Momentos
depois, adiantavam-se por mim os alunos do Ateneu. Cerca
de trezentos; produziam-me a impressão do inumerável.
Todos de branco, em larga cinta vermelha, com alças
de ferro sobre os quadris e na cabeça um pequeno
gorro cingido por um cadarço de pontas livres.
Ao ombro esquerdo traziam laços distintivos das
turmas. Passaram a toque de clarim..."
O
trecho acima, transcrito do romance O ATENEU, do escritor
Raul Pompéia, nascido em Angra dos Reis, em
1863 e falecido no Rio de Janeiro, em 1895, serve-nos
de intróito para registrar que neste ano, se
houvesse sido dada continuidade em seu funcionamento,
o COLÉGIO NOVA FRIBURGO, DA FUNDAÇÃO
GETÚLIO VARGAS, estaria completando 40 anos
de existência. Aliás, ele completa...
O
pequeno trecho do ilustre escritor patrício
me transporta, em devaneios, à minha infância/adolescência,
ocasião em que aquela modelar escola vivia
seus anos de ouro.
Na
minha cabeça de menino pobre, o sonho de, algum
dia, poder estudar na FUNDAÇÃO (denominação
popular do educandário) sempre se fez presente
e era com orgulho de pseudo-estudante que, nas paradas
cívicas, postava-me, extasiado, à frente
dos adultos que se acotovelavam nas calçadas
da Avenida Alberto Braune, para vê-los passar.
A pancada firme e uníssona dos bumbos, o repicar
dos tambores e o soar do clarim, tinham em minha alma
o efeito mágico da varinha de condão
e eu me via ali, orgulhoso, ostentando o uniforme
da escola, onde em vermelho vivo, era estampada a
figura de um dragão, imponente em sua grandeza.
Não importava que fosse um sonho. O importante
é que eu ia ver o desfile para ver a FUNDAÇÃO.
A "minha FUNDAÇÃO".
Quando
o governo do Presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu
o jogo em todo o território nacional, fechando
- em conseqüência - os cassinos, o prédio
existente no Parque da Cascata e que fora construído
para tal finalidade, acabou por servir a um projeto
do próprio governo que visava implantar uma
escola experimental, de segundo grau, que fosse tida
como padrão de ensino. Nascia, em 1950, o COLÉGIO
NOVA FRIBURGO, da FUNDAÇÃO GETÚLIO
VARGAS.
Durante
quase 30 anos, o colégio funcionou nos moldes
como fora projetado: uma escola-padrão dentro
do ensino brasileiro. Com os regimes de internato
e semi-internato, a FUNDAÇÃO abrigou,
em suas dependências um sem número de
estudantes, oriundos dos mais diversos cantos do país,
cujas famílias faziam questão de matricular
seus filhos (homens) naquele que era considerado o
melhor colégio do Brasil. Pelos seus bancos
e carteiras passaram nomes ilustres que hoje se destacam
no cenário brasileiro, em quase todos os ramos
de atividade.
No
período em que funcionou, o colégio
e seus alunos criaram fama: aquele como uma verdadeira
escola-universidade onde o ensino atingia um grau
bastante elevado para os padrões nacionais
e esses, por serem - em sua maioria - filhos de famílias
abastadas, o que causava aos
alunos
dos demais colégios da cidade, uma certa ponta
de inveja, objeto quase sempre de acirradas e violentas
disputas que, não raro, culminavam com brigas
e agressões. Houve época em que os alunos
da FUNDAÇÃO eram obrigados a andar em
grupos, pois sozinhos, se descobertas suas identidades,
eram alvos de ofensas e provocações.
Eram os reis dos bailes e das festinhas. Daí,
a inveja.
Ao
final de quase três décadas de ensino,
acumulado de dívidas, transformado em escola
mista e sem ter acompanhado a evolução
dos padrões do ensino que o deixasse na vanguarda
da educação nacional, dava o seu último
suspiro o COLÉGIO NOVA FRIBURGO. Seu fechamento
-como era de se esperar - não foi revestido
da pompa de sua inauguração. Somente
a cidade - em quase todos os seus segmentos - gritou
contra a monstruosidade que aquela ato significava.
Mas,
se fechou a escola, uma entidade, a ela ligada, renascia
com vigor e a tenacidade daqueles que, durante toda
a sua existência, pugnaram pelo seu bom nome:
a ASSOCIAÇÃO DOS EX-ALUNOS, PROFESSORES
E SERVIDORES DO COLÉGIO. A ela deve-se em parte,
a reabertura do Parque da Cascata como escola, já
que ali, neste ano de 1990, foi inaugurado o Instituto
Politécnico do Rio de Janeiro, dedicado a pesquisa
científica e tecnológica, além
da Fundação Natureza, mantida pela ASSOCIAÇÃO
e que promove encontros ecológicos e o Centro
de Ciências, que trabalha na reciclagem de professores
da rede pública, inclusive em Educação
Ambiental. Foi esta a fórmula encontrada para
dar continuidade ao trabalho educacional ali desenvolvido
pelos pioneiros.
Hoje,
quarenta anos depois, chega-nos a notícia de
que a ASSOCIAÇÃO DE EX-ALUNOS está
marcando uma série de atividades para comemorar
o evento. Dentre elas, em desfile cívico de
seus ex-alunos, neste Sete de Setembro, acompanhados
pela sua inigualável fanfarra. Será
sem dúvida um momento de rara beleza e emoção,
vermos reunidas pessoas das mais diferentes posições
e idades, comemorando não só os quarenta
anos de sua querida Escola como a sua reabertura como
entidade de ensino.
De
minha parte, só posso dizer que formarei fileira
com eles e, mesmo que apenas em sonho, como o da minha
infância, marcharei junto, cabeça erguida,
ombros abertos, olhar firme no horizonte, na certeza
de que como PSEUDO-EX-ALUNO, orgulho-me tanto do colégio
como se um deles fora. Parabéns a essa ASSOCIAÇÃO
pela feliz idéia do reencontro...muito obrigado
por me proporcionar a lembrança de meus sonhos
de adolescência.
Publicado
em Setembro 1990