André Luiz Lacé Lopes é jornalista e mestre em Administração Pública pela Universidade de Syracuse, em Nova York.

 

Livros

 


 

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Grande João Pequeno 2007
André Luiz Lacé Lopes
 

João Pequeno & Itália & Pulo do Sapo & Marraio



Em 1997 escrevi artigo com o título “As 80 Voltas do Mundo de João Pequeno”
(Jornal dos Sports, Rio – 26.10.1997). Dezembro passado recebo e-mail dando conta
que o título foi atualizado e aproveitado, na Bahia, para denominar justo evento
comemorativo dos 90 anos do extraordinário Mestre João Pequeno (75 de Capoeira!).
Com prazer e modestamente, daqui do Rio para a velha e fascinante Bahia, enviei
exemplar do meu novo livro – Marraio Ferido Sô Rei – de presente para João Pequeno,
sem dúvida alguma exímio e mandingueiro capoeira, mestre, amigo e exemplar chefe de família.

Dezembro, por motivos óbvios, é sempre mês de muita correspondência, aproveito
até esse espaço para genérica, espaço para genérica, a todos que enviaram
mensagem de Feliz Natal e Próspero 2008. Agradecer e retribuir.

Quanto especificamente ao Mundo e a Vida da Capoeiragem, que é a razão desse
espaço, eu destacaria interessante novidade que nos chega da Itália. Refiro-me ao
projeto que Mestre Coruja, presidente de uma das federações italianas de capoeira está ultimando. Simplesmente um curso de Luta de Capoeira para uma organização militar.
Para tanto, o economista-capoeira Edgardo Coruja escreve solicitando subsídios
sobre a inesquecível e insuperável capoeira utilitária de Agenor Sampaio, o famoso
e saudoso paulista-carioca Sinhozinho.
Como o Mundo da Capoeira agora (finalmente) sabe muito bem, foi no Rio de
Janeiro onde a capoeiragem foi mais bem praticada como luta de verdade, sem
marmelada, sem fantasia, sem delírio mítico ou mitológico, sem mercantilismo. Do
Brasil Colonial ao Brasil República. Começando com nomes como o “moço bonito”
Juca Rei, passando por Manduca da Praia, Cyriaco, Prata Preta, as famosas maltas
de capoeira, o malandro disfarce do Povo da Lira, Sinhozinho etc etc.

Mas claro, sempre respeitando a Capoeiragem praticada pelo Brasil afora
que, pouco a pouco, vai sendo descoberta pelos quatro cantos, do Maranhão ao Rio
Grande do Sul, passando por São Paulo, atravessando fronteiras e, para surpresa
de muitos, aparecendo na colonização de vários outros paises, da América Latina e
do Caribe, que utilizaram também mão escrava africana.

“Macaco quando ginga muito quer o quê?” – perguntava Sinhozinho.
E ele mesmo respondia: chumbo!
De maneira mais literária o grande Guimarães Rosa já sentenciava:
- “O Sapo pula, não por boniteza, mas por precisão”.
Em seguida, Sinhozinho dava magistral aula sobre a importância da ginga funcional (passei tais ensinamentos para Mestre Coruja).
Fosse Guimarães Rosa cronista de capoeira certamente afirmaria:
- Hoje dia, tem muito capoeira pulando até bonito, mas sem precisão (eficácia de luta) alguma.
Talvez por isso, consegui deixar um pouco de lado essa – apesar dos pesares – fascinante Capoeiragem, e terminei finalmente o “Marraio Ferido Sô Rei”.


Trabalho que foi lançado em noite memorável na Livraria da Travessa, no Shopping do Leblon, aonde o livro pode ser adquirido daqui para frente.


Apenas de raspão o livro menciona a Capoeira, mesmo assim, alguns mestres de capoeira prestigiaram o evento. Começando pelo grande mestre Rudolf Hermanny, um dos melhores, senão o melhor aluno de Sinhozinho (Capoeira Luta), fazendo-se acompanhar do grande Belisquete. . Ainda por ordem de idade – afinal “roupa de homem não dá em menino” – trazido por seu aluno André Panesi, lá pelas tantas apareceu
o grande Mestre Celso do Engenho da Rainha. Apareceu Mestre Berg, aliás, personagem do livro, “dono de criativo bar místico em Pilares, vizinho da Toca do Ratinho". Mestre Ricardo Teco, que vai finalmente inaugurar singular
Academia na Muda da Tijuca. Já ao “apagar das luzes” saindo do seu próprio coquetel de lançamento - “Capoeira, Jogo Atlético” - chegou o professor e contramestre Joel Pires, acompanhado de quase toda família. Como manda a boa tradição, fizemos troca solene de livros.

Bueno, Paz, Saúde, Prosperidade e, sobretudo, Justiça Social aqui na Terra para os capoeiras e para os não-capoeiras.

Que nesse Ano de 2008, os governos – municipais, estaduais e Federal – parem de desperdiçar dinheiro público em eventos mercantis e efêmeros de capoeiragem e ajude logo a realizar os dois únicos projetos de vital importância – cada vez mais urgentes – para os Capoeiras: 1. Atlas Estaduais e Brasileiro da Capoeiragem, e 2. Memoriais Estaduais da Capoeiragem.
Pois sem Diagnóstico tudo vira chutômetro ou festival comercial de fantasia.

Fórum Cultural – dezembro 2008


 
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Entrevista com Lacé
 
Em recente visita a Nova Friburgo, o grande mestre de capoeira André Lacé concedeu uma entrevista exclusiva ao A VOZ DA SERRA, em que fala sobre o papel que esta modalidade esportiva ocupa atualmente entre os jovens.

André Lacé está lançando seu livro A Volta do Mundo da Capoeira, no dia 26 de no Country. Como ex-aluno do Ginásio, mais tarde, Colégio Nova Friburgo, o lançamento será promovido pela Associação dos Ex-alunos do colégio,

A VOZ DA SERRA - Fale um pouco sobre sua vida de capoerista.

ANDRÉ LACÉ— São mais de 40 anos acompanhando a prátrica da capoeira, inicialmente aprendendo e ensinando e, mais tarde, como diretor nacional de capoeira da Confederação Brasileira de Pugilismo. Já escrevi mais de duzentos artigos sobre o assunto, criei e apresentei dois programas de rádio no Rio de Janeiro e todos anos faço muitas viagens pelo Brasil e exterior, realizando pesquisas e palestras.

VS - Vocé poderia definir, em poucas palavras, o objetivo de seu livro?

AL - Não é um livro de bravatas nem de fantasias sobre grandes mitos do passado. Apenas informo e faço reflexões sobre o que chamo de "processo de institucionalização da arte afro-brasileira e capoeiragem’, sugerindo que todos façam o mesmo.

VS - O que quer dizer capoeiragem?


AL - Como regulamentar e disciplinar esse fascinante fenómeno popular livre como o vento", cuja essência é a total liberdade de movimentos.

VS – Qual seria a solução?

AL- Está na hora das lideranças da capoeira tornarem conhecimento, assumindo claramente suas posições. É preciso tomar uma posição clara em relação à Lei n 9.696, de 01/09/98, que praticamente joga a capoeira no colo dos professores de Educação Física. O ideal seria revogar esta lei, pois há riscos dela até vir a exterminar a verdadeira capoeira, a tradicional. Também precisamos combater um projeto de lei que está no Senado e que pretende também "paternalizar" a capoeira. Valeria citar, ainda, o Regulamento Internacional da Capoeira, que foi aprovado ninguém sabe por quais países.

VS- De que mais trata o livro?

AL- Meu livro procura resgatar algumas verdades históricas importantes para uma compreensão plena, sobretudo da capoeira como esporte e da capoeira como luta.

VS-Como assim?

AL-Há vários exemplos, como as afirmações magistrais feitas pelo mestre Bimba. Numa esclarecedora entrevista que ele deu ao Diário da Bahia, em 1936, ele já dizia que a polícia iria regulamentar estas demonstrações. Esta e outras afirmações similares provam o conhecimento e a admiração de Bimba pela capoeira praticada no Rio e que inspirou a redação da capoeira regional.

Alguns mestres e estudiosos da Bahia estão um pouco enciumados e escabriados com esta aparente perda de status e de poder Mas esta perda é apenas aparente, pois a contribuição da Bahia, em todo este processo, tem sido inestimável. Entretanto, até os mais enciumados estão começando a utilizar meu livro ( nem sempre mencionando a fonte...) em suas aulas, palestras e artigos.

Personagens ímpares da capoeiragem fluminense e carioca, como Juca Reis, Manduca da Praia, Cyriaco, Zé Galequinho, Camisa Preta, o grande e vitorioso Sinhozinho, André Jensen, Luiz Ciranda, Rudolf Hermanny e outros já começam a merecer a devida atenção do mundo todo. Da mesma forma, estudiosos, jornalistas, cartunistas e escritores como Raul Perderneiras, Calixto, Zuma Burlamaqui, Inezil Penna Marinho, Lamartine Pereira da Costa e Luiz Sergio Dias também começam a ser lidos e discutidos. Além de justa, esta revolução é extremamente salutar para o entendimento pleno do fenômeno capoeira.

VS - Como será o lançamento do seu livro aqui em Friburgo?

AL - Será difícil para mim voltar a encontrar uma união de forças tão positiva e eficaz. A figura simpática e eficiente do coordenador do Centro Cultural do Nova Friburgo Country Clube, o conhecido Jaburu; o competente e objetivo Henrique Cordeiro Correia, da Múlltipla; e o médico André Freire, um velho amigo, especialista em pediatria e cultura popular brasileira. Vale lembrar, ainda, a grande receptividade do próprio presidente do Country. James Lessa Alvarez; do Alexandre "Anchieta’ (foi aluno do Colégio Anchieta, grande adversário, no futebol, do GNF...); do Renato Bravo, gerente do Sesc/NF; de Reginaldo Andrade, o mestre Caroço, do Grupo Barravento; de Leandro Luiz, o instrutor Gaúcho, deste mesmo grupo; e, por ultimo, mas não em último lugar, do meu querido colega do GNF, Sylvio Lago, cujo livro, A descoberta da música..., absolutamente surpreendente, deve ser lido por todos, pois é uma obra-prima.

VS - Qual seria o püblico alvo do seu livro? Ele se dirige apenas aos mestres de capoeira?

AL - Não, o livro se dirige a professores e alunos de colégios, faculdades e universidades. Espero atrair também a atenção do administrador público e do empresariado. A capoeira é um fascinante fenômeno multifacetado, polivalente, que invade um sem número de áreas, especialmente aquelas relacionadas com a música, a comunicação, à história, sociologia, antropologia, geografia, administração, saúde, educação e até o direito.

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Bola de Gude & Sociedade Secreta:
Entrevista com o autor de “Marraio”
Jornal “A VOZ DA SERRA”
Jornalista Girlan Guilland
Nova Friburgo/RJ/ BRASIL
29 de fevereiro de 2008
 
No último dia 24 de janeiro, A VOZ DA SERRA publicou resenha de uma
crônica portuguesa sobre o livro Marraio Ferido sô Rei, do escritor e jornalista
André Luiz Lacé Lopes, lançado em novembro de 2007, no Rio de Janeiro.
Mais uma excelente “crônica” de André Freire, que morou e clinicou longos
anos em Nova Friburgo até que os fados o levaram a morar em Lamego,
Portugal.
Em função da boa repercussão da matéria, tratei de ler o livro,
confirmando os elogios feitos por Freire e procurando jornalisticamente ir mais
além. A obra de André Lacé, para começar, é de difícil classificação, muito
criativa, a maioria das páginas com luz própria, mas formando um conjunto
curioso, extremamente instigante, às vezes misterioso, às vezes bemhumorado,
às vezes reflexivo.



Do título do livro ao poema (premiados várias vezes) da quarta-capa,
passando por Índice extremamente atraente, Dedicatória com uma segunda
parte em código (?), poemas premiados e “a serem premiaos”, participação
especial de Dilcéa Maria (versos impressionantes), uma conversa interminável
pelos bares do Leblon e de Pilares, tudo terminando com uma bela palestra
sobre Ética (professor Nelson Mello e Souza).
Em suma, a resenha me levou à crônica, que me levou ao livro, o livro
me levou à convicção da necessidade de, pelo menos, uma entrevista com o
seu autor. O que foi feito.

A Voz da Serra (AVS) – Por que o título “Marraio Ferido Sô Rei”?
André Luiz Lacé Lopes (ALLL) – Explico na introdução do livro e voltei
a explicar ao André Freire, mas sua pergunta é muito oportuna, pois novos
dados estão chegando. Essa, aliás, é uma das vantagens de escrever: com
sorte, você começa a receber críticas e sugestões formidáveis,
surpreendentes. Sua pergunta inicial possibilita um bom exemplo. Velho amigo
de faculdade, Alcides Rodrigues Redondo, no dia seguinte ao lançamento do
livro, mandou-me longo e-mail apresentando informações que desconhecia.
“Marraio Ferido Sô Rei” não passaria de uma corruptela de “My right fellow, I`ll
do so ray”, expressão utilizada por meninos ingleses, filhos de empresários,
gerentes e especialistas em tecidos que vieram para o Brasil compor os
quadros de fábricas localizas em Bangu, no Alto da Boa Vista, Gávea etc, no
Rio de Janeiro. Em tese é possível, assim como o nosso forró pode ser uma
corruptela do “For All”, festa que os gringos, lá no Nordeste, patrocinavam para
seus operários. Fica faltando alguém explicar como a “marble” virou “bola de
gude”...
Essa informação, entretanto, que fique claro, não altera a apresentação
que procura associar o jogo de bola de gude, da meninada, com o Jogo da
Vida em geral.

AVS: Como o ‘Marraio’ veio parar em Nova Friburgo?
ALLL: Impossível negar, pura generosidade do médico-escritor André
Freire, aliás, exagerada ao classificar a obra (Livro revelação de 2007!) Mas
aproveito para registrar uma outra coincidência que me é muito grata. É que eu
também morei nessa cidade, pois tive o prazer e a honra de ser aluno do
saudoso Ginásio de Nova Friburgo (1951!). No conto, com o qual abro o livro –
Afinal, você roubou ou não? – faço “policialesca” homenagem a dois ex-alunos
do GNF, e, mais adiante, no Capítulo em Espanhol, faço homenagem ao
Sergio Rodrigues “Bolinha”, outro ex-aluno, infelizmente já falecido, e a sua
extraordinária esposa Beth Rodrigues. Em função desse meu passado, de vez
em quando visito Nova Friburgo, sendo justo salientar o lançamento do meu
livro “A Volta do Mundo da Capoeira”, no Country Clube (2000).

AVS: Como você classificaria seu livro?
ALLL: Aceito sugestões. Particularmente entendo que as fronteiras
literárias estão caindo (as geográficas também), não tarda surgirá alguma
forma multifacetada unindo som, cheiro e imagem. Eu mesmo estou
preparando um DVD e um saite para acompanhar o livro, pois, como chamo
atenção na Introdução, o texto ficará enriquecido se for lido com as músicas
que cita de fundo. Há muito mais, não creio que seja possível escrever uma
história moderna sem incluir a Internet, daí porque chego a transcrever alguns
dados sobre corrupção que tirei do Google.

AVS: Você incluiria a Teoria da Conspiração nesse pacote?
ALLL: Bem lembrado, por que não? Todo caso de amor, não tenha
dúvida, tem como pano de fundo, o eterno estado conspiratório do mundo.
AVS: Seu livro, entretanto, parece brincar com essa “realidade”...
ALLL: “Ridendo Castigat Mores”. Mal comparando, Cervantes, ao
escrever o seu genial Dom Quixote não estava tentando ridicularizar a figura
clássica da época do Cavaleiro Solitário. Não tenho dúvida da respeitabilidade
e da eficácia, sobre o ponto de vista da Fraternidade e Prosperidade dos
Povos, da grande maioria das sociedades secretas. Mas, todas elas, são
gerenciadas por seres humanos, por definição, sujeitos a erros, a tentações, a
pecados. Não cabe a mim, nem foi propósito do livro julgar como está esse
saldo, se negativo ou positivo.
AVS: Por que o maior foco na Sociedade Secreta Skull & Bones?

ALLL: Posso falar com muito prazer, mas
tomará muito tempo, é melhor ler o livro. Bastando
lembrar agora que as coincidências são instigantes:
o número de presidentes dos Estados Unidos da
América que passaram pela Universidade de Yale,
a Comissão que redescobriu Machu Picchu,
patrocinada pela... Universidade de Yale. Já a linda
e histórica Cidade Templária de Tomar foi mera
brincadeira, pura mesmo, homenagem a um casal
de amigos que são de lá e a Portugal de maneia
geral, país admirável.
AVS: Como autor, como pai da obra, você destacaria algum ponto em
especial?
ALLL: Filho a gente gosta por inteiro, não é, evidentemente, uma obra
madura (em que pese meus 69 anos...), ao contrário, já estou me preparando
para dar outros vôos, Mas, quase contradizendo a mim mesmo, eu diria que o
espaço que dei à Administração Pública e as incursões que fiz, o tempo todo,
na Música, especialmente ao Samba, são os tópicos que mais releio e que
estão sendo comentados com mais freqüência. Por exemplo, no conto (conto?)
Concurso Literário pelos Bares do Rio, todo mundo está comentando o lance
do protagonista encantar a namorada com um samba do Elton Medeiros, mas
dizendo ser ele o autor. Acho que é o primeiro caso de pirataria assumida e
impressa. Elton, bom amigo, um dos maiores nomes da Música Popular
Brasileira, que morou também em Nova Friburgo, quando soube, limitou-se a
rir. Creio que não haverá processo.
AVS: Um comentário sobre as duas substanciais contribuições que
foram adicionadas ao livro?
ALLL: É cedo ainda, os comentários estão chegando, sempre
enriquecedores. Essa Entrevista, com toda sinceridade, foi muito bem
conduzida, deve gerar muita crítica e sugestões. Mas posso, quero e agradeço
a oportunidade de elogiar a inestimável contribuição do meu amigo e professor
Nelson Mello e Souza e da minha filha, Dilcéa Maria Lacé Lopes. Ao Nelson
pedi uma Apresentação e recebi, de quebra e por acaso, uma excepcional
palestra sobre Ética. Nada mais atual. Quanto a poeta Dilcéa Maria, seus
versos são fortes, vigorosos, desconcertantes, surpreendem a quem lê tanto
quanto me surpreenderam. Daí a importância de lê-los tendo de fundo a
emocionante área do Rigoletto, “Figlia... Mio Padre”. Dilcéa Maria merece um
livro próprio.
AVS: É sua estréia como escritor?
ALLL: De certa maneira, sim. Esse é o meu sétimo livro, mas o primeiro
exclusivamente de Literatura; os anteriores, ou foram sobre Administração ou
sobre Cultura Popular Afro-Brasileira, um desses, em versão francesa, foi
tomado como base em palestra que fiz em 2007, no Teatro dos Oprimidos
(Boal!), em Paris.
AVS: Para finalizar, onde pode ser encontrado o “Marraio Ferido Sô
Rei”?
ALLL: No Rio, em quase todas as Bibliotecas Públicas e Universitárias.
Para comprar, na Livraria da Travessa (filial Ipanema e a do Shopping Leblon).
A Livraria atende também pela Internet: www.LivrariadaTravessa.com.br
E quanto à Nova Friburgo, pediria a você a gentileza de encaminhar para cada
Biblioteca Pública ou de Universidade, um exemplar do livro.

29 de fevereiro 2008

 
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Marraio Feridô Sô Rei
André Luiz Lacé Lopes
 
O mês de novembro – dedicado a uma das datas mais importantes para a comunidade negra brasileira, o dia 20, data de Zumbi dos Palmares – não poderia chegar ao fim sem esse acontecimento de tamanho significado. Na noite desta quinta-feira, 29, na Livraria da Travessa, no 2º andar do Shopping Leblon (Rua Afrânio de Mello Franco, zona sul carioca), o jornalista e administrador André Luiz Lacé Lopes estará autografando mais uma publicação de sua autoria. O livro Marraio feridô sô Rei é o sexto de sua carreira, primeiro romance do autor. Lacé Lopes é considerado, pela crítica especializada, o “papa” da capoeiragem no país e por isso sua atuação de fortes laços com a cultura afro-brasileira.
Natural do Paraná, mas vivendo no Rio há mais de 60 anos, André Lacé, que tem mestrado na Universidade de Syracuse, em Nova Iorque, já escreveu mais de 300 artigos e crônicas sobre administração, cultura popular afro-brasileira e esportes em geral, além dos seis livros publicados, inclusive um em sua quarta edição e com versão em francês.
Tendo sido redator da Rádio Roquette-Pinto, superintendente administrativo do Clube de Regatas do Flamengo, diretor do Escritório de Assuntos da Juventude na Organização dos Estados Americanos (OEA), em Washington DC, EUA, e assessor técnico do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (Ibam), já visitou 28 países, na maioria dos quais vem realizando palestras sobre cultura popular brasileira.

Marraio
Um livro singular, espécie de montagem administrativa reunindo contos, poemas e ensaios que formam uma história única. Morro do Borel, por exemplo, um dos poemas selecionados, já mereceu dois primeiros lugares em concursos literários, um deles no exterior. Um passeio pelos vários bares do Rio – do Leblon a Pilares – o livro aborda alguns aspectos da vida carioca, brasileira e mundial, “com ligeiras pitadas conspiratórias”, como confessa o autor.
Com 180 páginas, dividido em quatro capítulos, Marraio tem projeto gráfico da Texto & Imagem, que, através da capista Sisa Resende, conseguiu um resultado admirável para a apresentação da capa do livro (reprodução).
Europa
Entre suas 28 viagens ao exterior, André Lacé traz a mais recente lembrança de seu giro pela Europa. Foi em setembro passado, quando esteve em Paris e Madrid, em ambas as capitais européias para proferir palestras sobre “A Arte Afro-Brasileira da Capoeiragem”.

Dois trechos de fino e verdadeiro sarcasmo
“Caiu mais um perigoso aparelho de pessoas honestas. Depois de horas de torturas todos que foram apanhados em flagrante confessaram estarem tramando contra a corrupção e a falta de ética. Os subversivos, com base na legislação em vigor, foram imediatamente executados.”
“Segundo dizem, Paris tem muita livraria, tanto ou mais do que, aqui no Rio, temos de farmácias. O Leblon brilha neste quadro, pois abriga um número de bares e restaurantes muito superior à soma de suas farmácias, livrarias e igrejas. Proporção sábia se considerarmos que o bar, muitas vezes, funciona como a farmácia da alma, e muitos livros são vendidos ou começam a ser concebidos em suas mesas.”

Novembro 2007
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Entrevista com Lacé
 
Em recente visita a Nova Friburgo, o grande mestre de capoeira André Lacé concedeu uma entrevista exclusiva ao A VOZ DA SERRA, em que fala sobre o papel que esta modalidade esportiva ocupa atualmente entre os jovens.

André Lacé está lançando seu livro A Volta do Mundo da Capoeira, no dia 26 de no Country. Como ex-aluno do Ginásio, mais tarde, Colégio Nova Friburgo, o lançamento será promovido pela Associação dos Ex-alunos do colégio,

A VOZ DA SERRA - Fale um pouco sobre sua vida de capoerista.

ANDRÉ LACÉ— São mais de 40 anos acompanhando a prátrica da capoeira, inicialmente aprendendo e ensinando e, mais tarde, como diretor nacional de capoeira da Confederação Brasileira de Pugilismo. Já escrevi mais de duzentos artigos sobre o assunto, criei e apresentei dois programas de rádio no Rio de Janeiro e todos anos faço muitas viagens pelo Brasil e exterior, realizando pesquisas e palestras.

VS - Vocé poderia definir, em poucas palavras, o objetivo de seu livro?

AL - Não é um livro de bravatas nem de fantasias sobre grandes mitos do passado. Apenas informo e faço reflexões sobre o que chamo de "processo de institucionalização da arte afro-brasileira e capoeiragem’, sugerindo que todos façam o mesmo.

VS - O que quer dizer capoeiragem?


AL - Como regulamentar e disciplinar esse fascinante fenómeno popular livre como o vento", cuja essência é a total liberdade de movimentos.

VS – Qual seria a solução?

AL- Está na hora das lideranças da capoeira tornarem conhecimento, assumindo claramente suas posições. É preciso tomar uma posição clara em relação à Lei n 9.696, de 01/09/98, que praticamente joga a capoeira no colo dos professores de Educação Física. O ideal seria revogar esta lei, pois há riscos dela até vir a exterminar a verdadeira capoeira, a tradicional. Também precisamos combater um projeto de lei que está no Senado e que pretende também "paternalizar" a capoeira. Valeria citar, ainda, o Regulamento Internacional da Capoeira, que foi aprovado ninguém sabe por quais países.

VS- De que mais trata o livro?

AL- Meu livro procura resgatar algumas verdades históricas importantes para uma compreensão plena, sobretudo da capoeira como esporte e da capoeira como luta.

VS-Como assim?

AL-Há vários exemplos, como as afirmações magistrais feitas pelo mestre Bimba. Numa esclarecedora entrevista que ele deu ao Diário da Bahia, em 1936, ele já dizia que a polícia iria regulamentar estas demonstrações. Esta e outras afirmações similares provam o conhecimento e a admiração de Bimba pela capoeira praticada no Rio e que inspirou a redação da capoeira regional.

Alguns mestres e estudiosos da Bahia estão um pouco enciumados e escabriados com esta aparente perda de status e de poder Mas esta perda é apenas aparente, pois a contribuição da Bahia, em todo este processo, tem sido inestimável. Entretanto, até os mais enciumados estão começando a utilizar meu livro ( nem sempre mencionando a fonte...) em suas aulas, palestras e artigos.

Personagens ímpares da capoeiragem fluminense e carioca, como Juca Reis, Manduca da Praia, Cyriaco, Zé Galequinho, Camisa Preta, o grande e vitorioso Sinhozinho, André Jensen, Luiz Ciranda, Rudolf Hermanny e outros já começam a merecer a devida atenção do mundo todo. Da mesma forma, estudiosos, jornalistas, cartunistas e escritores como Raul Perderneiras, Calixto, Zuma Burlamaqui, Inezil Penna Marinho, Lamartine Pereira da Costa e Luiz Sergio Dias também começam a ser lidos e discutidos. Além de justa, esta revolução é extremamente salutar para o entendimento pleno do fenômeno capoeira.

VS - Como será o lançamento do seu livro aqui em Friburgo?

AL - Será difícil para mim voltar a encontrar uma união de forças tão positiva e eficaz. A figura simpática e eficiente do coordenador do Centro Cultural do Nova Friburgo Country Clube, o conhecido Jaburu; o competente e objetivo Henrique Cordeiro Correia, da Múlltipla; e o médico André Freire, um velho amigo, especialista em pediatria e cultura popular brasileira. Vale lembrar, ainda, a grande receptividade do próprio presidente do Country. James Lessa Alvarez; do Alexandre "Anchieta’ (foi aluno do Colégio Anchieta, grande adversário, no futebol, do GNF...); do Renato Bravo, gerente do Sesc/NF; de Reginaldo Andrade, o mestre Caroço, do Grupo Barravento; de Leandro Luiz, o instrutor Gaúcho, deste mesmo grupo; e, por ultimo, mas não em último lugar, do meu querido colega do GNF, Sylvio Lago, cujo livro, A descoberta da música..., absolutamente surpreendente, deve ser lido por todos, pois é uma obra-prima.

VS - Qual seria o püblico alvo do seu livro? Ele se dirige apenas aos mestres de capoeira?

AL - Não, o livro se dirige a professores e alunos de colégios, faculdades e universidades. Espero atrair também a atenção do administrador público e do empresariado. A capoeira é um fascinante fenômeno multifacetado, polivalente, que invade um sem número de áreas, especialmente aquelas relacionadas com a música, a comunicação, à história, sociologia, antropologia, geografia, administração, saúde, educação e até o direito.

 
 

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Mandinga & Zé Pilintra & Duende (ou Nova York, Rio e Madri)
André Luiz Lacé lopes
 
Noite de quinta-feira, parto para a velha e ressuscitada Lapa Boêmia com três
objetivos específicos: 1. Passagem rápida pelo Quilombo de Mestre Arerê, para deixar
cópia de DVD sobre Dr. João Grande; 2. Passagem rápida pelo Bar do Ernesto para
reservar grande mesa para, no dia seguinte, assistir a mais uma antológica apresentação
de Lúcio Sanfilippo; e 3. Assistir, junto aos Arcos, espetacular demonstração do Jongo
da Serrinha, Tambores de Alma, 4 esquinas, Mariocas, Boi-daqui, Cia da UFRJ, Ação
da Cidadania, 3 Marias e do Conjunto Pé de Chinelo (Sra. Vanusa Maria de Melo -
http://www.pedechinelo.com.br/luciosanfilippo.php).
Subestimei a Roda do ilustríssimo senhor Eraldo Teixeira da Silva (Arerê), no
Circo Voador, que, apesar de todos os percalços previsíveis, capoeirísticos ou não, vaise
firmando como ponto de encontro da capoeirada do Rio e do mundo (como veremos
mais adiante). Era para entregar o DVD ao Seu Arerê e sair batido, acabei ficando tanto
tempo que mal deu para assistir o final do Jongo e reservar as mesas.
Mas valeu!
Valeu pelo momento da roda, e valeu pelo que virá mais adiante, especialmente
a visita de uma universidade espanhola, prevista para o mês que vem..

Comecemos pela Roda, que, mais uma vez, contou com mestres visitantes
ilustres e com a excelente prata da casa. Dos mestres visitantes quero e devo destacar
Mestre Rui (foto), meio desaparecido, mas que chegou firme e forte, acompanhado de
sua esposa, historiadora, e relembrando alguns de seus grandes mestres como Deraldo,
Zé Grande e o extraordinário Mário Santos. Relembrou, também, as históricas rodas
livres dos Mestres Artur Emídio e Zé Pedro (claro, “cada qual no seu cada qual”).
Quanto à prata da casa, lamentando não poder citar todos, volto a chamar a
atenção para dois nomes: Carlos Firmino, o Cabeleira, e Danilo Foguinho. O primeiro
deveria ser contratado para correr o Brasil e o mundo ensinando, com a sua
capoeira inteligente, o que é ter garra, talento, vontade de viver e, obviamente, de jogar
capoeira. O segundo é garoto ainda, mas já impressiona pelo modo de treinar, jogar e
encarar a capoeira.

Ao final da Roda, seguindo boa tradição, Mestre Arerê apresenta seus convidados,
dá voz a cada um deles e fecha a roda com seu discurso de sempre – inteligente,
engajado, sem hipocrisia, enfatizando a importância da militância social e da luta
diuturna pelos direitos humanos realmente para todos. Arerê sempre aproveita, também,
para louvar todas as capoeiras, todas as correntes, todos os mestres, mas deixando claro
a fundamental importância da capoeiragem do Rio Antigo e do Rio de Hoje, exemplificando
com alguns casos de estilos e capoeiras de outros estados que só alavacaram para
o sucesso depois de passarem por essa Cidade meio (completamente?) abandonada, mas
ainda Maravilhosa.
Foi nessa fala final que Arerê teve por bem resumir o convite a ele endereçado
por uma universidade espanhola. Um convite impressionante, invejável e sintomático.
Impressionante pois revela o interesse do mundo na prática da Capoeiragem,
não apenas como entretenimento ou desporto, mas como valioso instrumento de
conscientização e luta pela cidadania plena. Invejável pois dá para perceber o quanto
avançada está essa universidade espanhola, em relação aos bons aspectos da capoeira, e
como estamos nós, pelo menos boa parte das lideranças, cada vez mais mergulhando no
3
terreno pantanoso das mesadas públicas e paternalísticas em troca de apoio políticoeleitoral
completamente cego. E, finalmente, sintomático, pois o interesse da
universidade espanhola, muito acertadamente, se volta para trabalhos como o que
desenvolve Arerê.
Ou seja, já deve ser do conhecimento do resto do mundo (mas, infelizmente,
muitos mestres resistem em perceber) que a grande maioria dos programas de inclusão
social pela capoeira não passam de “programas de exclusão social” para justificar
malversação de verbas públicas ou privadas. Claro, com raras e honrosas exceções. A
distribuição de Cestas de Alimentação, durante essa ou aquela Roda ou “Congresso” de
Capoeira, também é incontestável exemplo de hipocrisia e manipulação social. O pobre,
especialmente o pobre esfomeado quer e merece a chance de um emprego, de um
salário razoavelmente digno, de programas de casa própria (tecnologia da escassez!)
realisticamente financiável, de bons hospitais e escolas públicas...
O pobre, sobretudo, não quer migalhas eleitoreiras, quer uma solução
definitiva. E o Brasil é grande, ousaria dizer sem medo de errar ou exagerar que o Brasil
é rico, basta bem administrar suas riquezas, a dinheirama tributária que entra
diuturnamente nos cofres públicos – municipais, estaduais e federal. Só isso, mas nada,
uma vez empregado, o pobre compra seu próprio pão e, na medida do possível, vez por
outra, carrega até a mulher e filhos para uma seção de cinema.
Mas, afinal, que vem essa universidade espanhola fazer aqui no Brasil, no
Rio de Janeiro?

Claro, a Agenda vai além da Capoeira, mas, em muito boa hora, os responsáveis
pela viagem, trataram de agendar visita ao Quilombo do Mestre Arerê. A Capoeira
agradece e, posso adiantar, o grupo espanhol sairá satisfeito, pois será muito bem
recebido, assistirá extraordinária Roda e, o que é igualmente muito importante, ouvirá
reflexões sociais e históricas à altura da verdadeira Capoeira, do Rio e do Brasil.
Esse é e sempre foi o discurso natural do Mestre Arerê. Bem diferente da
maioria dos mestres de capoeira que prefere, pragmaticamente, uma política de boa
vizinha eterna com todos os governos. O importante, para esses, é pleitear e conseguir
verbas para tocar seus respectivos projetos, sem jamais criticar eventuais falhas
governamentais, sugerindo ações sociais mais adequadas e oportunas.
Nesse momento, por exemplo, paira no ar brasileiro e mundial, uma grande crise
de valores
Esse é e sempre foi o discurso natural do Mestre Arerê. Bem diferente da
maioria dos mestres de capoeira que prefere, pragmaticamente, uma política de boa
vizinha eterna com todos os governos. O importante, para esses, é pleitear e conseguir
verbas para tocar seus respectivos projetos, sem jamais criticar eventuais falhas
governamentais, sugerindo ações sociais mais adequadas e oportunas.
Nesse momento, por exemplo, paira no ar brasileiro e mundial, uma grande crise
de valores éticos. Realmente é difícil tomar posição, mas, por outro lado, não se deve
fechar os olhos e fingir que nada está acontecendo de singular. A julgar pelas manchetes
de primeira página dos principais jornais do país um festival de pequenos e grandes
escândalos governamentais parece não querer sair de cartaz. O próprio Poder Judiciário
confirma também a existência de tais escândalos. Pois muito bem, se 10% do que se fala

for verdade, teríamos aí um dinheiro para colocar um posto de saúde e uma escola
pública em cada bairro brasileiro. Funcionando, evidentemente...
Não haveria, então, necessidade de tantas ONGs – algumas fantasmas –
recebendo verbas milionárias e produzindo muito pouco ou mesmo nada. E as Rodas e
“simpósios” de capoeira poderiam esquecer essa preocupação, mais marqueteira do que
efetiva, de distribuir meia dúzia de cesta de alimento durante uma tarde.

Avaliar a vida sóciopolítica de um país, mais do que nunca, significa avaliar seu
desempenho ético. A grande maioria das lideranças capoeirísticas, especialmente da tal capoeira contemporânea, reacionária por tradição, não toma posição a respeito de tais desmandos.
Dependesse de mim, em todas rodas de capoeira, seria distribuída uma cópia dos melhores artigos
que, quase magicamente, ainda estão sendo inscritos sobre corrupções e desmandos comprovados.
Como, por exemplo, o artigo “A verdade está na cara, mas não se impõe”, de
Arnaldo Jabor, publicado no jornal O Globo, no dia 25 de abril de 2006.
Voltemos à fascinante Espanha, não apenas das boas universidades, mas de várias mandingas,
como o encantado mundo dos DUENDES. Foi em memorável noite no restaurante
Andalusi (foto), em Madrid, ainda não descoberto pelo turista (não sabe o que perde), durante
conversa acidental, que descobri um curioso parentesco entre a nossa mandinga e os duendes.


O termo (duende) vem do sânscrito, significa Divindade. Assim como o capoeira, às vezes,
fica tomado pela mandinga e joga como ninguém, também os flamencos “recebem” o DUENDE.
Segundo Carmem Romero, nesse contexto, duende seria um “estado de exaltação que se
manifesta nos dançarinos de flamenco, de modo inesperado e sem duração mensurável”.
Antonio Canales vai mais longe, em entrevista jornal inglês, solicitado a definir duende,
respondeu: God’s orgasm!

A explicação, entretanto, que mais se ajusta aos dois fenômenos mágicos –
mandinga e duende – me foi passada sem a precisão do autor (pelo que peço desculpa
por sua não citação): “Duende é o sentimento que conecta a alma à essência da vida,
liberado devido ao intenso envolvimento emocional com a música e dança. É parte da
natureza humana, e se expressa de várias formas. É um estado de transe experimentado
durante uma performance que pode levá-lo a gritar "Olé" (ou IÊ!) inconscientemente."
Como a viagem terá caráter marcantemente acadêmico já foi adiantada a
sugestão de tópicos básicos. Tópicos que revelam bem a seriedade e a profundidade da
visita, como por exemplo, “reflexões sobre a trajetória social no Brasil nesses 20
últimos anos”. Repito, localizaram a pessoa certa, Mestre Arerê, que tem consciência

plena do processo degenerativo, mercantil e aburguesado que ronda a evolução da
Capoeira, da tendência a um “embranquecimento” excessivo e preconceituoso, da sua
utilização indevida por alguns governos, especialmente os ditatoriais.
Tão pouco Arerê tentará professorar sobre as culturas afro-brasileiras sem citar
nomes e obras como Nei Lopes, Pepetela e outros, e, sobretudo, sem cometer o erro
crasso cometido por um famoso mestre de capoeira contemporânea, que foi a Angola e
voltou com a mania de homenagear, nas camisas e nos apelidos de seus novos alunos,
animais em extinção na África. Esquecendo-se, simplesmente, do principal animal em
extinção na África, que é o próprio africano. Permito-me aqui, um pequeno comercial,
voltando a sugerir a leitura, oportunamente, do meu próximo artigo “Receita de
Angola”.
Termino com rápido comentário sobre o DVD que fiz, com base na filmagem
feita por mando de Mestre João Grande, durante uma de minhas visitas a sua academia
em Manhattan, em Nova York, verdadeira embaixada brasileira da capoeiragem.

Filmagem antológica pois, de maneira despretensiosa, mostra como se deve dar
uma aula, como se deve comandar uma roda, como se deve recepcionar visitantes e
amigos, como se deve louvar o próprio mestre (Pastinha!), como se deve comemorar um
aniversário de aluno e como se deve “fechar” uma roda dentro dos mais puros e
poéticos fundamentos de Angola. Aproveitando a passagem de vídeo para DVD incluí
mais meia hora de informações (capas de livros chaves para o entendimento pleno de
capoeira, fotos raras etc) e uma curiosidade, um pequeno trecho de uma roda de
capoeira onde apareço, longas décadas atrás, jogando com o Mestre Preguiça. Tirei dez
cópias para distribuir para alguns amigos interessados, um deles, o Seu Arerê.
Vale!

Leblon 30 de Abril 2006

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Registros de um Presidiário
André Luiz Lacé Lopes
 
Não lembro dos detalhes, realmente não sei. Talvez com os anos, eu comece a lembrar. Dizem que é assim que a banda toca, Um pouco por velhice, um pouco pela cadeia. Muita solidão, muita injustiça, muita maldade, muita tristeza, a gente vai voltando para a infância. Você sabe, p`ra se esconder do presente o cara corre p`ro passado, aí a memória volta. O que a gente procura mesmo é viver na memória, sem grade atrapalhando.

Mamãe vivia dizendo que papai era mulherengo, mas eu lembro dele mesmo é tocando violão. Não entendo muito de música, mas acho que ele não tocava grande coisa, nunca vi ele tocando com alguém. Sempre sozinho, dedilhando o violão, às vezes fazendo um ou outro solo. Tinha um chorinho que ele tocava quase inteiro. Vez por outra me chamava, eu sentia que ele queria dizer alguma coisa, passar alguma coisa, talvez, imagino agora, mostrar que era um bom sujeito. Nessa hora sempre tocava um chorinho que, um belo dia confessou, “tinha aprendido com a rainha”.

Quase gelei, que história é essa, compadre, o velho teria pirado!?

Nada disto, depois entendi, era coisa de santo, entende?

Rainha Isabel de Aragão, uma santa que acabei conhecendo e resolveu meu problema na época. Aliás dois. Veja você, eu, garotinho, sem acreditar em ninguém, nem em mim, acabei pagando pra santa que me ajudou. O tempo todo ela ajudava, cara, falava espanhol, salvo quando trabalhava nas falanges de baixo, aí tome cemitério e trabalho em encruzilhada. Como rainha, operava, eu vi meu irmãozinho, ninguém me contou, ou melhor, vi pela metade, pois na outra metade desmaiei, era muito sangue, dragão, mas no final, a garota ficou curada. Tinha nascido com dois sexos, não sei se você saca isto, mas às vezes acontece, a rainha cortou o peruzinho, na maior, e tudo ficou certo. Ou acho que ficou, pois, mais adiante, a rainha morreu, morreu muito estranhamente, sobre isto não posso falar, e tudo parou por aí. Claro, até me jogarem nesta pensão pública, andei correndo gira, mas sem pressa, sem guarda baixa, mas para ouvir o atabaque e as meninas cantando. Coisa bonita, sinto falta até hoje. Mas, conselho, obrigação ou despacho, nem pensar. A roça e o terreiro estão que nem Brasília, que nem a Casa Branca, que nem a ONU, tudo armação, meu irmão. De vez em quando, tem briga de cachorro grande, e um deles vem se hospedar aqui com a gente, malandro. É quando o boião melhora.

Tudo isto pra mim morreu, eu vivo agora pendurado na saudade do amor, foi o que mais me aconteceu de bonito, é isto que me segura. Do amor em casa ao amor da rua. Amar malandro, amar o tempo todo, poucos amam de verdade, a maioria pensa que ama, a maioria finge que ama, modesta à parte, eu amei de verdade todas vezes que eu amei. E tive sorte, muita sorte, fui amado, também, por todas mulheres que amei. . Coisa, bem sei, sempre discutível, mas, sou ousado, ouso dizer, fui amado também.. Digo e afirmo, sem medo de errar, muito embora, fique sabendo, se estou errado não tem a menor importância. Ou melhor, não nego que o ideal é amar e ser amado, mas, se tivesse que escolher entre amar e ser amado, não vacilaria, escolheria amar a ser amado. Ser amado é bonito, dá um sacode no ego, até te lança como cafetão na paradas da vida, mas não satisfaz totalmente, Já amar é soberano, manda nas coisas e nas almas. Você caminha sorrindo até pelo deserto, você vê na escuridão, você sonha acordado, lindos sonhos de amor. Você se torna irmão da humanidade, cidadão exemplar, galã do teu filme.

Muito que bem, é hora de você perguntar porque, então, estou preso?

É, eu bem que poderia te enrolar, tenho estudo, sou andado, você sabe, pra mim não é difícil dar uma volta pelo Alaska, descer pela Rocinha e aterrisar no seu pensamento, mas prefiro ser direto e sincero: não sei.

Leblon, Janeiro 2005

 
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CUBA: Hasta Siempre!
André Luiz Lacé Lopes
 
Viajei para Cuba com uma dezena de encomendas: livros de José Marti e Nicolás Guillén; cds de Pólo Montanez, Compay Segundo, Carlos Puebla (Hasta Siempre!), Pablo Milanês e outros; e, naturalmente, guayaberas, charutos e rum "de sete anos para cima".

Volto com muito mais do que tudo isto, volto com a certeza de que a fascinante e brava nação cubana merece o respeito e admiração de todo o mundo. Certeza, não somente minha, mas de minha mulher e de minha filha, duas maravilhosas companhias nessas voltas pelo mundo.

Tendo em vista alguns comentários negativos sobre Cuba, das duas uma: ou são comentários levianos, até suspeitos, ou Cuba mudou muito. É evidente que não nos limitamos aos passeios programados oficialmente para os turistas (que são muito bons), andamos por todo lado, conversamos com um considerável número de pessoas, com ou sem diploma superior...

Claro que existem problemas, não apenas por um desumano e contraditório "Bloqueio Econômico", mas, também, por alguns ajustes que, na minha opinião, se fazem necessários no comportamento dos administradores públicos de médio e alto porte. Mas, onde, no mundo, não existem problemas sociais graves?

A tudo isto, o povo cubano resiste heroicamente, numa demonstração única de fibra e esperança. Esperança que o triste bloqueio acabe, e Cuba, mas do que Turismo, possa negociar seus extraordinários avanços em áreas sociais importantes, como, por exemplo, a área da Saúde.

Tempos atrás, morando em Nova York, ouvi de um amigo, autêntico nova-iorquino: "você vive em Manhattan 60 anos e, mesmo assim, não poderá dizer jamais que conhece bem esta ilha encantada". Comentário que, tranqüilamente, serve também para essa fascinante ilha-nação chamada CUBA. Com cautela, pois, passo a resumir esta minha primeira visita.


Havana (dezembro - fase inicial)

Ficamos no Hotel Habana Riviera, um dos mais antigos da Capital. Problemas em relação na reserva foi resolvido com grande magnanimidade e pragmatismo: ao invés do triplo reservado, deram-nos uma suíte. Arriscamos ver o primeiro show - Tropicana - no próprio hotel, o que equivale a ver um show de samba no Plataforma, no Leblon. Ou seja, espetáculo feito sob medida para turista. Mesmo assim, dá uma idéia razoável da cultura musical e dançante local. Apesar de vários bons restaurantes e bares do hotel, fomos encontrar uma comida extraordinária no hotel ao lado - o Meliá Cohiba (Restaurante Italiano, que recomendamos a todos). Na própria Tabacaria do Hotel Riviera, tomamos conhecimento de um charuto (puro" ou "havano") muito especial: Trinidad. Na primeira "puxada" percebi que estava fumando o melhor charuto do mundo. Com todo respeito ao Monte Cristo, Partagás, Romeu e Julieta e, sobretudo, ao Cohiba, mas este Trinidad, é imbatível.

Um possível problema de pressão sanguínea levou-nos ao médico do hotel (existe um posto médico, 24 horas, em cada hotel!). Nada estava errado com minha pressão, mas, "para não perder a viagem", brasileiramente, minha mulher aproveitou para consultar sobre um crônico problema intestinal. O resultado foi absolutamente brilhante. Após nos ouvir, pacientemente, o jovem médico fez um resumo contemplando cada uma das hipóteses já detectadas aqui no Brasil, enfatizando a que lhe pareceu a mais provável. Em função disto, prescreveu medicamento. Desde, então, minha mulher parou de sentir as tremendas dores que, quase diariamente, era obrigada a suportar. Após recebermos uma aula sobre o sistema acadêmico na área da Saúde e a mentalidade cubana de curar o doente (e não fazer indústria de cada doença), deixei o consultório pensando como seria útil convidá-lo para um intercâmbio no Brasil. Bom para ele e bom para o Brasil. Considerando que, embora com fortíssima base em Medicina de Família, o Dr. Jorge Lopes Valdés está especializando-se agora, em geriatria. Aproveitando minha primeira consulta com a famosa Dra. Mariana Jacob, vou sugerir convidá-lo para algum tipo de estágio ou mesmo seminário. A mesma sugestão darei ao extraordinário Dr. Fernando Vaz na certeza de que um estágio em seu consultório, daria ao jovem médico cubano uma valiosa experiência na área de Urologia.


Santiago de Cuba

Perto da histórica Sierra Maestra, fizemos todas as visitas principias, valendo destacar três: 1. Ao túmulo do grande poeta José Marti onde, de meia em meia hora, há uma solene mudança de guarda (não é todo país que ama e consagra tanto seus heróis, heróis de verdade, como José Marti é exemplo perfeito); 2. Ao Quartel de Moncada, onde os buracos de balas nas paredes continuam preservados, lembrando uma das primeiras tentativas de Fidel Castro para libertar Cuba. 3.Restaurante Las Gallegas (indicado por um simpático, bem humorado e quase misterioso Señor Juan Munné, de Barcelona, durante um encontro casual na piscina do hotel; senhor que, simplesmente, sabia tudo a respeito do mundo, chegou a nos indicar alguns livros sobre a Amazônia e sobre Machado de Assis.

Infelizmente, houve uma decepção, fomos a um complexo esportivo para fazer uma entrevista com o diretor local do Instituto Nacional de Educación Física e Recreacion, INDER, Senhor Pedro Garcia. É que, embora tendo chegado depois de nós, um famoso jogador de beisebol, de fama internacional, passou a nossa frente. Esperamos uma hora, como o campeão não saia, saímos nós. Afinal, para o Brasil, seria sucesso garantido, uma matéria sobre os excelentes resultados que Cuba vem conseguindo no chamado Esporte de Massa e nos Centros de Excelência. Já o beisebol brasileiro...

Varadero

O mesmo senhor Munné, implacável - "O Pelourinho, em Salvador, era bom, agora parece de plástico, terrível" - alertou que Varadero não era mais Cuba, estava muito americanizada. Como estava acertando em todos seus comentários críticos, chegamos em Varadero meio preocupados. Passamos o Reveillon por lá, com um jantar sem gosto e - o que é muito grave - recebendo um Kit Alegria, constituído de apitinho, máscara, duas serpentinas e um colarsinho de havaiano. Saímos, eu, minha mulher e minha filha, diplomaticamente do baile, com uma garrafa de champanhe debaixo do braço, e fomos dobrar a meia-noite, sozinhos, na praia, jogando flores no belíssimo mar do Caribe, para a Sra. Yemanjá.

"Em terra de sapo, de cócoras com eles", vai daí que alugamos uma moto e saímos rodando pelas lindas praias de Varadero e - é claro - pelas tabacarias e casas de rum.

Depois de muita praia, piscina e não sei quantos extraordinários mojitos e piñas coladas, percebendo que o ônibus contratado no Rio, chegaria muito tarde, alugamos um táxi e partirmos, novamente, para Havana. De vez em quando é aconselhável sair fora do planejado.

Havana (janeiro, 2003 - fase final)

De certo modo, era nossa segunda visita a Habana!
Com alguma experiência, e ficando num Hotel Inglaterra, bem central, pudemos voltar a percorrer o Boulevard Obispo (caminhada obrigatória), bebericando pelos bares onde, sabiamente, Ernest Hemingway bebericou. Voltando para o hotel, na última noite, meio desorientados de tanto andar, perguntamos a um casal que passava onde ficava a famosa La Bodeguita del Medio. Ficava meio longe, íamos desistir, o casal - Deus saberá porque - ofereceu-se para nos levar. Era a sorte que faltava, conversar com um casal jovem tipicamente cubano, ele, Damian Fernandes, biólogo e cozinheiro, filho de médico; ela, Yudith Escalett, jornalista e poeta.

Jantamos na superfamosa e superlotada La Bodeguita, recebendo uma verdadeira aula sobre alimentação. Um dos grandes sonhos do sonhador Damian é escrever um livro sobre Comida Cubana. Ao longo da conversa, minha mulher, sempre charmosamente participante, resolveu meter a colher: "cozinhar é detalhe!"

- "Si", respondeu de bate-pronto o jovem cubano, "pero hay que tener, tambíen, sentimiento"
- Ora, se você tem o conhecimento específico e Yudith é jornalista, o que está faltando para vocês escreverem um livro? Perguntei.

Era nosso último dia em Cuba, lembrei que estava ainda com um exemplar do meu novo livro ("Capoeiragem no Rio de Janeiro - Sinhozinho e Rudolf Hermanny"). Não apenas o livro, mais um vídeo do lançamento no Clube de Regatas do Flamengo, dois cds, um de capoeira, outro de MPB (Elton Medeiros, por acaso, também, um grande cozinheiro, e outros), e duas camisas da AMA-Leblon recebidas do Dr. João Fontes, presidente da Associação (na realidade é o Imperador do Leblon). Fiz um pacote e passei para as mãos do simpático casal, juntamente com dois artesanatos feitos pela Casa do Capoeira (São Cristóvão, RIO).

Em "contra-partida", tiramos foto com o conjunto do Bodeguita, todos amigos de Damian, que fizeram um pie forzado (improviso musical) especial para o Brasil; assinamos na parede do bar e comemos dois dos mais típicos pratos de Cuba (masas de puerco fritas e pierna de puerco asada em su jugo). E mais, ouvimos, do casal, um relato honesto e emocionante, sobre a Saga do Povo Cubano. Incluindo-se aí comentários inteligentes sobre Ernest Hemingway, Nicolás Guillén, Pablo Milanés, Carlos Puebla, José Marti, Guevara, Cienfuegos e, além de outros, certamente, Fidel Castro.

Como para viajar, o cubano deve seguir certos trâmites, a exemplo do médico acima (Dr. Valdés), também aqui vejo dois bons exemplos de convidados especiais. O primeiro, para algum Festival Internacional de Comidas Típicas, e a segunda, a bonita e competente jornalista Yudith (de improviso, escreveu uns versos na famosa toalha de papel da Bodega), para algum Simpósio sobre Jornalismo. No caso do médico e do cozinheiro, pouco possa fazer (alem da presente sugestão), no caso da jornalista, pessoalmente, levarei a idéia à Associação Brasileira de Imprensa, ABI, e ao Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro.


"Vienes quemando la brisa
Con soles de primavera
Para plantar la Bandera
Con la luz de tu sonrisa
Aquí se queda La Clara
la entrañable transparencia
de tu querida presencia
comandante Che Guevara"

Carlos Pueblas (Hasta Siempre)

Leblon, RIO/Brasil – 05.01.2003
 

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Jazz & Músca Clássica
André Luiz Lacé Lopes
 
Reencontrei no outro dia, ocasionalmente, Paulo Santos, produtor e apresentador do primeiro programa de jazz aqui no Brasil. Estava sentado, despojadamente, numa pequena praça, no Posto Cinco, em Copacabana. Conversamos rapidamente, mas o suficiente para que eu lembrasse e elogiasse o seu antigo e primoroso programa de rádio e algumas outras de suas notáveis realizações como, por exemplo, o aluguel de uma das barcas que fazem o percurso Rio/Niterói, para uma especialíssima viagem pela Baia da Guanabara ao som de vários conjuntos de jazz. Sabendo do interesse de Santos, também, pela chamada música clássica (é o narrador de uma da melhores gravações de Pedro e o Lobo, de Prokofiev), mencionei, nesse rápido encontro, uma excelente palestra a que tive oportunidade de assistir sobre o tema "Jazz & Clássico - e vice-versa". Palestra apresentada, em Nova Friburgo, pelo jornalista Aristélio de Andrade - extraordinária figura humana! - em uma das reuniões mensais de um grupo de aficcionados (e profundos conhecedores) de Jazz.

Fiquei de montar e enviar para ele, Paulo Santos, um CD com resumo da mencionada palestra que se inicia com o famoso Prelúdio nº 1, gravado pelo conjunto francês Swingle Singers (Jazz Sebastien Bach!), passa para o conjunto não menos francês Jacques Loussier Trio (Fuga nº 5 em Fá Maior, Plays Bach!), contempla, como não poderia deixar de contemplar, o excelente tratamento que Miles Davis teve por bem dar ao Concerto de Aranjuez (Rodrigo) e vai por aí, terminando, como não poderia deixar de terminar (não fosse o Sr. Aristélio), com um leve toque político: Red Square Blue!

Promessa que só estou cumprindo agora, juntamente com estas linhas, por uma razão muito simples: o trabalho inicial foi enriquecido pela contribuição de Carlos Henrique Gomide - médico, filósofo, violonista, maestro e excelente capoeirista! - que, não podendo ir à palestra do Aristélio, tratou de enviar, a posteriori, algumas excelentes sugestões. Sugestões (CD especialmente montado) que enviou juntamente com observações ligeiramente irreverentes como é do seu estilo. A maior parte do Cd está ocupada com a versão antológica que Barney Kessel e seu conjunto fizeram para a ópera Carmem, de Bizet. Gomide termina sua montagem fazendo, ele mesmo uma curiosa composição musical: com base no Concerto de Brandenburgo # 3, cujo segundo movimento Bach escreveu apenas na forma de um tema, em modo Frígio, para ser improvisado (no melhor espírito jazzístico) pelos intérpretes, deixou que seu computador fizesse o improviso. Resultado discutível, segundo o próprio Gomide, mas, sem sombra de dúvida, bastante curioso...e irreverente.

Mas o atraso do CD prometido não se deveu apenas à contribuição gomideana, posto que, tempos atrás, visitando Washington D.C., recebi do Sr. Cenésio Feliciano Peçanha, mais conhecido, internacionalmente, por Mestre Cobra Mansa (Capoeira Angola!), dois excelentes álbuns duplos de Cd: "Roots of the Blues" e The Jazz Masters. Senão ligados à música clássica, seguramente ligados à música afro-brasileira, como veremos mais adiante.

Cinésio, há décadas radicado na capital norte-americana, onde é presidente da Fundação Internacional de Capoeira Angola, FICA, aprecia, também, o jazz, especialmente na sua forma mais antiga, onde é possível encontrar algumas letras muito assemelhadas às velhas chulas da capoeiragem. Vez por outra, assim como eu (embora em freqüência muito menor) Cenésio freqüenta o Blues Alley, um dos grandes templos de jazz nos Estados Unidos. Qualquer noite no Blues Alley, por definição, vale a pena, sendo bom exemplo, o espetáculo que tive o prazer de lá assistir na recente visita acima mencionada: Sra. Rachelle Ferrell, extraordinária cantora jazzística, pianista e violinista, com vários outros cursos de música!

E não tive o prazer de ouvir apenas a ela, ouvi também o seu irmão, Russ Barnes (voz igualmente cheia de "blue note"; fenômeno que pode ser encontrado na Capoeira) e um conjunto que, de tão virtuoso, mereceria até fazer um show à parte (Ricardo Jordan, na bateria; Jef Lee Johnson, na guitarra; Byron Miller, no baixo; e Phil Davis, no keyboards). Na ocasião, pelo garçon, enviei para a Sra. Ferrell um exemplar do meu livro, com uma longa dedicatória chamando atenção para a página 40 ("Drums and Berimbau"), elogiando especialmente sua interpretação em Individuality ("Can I be Me?"), e com a seguinte observação final: "You are 100% Jazz and 100% Capoeira Angola". Se ela entendeu, não sei, mas um mandingueiro recado foi dado.

Pesando e repesando este conjunto mal alinhavado de informações achei que poderia compor um artigo, quando mais não fosse para lembrar a todos que conheceram o trabalho de Paulo Santos que estamos, todos nós, devendo-lhe uma grande homenagem. Creio que chegará na hora certa.

Outubro 2002

 

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Futebol Copa e Marmelada
Ontem o juiz sul-coreano Kim Young Joo jogou um bolão. Será?
 
André Luiz Lacé Lopes

"Tempo de guerra, mentira como terra". Para confirmar, bastará prestar mais atenção aos noticiários unilaterais de algumas "guerras" de hoje em dia.
O Esporte, especialmente a Copa do Mundo de Futebol, é uma guerra. Uma guerra mundial, uma guerra mercadológica de produtos, onde se vende de tudo, inclusive patriotismo-eleitoral.
Há pouco tempo, o Poder Legislativo Federal abriu duas comissões de inquérito para apurar uma longa série de denúncias na Administração do Futebol Brasileiro. Uma no Senado, outra na Câmara Federal. Grande parte do trabalho dessas comissões foi transmitida pela televisão e transformou-se, rapidamente, em líder de audiência. Perplexo e revoltado todo Brasil tomou conhecimento de pormenores da gerência do futebol brasileiro, inquestionavelmente, condenáveis.
Pois muito bem, o que aconteceu?
Nada, absolutamente nada.
E nem poderia, correm a explicar alguns cínicos de plantão, "pois é ano de eleição, e político não é louco de mexer com o ópio do povo numa hora dessas".
Vão além, lembram que houve uma combinação em Paris: "nós perderíamos lá - como, misteriosamente, perdemos - e nós ganharíamos a próxima".
Arranjo altamente conveniente levando-se em conta a importância, naquele momento, da França vencer uma cópia e, da importância no atual momento, do governo brasileiro vencer uma COPA", completam os fofoqueiros de sempre. Versão, sem dúvida, tão terrível quanto leviana. Mas, "caluniai, caluniai que alguma coisa fica". Vai daí, pelos bares da Vida, a Copa das Línguas Viperinas já começou:
- "Ah, é por isto que o Felipão está tão confiante".
- "Afinal, como um técnico escolhido por um presidente acusado comprovadamente, por uma comissão de inquérito, de vários delitos administrativos e institucionais, insiste tanto em bater na teclado bom-mocismo, do jogador-escoteiro, da seleção-família?".
- "Faz sentido sim, está tudo combinado, se o Tio Felipão voltar com o caneco, o governo elege quem ele quiser". "Daí porque tudo acabou em pizza".
Claro, claro, não falta, também, quem reaja frente ao absurdo desta versão perversa, pois, "como seria possível combinar um resultado com todos os demais países, com os demais cartolas, com os demais técnicos, com os árbitros, e, sobretudo, com os jogadores das outras seleções"?
Cresce a discussão:
- "Ora, ora, a História do Mundo, particularmente a História do Esporte, infelizmente, está cheia de exemplos. Sabe-se, por exemplo, que durante muito tempo havia uma espécie da máfia do Box internacional, forjavam resultados e campeões, ganhavam muito dinheiro com isto!".
- "Sendo que agora o interesse dos grandes patrocinadores de uma Copa transformam a coisa realmente numa guerra, certo!?"
- "Há muito dinheiro envolvido, há muito interesse secundário, uma vitória na copa pode perfeitamente decidir uma eleição no país vitorioso, é ou não é?". "E quanto ao dinheirão envolvido?".
A discussão vai aumentando e, sem sombra de dúvida, vai aumentar muito mais. Maledicência, complexo de inferioridade, inveja e politiquice barata é que não faltam. Polêmica que está sendo potencializada pela Internet por onde voltou a circular uma versão muito especial para a der-rota do Brasil na última Copa do Mudo de Futebol. Por oportuno, vale a pena transcreve-la:

----- Original Message -----
From: - To:
Sent: Wednesday, December 06, 2000 12:36 AM - Subject: Futebol
SERÁ QUE É POSSÍVEL UMA COISA DESSAS ????
Preço das Copas 1998/2002 ????
Talvez, isso explique a razão do Jogador Leonardo ter declarado a seguinte frase: "Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas". Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por terem perdido a Copa do Mundo de futebol, na França. Não deveriam. O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especi-ficamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.
Fato comprovado: o Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa. Os motivos: O Brasil (leia-se governo brsileiro) precisa ganhar a próxima COPA de 2002, justmente o ano de eleição presidencial. A Fifa e a International Board, sempre disposta a este tipo de composição, concordaram com a estratégia.l.


Os jogadores titulares brasileiros foram avisados, às 13:00 do dia 12 de Julho (dia do jogo final), em uma reunião envolvendo o Sr.Ricardo Teixeira (na única vez que o presidente da CBF compareceu a uma preleção da seleção), o Técnico Mário Zagallo, o Sr. Américo Faria, supervisor da seleção, e o Sr. Ronald Rhovald, representante da patrocinadora Nike. Os jogadores reservas permaneceram em isolamento, em seus quartos ou no lobby do hotel. A princípio muito contrariados, os jogadores se recusaram a trocar um penta-campeonato mundial na França por outro onde poderão não voltar a ser convocados (muito embora o "pacote" inclui a segurança de nova convocação).


A aceitação veio através do pagamento total dos prêmios, US$ 170.000,00 para cada jogador, mais um bônus de US$ 400.000,00 para todos os jogadores e integrantes da comissão, num total de US$ 23.000.000,00 (vinte e três milhões de dólares) através da empresa Nike. Além disso, os jogadores que aceitarem o contrato com a empresa Nike nos próximos 4 anos terão as mesmas bases de prêmios que > os jogadores de elite da empresa, como o próprio Ronaldo, Raul da Espanha,Batistuta da Argentina e Roberto Carlos, também do Brasil.

Mesmo assim, Ronaldo se recusou a jogar, o que obrigou o técnico Zagallo a escalar o jogador Edmundo, dizendo que Ronaldo estava com problemas no joelho esquerdo (em primeira notícia divulgada às 13:30 no centro de imprensa) e, logo depois, às 14:15, alterando o prognóstico para problemas estomacais. A sua situação só foi > resolvida após o representante da Nike ameaçar retirar seu patrocínio vitalício ao jogador, avaliado em mais de US$ 90.000.000,00 (noventa milhões de dólares) ao longo da sua carreira.
Assim, combinou-se que o Brasil seria derrotado durante o "Golden Goal" (prorrogação com morte súbita), porém a apatia que se abateu sobre os jogadores titulares fez com que a França, que absolutamente não participou desta negociação, marcasse, em duas falhas simples do time brasileiro, os primeiros gols. O Sr.

Joseph Blatter, novo presidente da Fifa, cidadão franco-suíço, aplaudiu a colaboração da equipe brasileira, uma vez que o campeonato mundial trouxe equilíbrio à França num momento das mais altas >> taxas de desemprego jamais registradas naquele país, que serão agrava-das pela recente introdução do euro(moeda única européia) e o mercado > > comum europeu (ECC). Reafirmou, também, ao Sr. Ricardo Teixeira, através de seu tio, João Havelange, que o Brasil terá seu caminho facilitado para o penta-campeonato de 2002.


Por gentileza passem esta mensagem para o maior número possível de pessoas, para que todos possam conhecer as mazelas que rondam o nosso futebol !

Prezado amigos, não consigo aceitar uma combinação tão perversa assim, mas, tenho que admitir, "se non è vero è ben trovato". Ainda mais se levando em conta o que acaba de acontecer na área da famosa e poderosa Fórmula-1. O que levou um cronista do jornal O GLOBO (Ancelmo Góis) dar a seguinte nota: "aliás, as denúncias de corrupção contra Joseph Blatter, presidente da Fifa, e a decisão de Jean Todt, o diretor da Ferrari que mandou Barrichello ceder a vitória para Michael Schumacher, mostram que gente como Eurico Miranda - o craque local do antijogo - floresce em todo lugar do planeta.
Mesmo assim, estarei torcendo pelo Brasil em todos os jogos, mas de olho nos cozinheiros, de olho nos enfermeiros, de olho nos árbitros. Mas do que nunca queremos uma Copa sem mácula, sem diarréia generalizada na equipe adversária, sem jogador misteriosamente baixando enfermaria, sem juiz apitando um penalti que não houve ou não apitando um pênalti que houve. Tampouco verei com bons olhos se a CBF convidar o Sr. Jean Todt para integrar a Comissão Técnica da Seleção Canarinho.
Vamos ganhar na bola, passando a bola por debaixo das pernas dos adversários, e não passando bola por debaixo do pano. Nosso futebol não merece nem precisa disto.


P.S.

1. Ontem o juiz sul-coreano Kim Young Joo jogou um bolão.
2. Dapieve, O GLOBO (4.6.02): foi roubado sim, e daí?
3. Zagallo, O GLOBO (4.6.02): apostei em Ronaldo e acertei


- sem revisão -
2002

 

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Morro do Borel
Andre Luiz LacéLopes
 
Salve Girlan,
Como adiantei no e-mail anterior, acabo de saber que tive mais um trabalho premiado no concurso literário da FESP/RJ. É o quarto ano de premiações. Com vários trabalhos publicados e alguns premiados começo a montar minha própria coletânea literária (poemas, contos e crônicas). Durante a noite de autógrafo, aí em Nova Friburgo - dia 26 de abril ! - quem comprar o livro "A Volta do Mundo da Capoeira" terá direito, também, a um exemplar de uma das coletâneas literárias, publicadas pela FESP, que inclua um dos meus trabalhos (contos ou poesias).
By the way, a Revista Natureza, do Ginásio de Nova Friburgo, publicou alguns versos que fiz; terríveis, mas publicou.
A seguir, o "Morro do Borel" que tirou o primeiro lugar no Concurso Literário da FESP/RJ em l997 (oportunamente enviarei os outros trabalhos: "Fasten your seat belt", "Festa de Umbanda para um Homem só" etc).

Morro do Borel

Armado de linha dez,
cabresto e rabiola
o menino fez da lua cheia
sua pipa arraia
E tentiou seus sonhos
como jamais até então
o fizera qualquer poeta

O primeiro raio de sol,
entretanto,
como bala perdida (e cheia de cerol)
entrou no seu barraco,
cortou a sua linha
e sequestrou os seus sonhos

Pelo correio "tradicional" estou enviando o material prometido. Obrigado pelas informações que enviou e parabéns pelo seu trabalho (A nova Natureza e o Jornal dos Bairros).

Cordialmente, André Luiz Lacé

 

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João do Chapéu Imperial
André Luiz Lacé lopes
 

Terminada a noite de samba enredo no Teatro Opinião, em Copacabana, fomos, eu, Nelson Sargento, Geraldo das Neves e Silas de Oliveira para o Beco da Fome, lá na Prado Júnior. O alvo era o famoso caldo verde da Lindaura, mas acabamos indo para o bar ao lado, entornar a tradicional e interminável penúltima garrafa.
Eu e o Nelson na cerveja, assistindo Geraldo das Neves, com grande ansiedade, submeter alguns de seus sambas ao Mestre Silas que serenamente ia bebendo sua água. A cada novo verso do Geraldo, Silas, com a voz estranhamente arrastada, apenas cantarolava:
- "Quero sentir nas asas do infinito, minha imaginação".
Uma situação singular que apenas agora, longas décadas após, por causa do chapéu do João Fontes, resolvi passar em revista. Para mim, lá ao seu modo, Silas procurava mostrar ao novato Geraldo, infelizmente já falecido, o que seria um samba de verdade, já maduro, cheio de talento: Na água do Rio, Heróis da Liberdade, Aquarela Brasileira, Os cinco bailes da História do Rio, Apoteose ao Samba. Grande Mestre Silas sempre cercado de excelentes parceiros!

Quanto à voz arrastada, só mais tarde, ao levá-lo para casa, juntamente com o Nelson e o Geraldo, é que percebi a razão. Não era água que o talentoso compositor bebia o tempo todo...
Pensando bem, era uma noite de tristeza, pois foi a noite em que Silas viu seu samba enredo der-rotado, justamente, por ser o mais bonito (parceria com Mano Décio). Lógica que merece uma explicação. É que se estava inaugurando naquele ano o samba enredo mais embalado, mais ligeiro, mais apropriado para o turista entender e cantar. Extremamente poética e com uma "levada" tipicamente "sileniana", ou seja o samba correria o risco de atrasar a escola e atravessar o passo do turista-sambista-de-última-hora. Vai daí que o estilo, a "escola" Silas de Oliveira, infelizmente para o samba e para o sambista de verdade, caiu em desuso.
Em termos, pois renasce sempre em toda roda de samba de verdade. Foi o que aconteceu domingo passado no Feijão entre Amigos, promovido pela Ala Recreativa O Samba é Meu Dom, lá na quadra do Esporte Clube Maxwell, em Vila Isabel. Chamado para abrir a cantoria, Wilson das Neves mandou um autêntico Silas de Oliveira (juntamente com J. Ilarindo): Meu Drama, mais conhecido como Senhora Tentação. Foi o que bastou para eu lembrar do Império Serrano, escola querida também do Wilson, e, conseqüentemente, lembrar do chapéu do João. Afinal estávamos naquele samba também para tirar uma foto do João e do Elton devidamente enchapelados. João com o seu chapéu com as cores do Império Serrano, e o Elton com seu chapéu neutro homenageando, diplomaticamente, todas as escolas de samba do mundo. O novo chapéu do João era um presente do Elton, daí a razão da foto, E a razão do presente foi o desgosto de Elton ao ver, algumas semanas atrás, o João usando "galhardamen-te" um falso chapéu de sambista.
- "Parece chapéu de pescador de terceira categoria", alertou o El-ton, sem grande sucesso.
Vai daí que, na primeira oportunidade, Elton Medeiros deu um pulo na Chapelaria Porto, lá prás bandas da Central, e escolheu, a dedo, um chapéu para o Mestre João. Pessoalmente Elton orientou o Seu Almir, especialista da casa (que não gostou muito, mas teve que bater continência), nas fitas verde e branca, e no talhe do chapéu.
O presente foi entregue, para curiosidades de muitos, na calçada em frente ao Bracarense, no Leblon.
Tendo acompanhado toda esta novela, incautamente, sugeri ao João escrever uma crônica para o chapéu. Vestindo sua roupa de Imperador do Leblon, João sentenciou:
- Boa idéia, faça você.
Tudo bem Seu Imperador, manda quem pode, obedece quem tem juízo, só que o Elton estava sem o seu chapéu.
- Tudo bem, chega de atrasos, bastará o meu chapéu, você dá uma explicada e fim de papo.


- fim -

 

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"Fasten Your Seat Belt"
André Luiz Lacé Lopes
Menção Honrosa (Poesia)
7º Concurso Literário, FESP / RIO – 1998/1999
 
I

Existem alguns encontros, vivências, amores

tão impressionantes, tão promissores,

tão marcantes

que parecem definitivos.


II

Quando acabam

ficam na lembrança

como assunto não resolvido completamente

inviabilizados que foram,

paradoxalmente,

pela sua própria intensidade


III

Viajar, lenço branco...

De um lado um varandão difuso

Do outro, uma pequena janela

hermeticamente fechada

- "De quem será

e para quem será

o adeus daquela janela ali na frente"?


IV

Decolagem

a distância vai aumentando, vão surgindo as primeiras nuvens de saudade


V

É, se o coração fosse na barriga

eu diria que o cinto de segurança seria para não deixá-lo fugir.

 

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Capoeira: Um CD de Natal
André Luiz Lacé Lopes
 
O cantador de capoeira, lembro sempre em meus artigos e livros, é um cronista social. Em função dos fundamentos do jogo, sabe conduzir ou descrever a Roda e a Sociedade. Não sem motivo, portanto, boa parte dos cantos de capoeira buscou e busca inspiração na literatura de cordel.

Rica em cantoria, a Bahia, por exemplo, canta magistralmente a sua capoeira, seus grandes eventos e suas figuras históricas. Já o Rio antigo, famoso por sua capoeira-luta, mas sem muito berimbau e cantoria, chega, às vezes, até a ser esquecido.

Os legislativos carioca e fluminense, por exemplo, já homenagearam um considerável número de mestres relativamente jovens de capoeira, mas silenciaram, até agora, quanto às figuras extraordinárias do Rio antigo.

Durante longas décadas pelejei para mostrar esse absurdo às lideranças capoeirísticas do Rio e até mesmo a políticos. Sem nenhum sucesso.

Eis que de repente, entretanto, sou surpreendido por um jovem capoeirista e uma de suas alunas – mestre Grilo e a professora Água-Viva – que me apresentaram um projeto de Cd homenageando os “bambas do Rio Antigo”. Ou seja, o que os mestres mais antigos teimaram em ignorar, um mestre mais jovem resolveu consagrar. Com muita habilidade e talento, sem esquecer nem os mestres do Rio de Hoje nem os velhos cantos da Bahia.


O encontro ocorreu No mês passado e, para mim, foi um verdadeiro presente de Natal, posto que boa parte do CD foi inspirada no meu livro recentemente lançado, Capoeiragem no Rio de Janeiro – Sinhozinho e Rudolf Hermanny. Pouco a pouco, portanto, esse novo livro vai, realmente, sacudindo a mesmice em que vivia o mercado editorial da capoeira. Em função dele, veio o extraordinário livro da Universidade Estácio de Sá (Coleção Gente: Rudolf Hermanny), e agora esse marcante CD. Para não mencionar algumas excelentes entrevistas que estão saindo em revistas especializadas aqui no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

A rigor, o CD é um presente de Natal não apenas para mim, mas para todo o povo da capoeiragem, pois está apontando novos rumos para essa importante parte rítmica e cantada da capoeira. Incluindo-se aí, a exemplar qualidade da gravação do CD (palmas para Naldo Studio Produções Musicais: 24 canais digitais!) e para a inspiradíssima composição da capa (palmas para o projeto gráfico: Reginaldo Melo e o próprio Mestre Grilo). Finalmente, sem esgotar o assunto (voltarei a ele em breve), palmas para o texto de mestre Evaldo Bogado, presidente da Associação de Capoeira Barravento e presidente da Federação de Capoeira Esportiva do Estado do Rio de Janeiro.

O Cd encerra, realmente, uma grande lição. Na pressa de marcarem presença com um disco próprio, excelentes mestres-cantadores acabam produzindo cds terríveis: com um péssimo coro, técnica de gravação equivocada, cantos alienados e alienantes, capa e contracapa sem sentido e de profundo mau gosto e, sobretudo, textos cheio de lugares comuns ou de mesmice crônica. O Cd em tela, não.

Por absoluta falta de espaço fico impedido de listar, como gostaria, todos os alunos de mestre Grilo que participaram da gravação (ritmo e canto), mas seria falta grave jornalística não transcrever, pelo menos, a relação das faixas do CD: 1. Rio Antigo (Autor: Gafanhoto – Intérprete: mestre Grilo); 2. Macaco Velho (professor Gafanhoto); 3. Terra de São Sebastião (instrutor Sapo); 4. Jogar com Manduca (instrutor Biriba); 5. São Bento Ligeiro (Autor: professor Gafanhoto – Intérprete: mestre Grilo); 6. Pernada Carioca (instrutor Sapo); 7. Tributo ao mestre Sinhozinho – mestre Grilo); 8. Meu Santo é Forte (autor desconhecido); 9. Ditado Antigo (Gafanhoto); 10. Manduca da Praia (Gafanhoto); 11. Chulas de Corridos de Capoeira (domínio público); 12. Agradecimentos com mestre Grilo.

O Cd já foi lançado, com uma grande festa, prestigiada por vários mestres, estudiosos e jornalistas. Especialmente convidado, o professor Rudolf Hermanny recebeu uma Placa de Reconhecimento pelos extraordinários serviços prestados à verdadeira Capoeira-Luta.

No próximo artigo vou transcrever o texto da contra-capa do Cd, assinado pelo presidente da FCDRJ. Vamos, também, comentar as principais faixas do trabalho de Luiz Antonio de Abreu, mestre Grilo, presidente da Associação de Capoeira Arte Nobre (sede no Rio de Janeiro).

E que 2004 seja um ano de paz, justiça e prosperidade para a Capoeiragem e para o Mundo. Já não será sem tempo.

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Dívida Externada
André Luiz Lacé Lopes
 

Você abre o dicionário para procurar determinada palavra, alguns longos minutos de-pois, descobre que está divagando sobre várias outras, completamente divorciadas do seu in-teresse inicial. Biblioteca é ainda pior, você entra para procurar um livro e termina folheando vários outros sem nenhuma relação com a sua visita.
Foi assim no outro dia, na Biblioteca Nacional (RIO). Entrei para reler uma reportagem específica sobre cultura popular brasileira; menos mal que localizei e transcrevi a matéria, mas, em seguida, resolvi garimpar na micro-filmagem, a esmo, procurando não sei o quê. Foi assim que acabei esbarrando nesta intrigante manchete (Jornal Diário de Notícias, quinta-feira, 3 de outubro de l931):

O DIÁRIO DE NOTÍCIAS DEPOSITOU, HONTEM, NO BANCO DO BRASIL, À ORDEM DO GOVERNO FEDERAL, A IMPORTÂNCIA DE 95:875$800
Para o Fundo de Resgate da Dívida Externa do Brasil

Estranhei a falta de fotos e, sobretudo, a falta de seguimento da notícia. Ou seja, nos dias seguintes, semanas e meses, silêncio absoluto sobre o assunto. Aí é que está o grande erro, pensei. A nível doméstico, todos nós sabemos muito bem de nossas contas, de nossas des-pesas mensais. Sobretudo sabemos sobre nossas eventuais dívidas, sabemos a quem devemos, quando se vencem, quando se acabam. Esta parte da cidadania de cada um, portanto, está razoavelmente sob controle. A outra parte, não. Pois nada sabemos sobre a nossa Dívida Externa, salvo que aumenta assustadoramente a cada pagamento que ajudamos a honrar. Realmente está faltando, e muito, transparência popular e cívica. O Povo paga, paga, paga e não tem o direito de saber o quanto já pagou, a quem pagou e quanto falta ainda pagar.
Está mais do que na hora, a bem da justiça e da simples curiosidade popular, de EX-TERNAR a nossa DÍVIDA EXTERNA.
Externar mesmo, nada de uma pequena nota num pé de página de algum diário oficial ou oficioso ou discursos suspeitos em politiquês ou economês. Externar com toda força publicitária disponível. Detalhadamente, comprovadamente, claramente, diáriamente. E sempre de maneira absolutamente empolgante e envolvente.
Para tanto, toda a sociedade brasileira, os governos (federal, estaduais e municipais), as organizações não-governamentais, todas as igrejas e roças (católicas, afro-brasileiras, evangé-licas, mesquitas, sinagogas, ecumênicas etc), as escolas, os sindicatos, as universidades, os clubes (especialmente os de futebol), as agremiações carnavalescas, as associações de moradores, a midia (jornais, revistas, emissoras de rádio, televisões), os nosso geniais marqueteiros, todos, enfim, que amam o Brasil , seriam mobilizados.
Claro, nossas embaixadas, também, especialmente aquelas ligadas às Nações Unidas ()NU) e à Organização dos Estados Americanos (OEA).
Mas, vamos com calma - muito embora a novidade seja, em termos de cidadania, extremamente excitante - que história é essa de DÍVIDA EXTERNADA?
Muito simples, o brasileiro já nasce duplamente no vermelho: com um intrigante e, com todo respeito, injusto "Pecado Capital" e com uma dívida externa mais intrigante e injusta ain-da. A primeira dívida, pouco a pouco, vai sendo resolvida no Vaticano; a segunda, essa sim, cabe a nós brasileiros resolver. Ou melhor, saldar.
A seguir, modestamente, alguns subsídios para definição de uma estratégia de ação para saldar logo esta dívida misteriosa.
1. Quanto devemos afinal?
Ninguém sabe ao certo, o que é um absurdo.O primeiro passo será saber exatamente quanto devemos, o montante total da dívida.
2. A quem devemos ?
Não apenas uma sigla ou o nome de uma instituição multinacional, mas o nome e a foto da pessoa que recebe o nosso cheque, bem como a foto do próprio cheque. E mais, o endereço e a foto de toda a família do feliz recebedor do nosso tão sofrido cheque. É importante que o povo brasileiro tome mais intimidade com quem, tão gentilmente, emprestou-lhe tanto dinheiro.
3. Por que devemos e como aplicamos?
Aliás, nada mais natural, que o povo brasileiro tome conhecimento dos motivos que levaram o Brasil a pedir dinheiro lá fora, e como este dinheiro foi empregado.
4. Quando acabará a Dívida ?
Bastante razoável esta pretensão do povo brasileiro: após séculos de sacrifícios, já haverá uma previsão sobre quando esta Dívida Externa será totalmente honrada?
5. Quanto cabe aos negociadores da dívida?
Será uma grande injustiça não prestar, periodicamente, uma homenagem a esses brilhantes e abnegados brasileiros.

Em função deste levantamento preliminar fundamental será extremamente fácil criar e lançar uma "Campanha Permanente Diuturna Externando nossa Dívida Externa".
Subsídios para a Campanha:
1. As parcelas poderiam ser trimestrais, honradas em data pré-definida e em local público com ampla cobertura da mídia, dos governos, representações diplomáticas e de todos os segmentos da sociedade brasileira;
Na semana que antecedesse a cada pagamento haveria uma mobilização cívica gigantesca, de norte a sul, de leste a oeste, todo o Brasil estaria atento. Toda a mídia daria amplo espaço para o ato heróico exemplar: o cheque sendo preparado pelo tesoureiro, o presidente da república assinando o cheque (ou algum funcionário federal), o cheque sendo entregue a "quem de direito" (?); entrevista com todos os personagens envolvidos no pagamento: o tesoureiro, o pagador, o recebedor; entrevista de ruas com o povo, subnutrido, doente, desempregado, sem teto, sem futuro, mas orgulhoso de estar pagando a Dívida Externa, de estar honrando o nome do seu País. O cheque seria filmado e mostrado na televisão. Os marqueteiros de plantão bolariam incríveis camisetas (com textos em várias línguas, patenteando o "orgulho do brasileiro de, apesar de pobre, honrar os compromissos que os ricos fizeram"), flâmulas, chaveiros etc que seriam fartamente distribuidos nas escolas, nas universidades, nos sindicatos, nas associações de classe, nas associações comunitárias, nos clubes, especialmente, os clubes de futebol.
2. Os principais comunicadores de televisão, orgulhosos e emocionados, dariam amplo espaço em seus respectivos programas, ao acontecimento maior de uma nação endividada, mas honrada. Jô Soares entrevistaria, com sua genialidade e bom humor de sempre, os principais atores desta linda peça, convidando, inclusive, toda a família do intermediário e do principal beneficiário do nosso cheque. Da mesma forma, Silvio Santos, Raul Gil , Marília Gabriela, Boris Casoy, Liliana Rodrigues, Hebe Camargo, Ratinho etc etc. Todos articulistas - Hélio e Millor Fernandes, Veríssimo, João Ubaldo etc etc - escreveriam brilhantes artigos e crônicas emocionadas.
A GLOBO colocaria em todas as lindas praias do Brasil e em regiões estratégicas de nossas fronteiras, a exemplo do que fez na virada do século, um placar com as informações:
Montante Geral da nossa Dívida - $$$$$$$$$$
O pagamento de hoje: $$$$$$$$$$
Quanto falta pagar: $$$$$$$$$$$
Dia e hora do pagamento da última parcela da nossa dívida externa: xxx/xxx/xxx
Dia e hora do pagamento da próxima parcela da nossa dívida externa: xx/xx/xx
Fim do Pagamento (sem susto de surpresas): xx/xx/xx

Telões enormes seriam colocados nas principais praças das cidades brasileiras e transmitiriam as principais cerimônias relacionadas com o pagamento periódico da Dívida.
Na semana do pagamento todas as escolas promoveriam concursos cívico-literários so-bre o vibrante tema "Estamos honrando nossos Pagamentos". As universidades tratariam de estimular seus alunos de pós-graduação a escreverem teses e dissertações sobre o mesmo tema.
Coincidindo o pagamento com o período de Carnaval, o mote "Dívida Externa" seria sugerido como tema único de todas as escolas de samba, ranchos, blocos e bandas.
Toda disputa esportiva seria precedida de algum tipo de homenagem ao povo brasileiro bom-pagante-de-dívidaexterna, e aos nossos amigos credores que, finalmente, estão recebendo o justo que lhe é devido.
Até que um belo dia, os netos de nossos tataranetos, com total orgulho, sairiam nas ruas vestindo uma t-shirt com a estampa do último cheque e o texto: "JÁ NÃO DEVEMOS MAIS NADA"
No Maracanã, supondo que ainda esteja de pé, um goleador levantaria sua camisa oficial e, por baixo, o mundo veria uma outra com a frase: "A DIVIDA ACABOU, GOL DO BRASIL!".
Pensando bem, se uma campanha deste tipo realmente for feita, se a nossa misteriosa Dívida Externa for totalmente EXTERNADA, é até possível que, ao invés de ser totalmente paga, seja, simplesmente ESTORNADA. Neste caso, uma operação de emergência deverá imediatamente ser posta em prática para evitar que "os de sempre" comecem tudo de novo.

Leblon, 14 de fevereiro de 2002

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Futebol, Copa e Marmelada
André Luiz Lacé Lopes
 

Ontem o juiz sul-coreano Kim Young Joo jogou um bolão. Será?

André Luiz Lacé Lopes

"Tempo de guerra, mentira como terra". Para confirmar, bastará prestar mais atenção aos noticiários unilaterais de algumas "guerras" de hoje em dia.
O Esporte, especialmente a Copa do Mundo de Futebol, é uma guerra. Uma guerra mundial, uma guerra mercadológica de produtos, onde se vende de tudo, inclusive patriotismo-eleitoral.
Há pouco tempo, o Poder Legislativo Federal abriu duas comissões de inquérito para apurar uma longa série de denúncias na Administração do Futebol Brasileiro. Uma no Senado, outra na Câmara Federal. Grande parte do trabalho dessas comissões foi transmitida pela televisão e transformou-se, rapidamente, em líder de audiência. Perplexo e revoltado todo Brasil tomou conhecimento de pormenores da gerência do futebol brasileiro, inquestionavelmente, condenáveis.
Pois muito bem, o que aconteceu?
Nada, absolutamente nada.
E nem poderia, correm a explicar alguns cínicos de plantão, "pois é ano de eleição, e político não é louco de mexer com o ópio do povo numa hora dessas".
Vão além, lembram que houve uma combinação em Paris: "nós perderíamos lá - como, misteriosamente, perdemos - e nós ganharíamos a próxima".
Arranjo altamente conveniente levando-se em conta a importância, naquele momento, da França vencer uma cópia e, da importância no atual momento, do governo brasileiro vencer uma COPA", completam os fofoqueiros de sempre. Versão, sem dúvida, tão terrível quanto leviana. Mas, "caluniai, caluniai que alguma coisa fica". Vai daí, pelos bares da Vida, a Copa das Línguas Viperinas já começou:
- "Ah, é por isto que o Felipão está tão confiante".
- "Afinal, como um técnico escolhido por um presidente acusado comprovadamente, por uma comissão de inquérito, de vários delitos administrativos e institucionais, insiste tanto em bater na teclado bom-mocismo, do jogador-escoteiro, da seleção-família?".
- "Faz sentido sim, está tudo combinado, se o Tio Felipão voltar com o caneco, o governo elege quem ele quiser". "Daí porque tudo acabou em pizza".
Claro, claro, não falta, também, quem reaja frente ao absurdo desta versão perversa, pois, "como seria possível combinar um resultado com todos os demais países, com os demais cartolas, com os demais técnicos, com os árbitros, e, sobretudo, com os jogadores das outras seleções"?
Cresce a discussão:
- "Ora, ora, a História do Mundo, particularmente a História do Esporte, infelizmente, está cheia de exemplos. Sabe-se, por exemplo, que durante muito tempo havia uma espécie da máfia do Box internacional, forjavam resultados e campeões, ganhavam muito dinheiro com isto!".
- "Sendo que agora o interesse dos grandes patrocinadores de uma Copa transformam a coisa realmente numa guerra, certo!?"
- "Há muito dinheiro envolvido, há muito interesse secundário, uma vitória na copa pode perfeitamente decidir uma eleição no país vitorioso, é ou não é?". "E quanto ao dinheirão envolvido?".
A discussão vai aumentando e, sem sombra de dúvida, vai aumentar muito mais. Maledicência, complexo de inferioridade, inveja e politiquice barata é que não faltam. Polêmica que está sendo potencializada pela Internet por onde voltou a circular uma versão muito especial para a der-rota do Brasil na última Copa do Mudo de Futebol. Por oportuno, vale a pena transcreve-la:

----- Original Message -----
From: - To:
Sent: Wednesday, December 06, 2000 12:36 AM - Subject: Futebol
SERÁ QUE É POSSÍVEL UMA COISA DESSAS ????
Preço das Copas 1998/2002 ????


Talvez, isso explique a razão do Jogador Leonardo ter declarado a seguinte frase: "Se as pessoas soubessem o que aconteceu na Copa do Mundo, ficariam enojadas". Todos os brasileiros ficaram chocados e tristes por terem perdido a Copa do Mundo de futebol, na França. Não deveriam. O que está exposto abaixo é a notícia em primeira mão que está sendo investigada por rádios e jornais de todo o Brasil e alguns estrangeiros, mais especi-ficamente Wall Street Journal of Americas e o Gazzeta delo Sport e deve sair na mídia em breve, assim que as provas forem colhidas e confirmarem os fatos.
Fato comprovado: o Brasil VENDEU a copa do mundo para a Fifa. Os motivos: O Brasil (leia-se governo brsileiro) precisa ganhar a próxima COPA de 2002, justmente o ano de eleição presidencial. A Fifa e a International Board, sempre disposta a este tipo de composição, concordaram com a estratégia.l.


Os jogadores titulares brasileiros foram avisados, às 13:00 do dia 12 de Julho (dia do jogo final), em uma reunião envolvendo o Sr.Ricardo Teixeira (na única vez que o presidente da CBF compareceu a uma preleção da seleção), o Técnico Mário Zagallo, o Sr. Américo Faria, supervisor da seleção, e o Sr. Ronald Rhovald, representante da patrocinadora Nike. Os jogadores reservas permaneceram em isolamento, em seus quartos ou no lobby do hotel. A princípio muito contrariados, os jogadores se recusaram a trocar um penta-campeonato mundial na França por outro onde poderão não voltar a ser convocados (muito embora o "pacote" inclui a segurança de nova convocação).


A aceitação veio através do pagamento total dos prêmios, US$ 170.000,00 para cada jogador, mais um bônus de US$ 400.000,00 para todos os jogadores e integrantes da comissão, num total de US$ 23.000.000,00 (vinte e três milhões de dólares) através da empresa Nike. Além disso, os jogadores que aceitarem o contrato com a empresa Nike nos próximos 4 anos terão as mesmas bases de prêmios que os jogadores de elite da empresa, como o próprio Ronaldo, Raul da Espanha,Batistuta da Argentina e Roberto Carlos, também do Brasil.

Mesmo assim, Ronaldo se recusou a jogar, o que obrigou o técnico Zagallo a escalar o jogador Edmundo, dizendo que Ronaldo estava com problemas no joelho esquerdo (em primeira notícia divulgada às 13:30 no centro de imprensa) e, logo depois, às 14:15, alterando o prognóstico para problemas estomacais. A sua situação só foi > resolvida após o representante da Nike ameaçar retirar seu patrocínio vitalício ao jogador, avaliado em mais de US$ 90.000.000,00 (noventa milhões de dólares) ao longo da sua carreira.
Assim, combinou-se que o Brasil seria derrotado durante o "Golden Goal" (prorrogação com morte súbita), porém a apatia que se abateu sobre os jogadores titulares fez com que a França, que absolutamente não participou desta negociação, marcasse, em duas falhas simples do time brasileiro, os primeiros gols. O Sr.

Joseph Blatter, novo presidente da Fifa, cidadão franco-suíço, aplaudiu a colaboração da equipe brasileira, uma vez que o campeonato mundial trouxe equilíbrio à França num momento das mais altas >> taxas de desemprego jamais registradas naquele país, que serão agrava-das pela recente introdução do euro(moeda única européia) e o mercado > > comum europeu (ECC). Reafirmou, também, ao Sr. Ricardo Teixeira, através de seu tio, João Havelange, que o Brasil terá seu caminho facilitado para o penta-campeonato de 2002.


Por gentileza passem esta mensagem para o maior número possível de pessoas, para que todos possam conhecer as mazelas que rondam o nosso futebol !

Prezado amigos, não consigo aceitar uma combinação tão perversa assim, mas, tenho que admitir, "se non è vero è ben trovato". Ainda mais se levando em conta o que acaba de acontecer na área da famosa e poderosa Fórmula-1. O que levou um cronista do jornal O GLOBO (Ancelmo Góis) dar a seguinte nota: "aliás, as denúncias de corrupção contra Joseph Blatter, presidente da Fifa, e a decisão de Jean Todt, o diretor da Ferrari que mandou Barrichello ceder a vitória para Michael Schumacher, mostram que gente como Eurico Miranda - o craque local do antijogo - floresce em todo lugar do planeta.
Mesmo assim, estarei torcendo pelo Brasil em todos os jogos, mas de olho nos cozinheiros, de olho nos enfermeiros, de olho nos árbitros. Mas do que nunca queremos uma Copa sem mácula, sem diarréia generalizada na equipe adversária, sem jogador misteriosamente baixando enfermaria, sem juiz apitando um penalti que não houve ou não apitando um pênalti que houve. Tampouco verei com bons olhos se a CBF convidar o Sr. Jean Todt para integrar a Comissão Técnica da Seleção Canarinho.
Vamos ganhar na bola, passando a bola por debaixo das pernas dos adversários, e não passando bola por debaixo do pano. Nosso futebol não merece nem precisa disto.


P.S.

1. Ontem o juiz sul-coreano Kim Young Joo jogou um bolão.
2. Dapieve, O GLOBO (4.6.02): foi roubado sim, e daí?
3. Zagallo, O GLOBO (4.6.02): apostei em Ronaldo e acertei


- sem revisão -

 

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Sonho de Quase-Consumo
André Luiz Lacé Lopes
 

Menção Honrosa (CONTO) – 8º Concurso Literário FESP/RIO - 1999/2000

Deixou passar, deliberadamente, a semana de inauguração.

- Muita gente, não se pode nem andar direito, muito menos escolher bem as compras.

Aproveitou o tempo para, em segredo, alimentar o seu incrível sonho de quase-consumo. Finalmente, partiu para o tal supermercado, o maior e mais completo da América Latina, segundo a propaganda luxuosa e extremamente estimulante, distribuída apenas para um público-alvo de grande poder aquisitivo. Tinha conseguido o prospecto na casa do Dr. Charles Enrico Gomyd, pelo nome, já se vê, autoridade governamental ou algum manda-chuva de multinacional.

Ao entrar, sem esconder sua disposição, escolheu um carrinho com corrente e amarrou-o a um outro. la começar pela seção de eletro-doméstico, mas foi praticamente impedido por um vendedor, tipo relações públicas, da área da informática: o Senhor não gostaria de conhecer nossas promoções especiais?

Ora, parecia até combinado. Aceitou a "provocação" e começou escolhendo não apenas um, mas dois computadores. Claro, tomou como base a sólida opinião do Seu Gomyd: "Quem tem apenas um, não tem nenhum; a solução ideal é ter um de mesa e outro para viajar "

Vai daí que foi logo apanhando um note book, aliás um super note book (celeron 400, 64 Mb, HD de 6.4 Gb, CD-Rom 40x etc etc) e um PC "de mesa" com todos os periféricos possíveis e imagináveis —"mesa de ping-pong, meu camarada", (pensou e riu para seus botões). Quase com impaciência fingiu ouvir e entender a longa e desnecessária explicação decorada do vendedor. Mesmo assim ficou maravilhado com a rapidez com que ele fazia aparecer uma série infinita de lindos desenhos, inclusive um sobre futebol de verdade, com o Flamengo vencendo sempre. Gostou também de saber que o computador tinha uma agenda de endereços: Puta agenda, malandro!

Livre do vendedor vitorioso (ou quase-vitorioso), conforme seu desejo inicial, partiu para a seção de eletro-doméstico, na ala dos importados: Caramba, isto aqui é mesmo um assombro!

Escolheu um equipamento japonês, talvez o menor de todos, mas, certamente, o mais completo e o mais caro. Pudera, nunca vira tanto lazer num só aparelho: TV a cores, DVD, VIDEO LASER, tape deck, gravador de rolo...

O volume quase que lota um dos carrinhos, mal cabendo um mix incrível, recém-lançado, que deixava todos os outros liquidificadores no chinelo. Nas virtudes e, também, no preço.

Quase sem parar, ao passar pelos discos, escolheu, entre outros até para o seu espanto de velho pagodeiro - um CD com o trio Pavarotti-Carreras-Domingo e um recém-lançado conjunto dos principais momentos de Maria Callas:

- Imagino estes três, mais a Dona Maria Callas formando um grupo de puxadores de samba enredo lá na Escola, queria ver a cara do Walter Alfaiate mesmo com aquele vozeirão!


Era apenas um começo, mas algumas pessoas já começavam a olhá-lo com admiração.

- Este sabe o que é bom!

Sem nenhum roteiro prévio de compras, da seção de eletro-domésticos, passou para a de bebida. Chateau Mouton-Rotchschild 95 — Pauillac: 1.000 reais, em promoção, hun, deve ser um vinho razoáveL

Ato continuo colocou duas garrafas no segundo carro. Deu alguns passos, pensou melhor, lembrou das sangrias que fazia com o vinho Sangue da Terra (5 reais o garrafão), voltou e pegou mais três garrafões.

Na mesma prateleira, mais adiante, passou para os uisques.

- "Com menos de 21 anos, para mim não serve ", lembrou a frase preferida do Dr. Charles quando servia bebida para seus amigos. Não os amigos da capoeira, também queridos, mas, segundo ele, sem "embocadura" para apreciar uma bebida mais refinada.

Vinha dai, aliás, através da apresentação de Mestre Paulinho Botafogo (ou Paulinho da Jussara), sua amizade com o Doutor, mais conhecido, nas rodas de capoeira da Central e da Penha, como Gomyd Angoleiro ou, ainda, Gomyd Anestesia. Um dos poucos capoeiras com dois apelidos, ninguém sabendo explicar muito bem a origem de nenhum deles. Nem mesmo o Paulinho da Jussara, extraordinária figura humana, boêmio, filosófo, tocador de cavaco, tremendo compositor (premiado!) , professor de português nas horas vagas e, por esporte, dono de uma quitanda onde arma um senhor pagode de mesa todas as sextas ("pagode em pé é coisa de paulista almofadinha.’t..).

- "Este negócio de uísque "di maior de idade" écoisa mesmo de gente rica, mas tudo bem", filosofou encerrando a divagação paralela e retomando as compras".


Pegou três garrafas de Royal Salute, "21 years old" e foi em frente. Ainda no corredor das bebidas, reconheceu um rum cubano (Siete Años) que tomara certa vez com um colega de infância que só falava em comunismo. Mais duas garrafas. Talvez por associação de idéias (Cuba), das bebidas partiu para a tabacaria. Uma sala especial, temperatura especialmente controlada, onde um cubano, profundo conhecedor de "puros" e extremamente simpático (Señor Manuel) professorava sobre o assunto. Ficou alguns minutos ouvindo, atentamente, as explanações; tempo suficiente para decidir-se por duas caixas de Romeo y Julieta, tamanho Churchill, e uma caixa de Partagas, em sutil homenagem a Ernesto Che Guevara (segundo o Señor Manuel, Che Guevara preferia esta marca). Seguiu em frente, levemente sorridente, lembrando-se dos charutos que ousava enfrentar de vez em quando: "mata-ratos da pior qualidade"!.


A rápida exposição do cubano, entretanto, teve outros méritos, pois lembrou, não apenas a importância de um bom casamento entre um bom charuto e um bom vinho, mas, também, o casamento desta dupla, com um sem-número de "appetizers" (tira-gosto, para os íntimos). Partiu, então, acelerado, para a seção de queijos, frios e iguarias afins.

- Que torresmo que nada, que muela de galinha, desta vez, teremos caviar páté de foie gras. salmão e alguns quilos de brie, emmental camembert, roquefort e outros ‘fromages ". Com todo respeito à mortadela (partida a facão) e ao queijão frito lá da quitanda do Paulinho da Jussara.

Do pensamento à ação, com a ajuda do caderno de propaganda, quase lota o segundo carro com cinco latas de caviar russo, queijos franceses e vários outros produtos desconhecidos ("se estão nesta área só podem ser coisa fina").

Analisando, especialmente seu segundo carro, atentou para uma falha: como servir as bebidas e as iguarias?

A esta altura, orgulhoso, já estava trocando idéias avançadas sobre a arte de se viver bem com alguns outros clientes. Nenhum, entretanto, com os carrinhos tão invejavelmente cheios como os dele.

A um destes, da maneira mais descontraída que pôde teatralizar, perguntou onde ficava a seção de copos e pratos.

- Importados. é claro; quero apenas copos de cristal Riedel e louças de porcelana da China.

Conseguiu um terceiro carro para abrigar seus cristais e porcelanas; conseguiu. também, que a gerência colocasse um auxiliar para ajudá-lo com os três carros. Estava chegando ao fim, faltava apenas mais uma coisa, um pequeno detalhe, mas que não abriria mão, em hipótese alguma queria fazer seu banquete, ao lado da mulherzinha amada (era aniversário dela, seria uma surpresa), pisando num belo tapete persa. Não foi fácil escolher, muito menos - é, comprou um grande e um pequeno -sobre os três carrinhos. Como escolher quando a vontade é comprar todos? Acabou optando por um hadzistan para o seu quarto e um pequeno mossul para o banheiro ("por que não"?).

Sem pressa, escolheu a caixa com a maior fila.


Na fila foi virando celebridade: "Lindas compras hem"? "Quem pode, pode, né"!

Ao perceber que estava chegando a sua vez, com insuspeitável charme, pediu que olhassem seus carros, pois tinha que dar um pulo no banheiro. Generosamente, como se fosse um adiantamento de gorgeta, deu ao garoto que lhe ajudava uma nota de cinco reais, exatamente a metade do que levava no bolso. Passou "batido" pelo banheiro indo direto para o ponto do ônibus que o levaria até a Central do Brasil; de lá, com mais duas conduções, finalmente, chegaria ao seu quartinho humilde, num conjunto habitacional do extinto BNH, na Baixada Fluminense.

Quartinho humilde, distante léguas e léguas do imponente e recém-inaugurado supermercado, mas, diga-se, a bem da justiça e da verdade, cheio de sonhos malandríssimos de consumo.

No caminho de casa, na venda do compadre Paulinho, saindo da rotina (normalmente levava 150 gramas) pendurou 400 gramas de mortadela - "afinaL o presunto leva a fama, mas todo mundo gosta mesmo é de mortadela - e um xarope de groselha. Passando pelo cemitério tratou de descolar, também, uma linda flor para sua namorada aniversariante.

Que adorou a rosa, mas ficou furiosa por não ter participado da fascinante visita ao supermercado.

- "Já pensou - completou meio zangada, meio sonhando - aposentar o leite de rosas e lotar mais dois carrinhos com altos perfumes (começou a ler uma lista apanhada não se sabe onde): bulgari, cacharet chanel, cartier. christian dior, givenchy, guy laroche"...?!


Rio de Janeiro , 1 de janeiro de 2000