Lembro
de quando estava na alfabetização, o
consumo de lápis era elevado. Eu, meus irmãos
e quase todos os colegas tínhamos em nossos
kits de material escolar um extensor metálico
de lápis. Era um acessório óbvio
e ninguém questionava o seu uso, absolutamente
normal.
Após
sucessivos apontamentos provocados pelo desgaste natural
do uso, o manuseio do lápis se tornava desconfortável
de tão pequeno, mas continuava sendo lápis.
O precioso grafite continuava lá dentro pronto
para colaborar com o nosso aprendizado. Era aí
que entrava em cena o extensor metálico que
transformava aquele pedacinho de lápis, que
chamávamos carinhosamente de cotoco, em um
lápis grande e bonito, metálico. Era
uma sensação agradável.
Era
um aprendizado adicional sobre economia, sem que ninguém
precisasse dizer nada, intrínseco. Aprendíamos
espontaneamente a zelar pelas pequenas coisas do cotidiano.
Agora,
começo a lembrar mais coisas. Quando estava
no colegial não se achava mais no comércio
aquela peça tão importante de minha
infância. Será que tínhamos ficado
ricos e que não precisávamos mais usar
os cotocos e já podíamos dispensar o
extensor e jogar no lixo aquele restinho de lápis
por falta daquele pequeno instrumento tão útil
e tão pedagógico?
Quase
cinqüenta anos depois, estive em Tókio
e ao visitar uma grande loja de departamentos, como
de hábito, fui atraído para a papelaria.
Sempre visito as papelarias dessas grandes lojas,
tem coisas incríveis. Tive uma grande e feliz
surpresa. A minha infância se projetou naquelas
prateleiras, quando reencontrei o prosaico extensor
de lápis. Foi outra lição de
economia, essa
mais poderosa do que a de minha infância.
Naquele
momento, percebi porque os japoneses são ricos
e lembrei, também, de um amigo que era diretor
de marketing do Banco do Brasil, para quem eu prestava
serviços. Sobre a sua mesa tinha uma peça
de cristal cilíndrica como um copo, que mantinha
mais dez lápis, todos com as pontas afiadas
que a sua secretária passava todos eles no
apontador elétrico diariamente e pude verificar
isso em duas oportunidades. Ele nunca usava aqueles
lápis, todos
eles eram gastos pelo apontador afiado de sua secretária.
Aquela foi a imagem mais forte de desperdício.
Uma visão emblemática.
Eu
ali, numa das cidades mais poderosas do mundo, no
país mais rico do mundo por habitante e por
quilômetro quadrado, vivendo esse filme em flash-back,
essas cenas fortíssimas passavam em minha mente
definindo o nível desenvolvimento de uma sociedade.
O respeito pelos valores que cada coisa representa
em nossas vidas.
Fiquei
sabendo que a Secretaria Municipal de Educação
de João Pessoa distribuiu entre os estudantes
da rede municipal uma marca de lápis que não
mantém as pontas feitas, se partem facilmente
e precisam apontar muitas vezes, resultando em elevado
consumo e gerando grande desperdício. Verifiquei
algumas peças daquela marca para entender o
que se passava, abri cuidadosamente a madeira que
os envolvia e constatei que os cilindros de grafite
são todos fragmentados. Não há
como usar continuamente o mesmo lápis, ele
irá sempre quebrar a ponta, pois ela já
vem quebrada.
Pelo
raciocínio do conceito aprender-fazendo, os
estudantes da rede municipal de ensino estão
sendo educados por uma estranha pedagogia, a do desperdício.
A direção oposta das crianças
japonesas.
Um
simples lápis contém muitos ensinamentos.
A floresta está ali, também está
o uso racional dos recursos naturais sem o qual o
nosso planeta vai explodir. O lápis vira emblema
de um modelo pelo qual as crianças estão
perdendo a chance de assimilação do
conhecimento pelo fazer. Estamos na contramão
das sociedades modernas que buscam meios de encontrar
uma
trajetória de crescimento sem inviabilizar
o planeta.
http://www.reginaldomarinho.com.br/
http://mosaicus.blogspot.com/
Reginaldo
Marinho
Pesquisador
premiado com medalhas de ouro em exposições
tecnológicas com
projetos na área de Engenharia Civil. Prêmios
conferidos em Genebra e
Londres. Membro da Associação Brasileira
de Jornalismo Científico.
http://www.wscom.com.br/colunistas.jsp?pagina=lcoluna&id=32