Acidente
mata o ator e diretor Carlito Marchon
Liliana Sarquis
O
palhaço é a única pessoa do mundo
que ri da própria desgraça!
Esta
foi uma das frases de despedida de Dalmo Latini, o
Sr. Frango, no enterro do ator, dramaturgo e diretor
teatral Carlito Marchon, morto num acidente de automóvel
na última sexta-feira, 15, na BR 101, na altura
de Rio Dourado, Casemiro de Abreu. Carlito, e também
o ator e amigo Rodrigo Guadagnini, voltavam de Macaé,
onde faziam apresentações para empresas,
quando, segundo testemunhas, um Palio com duas mulheres
saiu de um condomínio, cruzou a pista e atingiu
a lateral do carro onde estavam os dois atores. O
veículo foi jogado para fora da pista e capotou
várias vezes. Carlito morreu e Rodrigo foi
levado para o hospital de Rio das Ostras, tendo sido
transferido para Nova Friburgo na noite de sábado
e permanecendo internado no Hospital Raul Sertã,
mas sem correr perigo de vida.
Terminava, assim, o trabalho da dupla de palhaços
Gavião e Joge, que encantava crianças
e adultos. O fascínio de Carlito pela ave de
rapina originou o nome do personagem que, mais do
que brincadeiras, gostava de provocar, questionar,
instigar. Assim como seu dono.
Apaixonado por teatro, Carlito fez parte do grupo
Asdrubal trouxe o trombone, que revolucionou o Rio
de Janeiro no fim da década de 70, além
de ter trabalhado com grandes nomes da cultura nacional,
como Grande Otelo. Sempre pretendeu, entretanto, retornar
à terra natal e lutar pela cultura de Nova
Friburgo.
E
como lutou. Polêmico, guerreiro e idealista,
este sagitariano fez 51 anos no último
25 de novembro começou no teatro como
muita gente: fazendo uma peça na escola, na
Fundação Getúlio Vargas, por
volta de 1966. Se apaixonou e decidiu viver de e para
o teatro. Mergulhou de corpo e alma na arte cênica.
Aprendeu tudo o que podia: iluminação,
figurino, contra-regra, direção, além
de escrever e musicar textos e, é claro, atuar.
Talvez, sem essa versatilidade, conseguir manter seu
trabalho em Nova Friburgo seria muito mais difícil
do que foi, durante todos esses anos em que Carlito
precisou vencer tantas barreiras, lutando até
consigo mesmo, numa tentativa de domar tamanha genialidade,
que o tornou uma figura especial e única no
cenário local. E olha que não faltaram
pedras no caminho e batalhas a travar! Tamanha dedicação
era reconhecida não só em Nova Friburgo,
como em várias outras cidades, onde constantemente
Carlito mostrava seu talento.
Tricolor
de coração, professor de teatro e também
de matemática (profissão que pouco exerceu)
e, antes de tudo, um bom amigo, Carlito teve vários
seguidores, principalmente palhaços, que assumiram
a dupla missão de levar humor-amor ao respeitável
público. Vários deles apareceram no
velório e enterro de Carlito que, sereno, parecia
não se preocupar muito com sua atual condição.
Talvez, naquele momento, ele sobrevoasse por ali,
como um gavião, e risse de sua própria
desgraça, como apregoado pelo Sr. Frango. Afinal,
ele era um palhaço e palhaços estão
muito além da vida e da morte.
Já
próximo à hora do enterro, 10h do domingo,
17, o locutor Marcelo Merecci leu o Salmo 23; a esposa
Aline entoou um dos cantos preferidos de Carlito;
o músico e amigo Giovanni Bizzotto acompanhou
ao violão amigos e familiares cantando a primeira
canção que Carlito compôs para
a cidade que o viu nascer Friburgo, burgo
do frio. Ao final, aplausos, muitos, para o
grande mestre que saía de cena.
O
corpo de Carlito Marchon foi enterrado no Cemitério
São João Batista, em cortejo acompanhado
por uma legião de amigos e fãs. Deixa
a mãe, Maria da Conceição Rodrigues
Marchon, a Dona Zizinha, que no último dia
8 completou 90 anos; os filhos Isadora, 20 anos, estilista
que vive no Rio de Janeiro, e Adriano, 25 anos, webdesigner
que mora em Seatle, nos Estados Unidos, e a esposa
Aline.
Entre
as muitas homenagens que tem recebido, como muitas
mensagens no Orkut e em páginas da Internet,
e que ainda receberá - apesar de várias
vezes ter afirmado que homenagens póstumas
não lhe interessavam -, está a do Grupo
de Arte, Movimento e Ação (Gama), que
anunciou a criação do Teatro Carlito
Marchon. No próximo sábado, no caderno
Light de A VOZ DA SERRA, será publicado o último
artigo da coluna Palavras Palhaças assinado
por Carlito, cujo texto era de um brilhantismo ímpar.
A editora do jornal, Angela Pedretti, companheira
de longa jornada de Carlito, com quem teve a filha
Isadora, também anunciou a publicação
das obras completas do ator.
Nova
Friburgo ainda chora a perda desta grande figura humana.
Mas quem amou Carlito e teve o privilégio de
com ele conviver tem a certeza de que foi-se
o corpo; a alma vive eterna. Valeu, Gavião!