. Miguel Arraes sorriu para nós e demonstrou certa satisfação não só por rever seu filho, Zé Almino, como pela recepção e nos distinguiu com algumas frases de estímulo como que nos responsabilizando pelo futuro de nosso país.

Do homem de boa aparência, alto e forte, com aspecto de Nordestino, governador de um estado expressivo como Pernambuco, conhecido pela sua atuação política em todo o Brasil, eu nunca esqueci.

Essa visita foi dois anos antes da Revolução de 1964, possivelmente, em 1962. Saí do colégio em 1964 e acompanhava o noticiário da cassação do grande líder do Nordeste e de sua resistência, de seu exílio para Argélia.

O meu amigo, ex-colega Clóvis Cavalcanti, que nos encontramos sempre após termos saído do CNF, me falou das passagens heróicas daquele homem coerente, de hábitos simples e um fervoroso socialista.Saiu exilado para Argélia quando era governador de Pernambuco e quando retornou com a anistia foi eleito e reeleito para o mesmo cargo. Dizem os jornalistas políticos que ele entrou pela mesma porta que saiu.

No Rio de Janeiro, certa vez, encontrei com outro colega de Friburgo o meu prezado amigo Osvaldo Aranha Neto que comentou comigo a satisfação de ter participado da campanha de Miguel Arraes quando ele voltou do exílio.

Dr. Arraes está bem doente, hospitalizado, lutando para sobreviver. Torço, bastante, pela sua recuperação. Ele não poderá nos deixar, principalmente nesse momento da maior crise política do Brasil nos últimos anos. Penso, com saudades, da correta atuação do maior líder de Pernambuco e tenho recordações muito positivas do grande político da época de um Brasil de grandes perspectivas. Oh! que saudades que eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais! ...


Julho 2005


"Oh! que saudades que tenho, Da aurora da minha vida, Da minha infância querida, Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras A sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! Como são belos os dias, Do despontar da existência! - Respira a alma inocência, Como perfumes a flor; O mar eh - lago sereno, O céu - um manto azulado, O mundo - um sonho dourado, A vida - um hino damor! Que aurora, que sol, que vida, Que noites de melodia, Naquela doce alegria, Naquele ingênuo folgar! O céu bordado destrelas, A terra de aromas cheia, As ondas beijando a areia, E a Lua beijando o mar! Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era, Nessa risonha manha! Em vez das magoas de agora, Eu tinha nessas delicias, De minha mãe as caricias, E beijos de minha irmã! Livre filho das montanhas, Eu ia bem satisfeito, Da camisa aberta ao peito, -Pés descalços, braços nus correndo pelas campinas, A roda das cachoeiras, Atrás das asas ligeiras, Das borboletas azuis! Naqueles tempos ditosos Ia colher as pitangas, Trepava a tirar as mangas, Brincava a beira do mar; Rezava as Ave-Marias, Achava o céu sempre lindo. Adormecia sorrindo, E despertava a cantar!" Casimiro de Abreu

 
Era um Domingo de Maio
Afonso Brito Chermont
 
Era um domingo de maio, precisamente dia oito, já no cair da tarde iniciando à noite, meu pensamento estava voltado para segunda feira que teria de enfrentar, as dificuldades rotineiras do meu trabalho, as contas para pagar, etc., quando recebi um telefonema de um caro amigo de juventude, muito dileto, com quem tenho muitas e diversas historinhas para contar justo dessa fase de intenso viver.

Esse meu amigo Bene Mutran que eu já admirava pelo seu comportamento sempre correto, de muitos amigos, e que naquele momento já insinuava, pela sua liderança, que seria um grande homem. Realmente, hoje o respeito ainda mais pela sua capacidade empresarial. Bene recebeu de seu pai uma grande empresa que operava na exportação de castanha do Pará e soube multiplicá-la muitas vezes. Inseriu tecnologia, deixando de ser um extrativista, modernizando a atividade, tornando-se um industrial, processando o produto primário vindo da região de Marabá, no Pará, e exportando para os Estados Unidos e Europa. O meu caro Bene iniciou empreendimentos de pecuária tornando-se um grande Nelorista, possuindo um gado de primeira qualidade com alguns exemplares de magnífica linhagem. Mais uma vez, agora no campo pecuário, vi em suas propriedades modernas tecnologias sendo utilizadas: transplante de embrião, reprodução in vitro, produção de animais em quantidade e qualidade incomparáveis com a tradicional pecuária da qual sou oriundo na minha região do Marajó.

Tenho um orgulho interior por fazer parte de rol dos amigos de Bene e ser distinguido por ele em ocasiões especiais. Bene realiza um leilão de gado em uma chácara que possui nas proximidades de Belém e o ambiente, além do interesse comercial, tem o sentido da confraternização da convivência agradável de empresários e pessoas voltadas para o ramo do qual, hoje, o meu prezado amigo é figura nacional. Ainda outro dia revi o meu ex-colega, Mario Frota, estudamos em Friburgo nos anos sessenta, quando nos colocamos a falar do Colégio Nova Friburgo, dos nossos amigos...

Sim, recebi o telefonema do Bene que me disse ter estado com um amigo meu de Friburgo: Hugo de Aquino Filho. Manifestei minha emoção por ouvir que Hugo não se esqueceu da amizade que forjamos quando estudávamos no Colégio Nova Friburgo. Bene me passou os celulares e pediu para que eu telefonasse sem falta, pois Huginho (como eu o chamava) havia contado sobre a “máfia” do CNF, da amizade que mantínhamos, da saudade que nós estávamos envolvidos.

Imediatamente liguei para o meu irmãozinho Hugo. Não tive sucesso resolvi, então, ligar para o celular de seu filho Hugo de Aquino Neto com quem falei e me disse que já havia ouvido muito falar da minha pessoa e a relação de amizade que envolvia a mim e seu pai. Desliguei o telefone e, imediatamente, recebi o chamado do pai. Estava na linha o meu caríssimo Huguinho. Falamos ao mesmo tempo e confesso de minha emoção de ouvir uma pessoa marcante na minha juventude.Falamos de família, de colégio em Friburgo, lembrei de se seus pais e sua irmã, enfim falamos de amizade e saudade de quarenta anos que não nos víamos.

Certa vez estava eu no Rio e procurei outro dileto amigo Luiz Eduardo Simões Lopes (Lopinho). Sua esposa Cristina ofereceu um jantar para alguns de nós, seus amigos, lembro do Paulo Souza (Perobo), Paulo Rufino (Paulista) que estavam na ocasião. Em dado momento desse jantar chegou uma amiga de Cristina. Achei que a conhecia, mas não conseguia saber de onde. Aproximei-me dela e, num ímpeto de coragem, perguntei se ela era de Campos se conhecia Hugo de Aquino Filho. Disse-me que sim.Pronto: estava claro na minha cabeça.

Explico: Huguinho me convidou, isso quando estávamos no CNF, para ir a Campos e lá fomos nós passar um fim de semana. O chofer de seu pai vinha apanhá-lo no colégio e saímos de Friburgo para Campos. Chegamos à cidade os passeios foram intensos. Recordo que fui conhecer a fábrica do Conhaque de Alcatrão de São João da Barra, localizada numa cidade no litoral do estado do Rio chamada Atafona. Fomos a uma usina de açúcar que me impressionou pelo gigantismo da indústria, comparadas às usinas de minha região que eram de escala bem mais modestas. Tudo da família do Hugo era grandioso e bonito: a casa onde moravam, em elegante bairro, grande e confortável; a família extremamente amável e me receberam como um filho. Nunca esqueci o tratamento fidalgo e elevado que a mim foi dispensado.

Além de conhecer as empresas do meu prezado amigo Huguinho constou da programação a ida ao clube onde eles sempre freqüentavam. Fomos: a irmã do Hugo, Lia Miriam, e seu noivo, Hugo e namorada e para que eu não me sentisse só pediram para que me acompanhasse uma moça, amiga da família, que chamavam de Dininha, então, Dininha, era a moça que saí em Campos e que a encontrei, trinta anos depois, na casa do Lopinho e Cristina, no Rio.

Dizia o poeta que a vida é a arte do encontro embora haja muitos desencontros nessa vida. Não tenho mais tempo de fazer novas amizades na minha idade atual tenho que recrutar aquelas que foram construídas na juventude e alicerçadas em bases tão sólidas que nem o tempo consegue apagá-las. Estou muito feliz por reencontrar o meu dileto amigo Hugo e de ter recordações tão agradáveis.

Maio de 2005

 

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Valeu a Pena (Vivenciando)
Afonso Brito Chermont
 
Minha ida para estudar no Colégio Nova Friburgo deu-se por uma dessas imposições do destino, e da forma mais indireta possível.

As origens do fato remontam a 1946. Meu pai, Rodolfo Chermont, tinha uma fazenda de gado no município de Chaves, na famosa Ilha de Marajó, no Pará. Nessa época, era governador do então Território Federal do Amapá o cel. Janary Nunes, que mais tarde, foi presidente da PETROBRÁS. O coronel Janary viajava de avião, para Belém, sobre o Marajó, quando a aeronave começou a entrar em pane. Na falta de pistas de pouso pelas redondezas, o piloto procurou um local em que pudesse aterrisar, naquela emergência. E fez um pouso perfeito, em uma praia , que ficava bem em frente da casa-sede de nossa fazenda. Ajudado por Deus, o aviãozinho não se chocou com dezenas de búfalos que no momento, passavam pelo local. Os que presenciaram a cena, falam, da habilidade do piloto, que conseguiu aterrisar o avião na faixa de areia que é naturalmente solidificada pela constante ida e volta da marés que banham o litoral do Marajó.

Meu pai acolheu o governador, instalou-se em nossa casa e, com os limitadíssimos recursos que havia, procurou entrar em contacto com equipes de salvamento aéreo, através de um rádio-telégrafo. Mesmo agora, 50 anos depois, há muito pouco telefones em fazendas marajoaras.

Dois dias depois do acidente, como que por meio de um milagre, apareceu no local um hidro-avião, "Catalina", equipamento que os norte-americanos, após a 2a. Guerra Mundial, deixaram em Belém, na Base Aérea de Val-de-Cans. Alguns desses aviões ainda estão em uso. Outros viraram peça de museu.

As imagens do pouso forçado do avião do governador Janary e a chegada, logo depois, do "Catalina", ficaram gravadas em minha memória. Meu irmão Paulo, que também estudou no CNF, em 1958 e 1959, igualmente
lembra de tudo. Sempre tocamos no assunto, e concordamos que o evento ficou marcado em nossa memória, apesar da pouca idade que tínhamos, então. Meninos de fazenda, no longínquo Marajó, sem cinema ou TV, aqueles fatos, inusitados, e para nós espetaculares, ficaram corno imagem definitiva em nossas cabeças.

O governador ficou muito agradecido a meu pai, não só pelo apoio e solidariedade, pela acolhida, como, também, pelo esforço e pronta providência de chamar o socorro. Ele se deslocou no "Catalina" para Belém, e o avião acidentado, após ter sido recuperado na própria fazenda, conseguiu levantar vôo, felizmente.

Sempre que vinha a Belém, o cel. Janary, já como presidente da PETROBRAS, e figura influente da política nacional, visitava nossa casa, pois, logo depois daqueles fatos, minha família se transferiu para a capital do Estado.

Nos fartos almoços, depois de comer um saboroso "pato no tucupi' e uma tigela de açaí com muito açúcar e farinha de tapioca na sobremesa, o coronel dizia a meu pai que ele deveria mandar para estudar, em Friburgo, seus dois filhos mais velhos, da união com minha mãe D. Cora. Dizia ser um "colégio modelo", "padrão de ensino moderno no Brasil". Informava que seu filho, Janarizinho, estava lá, estudando, e se dava muito bem; que o sistema de internato era brando, as instalações modernas e o clima do lugar ameno e muito agradável (depois eu fui ver que, de maio a julho, não era tão "ameno", para quem tinha vindo da linha do Equador).

Meu pai gostou da idéia, mas resolveu envolver outras pessoas, e convenceu um pecuarista amigo dele, Atreu Baena, a também mandar um filho, o Emilio. Foi remetido um telegrama (via 'Western") para a Fundação Getúlio Vargas, na Praia de Botafogo, pedindo reserva de matrícula, explicando que elas seriam efetivadas quando chegássemos ao Rio, nos próximos dias.

Corria o ano de 1958 . Recordo o velho casarão da Praia de Botafogo. Com a coordenação do Colégio, alguns detalhes foram acertados: que tipo de roupa seria necessário, quando teríamos o teste psicológico, etc..
Confesso que estava embevecido. Há pouco tempo, eu havia saído da Ilha do Marajó para morar em Belém, o que já tinha sido um passo muito avançado na minha vida. Logo após, graças à "corda" do cel. Janary e à visão de meu saudoso e bom pai, eu estava em pleno Rio de Janeiro, Capital da República, a caminho de um colégio do qual falavam maravilhas, principalmente quanto ao método avançado e mecanismos de ensino.

Até que, tudo resolvido, chegou o dia glorioso da subida para Friburgo. Dentre outros, recordo-me que estavam no ônibus o Silvério Ortiz, Márcio Dornelles e Flávio Groterra. Eram veteranos, acostumados com a viagem, faziam uma bagunça infernal. Paulo, meu irmão, o Emilio Baena e eu víamos aquilo com algum espanto. O Emilio, por sinal, doido para entrar na bagunça. Já no colégio, ganhou o apelido de Frei Emilio", porque foi ajudar missa logo nos primeiros dias de aula e praticou uma façanha memorável: certa noite, desceu à cidade, escondido, e tomou um grande "porre". No retorno, ao pé do morro, encontrou um cavalo, e subiu a serra no lombo do animal. Chegando ao colégio, resolveu ir dormir com o bicho no cíentifico. Em pleno corredor do dormitório, o quadrúpede fazia um barulho dos diabos acordando todo mundo. Foi incrível:

Naquela primeira viagem a Friburgo, já na subida da serra, notei que a estrada estava em obras. Chovia bastante, e o ônibus deslizava no barro, não conseguindo sair do lugar. O motorista, então, comunicou que teríamos de fazer uma baldeação, para podermos continuar a viagem. Eu não entendi bem. No Marajó, "baldear significava vomitar. Então, por que eu deveria fazê-lo, naquele instante? Será que o peso do ônibus seria aliviado se todos os passageiros "vomitassem? Estas dúvidas passaram pela minha cabeça de menino do interior. Somente após a troca dos passageiros e bagagens para outro veículo é que eu entendi que a palavra tinha outro significado, e percebi, também, que eu estava entrando em outro mundo.

Chegando a Friburgo, ficamos hospedados no elegante Hotel Sans-Souci. No dia seguinte, fomos conhecer o colégio. No meu caso, eu tinha vencido a distância de um continente para chegar ali. Fiquei boquiaberto coma beleza do lugar. Eu via pela primeira vez aquelas montanhas, que iriam fazer parte e emoldurar tantos anos de minha vida. Impressionou-me o conjunto de prédios: o ginásio (num estilo belíssimo, europeu), o científico, o ginásio de esportes, a escolinha, as casas dos professores, os caminhos de pedra entre os bosques, etc. Tudo bonito, harmonioso. Eu estava acostumado com a planície, com a beira dos rios e igarapés. Para mim, tudo aquilo era novo, diferente. Foi uma visão inesquecível.

Meu primeiro quarto foi no grupo II. A porta de entrada, uma pequena papeleta informava quem seria meus companheiros: Marco Antonio, Felix e Epaminondas Gracindo. Este último, o famoso Gracindo Júnior, conhecido e aplaudido em todo o país por sua atuação como ator e diretor de TV. Aliás, Gracindo tem dito o repetido que começou a sua carreira no Clube de Teatro do CNF. Quanto a mim, foi o inverso: tive encerrada minha "carreira artística" neste mesmo Clube de Teatro, como vou contar adiante.

A historinha se passou mais ou menos assim: estava eu fazendo o papel de um cafajeste, e contracenava comigo a Tânia Castilho, filha do professor Mário Castilho, que era o diretor do Clube de Teatro. Em determinado momento, tínhamos um dialógo áspero, que culimanava com um tapa no rosto da personagem que Tânia interpretava. Nos ensaios, correu tudo direitinho: eu tocava levemente na face de Tânia, que se encarregava de cair no chão, fazer alarde, chorar, espernear, etc. No dia em que a peça estreiou, estava o auditório repleto; alunos, professores, funcionários, convidados da cidade. Muita gente teve que ficar de pé, pelas laterais. Resolvi dar um toque mais real à minha interpretação, e quem sabe, sair dali consagrado como ator. No auge da discussão com Tânia, e chegando o momento em que eu devia fingir que lhe dava um tapa, desferi na pobre moça uma sonora bofetada, com toda a minha força e convicção artística.Para falar toda a verdade, dei-lhe uma porrada sem igual. Tânia caiu no chão, espantada, confusa, chorando como um bebé. Estava no auditório o Zeno Veloso (hoje professor de direito, Deputado no Pará) que se levantou gritando: "muito bem, bravo", o que levou a todos os que lotavam o auditório a me aplaudir, de pé, e demoradamente. Surpreso, envergonhado, eu não sabia se socorria a Tânia, estatelada no palco, ou se agradecia à pláteia. Até hoje, não sei se o Zeno resolveu me aplaudir por ser meu amigo, querendo consertar o vexame que eu tinha dado, ou pelo fato de ele ter alguma diferença com a Taninha, e não gostar dela, por alguma razão. O que eu sei, desde aquele dia, é que o teatro não é, exatamente, o meu negócio

No CNF, muitas coisas eram novidades para mim. Ficava impressionado com as aulas, dadas em salas-ambientes: ciências, geografia, canto, história, t.rabalhos manuais, matemática, fisica, química, etc. Havia laboratório, fazíamos as mais diversas experiências. Nas salas, dispúnhamos dos mais modernos instrumentos didáticos-pedagógicos. Tantas décadas depois, não sei se, por todo este imenso país, haverá uma escola pública ou privada com tantos recursos quanto o nosso velho e querido Colegio Nova Friburgo. Felizes as gerações de brasileiros que tieram a ventura e o privilégio de passar por lá,

A competência dos professores deve ser ressaltada. Eles viviam na escola, em casas próprias, com suas famílias (alguns, poucos, eram recrutados na própria cidade de Nova Friburgo). Dedicavam tempo inteiro ao colégio. Entre os professores e alunos havia urna camaradagem, um companheirismo um elo de amizade, de fraternidade, dadas as circunstâncias. Muitos deles eram chamados para dar cursos no exterior. E, de todo o país, vinham professores para fazer estágio e praticar no CNF, aprendendo as mais modernas técnicas de educação e didática. Para usar uma frase atual: era coisa de primeiro mundo. Particularmente, ficavamos felizes, e excitados (por que não confessar) quando chegavam as delegações de normalistas, recém-formadas. Era uma beleza!

Os momentos de alegria eram uma constante no CNF. Triste mesmo, fiquei um dia, por causa da morte de um nossos colegas Asdrúbal Lavareda de Souza, que escorregou na cascatinha, despencando montanha abaixo. Foi uma tragédia! Não consegiu assimilar aquele acidente. Aquilo não combinava com nenhum de nós. Quando fui presidente do Conselho de Alunos, nossa diretoria encomendou uma pequena placa de mármore, que fixamos na sala onde funcionava o Conselho, fazendo uma homenagem ao Asdrúbal. Até hoje, a placa está lá. Na ocasião, isto nos fez, interiormente, um bem enorme. Que Deus tenha em descanso eterno a boa alma daquele nosso colega.

Passei sete anos no Colégio Nova Friburgo. Nos primeiros dois anos, fiquei observando, assimilando, aprendendo. Aprendi muito aprendi um pouco de tudo. Já praticava esportes com certo desembaraço. Já acompanhava o raciocínio dos colegas que tinham vindo de centros mais adiantados. Já era cogitado para participar dos grandes momentos da vida do colégio. E já arriscava algumas molecagens, como fugir para a cidade em pleno horário de aulas. Algumas vezes e por corda do Silvério Ortiz - para assistir aos treinos da seleção brasileira de futebol, a caminho da taça "Jules Rimet". Vi de perto, cumprimentei atletas imortais, como Belini (do meu Vasco da Gama). Newton Santos, Garrincha, Didi e o então menino Pelé. Muitas vezes, eu faltei a missa para assistir ao culto protestante. Quem me levou foi o Antonio Teixeira Júnior (o "Ceará", prematuramente falecido), que não era evangélico, coisa nenhuma, mas ia ao culto dos protestantes porque lá havia a distribuição de biscoitos e chocolates. Deus me perdoe!

O esporte,do CNF, era um capítulo à parte. Coisa séria, organizada. Pratiquei atletismo, voley, basquete e futebol. Minha bandeira era a azul. Fui campeão das Olimpíadas, algumas vezes e considerado o melhor atleta, em 1962 (puxa, trinta anos atrás....).

Não era C.D.F, mas estudava bastante. Alias, quem não estudasse bastante, não aguentava o ritmo do CNF, uma escola modelo e padrão. Corado pela modéstia, devo contar que uma das honras de minha vida foi ter sido distinguido pela congregação como aluno-excelente de 1964, recebendo o prêmio "Saúde, Saber e Virtude",

Há muito e muito mais para dizer, para relembrar, para contar, e isso pode ficar para outros artigos.

O Fernando Pessoa, em passagem famosa e repetida, ensina que "tudo vale a pena, se a alma não é pequena". O CNF não só valeu a pena, como abriu a nossa alma para os grandes espaços da vida adulta.

Abril 2005

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O Absurdo
Afonso Brito Chermont
 
Observando, no site, as fotos dos desfiles do CNF, vejo um instrumento que em mim desperta bastante atenção: é aquele surdo maior que todos, aliás, são dois e vêm, na banda, logo após os bumbos e são de tamanho fora do comum.

Estávamos no segundo semestre de 1962 e os preparativos para o desfile de sete de setembro já estavam acontecendo. O Prof. Talvane era o coordenador para fazer a banda funcionar e, a partir dele e de meus caros amigos Paulo Souza (Perobo), Caio Ortiz, Rogério Mussi, Zeno Veloso e outros, que serão personagens nessa minha divagação pelos idos de minha juventude no CNF.

Vivíamos ali no ginásio de esportes em um anexo onde estavam guardados os instrumentos da banda. Naqueles dias começávamos a retirá-los de um conjunto de prateleiras os tambores, as cornetas e outros apetrechos que eram lá guardados. Havia a necessidade de que fossem recompostos os instrumentos: os couros deveriam ser trocados; o símbolo do dragão deveria ser pintado; nas cornetas passavam um produto que as deixavam brilhando... Claro que vez por outra ocorria uma guerra de tinta, mas tudo muito rápido, pois o Mestre Talvane, era o nosso amigão, mas não nos perdoaria se nos flagrasse pintando um ao outro.

Confesso que não gostava muito do ambiente dos ensaios por limitações minhas mesmo: eu não tinha ritmo, tocava a corneta com muita dificuldade muita força para um som que não me agradava. Gostava de uma molecagem e tinha um talento enorme para identificar um "pele" e um desses era o Humberto Cezar Coelho, conhecido como o Conde de Ducaja. Sei que ele gostava do apelido, pois se referia a nobreza, mas de nobre ele não tinha muita coisa. O que ele queria era sair na banda e fazer média com as garotas da cidade, acontece que o Prof. Talvane não gostava muito dele e não o queria vê-lo na banda sob qualquer hipótese. Seria uma ótima oportunidade de aproximar aqueles opostos e tirar proveito de alguma situação engraçada.

Alguns instrumentos estavam imprestáveis e sugeri ao Prof. Talvane que caso um daqueles fanáticos pela banda os recuperasses teria do direito fazer parte do desfile. Lembro que o Ducaja saiu em busca de solução para consertar uma velha caixa que era o instrumento de menor demanda. Certa hora, eis que ele aparece com o tambor totalmente restaurado, com a pintura do dragão bem feita, o couro esticado e um som bem razoável. Talvez fosse possível ele sair na banda bastava a permissão do mestre e ele logo estaria realizando um dos maiores sonhos daquela época. Lembro de seu estado de nervosismo para se apresentar ao mestre Talvane e obter a liberação tão cogitada.

Acertamos com o Professor que ele não seria aprovado desde a primeira oportunidade e que ele deveria ficar encarregado da recuperação de outros instrumentos. Notei na fisionomia dele uma profunda decepção e o pior era que nós ainda gozávamos o infortúnio do nosso colega. No final ele acabou desfilando e fazendo parte daquilo que desperta, ainda hoje, enorme alegria nos desfiles do CNF.

O Conde de Ducaja nunca esqueceu a minha atitude de gozação com ele e, quarenta anos depois, me pegou desprevenido: não faz muito tempo estava trabalhando quando uma pessoa entrou em minha sala e disse que o Sr. Mário de São Paulo queria falar comigo. Não tinha em mente conhecer nenhum Mário, mas como o telefonema vinha de São Paulo fui logo atender e o diálogo foi esse:
-- Chermont, aqui é o Mário.
-- Perguntei. Que Mário?
-- Aquele que te comeu atrás do armário.

Ele me confessou que aquilo tudo era vingança dos tempos que eu não o ajudei a tocar na banda e ainda incentivava o Prof. Talvane a não permitir seu desfile.

Aceitei resignado a desforra. Ele tinha razão eu é que deveria ter sensibilidade para saber ou reconhecer os valores: a importância que desfilar na banda significava para cada um de nós.

Outro que me lembro de penar para entrar na banda foi o meu amigo Paulo Eurico. Um dia o seu pai subiu ao colégio para interceder junto ao Prof. Talvane para que o filho tocasse um instrumento. Eu não participei diretamente dessa, isso pode ter sido coisa do Zeno, do Perobo, ou do Caio ou do Mussi. Não é que o Paulo Eurico ficou entusiasmado com a função de carregador de baqueta. Seguinte, orientou o Prof. Talvane: você vai com o uniforme da banda, com dragão e tudo e se alguém que estiver tocando no desfile tiver sua baqueta quebrada você imediatamente a substitui. Ainda ouvi-o afirmar: você tem uma das mais importantes funções a de não deixar a banda parar. Eu fiquei indignado com aquela função, mas eu percebi que o Paulo havia sido orientado que se desempenhasse bem sua função, no ano seguinte, poderia passar para outra de maior destaque.Valia a pena esperar um ano, e quem sabe tocar a caixa velha recuperada pelo Ducaja.

E os instrumentos, melhor, da hierarquia dos instrumentos na banda: na frente os bumbos com o bumbo mor; depois os surdos; as caixas tarol (o máximo! Só as tocavam os caras "bãos" - Silvério, Mussi, Lopinho, Perobo); os tarois; as caixas. O cara que tocava o bumbo mor deveria ser forte e resistente para agüentar o ritmo - no meu tempo era o Rui Seligman (Maria da Toka), o Hiltom (The Best,) o Paulo Rufino (Paulista) . Os que tocavam caixa tarol eram bateristas de primeira categoria e os dos tarois eram os "primeiros perus", aspirantes àqueles e, na última escala hierárquica, os das caixas eram os que apenas eram razoáveis.

No encontro de 2003 o Davis Tendler me fez ver que trazia, no seu automóvel, seu instrumento uma caixa tarol especialmente comprada para o desfile. Estava muito bem tratado, brilhando, afinadíssima fiquei pensando na importância da banda para muitos de nós.

Havia um corneteiro mor função que ocupei por um ano e passei com merecimento para o e Zeno que passou para o John Aune que eram, ambos, muito melhores que eu. O Prof. Talvane percebeu minha indisposição, quase preguiça, para aquela coisa que me colocou para desfilar com o símbolo do dragão na frente do colégio. Lembro-me da conversa dele dizendo: você é quem abre o desfile; não se distancie muito do pelotão da banda; mostre garbo, entusiasmo... era uma conversa estimulante bem parecida com a que o Paulo Eurico foi enganado.

Sim, um dia o Prof. Talvane se vira para sua equipe de comando e nos convoca para uma viagem até o Rio para comprar novos instrumentos para a banda do CNF. No dia seguinte, cedo pela manhã, lá estávamos a postos: Zeno, Perobo, Caio, e eu. Fomos no Jeep Willians Overland do colégio que estava à disposição do Prof. Talvane. Ainda, na saída de Friburgo fomos detidos por um guarda rodoviário que nos pediu documentos e nem nós alunos nem o mestre tínhamos qualquer tido de identidade. Lembro-me de um telefonema salvador para o prof. Amauri que falou com o guarda e disse da importância de nossa missão e fomos liberados.

Continuamos viagem sempre em velocidade superior a que era permitida na estrada Rio- Friburgo e os comentários do Zeno começaram a ser feitos pedindo que fossemos mais devagar. Nas cidades, fomos via Niterói, não foi obdecido nenhum sinal e o mestre dizia: -- esse sinalzinho aqui nos vamos, assim, como quem não quer nada e ia passando em frente. Zeno não se sentia bem e eu achava que estando com meu caro professor, meu amigo, nada poderia acontecer, como, aliás, não aconteceu.

Chegamos e estacionamos em frente às barcas da Cantareira e o Prof. Talvane recomendou: eu vou ao banco tirar dinheiro para as compras e devo demorar em torno de uma hora. Uns cinco minutos depois Zeno disse: vamos dar uma volta de Jipe pelo Castelo, fazer um lanche no Bob's, o Chermont dirige. Concordei, com certo receio de ser surpreendido com a chegada inesperada do Prof. Talvane, mas lá fomos nós para uma grande aventura.

Lembro que emparelhamos, nós, quatro moleques sem muita responsabilidade em um jipe sem capota, com um Mercedez Benz e, evidentemente, todos nos viramos para ver quem estava naquele carrão. Era um japonês que parecia um embaixador, sentado no banco de traz, com um detalhe que ele estava com o dedo no nariz e percebi logo o comentário do Zeno: - porra Japonês tu de Mercedes metendo o dedo no nariz; onde é que tu vais passar essa meleca; passa aqui no nosso Jipe, porra!

Chegamos a tempo, antes do mestre Talvane e tudo deu certo e lá fomos fazer as tais compras para a banda. Entramos em uma loja no centro da cidade e começamos a escolher peças comuns das fanfarras. Em um certo momento vi o mestre empolgado com um tambor (surdo) que tinha um tamanho avantajado. Participei da negociação indagando quem tocaria um surdo daquele tamanho. A resposta foi imediata: Rui Leão. Alguém disse: - então tem que comprar dois, para que forme um par, o outro será tocado pelo Gilberto Leão. Todos concordaram e aquelas peças foram o grande sucesso da operação compra de instrumentos.

Sim, seguimos viagem de volta para Friburgo e, na Av. Brasil, Zeno se vira para o Prof. Talvane e, com a intimidade proporcionada por quem passou um dia de viagem, reclamações, compras de surdos e absurdos, pede: - "Tata", vamos dormir no sítio do Paulo Perobo, nós estamos cansados, vamos pegar uma estrada... O nosso íntimo Tata fez a curva no primeiro retorno que viu e lá fomos nós para Campo Grande onde Perobo, Caio, Zeno, Mussi, eu e Tata, jogamos sinuca, tomamos banho na piscina, comemos uma galinha preparada pela esposa do caseiro, enfim fizemos uma farra completa bem ao gosto de uma saudável juventude!

Chegamos ao CNF e na primeira reunião da banda foram distribuídos os talabares, baquetas, couros, tambores, etc. com a liderança do Tata, não do prof. Talvane. E, os dois surdos foram passados aos irmãos Leão. Como tudo no CNF, os instrumentos ganharam logo um apelido - absurdo - e, no primeiro ensaio, o assunto dominante foi observar aquela combinação perfeita dos absurdos e os Leões.

Rui Leão esteve no encontro de setembro de 2003 vindo do Paraná onde reside ainda hoje, e, no desfile, quarenta anos depois, estava tocando seu absurdo com todo entusiasmo. Como eu estava na guarda de honra, vez por outra, eu me virava para ver as reações de Rui. Seus filhos o aplaudiam e quando havia uma parada eles se aproximavam e se abraçavam emocionados. No meu pensamento veio o Gilberto Leão, bom amigo, cnfino de primeira linha, conversa agradável onde predominava o automóvel -, a indústria automobilística no Brasil estava iniciando naquela época. Rui comentou comigo sobre a morte prematura de Gilberto - o coração o traiu - ficou a lembrança de pessoa terna, amiga e, com certeza, a de exímio tocador de absurdo.


Abril de 2005.

 

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Robert Henry Grossmann
Afonso Brito Chermont
 
Os Irmãos Grossmann, todos louros, com cara de ingleses, eram chamados por nós de Grossmann, porém quando o diálogo era direto nós os chamávamos de John, Bob e Grude (esse apelido era porque seu irmão o chamava, com sotaque, de Rudy), respectivamente, do mais velho para o mais novo. No Colégio Nova Friburgo era sempre assim: chegavam os irmãos e uns eram tratados pelo sobrenome outros pelo apelido.

Fomos companheiros no CNF de um mesmo período. Jogávamos basquete e participávamos da vida do CNF em tudo.Bob serviu o Tiro de Guerra comigo. Grude, o mais novo, fez uma ponta numa apresentação no clube do teatro do Professor Mário Castilho que resultou em um acesso de riso que não pode mais ser contido prejudicando o andamento da peça. O riso contagiou e contaminou (para ser mais preciso) a todos que estavam na platéia e o espetáculo teve de ser interrompido.

John, o mais velho, no basquete, jogava somente na defesa. Dizia que seu maior prazer era não deixar que os outros fizessem cestas e, por isso, sempre discutíamos nas nossas intermináveis peladas que realizávamos na permanência (aquele período que os que não eram que ficávamos no colégio por morarmos longe).

Convivi muito com os irmãos, um pouco mais com os dois mais novos. Eles me diziam que não eram Ingleses e sim, tinham descendência de Suíços. Moravam em Matão, Estado de São Paulo, da mesma terra do Irso Lunardi. O pai deles, acho que era agrônomo, trabalhava para uma grande fazenda do Grupo Rockfeller. Causava-me espécie quando eles me explicavam, que naquela época, final dos anos cinqüenta, a fazenda era toda mecanizada. Tudo era feito de forma planejada e automatizada. A produção era função do mercado.Concluo, hoje, que o que falamos em tecnologia deveria estar sendo utilizado naquele momento. No meu pensamento, à época, ficava um conflito: como o Marajó consegue ter uma pecuária produtiva quando nada era planejado, não havia automação, os pastos eram naturais, o gado andava distâncias enormes para procurar capim, etc.

Diziam-me que eram bolsistas do grupo Rockfeller e que o Lunardi também o era. Ele passou em um concurso e pôde ir estudar no CNF.

Recordo-me dos ensaios da banda: O John tocava surdo o Bob caixa e o Grudi não tocava porra nenhuma. Na condição de mais novo acho que sempre alegavam que a família já estava sendo privilegiada.

Estive, um período mais próximo a Grudi. Ele era meu professor de Inglês e além de procurar me ensinar a língua na hora da prova me dava uma “ajuda” bem forte. Não confesso que era cola por que tenho medo que alguém queira retroagir e me obrigar fazer uma segunda época.

Tínhamos afinidades: uma delas era de trocar de suéter para variar ao descer a cidade e impressionar as meninas. Realmente, Bob e eu, fazíamos isso com a convicção de que as pessoas com que íamos nos encontrar podiam estar pensando, no mundo ingênuo que vivíamos, que esse cara deve ser o “bom” com vários suéteres!

Dentro dessa perspectiva de afinidade lembro de outra: usávamos um creme no cabelo chamado Bill Creen. Não era frescura não, todos aqueles caras, com pinta de machão, passavam esse creme ou a clássica brilhantina. Dava um brilho no cabelo e fixava mais o penteado. Sei que eu sempre pedia ao Bob que me emprestasse um pouco do creme e ele, sempre solícito, além de colocar um pouco na minha mão do produto me explicava como eu deveria passar no cabelo (nas laterais da cabeça) e como eu deveria me livrar na gordura que ficava nas mãos: - V. lava bem com sabonete e enxugue bem com uma toalha.

Tanto o Grude como o Bob me visitaram em Belém. Estivemos juntos anos depois de estarmos no CNF. Grudi, morava em uma fazenda em Mato Grosso. Robert estava morando em Salvador e, como engenheiro, estava procurando negócios ou outras oportunidades para si.

Lamento muito o trágico falecimento do Bob como nos comunicou John.Quando comecei a escrever tive a idéia de homenageá-lo e acabo tendo recordações muito alegres de nosso passado Cenefefista. Então, com a alegria dessas agradáveis recordações me despeço de Bob.

Fevereiro 2005


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Rio de Janeiro, 1958
Afonso Brito Chermont
 
Lembrei 1958. Saí do Pará em companhia de meu pai Rodolfo Chermont meu irmão Paulo Chermont, estavam conosco, um amigo de meu pai Atreu Baena e seu filho Emílo Baena. Descemos no aeroporto do Galeão, após voar por seis longas, horas no super G Constelition da Panair do Brasil, vindos de Belém . No Rio, fomos procurar hotel. Naquela época não se podia fazer reserva pois um telefonema levava em média seis horas para ser completado.

Lembro que era um táxi, tipo camionete, e cabiam todos. Foi à primeira vez que fui ao Rio e tudo para mim era deslumbrante: Era verão e os hotéis estavam lotados. Procuramos vagas em toda orla e não conseguimos.

As idas e vindas de em torno de Copacabana foram longas, mas confesso que foram extremamente prazerosas visto a beleza do lugar. Tudo era muito harmonioso: A montanha entrando no mar, a praia, os casarões, os modernos edifícios e , acima de tudo, a beleza das pessoas, especialmente as mulheres,que as observava melhor, é claro, todas bronzeadas e exibindo esculturas privilegiadas.

Não havendo vaga, fomos para o Flamengo e conseguimos encontrar acomodação no Hotel Novo Mundo. Era um hotel bom! Ficava na Praia do Flamengo, esquina da Rua Silveira Martins. Do outro lado da rua estava o Palácio do Catete. As pessoas que trabalhavam no Novo Mundo diziam que se déssemos sorte poderíamos ver o Presidente Getúlio Vargas que ali morava.

Nesse hotel vivia o cantor Caubi Peixoto e seu fã clube, vez por outra, se reunia lá e fazia algum barulho. Recordo tê-lo visto, inclusive, usando uma camisa gola canoa, com decote, que não achei nada adequada para o uso de uma simples pessoa vinda do Pará, com preconceito e visão descompassados. Tempos depois a usei, forçado pela moda, não sem antes imaginar que não haveria problemas de pensarem que eu era bicha.

No Novo Mundo se hospedava, também, o time do Santos de Pelé, que ainda não era conhecido pois o período que me refiro era no início do ano e ainda não havia sido jogada a Copa do Mundo de 1958 que o Brasil foi campeão e, assim, o Santos era somente um bom time. Disputavam um torneio Rio São Paulo. Lembro que fui assistir um jogo no Maracanã por causa do Santos que estava no hotel.

O nosso primeiro passeio foi na direção do Hotel Glória que fica a poucos passos, dobrando a esquerda, do Novo Mundo. Meu pai se hospedava no Glória quando ia ao Rio e queria rever o hotel.Fomos, parar na Colombo da cidade. Acho que era na Rua do Ouvidor passando a Cinelândia. Recordo meu pai recomendando que fossemos de paletó justamente para que pudéssemos entrar nesse restaurante. Aliás, não era um restaurante, era uma casa com decoração muito fina e muito rica de detalhes rebuscados que não sei bem definir o estilo. Os garçons eram impecáveis e serviam com muita dignidade. Tenho uma foto, desse momento, tirada por um profissional que se apresentou e disse que levaria dois dias depois o retrato quando seria pago. Tenho a foto e quando achá-la vou disponibilizar para o site CNF.
O Rio era deslumbrante: a beleza natural e as construções que abrigavam a Câmara, Senado... era a capital da república e assim tudo muito bonito e muito bem tratado.Os bondes ainda eram um importante meio de locomoção faziam parte e compunham o desenho mágico da cidade.

Isso tudo era muito bonito mas eu queria voltar para Copacabana para ver as moças e, isso, ficou claro para o meu pai e o do Emílio Baena. Inclusive argumentávamos: daqui uns dias nós vamos para Friburgo, para um colégio interno, e não teremos mais muitas oportunidades de ver a praia.

A generosidade de meu pai foi grande: falou com uns amigos e pediu que disponibilizassem uma pessoa mais jovem para que pudesse mostrar uma outra parte do Rio. Certo dia aparece o Sr. Lucas, um jovem, uma pouco mais velho que nós, e sugere que déssemos uma volta por Copacabana e que, posteriormente, nos levaria a um lugar muito especial.

O programa começou cedo, no início da noite, justo por Copacabana. Pelo horário as moças com maio duas peças (meu maior sonho para o momento) não mais estavam com essa e traje, mas observei, no calçadão, nos bares, que elas mostravam o bronzeado com decotes que permitiam ver a sua cor natural e o moreno trabalhado pelo sol.

Eu ficava pensando no privilégio que era o Rio de Janeiro – uma cidade lindíssima, servindo de moldura para pessoas bonitas e alegres com a vida.Pensei dentro de mim: o Brasil é tão grande e tu vais nascer lá no Marajó!

Bom, e o outro lugar que seria muito especial? Será que poderia ser melhor do que o que eu estava vivendo em Copacabana?!

Lá fomos nós Paulo, Emilio, eu e o nosso anfitrião Lucas. No táxi observei que ele falou ao motorista: Rua Alice, 500, Laranjeiras. Eu não entendi nada. Lá chegando vislumbrei um casarão de vários andares. Entramos pela porta principal e demos de cara com moças belíssimas, bem vestidas, cheirosas (só senti depois).

Pensei que era uma festa de aniversário e que iríamos fazer parte dela... fizemos parte, sim, de outra coisa! O Rio me parecia cada vez mais bonito!

No dia seguinte recebemos um telefonema do pai do Emílio perguntando se sabíamos onde ele estava? Não, não sabíamos. Somente muito mais tarde Emílio voltando ao hotel disse que estava na Rua Alice! Foi absolvido.

Meu pai,o pai do Emílio e ele próprio são falecidos. Emílio esteve em minha casa, faz uns cinco anos atrás, dizendo que queria ir ao nosso encontro de setembro e queria combinar para irmos juntos.Concordei, é claro, e até sugeri que fossemos visitar Copacabana dispensaríamos ir a Rua Alice visto não mais haveria razão para tanto e, mesmo porque, provavelmente, não mais existiria casa com essa especialidade de serviços.Iríamos ao Bob’s ao Mac Donald no máximo. A praia não teria muito sentido por causa do calçadão que levou o mar para distante e as moças ficaram velhas e não mais usam duas peças.

Janeiro de 2005

 

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Dirceu Bonacim (Negão)
Afonso Brito Chermont
 
Faz pouco tempo que o colega Sérgio Pacheco colocou na Internet - Rede CNF - uma foto da 4º "A" e, depois, com as intervenções do Márcio Dorneles, Silvério Ortiz e outros, me despertou a idéia de fazer a algo idêntico com a fotografia que antecedeu um jogo de basquete que fizemos, em uma rápida preliminar, com o time do Flamengo. Naquela altura, o maior time do Brasil onde pontificava a figura máxima do Algodão, atleta da seleção brasileira e de muitas glórias nessa modalidade de esporte que, era, de longe, depois do futebol, o esporte mais popular no Brasil. Aliás, o Gerazime Bosiks (Grego), ex-aluno do CNF e, hoje presidente da Confederação Brasileira de Basquete, deve ter isso bem em mente.

Estivemos, remoendo nossas lembranças no intuito de recordar os nossos colegas que jogaram aquela partida. Lembramos que a emoção era tanta que no início do jogo o juiz deu a partida e eu pulei, rapidinho, atrás da bola, querendo ser esperto, e a toquei antes que o enorme pivô, de dois metros de altura, Waldir Borcado, o fizesse. A bola caiu na mão do Márcio que rapidamente partiu para cesta deixando lá dentro, O juiz, que acompanhava a delegação do Flamengo, logo, interrompeu o lance anulou a cesta e se virou para o Márcio e disse: - Você tem que atacar sempre para o lado em que você estava aquecendo. Foi assim o lance da cesta contra, inédita no mundo, que o Silvério sempre se refere enchendo o saco do Márcio.

No nosso time jogava o Dirceu Bonacim, a quem carinhosamente chamávamos de Negão. Esse apelido surgiu pelo fato de que a todos ele tratava de Negão. Recordo que ele incentiva: vai Márcio, volta Chermont, boa Silvério,...! Deduzo que assim ficou, pois seu tipo brancão, tipo paranaense, não sugeria qualquer outra conotação.

Negão era do Paraná. Acho que de Londrina embora em me lembre que ele falava das terras de Andirá, quando conversávamos sobre agricultura ou pecuária. Além de basquete falávamos de nossas regiões. Sei que sua vocação se voltava para a terra. Isso se tornou realidade, pois que estudou Agronomia e se tornou em técnico de renome no Paraná.

Uma ocasião fomos jogar em Minas, em Viçosa. Como nosso adversário jogou um ex - colega, meu prezado amigo Helvécio Mattana Saturnino (Mineiro) com quem encontro, vez por outra, e, com imenso prazer, recordamos das coisas do CNF. Acho que alí, Negão deve ter tomado a decisão de estudar na Universidade de Viçosa associando, então, sua vocação pelo trabalho com a terra. Deve ter ajudado nessa decisão o fato da universidade oferecer excelentes condições para a prática de esporte, outra sua paixão.

Negão era aluno de ponta, amigo, vibrante em tudo que fazia, demonstrava sempre uma enorme alegria pela vida e a tudo tratava com seriedade, Dava para perceber, naquela época, que ele seria um homem de sucesso na vida.

De fato: uma ocasião, já nos anos oitenta, eu tinha com algumas pessoas uma empresa de mecanização agrícola que por acaso o Silvério conheceu quando esteve comigo em Belém. A interesse dessa firma fui ao Banco da Amazônia em busca de elementos que fizessem com que a empresa pudesse desenvolver suas atividades ligadas à agricultura e pecuária. O técnico que me recebeu no BASA sugeriu que eu conhecesse um empreendimento que estava sendo implantado no Maranhão, próximo de Santa Inês e Santa Luiza. Disse-me que um grupo de agrônomos do Paraná estava fazendo uma exploração apoiada em tecnologias modernas que sugerem o melhor aproveitamento da terra e citou o nome de algumas pessoas que devia procurar para conhecer o empreendimento, dentre as quais, o agrônomo Dirceu Bonacim.

Fiz alguns contatos e, dentro de pouco tempo, estava eu no Maranhão para conhecer o empreendimento e encontrar o meu prezado amigo Negão. Recordo do nome de um sócio do Dirceu que se chamava Francisco Simeão, conhecido por ter sido Secretário de Agricultura do Paraná e ser empreendedor na Amazônia.

Na primeira oportunidade indaguei sobre o Dirceu Bonacim. O Sr. Simeão me respondeu que o meu amigo havia falecido em circunstâncias terríveis.
Helvécio me conta que Dirceu saiu de Andirá, para celebrar 10 anos de formado na UFV, em Viçosa, MG, com sua mulher Eneida, pilotando o avião do seu grupo e a fatalidade de um desastre, decorrente de um temporal, roubo-lhe lhe a vida.

Helvécio conta, ainda, que os filhos de Dirceu já formados, irmão e irmãs vivem em Curitiba e que foi ele um dos precursores na introdução do sistema Plantio Direto no Brasil, participou de trabalhos pioneiros em Andirá, no final dos anos 60. Esse sistema evoluiu em todo o Brasil e constitui-se no existe de mais relevante em cumprimento de compromissos internacionais expressos na AGENDA 21, sendo hoje motivo de orgulho brasileiro e de atenções de vários organismos internacionais. E o nosso grande Negão, do teatro, do basquete, do nosso CNF, foi um dos partícipes no início dessa fantástica saga. Também, como pioneiro, ele já empreendia no Sul do Maranhão.

Em um desses nossos encontros de setembro o Evandro Pinto comentou comigo: - Chermont, e o Negão que não aparece? Relatei a circunstância deixando o meu amigo Fifico perplexo.

Concluí, com a indagação do Evandro, que o Negão não poderia faltar aos nossos encontros. Justifiquei sua ausência e peço ao Silvério, Marcio, Limonada, Paulo Aurélio, Fifico, Lunardi, Assis, Carlinhos, Maurício Vieira enfim todos que estão naquela foto, do jogo do Flamengo, que abonem a falta do Negão. Estou certo de que nosso inesquecível amigo estaria presente no nosso meio transmitido sua força, garra, sabedoria que, em outras palavras, significa: saúde, saber e virtude.

Helvécio Matana Saturnino - colaborou com sobre o Dirceu Bonacin a quem agradeço.

Janeiro 2004

 
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Xingu e Umas Coincidências
Afonso Brito Chermont
 
Lembrei de um dileto amigo que fiz quando estava no CNF. Trata-se do prezado Artur Alvarez Junior – Xingu para o cenefistas. Era o goleiro do time de médios e, depois, do scratch (era assim que nós nos referíamos às seleções do colégio). Após o CNF / Friburgo continuamos a nos visitar e tivemos intenso convívio, ele morando em Manaus e eu em Belém. Construímos uma sólida amizade a qual orgulhávamos, ao dizer para os outros, que datava desde nossa longínqua infância. De fato, o conheci em 1958 quando ingressamos no CNF e, desde essa época, mantivemos um laço que só foi desfeito com a morte prematura – o coração o traiu – de uma pessoa que lembro, sempre, pela sua alegria, bom humor, brincadeiras, etc. Foi muito bom tê-lo como amigo, sinto uma enorme falta do seu convívio.

Lembrei dele porque tive de ir a Manaus e marquei um vôo que chegava pela manhã marcando, minha volta, logo, para o final da tarde. O que eu ia ficar fazendo lá se não mais tinha mais meu amigo para conversar e me divertir com as lembranças de nossa infância juventude no CNF? Nesse dia telefonei para o Leo, seu filho, e conversando, revelei minha imensa saudade de meu dileto e caro amigo.

Uma vez Xingu estava em Belém e eu contei um caso de um piloto da Tansbrasil que voando de Brasília para Belém pousou no aeroporto errado. O imenso avião aterrizou no aeroporto destinado a aeronaves pequenas que fica muito perto do aeroporto principal que recebe os vôos de carreira normais. O piloto foi chamado atenção por um deputado federal que viajava na primeira fila e, acostumado a fazer essa viagem, percebeu logo o inusitado. O piloto admitiu o erro e, na mesma hora, levantou vôo e, dois minutos após, pousou no aeroporto certo. Esse fato foi comentado na imprensa: uns cogitavam de gravidade do problema; outros, do desconhecimento do piloto; e, alguns, diziam, sim, da sua habilidade em pousar e decolar em uma pista muito curta.
Xingu e eu comentamos um pouco mais sobre o assunto e demos o caso por encerrado.

Muito tempo depois, um belo dia, recebo um telefonema de Manaus. Do outro lado estava o meu caro amigo Xingu. Falou-me: lembras da história do piloto que pousou na pista errada? Esse cara está aqui na minha frente. Ele voa em uma companhia cargueira e veio a Manaus para entregar-me um lote de mercadorias para minha empresa. Achei, eu, interessante a coincidência.
Xingu acrescentou que as coincidências não ficavam por aí: o piloto era de família de Nova Friburgo, conhecia o CNF e era parente da esposa do Maurício Ruiz (Maurição), de quem sou muito amigo, também, desde essa nossa época de Friburgo. Mais precisamente era primo de Marga esposa do Maurício. Falei com o comandante e lhe desejei boa sorte e que pousasse sempre no lugar certo. Ainda, no mesmo telefonema, falei com Xingu e pedi para que tomasse umas por todos nos sem os limites que nós nunca impusemos aos nossos organismos.

Pois é! Mas, esse episódio do piloto, que marcou nossos pensamentos (do Xingu e o meu), não se encerrou por aí. Verdade, em setembro de 1999, fui ao encontro do CNF, como sempre tenho feito nos últimos vinte anos. Vou, normalmente, na quinta feira e retorno no domingo direto para Belém em um vôo que saí no início da noite. Combinei de descer para o Rio com o meu amigo Paulinho Souza (Perobo), antes, sugeri que passássemos no sítio do Maurição e Marga, fica na estrada que vai para Teresópolis, que eles estariam, como sempre fazem, oferecendo um churrasco para quem de nós, ex-alunos, quisesse participar.

Fomos muito bem recebidos pelo casal de amigos e em dado momento Maurição, de forma muito cortez, me apresentou uma pessoa dizendo ser piloto e que viajava bastante “para o lado de tua terra”. Comentei com o Perobo a história e disse que tinha quase certeza de que se tratava da mesma pessoa que pousou no aeroporto errado e que havia se encontrado com o Xingu em Manaus...

Combinamos, Perobo e eu, de nos aproximar do cidadão e, na conversa, fazermos algumas perguntas para ver se tudo se confirmaria. Sentamos na mesma mesa e começamos um processo interrogatório para satisfazer àquela curiosidade. As evidências já estavam postas à mostra, não havia, no campo teórico, qualquer dúvida e a confirmação poderia acontecer com umas poucas perguntas do tipo: E aí amigo, tem voado muito para Belém? E Manaus? Você é parente da Marga? Como?...

Deu tudo certo! Ele respondeu que havia sido piloto da Transbrasil e que voava diariamente para Belém, depois saiu e foi trabalhar em uma empresa de aviação cargueira e que viajava muito para Manaus, trazendo e levando produtos da e para a zona franca de Manaus. Seu parentesco com Marga ocorria realmente, eram primos, e moravam na mesma cidade – Cantagalo (quem vem do Rio fica a poucos quilômetros logo depois de Friburgo).

Cheguei a Belém e pensei em telefonar para o Xingu como fazia com certa rotina no passado. Não pude mais fazê-lo, o meu amigo já tinha ido. Estava em outra. Acho que está, gozador como ele só, se divertindo às minhas custas porque fico pensando em coincidências, aqui e ali, para me permitir lembrar dos meus amigos, diletos e caríssimos, forjados na escola cenefista que a vida nos concedeu em quantidade e qualidade.

Fevereiro / 2002

 
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Grande Gastão
Afonso Brito Chermont
 
Estava eu, um dia, em minha casa usando uma camiseta com o símbolo do CNF, desenhado pelo Clóvis Cavalcanti, que eu havia comprado em um desses encontros de setembro, quando, um telefone toca e, do outro lado, uma pessoa se identifica como um ex-aluno do Colégio: eu sou o Gastão Guimarães; fui seu contemporâneo na Fundação; eu era da turma do Branco, do Gondim da Fonseca, do Zé Pedro etc. Localizei-o no tempo tive a sensação de que o tinha na minha lembrança.

Pensei, comigo, deve ter sido a camiseta que atraiu alguém do colégio para um bate papo.

Gastão e eu conversamos sobre aquela época: os amigos, a escola, os professores, as molecagens. De repente ele disse que ia me contar uma que não havia esquecido. Aconteceu quando de uma descida para casa em um fim de semana prolongado. O ano acho que poderia ser 1962. Gastão e alguns amigos, resolveram ir a um bar (acho que era o Sain Tropez que ficava em uma esquina oposta ao Alkasar) na Avenidas Atlântica em Copacabana na beira da praia, não havia, ainda, o aterro com o calçadão. Estavam: Gastão, Branco e outros, todos muito novos e iniciaram uma farra com direito a chope, batata frita, e tudo que uns garotos de 16, 17 anos tinham direito.
No melhor da festa resolveram consultar quanto dispunham para pagar a conta que, aquela altura, já devia estar bem alta. A surpresa foi grande ao perceberem que não tinham dinheiro suficiente para pagar a já, então, enorme conta. Um estava confiando no outro e só cogitaram de fazer as contas quando a situação estava irremediável. Aquilo que afigurava uma farra sem precedentes, histórica, começou a preocupá-los e, inocentes, deram a entender ao garçom o que estava acontecendo que, por sua vez, lhes transmitiu de que as conseqüências daquilo poderiam ser bem graves.

Pensaram em sair correndo mas, perceberam que a segurança do bar já havia tomado as providências de escapar daquele calote. O que vamos fazer? Perguntavam um para o outro. Era gravíssima a situação. O que nos vamos fazer? Não havia solução!

Conta o Gastão que no meio daquela circunstância aflitiva eu apareci andando por Copacabana em frente ao bar. Fui saudado efusivamente. Gritavam: Chermont, surgiu um anjo, o nosso salvador, viva! estamos salvos!...Graças que eu tinha algum dinheiro, também não era muito, pude pagar a conta e por fim no drama que meus colegas, mais novos, estavam passando.

Contou-me Gastão, ainda, que quando subimos para Friburgo eles fizeram uma reunião formal e foram em comissão me ressarcir o prejuízo. Disse-me que não aceitei o pagamento e propus que fizéssemos uma outra farra para que tudo ficasse em dia.

Não me lembro de que isso tudo tenha acontecido. Ligo alguns fatos e como tenho estado com o Branco nos encontros de setembro da Associação vou pedir outras informações e detalhes. Acho que ocorreu tal qual o Gastão contou-me pois Branco sempre me trata com uma consideração especial: faz dois anos ele me deu de presente uma foto de 1963 do time de futebol do colégio. Aliás, melhor, vou pedir para que eles me paguem as despesas numa próxima farra quem sabe no próximo setembro.

Gastão, no mesmo telefonema, me contou outras travessuras da época me contou das tristezas também. Me disse que somente está vivo por causa de duas pessoas e respectivas habilidades: do amor de Maria Cláudia, sua mulher e pelo Dr. Paulo Niemayer que o operou. Ele teve conseqüências graves dessa operação e a sequela maior foi a que o deixou cego, em definitivo.

Maria Cláudia, que é médica, o ajuda viver e devota ao nosso Gastão todo o carinho do mundo. Lê e interpreta os escritos que estão publicados no site do CNF, ela nos conhece, a todos do CNF, pelas fotos e transmite a impressões ao seu marido.

O exemplo de vida do Gastão, muito ligada ao Cnf, me emociona. Toda vez que ele fala com um ex-aluno ele me transmite o encontro, a conversa. Mandou-me uma foto em que aparecem: ele, Maria Cláudia; Fernão Gondim da Fonseca e esposa Vera; e Sérgio Fernandes Rodrigues e esposa Maria Regina. Contou-me que foi recebido em um almoço pelo Sérgio na sua Fazenda em Barra do Piraí e descreveu a casa sede como uma construção antiga e muito bonita. Somente uma pessoa cheia de sensibilidade pode fazer tal descrição!

Gostaria de poder aparecer novamente perto de Gastão, como um anjo, como um salvador, igual aquele do bar Sain Tropez e de lhe tirar de uma outra situação de embaraço. Infelizmente nossos poderes ficaram reduzidos, quem sabe, porque nos falta a juventude daquela época dourada. Vou propor ao Gastão que no próximo setembro nós nos reunamos. Vamos a um bar e não vamos levar dinheiro, vamos tomar uns, muitos, chopes e batatas fritas. Vamos fazer uma farra sem precedentes, histórica. Vamos exigir tudo que os jovens cinqüentões têm direito.

Evidentemente não será saindo na corrida, não somos mais jovens para tanto, que resolveremos o problema, mas, com certeza, a nossa sabedoria haverá de dar uma solução. Se não houver uma saída vamos ter que pagar mesmo, mas seremos compensados com nossas conversas, atualizaremos nossas idéias, falaremos de amizade, de camaradagem e lembraremos dos anos vividos no CNF.

Janeiro de 2001


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CNF - Uma Visão Sistêmica
Afonso Brito Chermont
 
Tenho, no meu pensamento, tentado identificar o que está por trás e o que envolve, nos dias de hoje, o antigo CNF e seus convivas – professores, alunos e funcionários. O que faz permanecerem unidos numa convivência que parece definitiva? Nos vinte e sete anos de existência do Colégio Nova Friburgo (inaugurado em 1950 e fechado em 1977) passaram muitas pessoas, muitos alunos, que receberam um treinamento muito especial para a vida , esse treinamento é o que acredito ter sido o fator que unes a nos todos. Um curso ginasial e científico, ou de 1º grau, como se diz na linguagem da educação de hoje, é mais importante que o ensino superior, por várias causas: primeiro, porque, ocorre na mesma época em que o jovem está em plena transformação física e mental, passando para adolescência, o que é uma significativa mudança na sua vida; depois, porque, a juventude atravessa o complicado processo de definição daquilo que está querendo ser como comparticipe da sociedade.


É justo nessa fase que os jovens, que se transformarão nos homens de influência na sociedade, precisam de melhor atenção e cuidados especiais. Qualquer deslize, nesse período, poderá ser fatal na formação de suas personalidades.


Considerando esse aspecto é que consigo entender como o CNF foi importante na nossa formação. Os que hoje comparecem e se confraternizam, nos encontros da associação, estão a clamar e ressaltar a educação, sem deslizes, que lhe foi concedida no momento da plenitude do Colégio Nova Friburgo.


Esse aspecto é relevante mas, não foi só isso, o CNF nos deu muito mais. Nos deu uma visão sistêmica do país. Lembro que logo que cheguei me sentia com cara de búfalo do Marajó. Ficava pensando como era possivel eu estar falando a mesma língua, com diferentes sotaques é claro, com um cara de Santa Catarina, do Paraná, etc. Eu olhava para os paulistas, com certa desconfiança, porque diziam que eles eram imperialistas e que dominariam o Brasil logo-logo. Os nordestinos, (grandes figuras!) eu os imaginava, na minha ignorância infantil, uns caras bravos. Lembravam-me a figura de Lampião (um dos raros filmes, nacional, que eu havia assistido até então) e me assustavam com uma valentia, talvez, desnecessária. A minha vingança é que eu achava a Maria Bonita uma merda de mulher e, então, eu generalizava: vão todos ter que se contentar com as suas feias Marias Bonitas. Eu vou querer para mim uma cabloca, cor de jambo, linda, brejeira, perfumada com cheiro de açucena ou, quem sabe, uma alemã ( tipo Vera Fisher ) que estaria alí, por Murí, perto de Friburgo e, não menos cheirosa.


A visão sistêmica a que me refiro não se restringe ao aspecto das características do nosso povo, na minha visão ingênua e singela. O CNF me ensinou, com a convivência com pessoas das diversas regiões do Brasil, e eu passei a entender que as diferenças existiam mas poderiam ser diminuídas, que todos pudéssemos nos sentir, de forma homogênea, brasileiros; que o
nosso nível de conhecimento poderia ser mais próximo; que as nossas oportunidades fossem definitivamente equivalentes. Adquirimos, sim, uma visão orgânica do Brasil, ficou dentro de nós um objetivo sistêmico. No fundo aprendi que somos todos iguais e que podemos conviver dentro de uma certa igualdade.


O CNF me ensinou, melhor, nos ensinou, a todos, que poderíamos viver uma democracia. A demonstração permanente de congraçamento entre professores alunos e funcionários apontava para essa direção. Havia autoridade, sem autoritarismo. A solidariedade existia como um laço ou vínculo recíproco entre nós. As lideranças se forjavam como que por imposição do próprio
grupo dependendo, diretamente, da atividade que se estava desenvolvendo. Não havia o chefe havia o líder com a noção perfeita da distribuição eqüitativa do poder.


O ensino no CNF fugia do tradicional: não havia a sala de aula e sim as salas ambiente que os alunos se deslocavam -- verdadeiros laboratórios com equipamentos e ilustrações específicas a cada matéria -- o que dava um caráter inovador e diferenciado de todos os educandários existentes; havia as atividades extra classe que proporcionavam, aos alunos, uma visão global das diversas áreas do conhecimento. Era possivel se ter uma boa noção das artes, sendo um aluno vocacionado para as ciências exatas. Era possivel ser um estudioso em matemática sem desconhecer a importância da música, por exemplo. Era possivel ser bom de estudo e de esporte. Como hoje, na moderna sociedade do conhecimento, a pessoa não pode, ser apenas um
especialista, o saber específico dá lugar a algo mais geral. Também, como na indústria, não se produz mais um bem, se cria, sim, um processo. O nosso CNF, já, naquela altura, insinuava isso tudo !


Então, visão sistêmica, democrata, generalista, e, com um certo tipo especial de liderança, isso tudo, faz parte do conteúdo do ex-aluno CNF aliás, muito bem definido em nosso símbolo – saúde, saber e virtude.


Em uma certa ocasião, muito anos após termos passado pelo CNF, identifiquei essa situação: estava em Brasília e, por acaso, soube que o Márcio Braga estaria tomando posse na Secretaria dos Esportes no Ministério da Educação. De imediato, fiquei interessado em prestigiar a cerimônia. Cheguei um pouco atrasado mais ainda ouvi o discurso do caro Márcio. Claro, que ele se referiu ao Flamengo com entusiasmo e, na mesma intensidade revelou sua gratidão pela escola da Fundação Getúlio Vargas – Colégio Nova Friburgo, onde ele aprendeu, entre tantas outras coisas, que a educação está intimamente ligada ao esporte, tratando-se, pois, de segmentos indissociáveis.


Dentro de sua linha de raciocínio Márcio disse que estava na primeira fila do auditório um seu ex-professor do CNF e que confirmaria àquela sua afirmação, referindo-se ao colégio como uma entidade modelar. O meu testemunho não foi solicitado porque eu não havia me apresentado, o fiz logo após o encerramento da cerimônia, quando, na presença de algumas pessoas ligadas à educação e ao desporto, sublinhei àquelas suas palavras. Márcio, em ato, me confessou ter duas paixões: referiu-se ao Flamengo e, evidentemente, ao CNF.


Nesse meu texto queria prestar uma homenagem aos professores, alunos, e funcionários do nosso CNF e, o faço, citando o Márcio, apenas ele, mas, em nome de todos nós, porque, ao reunir a todas as qualidades -- saúde, saber e virtude --, foi ele, com sua liderança, que iniciou os encontros anuais em Friburgo e, agora, temos a associação, fortíssima na sua visão sistêmica e seus pressupostos de democracia, que haverá de transmitir, para outras gerações, esses preceitos.

Belém / PA, Julho de 2000

 

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Túlio Roberto Cardoso Quintiliano
Afonso Brito Chermont
 
A imprensa tem noticiado, bastante, sobre a prisão de Pinoche. Em uma reportagem na TV ouvi sobre assassinatos de presos políticos e, em dado momento , quando se falava de cada brasileiro morto um mereceu, de minha parte, uma especial atenção: Túlio Roberto Cardoso Quintiliano.

Conheci Túlio no CNF, em 1958, ele era de uma turma onde estudavam: Silvério, Langoni, Adilson(que esteve conosco no último encontro, justo, na hora do desfile), Magalhães... O Silvério deve se lembrar, também. Claro que mantínhamos, no CNF, uma convivência muito fraterna. Lembro do Túlio jogando futebol(ouvia do Prof. Danni, que gostava muito de futebol, que ele era um craque), no meio de campo, com as meias abaixadas, cabeça em pé, passando certo. Como aluno ele era muito interessado: tinha um poder de se concentrar muito grande. Uma vez, Silvério fez um comentário comigo que guardei, até mesmo, como um ensinamento. Dizia: que o importante nos estudos é a concentração! " olha o Túlio – quando ele está estudando v. pode chamar que ele não te escuta". De fato, o que se discutia, no nosso pensamento quase infantil, era o poder da mente e sua ilimitada capacidade.

Bem depois, em 1961 ou 1962, recebi um telefonema do Túlio que estava em Belém visitando seu pai, o jornalista Airton Quintiliano, que escrevia aqui em um jornal que se chamava Folha do Norte. Fui ao seu encontro no hotel onde estava hospedado – Grande Hotel –, lembro-me bem que era no final de tarde e falamos muito sobre o cnf, os amigos, futebol, as mulheres daqui e de Friburgo, recordo de ter-lhe explicado as coisas da política no Pará. Era o papo da época! No dia seguinte saímos para um passeio, eu tinha um jeep Willis e o conduzi a alguns pontos de Belém. Túlio era muito detalhista, tudo para ele tinha uma explicação lógica. Também, disse-me que havia tomado açaí e que gostara mas, da farinha que complementava essa bebida paraense, não havia gostado. Quando eu ri dessa afirmativa, revelando minha indignação, pois, para mim, açaí com farinha de tapioca era uma de minhas comidas preferidas, tinha tanto valor quanto a rapadura para o Nordestino, ele justificou: sim, aquelas bolinhas brancas não tem gosto de nada.

Túlio era acima de tudo um boa praça. Na TV, quando da reportagem dos assassinatos dos presos políticos no Estádio Nacional de Santiago, saiu uma foto sua e pude rever seu olhar de um autêntico cenefinno, bom de cuca, bom de caráter e que o radicalismo daquele general, nos privou de sua convivência.

Outubro de 1998

Íntegra da última carta de Túlio aos familiares, escrita em agosto de 1973.
 
Santiago, Chile. Agosto de 73

Mamãe, mamãe Marieta, Seniro e demais, como vai você? Aqui nós vamos vivendo como podemos. A situação vem se tornando cada vez mais difícil. Há uma crise econômica bastante séria, com uma inflação cada vez maior. O Chile está sendo boicotado tanto externamente como internamente. Esta situação, patrocinada pela direita, vem se desenvolvendo e com perspectivas de gerar uma crise política. Alguns setores já estão se articulando para tentarem uma saída através de um golpe militar. Bem, se juntarmos a tudo isto a falta de alimentos e a dificuldade de consgui-los, faz com que não possamos ter segurança total para os próximos meses. Guerra civil e uma perspectiva que se comenta em cada esquina, em cada diário, em cada boca de chileno. Para aumentar nossos problemas, acabamos por perder nossa empregada e o difícil agora é conseguir uma com a mesma confiança que tínhamos na que perdemos.
Tive que pedir alguns dias de folga no trabalho para superar as dificuldades. Tomando em conta que Naná está em época de provas na universidade e que não pode perder o semestre, para não atrasar ainda mais sua formatura, e que não pretendemos que ela abandone os estudos, decidimos discutir bastante e resolver algumas coisas. Uma delas foi a de mandar provisoriamente Flavinha para o Brasil. Ela irá com a mãe de Naná que veio passar alguns dias aqui e vai aproveitar a viagem para fazer um exame num mianjioma (não sei se é o nome é este mesmo) que tem na cara. Vai ser examinada por médicos em S. Paulo e que são autoridades no assunto.
O tempo de permanência de Flavinha no Brasil será determinado pelo tratamento e pela melhora da situação aqui no Chile. Nós não queremos nos afastar dela, já conseguimos superar uma fase difícil, que foi criá-la até um ano, e se vamos nos separar nesta fase é porque racionalmente vimos e pesamos as dificuldades que ela poderia passar, tanto materiais, como assistenciais.
Mamãe Marieta e Tania se ofereceram para cuidá-la. Vou discutir com Naná e ver o que podemos fazer. No momento atual vai ficar com a mãe de Naná, o que vai ser facilitado inclusive pela estada dela no Chile e irá levá-la pessoalmente para o Brasil.
No mais, Flavinha está bem, um pouco resfriada, mas bastante esperta, embora não esteja andando ainda, muito mais por culpa nossa que não conseguimos um sapatinho apropriado para ela, já que possui bastante equilíbrio e poderia estar andando. Fala bastante, embora numa língua que ninguém compreende. Fala papá, mamá, tchau, e outras besteiras. Papá e mamá ela fala mas parece que não compreende totalmente o significado.
Com respeito ao envio de coisas, pode parar de enviar fósforo e cigarro. O principal é mandar arroz e pasta de dente e como passaremos a comer a maior parte das vezes fora de casa, não necessitaremos mais de outras coisas. Qualquer necessidade mandaremos dizer. Eu vou telefonar para casa de mamãe Marieta no dia 6 de setembro, como combinei com ela. Aguardem.
Tania me telefonou e foi para mim uma grande alegria já que não ouvia sua voz há muito tempo. Parece que está bem e já me deu seu endereço em S. Paulo.
Mamãe, soube que você fez uma plástica. Como está passando? Ficou bem.
Mamãe Marieta, como vai a clínica e S. Conrado?
Seniro, como vai o Flamengo e as peladas?

Um beijo,
do Tulio.


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Encontro de 1998
Afonso Brito Chermont
 
Na verdade, o encontro da Aexcnf, começa bem antes: nos contatos que antecedem a sete de setembro; na reserva de local para ficar; na carona para Friburgo ; e, na permanente ameaça do Tof-Tof contando os dias que faltam. Esse ano, para mim, tudo aconteceu a contento. Tanto na ida como na volta não tive atropelo. A volta sempre é mais difícil, não só pelo fato inexorável da despedida, como pelas preocupações de trânsito congestionado na estrada pelo fim de semana prolongado, como pelo horário do avião poucas horas após o desfile.

A começar pela Majórica, na sexta feira, tudo tem uma motivação muito especial. Esta reunião tem, sempre, um sabor muito agradável: significa o reencontro; significa dizer que estamos vivos e prontos para o que der e vier; fica claro o prazer de rever os amigos diletos e reviver os tempos de coleguismo no CNF.

No sábado, com muita ressaca, a solenidade, na praça em frente a Matriz, organizada pela prefeitura foi bem interessante. A secretária de cultura da prefeitura de Friburgo, logo após o encerramento, disse a um grupo que estava conversando que se lembrava de nós nessa ou naquela circunstância. Eu quis retribuir às palavras carinhosas que Lúcia, esse é o seu nome, estava dirigindo a nos e disse que também tinha uma lembrança sua: lembrava-me que se chamava Lúcia, estudava no Modelo e tinha as pernas grossas. Juno, que estava na roda, logo comentou que esta era a melhor e mais importante referência.

Logo depois, no ginásio de esportes, me lembrei de muitos campeonatos que disputamos e , minha maior alegria foi ver o Paulo Aurélio( Macaco ) em plena forma no futebol e, do Silvério que sozinho conseguia fazer mais barulho que o Maracanã lotado . Havia combinado de jogar basquete, mas fui salvo pelo convite que me fez o The Best (presidente) para almoçar com o reitor da UERJ. O almoço foi bom quando, claramente, percebi da intenção do reitor de não causar qualquer problema para um grupo tão unido.

Na solenidade da assinatura do convênio, tudo era emoção: a fala do presidente; o improviso emocionado do Márcio Braga, que se refletiu em algumas lágrimas de todos os presentes; a autoridade do reitor em nós conceder um espaço, até entendendo a importância, o significado daquilo para nós. Nesse momento senti a falta de um muito dileto amigo: O Lopinho, que nunca falta, e que tem seu nome ligado à criação do CNF. Soube que ele estava na Europa e, só por isso, o desculpo pela ausência.

O Humberto, um cabeludo que estudou no colégio nos anos de 59 e 60, era, e ainda é, amigo do Evandro (Fifico). Nessa fase de reencontro, só o vi uma vez. Ele nunca aparece mas, comparece sempre com o queijo e o vinho e isso, faz a festa do sábado a noite. Lá estava o Conjunto Papoula, com os titulares: Silvério, Mussi, Paulo Eurico e, agora, o Dolabela. Houve também a participação de artistas periféricos e alternativos: o Aloisyo Goiabada, cantando, inclusive, musica nordestina; um baixinho que tocava violão e sua irmã cantava músicas românticas . Lembro do Fifico contando piada de tempo em tempo. Uma hora eu o vi tentando dançar de joelhos, com a Lola, (amiga de Sônia Barroso, que está cada vez mais bonita), com segundas e terceiras intenções.

Lembrei, que quando organizávamos as festas, naquela época do colégio, tínhamos uma preocupação grande com a camioneta que traria as meninas. Havia um horário especial para que elas subissem e, quando o barulho do motor anunciava a chegada, alguém encarregado comunicava: chegou a camioneta das "mulheres". A festa estava salva.

No churrasco, sábado, estavam muitos ex-alunos, pessoas que já não via há anos. Assisti o encontro do Marcelo (Palavrinha) com o Talvane, mais piadas do Fifico, e do Malandro Marcondes ). O papo com o Julo, Paulo Viana, Bela, Paulo Perobo. Senti a falta do Silvério, que me disseram depois que teve que retornar para São Paulo. Notei as ausências de: Parkinson, Avelino e Solange, André Cabeleira, Barata,Feijão, Luz, Márcio Dorneles, Neville, Nuno, Zé Meleca, Belinha, Longo, Paulista, Barata, Batatinha.

O desfile da Aexcnf que encerra, não só o próprio, mas, também, nossa participação no encontro do ano. Tudo foi muito interessante; Nós sabemos transformar as coisas simples e singelas com algo de muita beleza.

Sempre desfilo junto com Lulu, Fifico e desses vejo, sempre, uma vibração que não consigo explicar. O Fifico chora e quando percebe que estou lhe observando diz que está " tremendo que nem Toyiota em ponto morto". Vi o entusiasmo do Clóvis Cavalcanti que, sempre de passo errado, conduzia uma velha bandeira cheia de frufus e piduricalhos que, até agora, não entendi o que ela significava. Explico: a guarda de honra conduz as bandeiras do Brasil, do RJ, de Friburgo e do Cnf. Só perguntando à Maria Alice Antunes que é a encarregada dos bandeiras. Aliás, minha prezada amiga, estou a sua disposição par ajudar na recuperação das bandeiras mas sugiro, desde logo, que joguemos fora aquela que o Clóvis levou, com muita dignidade, é claro, por não termos identificado nela, nenhum significado.

Outras circunstâncias do desfile que me entusiasmaram: a viva emoção da Ana (mulher do Tof) que revelou que todo ano ela fica nervosa pensando que o desfile da Aexcnf não vai dar certo, mas, quando a banda começa a tocar tudo se realiza satisfatoriamente; conheci uma senhora, através de Sônia Barroso, não me lembro o seu nome, que se identificou à mim, como esposa do Júlio Éboli e irmã do Vilas ( um colega nosso que foi Diretor da Petrobras) e me contou do falecimento do Júlio; do abraço amigo: do Leonardo, do Chimbica que chegou da Coréia, do Irso Lunardi, que finalmente reapareceu; da quantidade de autógrafos que o Dolabela distribuiu; da empolgação dos que tocam na banda: Tof, Perobo, Mussi, Suen, Hilton, Bork, Reinaldo Henriques, etc., dos corneteiros; Chevrant, Waldir Costa,( aliás me lembro que quando ainda estudante, de tanto tocar corneta fiquei com os lábios inchados que não dava para beijar minha namorada após o desfile e, por essa causa, mais que justa, encerrei minha participação como tocante( segundo o Demóstenes) da banda, iniciando uma definitiva participação na guarda de honra ).

Comentei com o Talvane da vibração do Paulo Eurico em tocar. Quando o Talvane era o chefe da banda o Paulo Eurico tinha uma função importante, segundo ele, que era o de carregador de baquetas e, disso, nunca passou. Hoje, como progrediu! Além de tocar caixa-tarol, se for preciso, também, poderá cantar. Esse ano o Viana não foi porque estava desfilando com os ex-pracinhas no Rio. Constatei essa terrível traição, em uma reportagem do Caderno de Domingo do JB.

Setembro de 1998


 
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