A História do Canhão do CNF
Carlos Geraldo de Barros Meyer
 
No ano de 1953, em um dia de segunda-feira, chegava ao Ginásio Nova Friburgo um caminhão com alunos excursionistas, na hora do recreio após o almoço, eram alunos da Primeira Série “A” do Ginásio, vindos de Cabo Frio. Tal chegada quebrou toda a rotina do educandário, pois estes alunos estavam atrasados, deveriam ter chegado no dia anterior, no máximo até o anoitecer. Logo inúmeros alunos e
professores cercaram o caminhão, estacionado junto a um dos canteiros dos jardins em frente da entrada principal do Ginásio. Sem maiores explicações foi aberta a grade da carroceria do caminhão e rapidamente dela jogado um centenário canhão, do tempo do Brasil colônia, retirado do Forte São Matheus, na cidade de Cabo Frio, que ficou cravado na grama, diante o olhar incrédulo daquela platéia.

Forte de São Matheus - Cabo Frio - RJ
Naquele ano inciaram-se atividades extra-classe com passeios a cidade de Cabo Frio, repetidas no ano de 1954, que eram por nos chamadas de “Excursões a Cabo Frio”, feitas por todas as turmas do Ginásio, uma a uma, iniciando-se pelas turmas mais velhas e findando pela turma da Primeira Série “A”. A primeira turma a ir relatou que tentou trazer para Friburgo um dos canhões do forte, coisa tentada pelas demais turmas que a seguiram, fato este que motivou a alguns colegas contemporâneos lembranças de ter sido a sua turma a trazer tal troféu. Todas tentaram, mas só uma conseguiu.

Forte de São Matheus - Cabo Frio - RJ

A vez da ida da Primeira Série “A” chegou em junho, e desta excursão participaram Anão Zezinho, Mauro Castro, Murgel, Pechincha, Palito, Moicano, Mário Trindade, José Altino, Juno Caldas, Amauri Amaral, Roberto Magalhães, Americano, Elan Daniel, Boi, Felinto e outros que não me recordo. Os preparativos para esta viagem começaram alguns dias antes, cada um arranjou um cantil, uma faca tipo escoteiro, durante as aulas de trabalhos manuais foram cortados bambus para a confecção de varas de pesca e de arpões.

Naquele tempo, sob a orientação do Murgel, que já era iniciado nas atividades da pesca submarina, confeccionamos alguns arpões, que consistiam em vergalhões de ferro fixados em um pedaço de bambu, ponta feita no esmeril da sala de trabalhos manuais do Prof. Oliveira, e um elástico feito de câmara de ar de automóveis, preso na outra extremidade do bambu. Na ponta do vergalhão, dois pequenos pedaços de lata que o envolviam e a ele se amoldavam , fixados por um furo e arrebite. O arpão era feito de tal maneira que, quando o disparássemos dentro da água, suas hastes de lata se amoldariam ao ferro do arpão, envolvendo-o, e quando o puxássemos se abririam, não dando chance a um possível peixe arpoado de fugir.


Os Canhões
Em junho chegou a nossa tão esperada vez. Saímos do GNF numa madrugada de uma sexta-feira. Acordamos muito cedo, nos arrumamos, todos travestidos de escoteiros, com facas e cantis fixados aos cintos, tomamos café da manhã e subimos no caminhão, já preparado, que nos levaria a Cabo Frio. O responsável por nossa excursão foi o Professor Guedes e a ele coube o privilégio de ir na boleia do caminhão, acompanhando o motorista. Os alunos foram na carroceria do veículo, com

seu piso coberto pelos colchões de lutas do “Ginasium”, junto a panelas, alimentos e barraca. Partimos sem o dia ter raiado, estava frio e bem escuro, estávamos agasalhados e muitos se enrolaram nos cobertores que levávamos, cada aluno levava dois cobertores. Ao cruzar a cidade de Friburgo demos vários gritos de guerra, vários “aleguchis” e cantamos, com um início bem suave e progressivamente cada vez mais alto:
Pode dormir,
Pode sossegar,
Que a nossa intenção,
Não é de acordar.

A viagem transcorreu normalmente, dentro do possível, com cerca de vinte garotos na faixa de doze anos de idade. Já com o dia claro, se a memória não me trai, o Pechincha teve a idéia de colocar um rolo de papel higiênico em sua vara de pesca, levantando-o como se fosse uma bandeira. Logo passamos a cantar por todos os vilarejos ou aglomeração de casas que passávamos, um novo grito de guerra:
“A bandeira da Primeira A,
Limpa,
A bunda,
Limpa,
A bunda,
Limpa,
A bunda”.

Gastamos muitos e preciosos rolos de papel higiênico neste trajeto. O que me faz lembrar, claramente, que nossa inesquecível viagem foi no mês de junho, foi o fato de que, por onde passávamos na Região dos Lagos, Araruama, Iguaba, São Pedro e outros vilarejos, nos dávamos os nossos gritos de guerra, e com nossas varas de pesca, derrubávamos as bandeirolas típicas das festas juninas que enfeitavam as ruas por onde passávamos.

Chegamos a Cabo Frio e nos instalamos junto ao Forte São Matheus. Descarregamos o caminhão e sob a orientação do Prof. Guedes levantamos a barraca. Era uma barraca grande que acomodou a todos, tinha pertencido a Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Forramos o chão do seu interior com os colchões de ginástica e acomodamos todo o nosso material. Na parte interna da barraca observamos inúmeros desenhos, de uma cobra fumando que era o símbolo da FEB, mensagens, agradecimentos e orações feitas a tinta ou grafite. Encontramos também inúmeras medalhas de santos fixadas à barraca por alfinetes de segurança. Pelo velho professor nos foi dito que deveríamos respeitar, preservar aquilo, pois foram inscrições feitas por soldados brasileiros nos campos de guerra da Itália, e que alguns daqueles pracinhas não tinham voltado, tendo sido ele mesmo um ex-combatente. Esta observação nos tocou profundamente, examinamos tudo sem nada ser tocado, sem nada ser acrescentado, ficando tudo devidamente preservado.

Naquela época a estradas do Rio de Janeiro e Niterói para a cidade de Friburgo eram de terra batida, não tinham revestimento de asfalto, somente um pequeno trecho da estrada do Rio para Friburgo era pavimentada, era o trecho do Rio para Petrópolis e o trecho que ia para Teresópolis, daí para Cachoeiro de Macacu e Friburgo era de terra batida, tipo de estrada que percorremos de Friburgo a Cabo Frio. Com estas péssimas condições de estrada, os caminhões costumavam levar correntes, cordas, pás, enxadas, alavancas e outros tipos de ferramentas para possíveis emergências, tal como ficar preso em um atoleiro.


A praia do Forte naquela ocasião era deserta, sem uma edificação em alvenaria, tinha apenas alguns casebres de pescadores, e o canal de Cabo Frio só alguns ancoradouros rústicos para as canoas de pesca. Logo na chegada localizamos uma senhora, moradora da região, que prestara serviços de cozinheira para outras turmas do Ginásio. Dela tenho poucas lembranças, só do prato principal e único que preparava, nosso alimento durante três dias, um macarrão disforme, grudento, sem sabor e recheado com salsichas. Mas nos tratou bem, foi carinhosa e gentil, inclusive arranjando água captada da chuva que tinha em casa, pois a água de poço era intragável, saloba, com um forte odor. Daí demos um enorme valor a água que trouxemos de Friburgo, em nossos cantis, água que guardávamos como ouro, precaução que não impediu roubo e sabotagens nos referidos cantis. O resto da alimentação foi satisfatória, comíamos biscoitos, ovos, goiabada e marmelada trazidas em latas, bebíamos leite preparado com Leite Moça com café. Conseguimos pescar alguns peixes pretos, gosmentos, que não foram aproveitados pois os pescadores nos informaram serem venenosos, e os arpões não funcionaram, serviram apenas como armas do nosso acampamento, para afugentar alguns cães vadios que se aproximavam. Na frente da barraca, a uma distância segura, fizemos uma fogueira, que ficava permanentemente acesa, pois o que não faltava era lenha, que também era aproveitada pela cozinheira. Dormíamos uns dentro da barraca e outros em volta da fogueira, eu era uns do que dormia junto a fogueira e tive um cobertor chamuscado pelo fogo, e durante alguns meses depois ainda sentia o cheiro de coisa queimada. Inicialmente fizemos turnos de vigia, durante toda a noite, mas com o passar do tempo a escala não foi respeitada e todos dormiram. Foram maravilhosos aqueles dias, passamos em inteira liberdade, aproveitávamos o mar, mergulhávamos das pedras do forte, jogávamos bola e outras brincadeiras, naquela praia virgem, com sua vegetação original, formada principalmente de pitangueiras e uns arbustos com carrapichos que grudavam em nossas roupas, principalmente em nossos cobertores.


No último dia de nosso passeio, durante o almoço, a conversa girou em torno do canhão e de que maneira cerca de vinte garotos conseguiriam pegar tão pesada peça. Então o motorista do caminhão disse que poderia ajudar, amarraríamos correntes no canhão e ele entraria com o caminhão na praia, a uma distância segura, e puxaria o canhão até a beira da praia. Foi o que fizemos, escolhemos um canhão já caído nas pedras do forte, mais próximo a areia da praia, o amarramos com a corrente e o puxamos com o caminhão. Ele rolou pelas pedras e caiu na água, a poucos metros da praia, mas quando afundou tocou na arreia e a tensão na corrente foi muito grande, partindo-a. A única solução para continuarmos nossa empreitada foi rolar o canhão, usando o cabo da enxada, as varas de pesca e uma alavanca, tendo em vista que a distância da linha da água na praia até as pedras do forte eram aproximadamente de uns quatro metros, e neste espaço a profundidade era pequena, não chegava a nossas cinturas. Tal expediente foi feito sem grande esforço e o canhão rolado até a praia, afastado por vários metros de distância do mar. A essa altura já havia um grande número de pessoas observando a nossa atividade, platéia composta de pescadores e suas esposas, bem como de seus familiares. Chegamos ao ponto crítico da empreitada, como colocar um objeto tão pesado em cima da carroceria do caminhão. Outra vez o motorista venho em nosso socorro, pediu que cavássemos a uma distância determinada do canhão, um buraco com uma inclinação suave, de tal maneira que ele entraria com o caminhão, com a parte traseira, no buraco, fazendo com que a carroceria encostasse na areia. Tal instrução foi por nos executada e o caminhão ficou na posição projetada, mas não totalmente encostado na areia, ficou a uns quarenta centímetros no nível da areia. Então foi dada a idéia de se levantar o canhão pela boca, local menos pesado, colocando-o em posição vertical, e depois o tombaríamos dentro do caminhão fazendo um tipo de alavanca. Amarramos uma corda na boca do canhão e o puxamos, fazendo um tipo de cabo de guerra, enquanto o velho professor de educação física, o motorista e colegas mais fortes levantavam, com as mãos, o canhão. Na primeira tentativa conseguimos elevar a boca do canhão, sem conseguir coloca-lo na posição vertical, quando o professor Guedes se abaixou e forçou com o ombro e seu corpo, para coloca-lo na posição desejada. Tal esforço descosturou seu velho macacão de ginástica, fazendo com que seus testículos ficassem expostos, pendurados e balançando. Com tal situação houve uma gargalhada geral, dos alunos e da platéia formada por pescadores e familiares, e todos que de algum modo ajudavam deixaram de fazer força, fazendo com que o canhão voltasse a sua posição inicial. Alguns minutos depois, já com o velho professor recomposto, fizemos nova tentativa, com sucesso, e rolamos o canhão para o meio da carroceria. Neste trabalho causamos alguns danos a carroceria do veículo, rachando e danificando algumas tábuas. Depois, com alguma dificuldade, o caminhão saiu do buraco que havíamos cavado, e rapidamente levantamos o nosso acampamento, arrumando todo o nosso material como na vinda, tínhamos pressa em chegar a Nova Friburgo.


Iniciamos nosso regresso como na vinda, motorista e professor na cabine do caminhão, e os alunos em sua carroceria. Notamos logo que algo de errado estava acontecendo, a velocidade do veículo era reduzida, com algumas paradas rápidas e discussão entre o professor e o condutor do veículo. Ao chegarmos a localidade de Iguaba, paramos perto de umas casas com um pequeno comércio. De um lado da estrada ficavam as casas e do outro a lagoa de Araruama. Então o professor Guedes, descendo da cabine do caminhão, nos comunicou que o motorista tinha bebido com os pescadores da Praia do Forte, e que não estava em condições de dirigir. Tentou reanimá-lo com café o que não foi suficiente, fazendo com que ele fosse até a beira da lagoa e molhasse a cabeça. O motorista fez o que lhe foi pedido, mas quando se abaixou junto a lagoa perdeu o equilíbrio, literalmente emborcando dentro dela. Diante de tal quadro o velho professor resolveu assumir a direção do caminhão e nos levar de volta a Nova Friburgo. Ficamos apreensivos pois nunca tínhamos visto o professor de educação física dirigindo, naquela época os professores não tinham carros, carro era um artigo de luxo. Logo ele nos tranquilizou dizendo que já tinha dirigido vários tipos de veículos no exercito, caminhonetes, caminhões e até tanques de guerra. Reiniciamos a viagem com o professor Guedes no comando do caminhão, e o motorista na carroceria, junto a nós. O caminhão trafegava em baixa velocidade, era conduzido com muita prudência pois a responsabilidade era grande e não havia grande intimidade entre caminhão e seu condutor. Demoramos muito a chegar na cidade de Rio Bonito, e quando lá chegamos já era noite, e o velho professor sentiu o peso da responsabilidade, e não quis conduzir o caminhão, naquela hora, até a cidade de Friburgo, enfrentando o trecho da estrada de serra. Lembrou-se então de um amigo, do tempo da Segunda Grande Guerra Mundial, um oficial do exército com quem tinha servido, então reformado com a patente de Coronel, que possuía e morava em uma fazenda no município de Rio Bonito, era o “Coronel Farias”. Depois de algumas indagações no comércio da cidade, nos foi indicado o caminho até a fazenda, e lá chegamos sem grande dificuldade.


Fomos recebidos pelo Coronel e sua família com carinho e muita atenção, e depois de explicarmos a nossa situação, nos foi dado abrigo. A casa sede da fazenda era muito antiga, centenária, construção com o pé direito bem alto, teto forrado em madeira, o piso era de vigas de madeira que rangiam sob o nosso peso, mobiliário bem antigo com um velho piano, piano este que quando acidentalmente alguém se apoiava em sua tampa que guardava as teclas, ouvia-se um estrondoso acorde. Foi determinado que fizéssemos nossas camas usando um cobertor estendido no chão da sala, usando o outro para se cobrir. O Coronel tinha várias filhas, não me lembro quantas, mas eram todas moças bem mais velhas do que nós, o que não impediu a paquera, as piadinhas e cantadas. Depois foi servido um lanche, com produtos da fazenda, como leite, café, pães, bolos, biscoitos e queijos, lanche maravilhoso para quem estava a três dias comendo uma pasta de macarrão com salsicha, e principalmente por ter sido servido pelas filhas e empregadas do Coronel. Na manhã seguinte acordamos cedo, e tomamos um café da manhã ainda mais reforçado, servido pelas filhas e empregadas do Coronel Farias. Aí já estávamos bem a vontade, fazíamos brincadeiras e piadas com as moças, nos referíamos ao Coronel como nosso sogro. Depois deste café da manhã, arrumamos nossas coisas e fomos ocupar nossos lugares no caminhão. O professor Guedes agradeceu muito ao Coronel o atendimento que nos foi dispensado, o carinho com que fomos recebidos. Já ocupando nossos lugares no caminhão, demos vários gritos de guerra (aleguchis) em sinal de agradecimento, fizemos piadas com as filhas e empregadas do Coronel, e ele mesmo passou a ser chamado de “Coronel Farinha”. Sob os olhares de todos da fazenda seguimos a nossa viagem, indo para a estrada que nos levaria a Nova Friburgo, com o caminhão sendo dirigido por seu motorista, já refeito com o descanso de uma noite bem dormida. Seguimos na estrada por uns quinze minutos, e, derrepente, o caminhão parou, sendo explicado que o motorista havia esquecido seus documentos bem como os do caminhão, e tivemos que retornar à fazenda, todos receosos com as brincadeiras na partida. Enquanto o motorista ia apanhar seus documentos, o professor Guedes se explicava e desculpava com o Coronel. Partimos novamente, tínhamos pressa em chegar a Nova Friburgo, e no trajeto tudo ocorreu dentro da normalidade, pois não tenho outras lembranças, a não ser de combinarmos a não fazer nenhum alarde da conquista do canhão, mas simplesmente exibi-lo a todos na chegada.


Chegamos ao nosso destino no horário de recreio que tínhamos depois do almoço, e o caminhão foi estacionado junto a um dos canteiros que existem em frente ao Colégio. Logo fomos cercados por inúmeros professores, alunos e funcionários do estabelecimento, quebrando a rotina do educandário, visto que naquele tempo o recreio dos alunos era limitado aos pátios coberto e descoberto, não podíamos transpor o “Paralelo 38”, que era a guia do meio fio da rua em que findava o pátio descoberto, nome do limite dado pelo Professor Campos, então coordenador do Ginásio, pois era este paralelo noticia obrigatória, todos os dias, em jornais, revistas e rádio, era o paralelo que separava as duas Coréias, limite entre os combatentes. O canhão foi jogado com facilidade no gramado, tendo ficado cravado, sob os olhares admirados de todos. Foram dadas várias explicações de que como tínhamos conseguido tal feito. Pelo professor Amauri, então Diretor do Ginásio, nos foi prometido que o canhão seria colocado nos jardins do estabelecimento de ensino, em um pedestal e com uma placa alusiva a façanha.


Parte da promessa foi cumprida, o canhão foi colocado em um pedestal de granito, no centro de um jardim, local que se encontra até hoje, que passou a ser conhecido nos anos seguintes como a “Praça do Canhão”, mas a placa comemorativa nunca foi confeccionada. Não sei dos motivos que levaram a direção do Ginásio a escolher tal local, talvez em nossa homenagem foi colocado em frente a nossa sala de aulas, sala que ocupamos de 1952 a 1956, do Admissão até o último ano do Ginasial, e de sua pequena varanda podíamos vê-lo diariamente, apontado para a Cidade de Nova Friburgo, encrustado em um bloco de granito, com tal inclinação que, num hipotético tiro, sua bala faria uma trajetória balística que acertaria o Colégio Anchieta, nossos antigos rivais.