Ter
sido chefe do Estado-Maior da Armada foi uma
grande satisfação e uma honra.
O curto e rápido período de cerca
de quatro meses em que exerci este expressivo
cargo não impediu que o trabalho fosse
intenso e profícuo, com participação
significativa no aperfeiçoamento de documentos
de alto nível da Marinha e do País.
A maneira como a Marinha do Brasil é
organizada tornou possível, em tão
pouco tempo, adicionar contribuições
doutrinárias, administrativas, estratégicas,
orçamentárias e de controle financeiro
em prol da Instituição.
Os sete anos e meio, ao longo da carreira que
servi nesta grande escola de Marinha - Estado-Maior
da Armada -, empenhado na elaboração
dos principais planos, publicações
e documentos da Marinha, permitiram-me dirigir
com tranqüilidade os integrantes desta
importante Organização Militar
de Direção Geral da Marinha e
dar o melhor de meus esforços para bem
assessorar o comandante da Marinha. Agradeço
ao vice-CEMA, Vice-Almirante Loesch, aos subchefes,
Contra-Almirante Uzêda, Wiemer, Casaes,
Newton, Pires Ramos e Palmer, aos oficiais,
praças e funcionários civis do
Estado-Maior da Armada o auxílio que
me prestaram.
Da
mesma forma, lembro a contribuição
e atenção prestadas pelos titulares
das Organizações Militares subordinadas,
Vice-Almirantes Braga, na Seconcitem, e Lúcio,
no Casnav, e Contra-Almirantes Juliano, na
Comissão de Promoções
de Oficiais, e Afonso, na Escola de Guerra
Naval.
Também
registro o convívio cordial com o Estado-Maior
do Exército, da Aeronáutica
e do Ministério da Defesa, com as secretarias
deste Ministério e com as demais autoridades
governamentais com as quais tratei assuntos
de interesse comuns.
Dentro de poucos minutos estarei encerrando
a chefia do último cargo que exerci
em minha carreira no serviço ativo
da Marinha. Foi uma longa jornada de mais
de 47 anos, mas para mim também passou
rápido!
Sem
procurar fugir do lugar comum
dos justos agradecimentos, peço, de
antemão, desculpas pelos inevitáveis
esquecimentos.
Ingressei no Colégio Naval em março
de 1955, aos 16 anos de idade, compondo uma
turma de pouco menos de 200 jovens, com muitos
sonhos e algumas incertezas.
Superadas as dificuldades iniciais de adaptação,
logrei a conclusão do curso daquele
estabelecimento, passando, em seguida, ao
desafio dos três anos da Escola Naval,
e encerrei o período de formação
acadêmica com a Viagem de Instrução
no Navio-Escola Custódio de Mello,
em 1960.
Este
intervalo de tempo caracterizou-se pela lapidação
do preparo técnico-profissional e pelo
polimento de valores morais, os quais, graças
à educação que recebi
de meus pais, já encontravam-se completamente
absorvidos. Mas a Marinha é atenta
à formação de seu pessoal.
Assim, além de pequenos cursos operativos
e de manutenção, aperfeiçoei-me
em Eletrônica e completei os Cursos
de Comando e Estado-Maior e de Política
e Estratégia Marítimas da Escola
de Guerra Naval, ou seja, de Mestrado e Doutorado
em ciências Navais. Em termos acadêmicos,
ainda fui graduado como bacharel em Administração
de Empresas.
Minha trajetória como oficial reservou
momentos inesquecíveis como encarregado
de Divisões a bordo de navios, em especial
da de Eletrônica do Navio-Aeródromo
Minas Gerais; instrutor e encarregado do Curso
de Aperfeiçoamento de Eletrônica
para Oficiais; comandante de três navios
- o Patrulha Piraquê, o Rebocador Tristão
e o Desembarque de Carros de Combate Duque
de Caxias - e de Forças Navais - a
Força de Apoio e o Comando do 8º
Distrito Naval; chefia do Estado-Maior do
Comando do 1º Distrito Naval e imediatice
do Centro de Instrução Almirante
Wandenkolk; promoção ao ciclo
de almirantes, sendo o único representante
da turma Elmo a ser promovido a almirante-de-esquadra;
subchefe do Estado-Maior da Armada e do Comando
de Operações Navais; titularidade
de Diretorias Especializadas - de Ensino,
de Aeronáutica e de Sistemas de Armas
-, de órgãos de Direção
Setorial - Diretoria-Geral do Material, Diretoria-Geral
de Navegação e Comando de Operações
Navais - e do órgão de Direção-Geral
da Marinha, o Estado-Maior da Armada.
Tive,
ainda, a oportunidade de, entre 1979 e 1982,
representar o País como membro da delegação
brasileira na Terceira Conferência das
Nações unidas sobre o Direito
do Mar, período para o qual reservarei
um espaço especial em minha memória,
mercê da importância internacional
desse evento e da satisfação
e orgulho pessoal de ter participado, tendo
estado, inclusive, presente à histórica
sessão em que foi votado o trabalho
final, que se transformou em Convenção
da Nações Unidas sobre o Direito
do Mar, a Convenção de Jamaica,
e, entre 1981 e 1983, de servir no Comando
da Esquadra do Atlântico da Marinha
dos Estados Unidos da América.
Como
comandante do 8º Distrito Naval, comandante
de Operações Navais e chefe
do Estado-Maior da Armada, pude estreitar
o relacionamento com a comunidade civil e
tive o privilégio de conhecer profissionais
que são verdadeiros expoentes dentro
das atividades que desempenham, além
de cidadãos exemplares. Foi um prazer
conviver com os Amigos da Marinha e, de maneira
especial, com os Soamarinos do Estado de São
Paulo e com integrantes da Sociedades Paulista.
A
partir de um quadro heterogêneo e aparentemente
desconexo, consegui uma formação
eclética, servindo nos setores de Pessoal
e Ensino, de Operações e Navegação,
de Material e no Estado-Maior da Armada, o
que me permitiu chegar ao mais alto cargo
que poderia almejar como oficial do Corpo
da Armada na ativa, com uma visão completa
da Marinha. A Marinha ainda premiou-me de
forma mais que proporcional, especialmente
com elementos intangíveis. O Respeito
a superiores e subordinados, sempre recíproco,
o culto aos símbolos nacionais e o
exercício diário de valores
éticos e morais constituíram
motivos de permanente aprimoramento pessoal,
os quais, por características pessoais
e por dever funcional, procurei transmitir
aos mais jovens.
Deixo
o serviço ativo com inúmeros
motivos para orgulhar-me.
Somos
detentores de um planejamento administrativo
comprovadamente eficiente e eficaz, ancorado
em alto grau de competência e criatividade
e capaz de enfrentar e superar cenários
crescentemente desfavoráveis.
No
plano estratégico, prosseguimos com
realismo e consciente audácia, mantendo
objetivos finais e intermediários muito
bem definidos. Isto, em parte, deve-se ao
grande esforço empreendido no sentido
de mantermos o nosso Plano Estratégico
e documentos decorrentes atualizados e em
estreita harmonia com os interesses do País
e da Marinha. É um grandioso e permanente
trabalho, discreto e anônimo, e que
contribui para a consolidação
dos principais sustentáculos de toda
a Instituição.
A
sorte também me fez companhia em diversos
momentos, como por exemplo, na época
em que estive à frente da Diretoria-Geral
do Material da Marinha, quando participei
de perto do retorno da aviação
de asa fixa à Marinha, proporcionando
os lançamentos e pousos de aeronaves
AF-1 no NaeI, Minas Gerais, da aquisição
do Navio-Aeródromo São Paulo,
da modernização das fragatas
da classe Niterói, do reparo do submarino
Santa Cruz, da Armada Argentina, e do prosseguimento,
com realismo, das atividades relacionadas
no Projeto Nuclear. Da mesma forma, quando
comandante de Operações Navais
pude acompanhar as operações
de aeronaves AF-1 no Nae São Paulo.
Experimentei, nesse período, um sentimento
de extrema realização profissional.
Dentro
desse contexto, a presente cerimônia,
na qual tenho a honra de receber nobres convidados
militares e civis, antigos chefes, parentes
e amigos, emoldura, de forma brilhante, um
crepúsculo que, num primeiro momento,
pode parecer nostálgico, triste e quase
melancólico, mas que, na verdade, representa
para mim a melhor maneira de despedir-me,
no serviço ativo, de uma Instituição
que me é e sempre será tão
cara, e de relembrar o apoio e incentivo dos
que não puderam estar presentes.
Agradeço
aos membros do Almirantado o apoio e incentivo
a mim prestados durante o período em
que participei deste seleto colegiado. Foi
um prazer trabalhar com todos os seus integrantes.
Agradeço
também a presença do ministro
da Defesa, Dr. Geraldo Quintão, neste
importante evento de minha carreira. Ao comandante
da Marinha, Almirante-de-Esquadra Sérgio
Chagasteles, apresento meu reconhecimento
pela confiança, amizade e orientação
com que sempre me distinguiu. Muito me honra
vê-lo presidindo mais uma transmissão
de cargo da qual faço parte, a oitava
aos últimos oito anos. Sempre lhe dediquei
minha total lealdade em todas as comissões
em que fui seu subordinado direto.
Ao
prezado amigo Almirante-de-Esquadra Marcos
Augusto Leal de Azevedo, companheiro de longa
data, e para quem pela segunda vez passo um
cargo no Estado -Maior da Armada, formulo
os mais sinceros votos de felicidade na importante
chefia que ora assume, mais uma etapa de sua
brilhante carreira.
Finalmente,
renovo minha gratidão aos meus familiares.
Ao meu pai, pela confiança e orgulho
de ver seu filho atingir os mais altos postos
de cargos da Marinha. É um homem bom!
À minha mãe, pela orientação
e incentivo, pelo pulso forte de fazer de
todos os seus filhos bons estudantes, num
dos melhores colégios existentes no
Brasil nos anos 50, o Nova Friburgo, da Fundação
Getúlio Vargas. Em decorrência,
tive de ser responsável já a
partir dos dez anos de idade. Mais uma vez
peço desculpas aos meus filhos, Fernando,
Eduardo e Maurício, por não
ter podido estar presente em todos os momentos
de suas vidas. Agradeço ao mais velho,
Fernando, sua presença neste momento,
representando toda a família.
É
hora de homenagear uma pessoa especialíssima,
companheira, amiga e que esteve ao meu lado
desde os tempos em que admirava os magníficos
amanheceres da Enseada Baptista
das Neves, em Angra dos Reis, época
em que já ocupava fortemente meus pensamentos.
Com o passar dos anos, revelou me um apoio
sempre crescente para eu alcançar tantas
conquistas pessoais e profissionais.
Obrigado
Lígia. Obrigado por me acompanhar neste
último pôr-do-sol. Amanhã
iniciaremos mais uma viagem (de mão
dadas, como sempre fizemos), imersos em paz,
felizes, prontos para receber o mais novo
membro da família, Arthur, acompanhados
da proteção divina que nunca
nos faltou e na certeza de que, para a nossa
história, não haverá
ponto final...