A Pedagogia do Desperdício
Reginaldo Marinho
 

Lembro de quando estava na alfabetização, o consumo de lápis era elevado. Eu, meus irmãos e quase todos os colegas tínhamos em nossos kits de material escolar um extensor metálico de lápis. Era um acessório óbvio e ninguém questionava o seu uso, absolutamente normal.

Após sucessivos apontamentos provocados pelo desgaste natural do uso, o manuseio do lápis se tornava desconfortável de tão pequeno, mas continuava sendo lápis. O precioso grafite continuava lá dentro pronto para colaborar com o nosso aprendizado. Era aí que entrava em cena o extensor metálico que transformava aquele pedacinho de lápis, que chamávamos carinhosamente de cotoco, em um lápis grande e bonito, metálico. Era uma sensação agradável.

Era um aprendizado adicional sobre economia, sem que ninguém precisasse dizer nada, intrínseco. Aprendíamos espontaneamente a zelar pelas pequenas coisas do cotidiano.

Agora, começo a lembrar mais coisas. Quando estava no colegial não se achava mais no comércio aquela peça tão importante de minha infância. Será que tínhamos ficado ricos e que não precisávamos mais usar os cotocos e já podíamos dispensar o extensor e jogar no lixo aquele restinho de lápis por falta daquele pequeno instrumento tão útil e tão pedagógico?

Quase cinqüenta anos depois, estive em Tókio e ao visitar uma grande loja de departamentos, como de hábito, fui atraído para a papelaria. Sempre visito as papelarias dessas grandes lojas, tem coisas incríveis. Tive uma grande e feliz surpresa. A minha infância se projetou naquelas prateleiras, quando reencontrei o prosaico extensor de lápis. Foi outra lição de economia, essa
mais poderosa do que a de minha infância.

Naquele momento, percebi porque os japoneses são ricos e lembrei, também, de um amigo que era diretor de marketing do Banco do Brasil, para quem eu prestava serviços. Sobre a sua mesa tinha uma peça de cristal cilíndrica como um copo, que mantinha mais dez lápis, todos com as pontas afiadas que a sua secretária passava todos eles no apontador elétrico diariamente e pude verificar isso em duas oportunidades. Ele nunca usava aqueles lápis, todos
eles eram gastos pelo apontador afiado de sua secretária. Aquela foi a imagem mais forte de desperdício. Uma visão emblemática.

Eu ali, numa das cidades mais poderosas do mundo, no país mais rico do mundo por habitante e por quilômetro quadrado, vivendo esse filme em flash-back, essas cenas fortíssimas passavam em minha mente definindo o nível desenvolvimento de uma sociedade. O respeito pelos valores que cada coisa representa em nossas vidas.

Fiquei sabendo que a Secretaria Municipal de Educação de João Pessoa distribuiu entre os estudantes da rede municipal uma marca de lápis que não mantém as pontas feitas, se partem facilmente e precisam apontar muitas vezes, resultando em elevado consumo e gerando grande desperdício. Verifiquei algumas peças daquela marca para entender o que se passava, abri cuidadosamente a madeira que os envolvia e constatei que os cilindros de grafite são todos fragmentados. Não há como usar continuamente o mesmo lápis, ele irá sempre quebrar a ponta, pois ela já vem quebrada.

Pelo raciocínio do conceito aprender-fazendo, os estudantes da rede municipal de ensino estão sendo educados por uma estranha pedagogia, a do desperdício. A direção oposta das crianças japonesas.

Um simples lápis contém muitos ensinamentos. A floresta está ali, também está o uso racional dos recursos naturais sem o qual o nosso planeta vai explodir. O lápis vira emblema de um modelo pelo qual as crianças estão perdendo a chance de assimilação do conhecimento pelo fazer. Estamos na contramão das sociedades modernas que buscam meios de encontrar uma
trajetória de crescimento sem inviabilizar o planeta.

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Reginaldo Marinho

Pesquisador premiado com medalhas de ouro em exposições tecnológicas com
projetos na área de Engenharia Civil. Prêmios conferidos em Genebra e
Londres. Membro da Associação Brasileira de Jornalismo Científico.
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