|
Em
junho chegou a nossa tão esperada vez.
Saímos do GNF numa madrugada de uma sexta-feira.
Acordamos muito cedo, nos arrumamos, todos travestidos
de escoteiros, com facas e cantis fixados aos
cintos, tomamos café da manhã
e subimos no caminhão, já preparado,
que nos levaria a Cabo Frio. O responsável
por nossa excursão foi o Professor Guedes
e a ele coube o privilégio de ir na boleia
do caminhão, acompanhando o motorista.
Os alunos foram na carroceria do veículo,
com
seu
piso coberto pelos colchões de lutas
do Ginasium, junto a panelas, alimentos
e barraca. Partimos sem o dia ter raiado, estava
frio e bem escuro, estávamos agasalhados
e muitos se enrolaram nos cobertores que levávamos,
cada aluno levava dois cobertores. Ao cruzar
a cidade de Friburgo demos vários gritos
de guerra, vários aleguchis
e cantamos, com um início bem suave e
progressivamente cada vez mais alto:
Pode dormir,
Pode sossegar,
Que a nossa intenção,
Não é de acordar.
A
viagem transcorreu normalmente, dentro do possível,
com cerca de vinte garotos na faixa de doze
anos de idade. Já com o dia claro, se
a memória não me trai, o Pechincha
teve a idéia de colocar um rolo de papel
higiênico em sua vara de pesca, levantando-o
como se fosse uma bandeira. Logo passamos a
cantar por todos os vilarejos ou aglomeração
de casas que passávamos, um novo grito
de guerra:
A bandeira da Primeira A,
Limpa,
A bunda,
Limpa,
A bunda,
Limpa,
A bunda.
Gastamos
muitos e preciosos rolos de papel higiênico
neste trajeto. O que me faz lembrar, claramente,
que nossa inesquecível viagem foi no
mês de junho, foi o fato de que, por onde
passávamos na Região dos Lagos,
Araruama, Iguaba, São Pedro e outros
vilarejos, nos dávamos os nossos gritos
de guerra, e com nossas varas de pesca, derrubávamos
as bandeirolas típicas das festas juninas
que enfeitavam as ruas por onde passávamos.
Chegamos
a Cabo Frio e nos instalamos junto ao Forte
São Matheus. Descarregamos o caminhão
e sob a orientação do Prof. Guedes
levantamos a barraca. Era uma barraca grande
que acomodou a todos, tinha pertencido a Força
Expedicionária Brasileira durante a Segunda
Guerra Mundial. Forramos o chão do seu
interior com os colchões de ginástica
e acomodamos todo o nosso material. Na parte
interna da barraca observamos inúmeros
desenhos, de uma cobra fumando que era o símbolo
da FEB, mensagens, agradecimentos e orações
feitas a tinta ou grafite. Encontramos também
inúmeras medalhas de santos fixadas à
barraca por alfinetes de segurança. Pelo
velho professor nos foi dito que deveríamos
respeitar, preservar aquilo, pois foram inscrições
feitas por soldados brasileiros nos campos de
guerra da Itália, e que alguns daqueles
pracinhas não tinham voltado, tendo sido
ele mesmo um ex-combatente. Esta observação
nos tocou profundamente, examinamos tudo sem
nada ser tocado, sem nada ser acrescentado,
ficando tudo devidamente preservado.
Naquela
época a estradas do Rio de Janeiro e
Niterói para a cidade de Friburgo eram
de terra batida, não tinham revestimento
de asfalto, somente um pequeno trecho da estrada
do Rio para Friburgo era pavimentada, era o
trecho do Rio para Petrópolis e o trecho
que ia para Teresópolis, daí para
Cachoeiro de Macacu e Friburgo era de terra
batida, tipo de estrada que percorremos de Friburgo
a Cabo Frio. Com estas péssimas condições
de estrada, os caminhões costumavam levar
correntes, cordas, pás, enxadas, alavancas
e outros tipos de ferramentas para possíveis
emergências, tal como ficar preso em um
atoleiro.
A praia do Forte naquela ocasião era
deserta, sem uma edificação em
alvenaria, tinha apenas alguns casebres de pescadores,
e o canal de Cabo Frio só alguns ancoradouros
rústicos para as canoas de pesca. Logo
na chegada localizamos uma senhora, moradora
da região, que prestara serviços
de cozinheira para outras turmas do Ginásio.
Dela tenho poucas lembranças, só
do prato principal e único que preparava,
nosso alimento durante três dias, um macarrão
disforme, grudento, sem sabor e recheado com
salsichas. Mas nos tratou bem, foi carinhosa
e gentil, inclusive arranjando água captada
da chuva que tinha em casa, pois a água
de poço era intragável, saloba,
com um forte odor. Daí demos um enorme
valor a água que trouxemos de Friburgo,
em nossos cantis, água que guardávamos
como ouro, precaução que não
impediu roubo e sabotagens nos referidos cantis.
O resto da alimentação foi satisfatória,
comíamos biscoitos, ovos, goiabada e
marmelada trazidas em latas, bebíamos
leite preparado com Leite Moça com café.
Conseguimos pescar alguns peixes pretos, gosmentos,
que não foram aproveitados pois os pescadores
nos informaram serem venenosos, e os arpões
não funcionaram, serviram apenas como
armas do nosso acampamento, para afugentar alguns
cães vadios que se aproximavam. Na frente
da barraca, a uma distância segura, fizemos
uma fogueira, que ficava permanentemente acesa,
pois o que não faltava era lenha, que
também era aproveitada pela cozinheira.
Dormíamos uns dentro da barraca e outros
em volta da fogueira, eu era uns do que dormia
junto a fogueira e tive um cobertor chamuscado
pelo fogo, e durante alguns meses depois ainda
sentia o cheiro de coisa queimada. Inicialmente
fizemos turnos de vigia, durante toda a noite,
mas com o passar do tempo a escala não
foi respeitada e todos dormiram. Foram maravilhosos
aqueles dias, passamos em inteira liberdade,
aproveitávamos o mar, mergulhávamos
das pedras do forte, jogávamos bola e
outras brincadeiras, naquela praia virgem, com
sua vegetação original, formada
principalmente de pitangueiras e uns arbustos
com carrapichos que grudavam em nossas roupas,
principalmente em nossos cobertores.
No último dia de nosso passeio, durante
o almoço, a conversa girou em torno do
canhão e de que maneira cerca de vinte
garotos conseguiriam pegar tão pesada
peça. Então o motorista do caminhão
disse que poderia ajudar, amarraríamos
correntes no canhão e ele entraria com
o caminhão na praia, a uma distância
segura, e puxaria o canhão até
a beira da praia. Foi o que fizemos, escolhemos
um canhão já caído nas
pedras do forte, mais próximo a areia
da praia, o amarramos com a corrente e o puxamos
com o caminhão. Ele rolou pelas pedras
e caiu na água, a poucos metros da praia,
mas quando afundou tocou na arreia e a tensão
na corrente foi muito grande, partindo-a. A
única solução para continuarmos
nossa empreitada foi rolar o canhão,
usando o cabo da enxada, as varas de pesca e
uma alavanca, tendo em vista que a distância
da linha da água na praia até
as pedras do forte eram aproximadamente de uns
quatro metros, e neste espaço a profundidade
era pequena, não chegava a nossas cinturas.
Tal expediente foi feito sem grande esforço
e o canhão rolado até a praia,
afastado por vários metros de distância
do mar. A essa altura já havia um grande
número de pessoas observando a nossa
atividade, platéia composta de pescadores
e suas esposas, bem como de seus familiares.
Chegamos ao ponto crítico da empreitada,
como colocar um objeto tão pesado em
cima da carroceria do caminhão. Outra
vez o motorista venho em nosso socorro, pediu
que cavássemos a uma distância
determinada do canhão, um buraco com
uma inclinação suave, de tal maneira
que ele entraria com o caminhão, com
a parte traseira, no buraco, fazendo com que
a carroceria encostasse na areia. Tal instrução
foi por nos executada e o caminhão ficou
na posição projetada, mas não
totalmente encostado na areia, ficou a uns quarenta
centímetros no nível da areia.
Então foi dada a idéia de se levantar
o canhão pela boca, local menos pesado,
colocando-o em posição vertical,
e depois o tombaríamos dentro do caminhão
fazendo um tipo de alavanca. Amarramos uma corda
na boca do canhão e o puxamos, fazendo
um tipo de cabo de guerra, enquanto o velho
professor de educação física,
o motorista e colegas mais fortes levantavam,
com as mãos, o canhão. Na primeira
tentativa conseguimos elevar a boca do canhão,
sem conseguir coloca-lo na posição
vertical, quando o professor Guedes se abaixou
e forçou com o ombro e seu corpo, para
coloca-lo na posição desejada.
Tal esforço descosturou seu velho macacão
de ginástica, fazendo com que seus testículos
ficassem expostos, pendurados e balançando.
Com tal situação houve uma gargalhada
geral, dos alunos e da platéia formada
por pescadores e familiares, e todos que de
algum modo ajudavam deixaram de fazer força,
fazendo com que o canhão voltasse a sua
posição inicial. Alguns minutos
depois, já com o velho professor recomposto,
fizemos nova tentativa, com sucesso, e rolamos
o canhão para o meio da carroceria. Neste
trabalho causamos alguns danos a carroceria
do veículo, rachando e danificando algumas
tábuas. Depois, com alguma dificuldade,
o caminhão saiu do buraco que havíamos
cavado, e rapidamente levantamos o nosso acampamento,
arrumando todo o nosso material como na vinda,
tínhamos pressa em chegar a Nova Friburgo.
Iniciamos nosso regresso como na vinda, motorista
e professor na cabine do caminhão, e
os alunos em sua carroceria. Notamos logo que
algo de errado estava acontecendo, a velocidade
do veículo era reduzida, com algumas
paradas rápidas e discussão entre
o professor e o condutor do veículo.
Ao chegarmos a localidade de Iguaba, paramos
perto de umas casas com um pequeno comércio.
De um lado da estrada ficavam as casas e do
outro a lagoa de Araruama. Então o professor
Guedes, descendo da cabine do caminhão,
nos comunicou que o motorista tinha bebido com
os pescadores da Praia do Forte, e que não
estava em condições de dirigir.
Tentou reanimá-lo com café o que
não foi suficiente, fazendo com que ele
fosse até a beira da lagoa e molhasse
a cabeça. O motorista fez o que lhe foi
pedido, mas quando se abaixou junto a lagoa
perdeu o equilíbrio, literalmente emborcando
dentro dela. Diante de tal quadro o velho professor
resolveu assumir a direção do
caminhão e nos levar de volta a Nova
Friburgo. Ficamos apreensivos pois nunca tínhamos
visto o professor de educação
física dirigindo, naquela época
os professores não tinham carros, carro
era um artigo de luxo. Logo ele nos tranquilizou
dizendo que já tinha dirigido vários
tipos de veículos no exercito, caminhonetes,
caminhões e até tanques de guerra.
Reiniciamos a viagem com o professor Guedes
no comando do caminhão, e o motorista
na carroceria, junto a nós. O caminhão
trafegava em baixa velocidade, era conduzido
com muita prudência pois a responsabilidade
era grande e não havia grande intimidade
entre caminhão e seu condutor. Demoramos
muito a chegar na cidade de Rio Bonito, e quando
lá chegamos já era noite, e o
velho professor sentiu o peso da responsabilidade,
e não quis conduzir o caminhão,
naquela hora, até a cidade de Friburgo,
enfrentando o trecho da estrada de serra. Lembrou-se
então de um amigo, do tempo da Segunda
Grande Guerra Mundial, um oficial do exército
com quem tinha servido, então reformado
com a patente de Coronel, que possuía
e morava em uma fazenda no município
de Rio Bonito, era o Coronel Farias.
Depois de algumas indagações no
comércio da cidade, nos foi indicado
o caminho até a fazenda, e lá
chegamos sem grande dificuldade.
Fomos recebidos pelo Coronel e sua família
com carinho e muita atenção, e
depois de explicarmos a nossa situação,
nos foi dado abrigo. A casa sede da fazenda
era muito antiga, centenária, construção
com o pé direito bem alto, teto forrado
em madeira, o piso era de vigas de madeira que
rangiam sob o nosso peso, mobiliário
bem antigo com um velho piano, piano este que
quando acidentalmente alguém se apoiava
em sua tampa que guardava as teclas, ouvia-se
um estrondoso acorde. Foi determinado que fizéssemos
nossas camas usando um cobertor estendido no
chão da sala, usando o outro para se
cobrir. O Coronel tinha várias filhas,
não me lembro quantas, mas eram todas
moças bem mais velhas do que nós,
o que não impediu a paquera, as piadinhas
e cantadas. Depois foi servido um lanche, com
produtos da fazenda, como leite, café,
pães, bolos, biscoitos e queijos, lanche
maravilhoso para quem estava a três dias
comendo uma pasta de macarrão com salsicha,
e principalmente por ter sido servido pelas
filhas e empregadas do Coronel. Na manhã
seguinte acordamos cedo, e tomamos um café
da manhã ainda mais reforçado,
servido pelas filhas e empregadas do Coronel
Farias. Aí já estávamos
bem a vontade, fazíamos brincadeiras
e piadas com as moças, nos referíamos
ao Coronel como nosso sogro. Depois deste café
da manhã, arrumamos nossas coisas e fomos
ocupar nossos lugares no caminhão. O
professor Guedes agradeceu muito ao Coronel
o atendimento que nos foi dispensado, o carinho
com que fomos recebidos. Já ocupando
nossos lugares no caminhão, demos vários
gritos de guerra (aleguchis) em sinal de agradecimento,
fizemos piadas com as filhas e empregadas do
Coronel, e ele mesmo passou a ser chamado de
Coronel Farinha. Sob os olhares
de todos da fazenda seguimos a nossa viagem,
indo para a estrada que nos levaria a Nova Friburgo,
com o caminhão sendo dirigido por seu
motorista, já refeito com o descanso
de uma noite bem dormida. Seguimos na estrada
por uns quinze minutos, e, derrepente, o caminhão
parou, sendo explicado que o motorista havia
esquecido seus documentos bem como os do caminhão,
e tivemos que retornar à fazenda, todos
receosos com as brincadeiras na partida. Enquanto
o motorista ia apanhar seus documentos, o professor
Guedes se explicava e desculpava com o Coronel.
Partimos novamente, tínhamos pressa em
chegar a Nova Friburgo, e no trajeto tudo ocorreu
dentro da normalidade, pois não tenho
outras lembranças, a não ser de
combinarmos a não fazer nenhum alarde
da conquista do canhão, mas simplesmente
exibi-lo a todos na chegada.
Chegamos ao nosso destino no horário
de recreio que tínhamos depois do almoço,
e o caminhão foi estacionado junto a
um dos canteiros que existem em frente ao Colégio.
Logo fomos cercados por inúmeros professores,
alunos e funcionários do estabelecimento,
quebrando a rotina do educandário, visto
que naquele tempo o recreio dos alunos era limitado
aos pátios coberto e descoberto, não
podíamos transpor o Paralelo 38,
que era a guia do meio fio da rua em que findava
o pátio descoberto, nome do limite dado
pelo Professor Campos, então coordenador
do Ginásio, pois era este paralelo noticia
obrigatória, todos os dias, em jornais,
revistas e rádio, era o paralelo que
separava as duas Coréias, limite entre
os combatentes. O canhão foi jogado com
facilidade no gramado, tendo ficado cravado,
sob os olhares admirados de todos. Foram dadas
várias explicações de que
como tínhamos conseguido tal feito. Pelo
professor Amauri, então Diretor do Ginásio,
nos foi prometido que o canhão seria
colocado nos jardins do estabelecimento de ensino,
em um pedestal e com uma placa alusiva a façanha.
Parte da promessa foi cumprida, o canhão
foi colocado em um pedestal de granito, no centro
de um jardim, local que se encontra até
hoje, que passou a ser conhecido nos anos seguintes
como a Praça do Canhão,
mas a placa comemorativa nunca foi confeccionada.
Não sei dos motivos que levaram a direção
do Ginásio a escolher tal local, talvez
em nossa homenagem foi colocado em frente a
nossa sala de aulas, sala que ocupamos de 1952
a 1956, do Admissão até o último
ano do Ginasial, e de sua pequena varanda podíamos
vê-lo diariamente, apontado para a Cidade
de Nova Friburgo, encrustado em um bloco de
granito, com tal inclinação que,
num hipotético tiro, sua bala faria uma
trajetória balística que acertaria
o Colégio Anchieta, nossos antigos rivais.
|