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Uma
Catástrofe Financeira?
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Clóvis
Cavalcanti
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No dia 3.10.05, um amigo meu, economista-chefe
de gestão de risco no Brasil de
importante banco multinacional, escreveu-me
e-mail desesperado. Perguntava qual seria
"a menor derrocada do sistema [financeiro]
inteiro que nos permitirá caminhar
novamente e não cair de vez".
E consultava: "Quanto tempo você
acha que nós temos?". Acrescia:
"Aqui, do lado do mercado financeiro,
não dá para ficar menos
assustado ... tudo está dependente
da loucura insana dos Estados Unidos ...
A falência financeira dos Estados
Unidos só poderá ser escamoteada
no máximo por uns dois ou três
anos". Concluía: "É
de aterrorizar qualquer ser pensante,
não é mesmo?". Casualmente,
há poucos dias, encontrei a mensagem,
que eu imprimi ao receber. Verifico agora
a precisão do cálculo de
meu amigo: entre outubro de 2007 e outubro
de 2008, os EUA quebraram. Sobre isso,
Alan Greenspan, ex-banqueiro central todo-poderoso
dos EUA em 1987-2006, escreveu na revista
britânica The Economist de 20.12.08:
"A intermediação financeira
global está quebrada". Isso
aconteceu depois da falência do
Lehman Brothers no dia 15.9.08, momento
em que a atividade econômica financiada
pelo crédito bancário cessou
virtualmente de existir. Ao mesmo tempo,
um valor de bolsa de 30 trilhões
de dólares foi varrido do mapa,
sumiu. Só se pode concluir que
o caso é de uma catástrofe
financeira terrível.
O estrategista financeiro global David
M. Smick, em artigo no New York Times
de 10.3.09, escreveu: "Não
há soluções para
a crise dos bancos sem riscos políticos
e financeiros extraordinários".
Nos seus cálculos, o verdadeiro
valor de mercado dos ativos tóxicos
dos bancos americanos ("a coisa horrorosa
que precisa ser removida dos balanços")
vale entre 5 e 30 por cento do que custam
efetivamente. Para que permaneçam
solventes (em condições
de pagar seus compromissos), contudo,
os bancos falam que é preciso que
esse valor seja de 50 a 60 por cento.
Ou seja, simplesmente, o sistema bancário
estadunidense requer dois trilhões
de dólares de socorro do contribuinte,
além da montanha de dinheiro que
já recebeu. Para não se
usar o dinheiro público, a solução
seria estatizar agora os bancos ("nationalize",
em inglês; ou, literalmente, "nacionalizar")
para reprivatizá-los mais tarde.
Esta saída tem o perigo de se ter
que cair na "rede potencialmente
letal" dos instrumentos de seguro
de papéis (derivativos) chamados
"credit default swaps". Ninguém
sabe o que há aí nesse verdadeiro
buraco negro. Mexer nele pode desencadear
um terremoto financeiro inimaginável.
Como pode não acontecer nada. Essa
realidade cria um ar de total incerteza.
Daí por que o secretário
do Tesouro americano, Tim Geithner, está
adotando "um approach tríplice":
demorar, demorar, demorar, na esperança
de que alguém surja com uma saída
confiável - segundo Smick.
Tristemente, os papéis derivativos
tornaram-se os senhores do sistema financeiro.
Segundo os operadores do mercado, ao desmontar
um grande banco - o que teria que ser
feito com a estatização
- o mercado totalmente não regulado
desses títulos ficaria transtornado,
"com conseqüências financeiras
globais catastróficas", no
dizer de Smick. Ou não, pois, no
caso, singram-se mares ignotos, conforme
esse conhecedor profundo do mercado. Sua
ilação: "Geithner tem
razões para morrer de medo".
Ele fez parte da equipe de seu predecessor
no Tesouro, a qual subestimou o efeito
de contágio devastador do colapso
do Lehman Brohers, responsável
pela crise nas suas gigantescas proporções
atuais. E foi um banco só. Imaginem
se fossem vários, como o Citigroup
ou Bank of America. Os derivativos financeiros
globais, não regulamentados, ascendem
a 40 trilhões de dólares
(dois terços do PIB do planeta).
É para deixar qualquer um assustado.
Mas uma tribo da Amazônia, ou mesmo
um sertanejo nordestino, em seu pedacinho
de terra, não teria nada a temer.
Benefício da não-globalização?
Publicado no "Diario
de Pernambuco"
em 22.3.09
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O
Poder do Dinheiro
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Clóvis
Cavalcanti
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Em
dezembro de 1996, o presidente do Banco
Central americano (que lá se chama
de Junta Federal de Reserva e se conhece
afetivamente como Fed), Alan Greenspan,
cunhou a expressão "exuberância
irracional". Usou-a para se referir
aos mercados financeiros e para repreendê-los
por seu comportamento cada vez mais destoante
das regras da racionalidade, à
semelhança da bolha que vai explodir
e não se pára de encher.
Esse comportamento, que elevava o valor
das ações negociadas em
bolsa a preços insustentáveis,
prosseguiu da forma denunciada por Greenspan
até que, em 2000, a bolha explodiu,
atingindo especialmente as empresas de
alta tecnologia (as chamadas "pontocom"
ou, em inglês, "dotcom"),
cuja bolsa é a Nasdaq. Já
antes, um problema muito sério
ocorrera, em setembro de 1998, quando
o sistema financeiro internacional sofreu
sua maior ameaça até hoje.
Foi na ocasião em que a empresa
Long-Term Capital Management (LTCM), trabalhando
com somas excessivamente altas no negócio
de arbitragem (mais ou menos, uma aposta
no valor futuro das cotações
de papéis negociados em bolsa),
simplesmente faliu. O Fed e uma plêiade
de bancos poderosíssimos tiveram
que socorrer a LTCM por causa do risco
de um colapso financeiro global.
Esses cuidados, infelizmente, não
se aplicam a países ameaçados
de turbulências semelhantes, como
se pode ver agora no caso da Argentina,
entregue à própria sorte,
depois de seguir fielmente - pelo menos,
muito mais fielmente que o Brasil, a Rússia
e o México, por exemplo - os princípios
da liberação dos mercados,
das privatizações, da desregulamentação
da economia, da abertura ao comércio
e ao fluxo internacional de capitais,
etc. Para que o mundo possa seguir a fórmula
de progresso que a integração
financeira pressupõe, é
indispensável que exista um mecanismo
de supervisão e aplicação
de regras de conduta. Do contrário,
a "exuberância irracional"
termina levando a situações
insustentáveis. No caso da bolha
das empresas de tecnologia da informação
dos EUA, denunciada por Greenspan, pôde
o Fed tomar providências para suavizar
o impacto de sua derrocada - a qual, diga-se
de passagem, ainda não se concluiu.
Ainda assim, com os cuidados da vigilância
do poder público, não se
pôde evitar, em dezembro de 2001,
o enorme fracasso da Enron, empresa de
energia americana cuja falência
é a maior da história do
capitalismo. Ora, se, com formas de governança
estabelecidas, os problemas da economia
financeira se multiplicam e surpreendem
a cada vez pela força das turbulências
que desencadeiam, que dirá quando
se está à mercê do
mercado, sem nenhuma possibilidade de
intervir no contrapé de sua irracionalidade
exuberante.
Para dar conta dessa realidade, que começa
a tomar corpo depois da Grande Depressão
(anos 30), foi criado em 1944 o Fundo
Monetário Internacional, o qual
deveria ser uma espécie de Fed
do mundo, agindo para evitar transtornos
nas finanças mundiais. Seu principal
inspirador foi o, talvez, maior economista
do século XX, o britânico
John Maynard Keynes (1883-1946), que defendia
exatamente o controle do movimento internacional
de capitais. Sua opinião está
em palavras que expressou em 1933, advogando
que, no que toca a finanças, elas
"sejam primariamente nacionais".
Na verdade, Keynes propunha livre movimento
de idéias, conhecimento, arte,
hospitalidade, turismo, "coisas que
deveriam, por sua natureza, ser internacionais".
No seu entender, o movimento de mercadorias
deveria sujeitar-se à conhecida
"lei das vantagens comparativas",
mas o de dinheiro, à disciplina
de cada nação. Esta não
é a visão que prevalece
hoje, com a conseqüente vulnerabilidade
cada vez maior de economias de menor poder
de barganha. Caso da brasileira, que,
por qualquer motivo que incomode os centros
das finanças globalizadas, se vê
sob a ameaça das agências
que calculam os riscos-país. Esta
situação, que mostrou sua
face sombria ultimamente, em função
de prognósticos para as eleições
presidenciais de outubro indicando vitória
da oposição, não
assumia em 1989, por exemplo, tanta gravidade.
Naquele instante, Luís Inácio
Lula da Silva esteve perto de vencer Fernando
Collor, espalhou-se o boato de que as
poupanças seriam seqüestradas
pelo primeiro e nada disso criou o nervosismo
que se vê agora.
Acontece que o mundo das finanças
mudou muito desde os anos oitenta, haja
vista que, como mostra a revista The Economist
(18.5.02), o montante pendente nos mercados
globais de derivativos - uma forma nova
de investimento, altamente volátil
- passou de 30 para 120 trilhões
de dólares de 1990 a 2001. O mercado
global de divisas estrangeiras, bem mais
antigo, deu um salto de 0,6 para 1,2 trilhão
de dólares de negócios diários,
de 1989 para 2001, tendo chegado a 1,5
trilhão em 2000 (a queda subseqüente
já foi efeito do estouro da bolha
do mercado de papéis). Ora, nesse
mesmo período, a economia real
- a que produz bens e serviços
de consumo, que dá emprego e gera
renda efetiva - evoluiu de modo muito
mais modesto (algo em torno de 35 por
cento) e seu patamar mundial hoje é
de apenas 40 trilhões de dólares.
Dólares anuais, entenda-se. A economia
financeira, a que pode despencar violentamente,
como no caso da Nasdaq, ultrapassa os
500 trilhões por ano. Quem tem
dinheiro quer vê-lo crescer. Isso
é possível, exponencialmente,
sem limite, porque o dinheiro não
passa de um símbolo, de um registro
contábil. O mesmo não se
dá com produção e
consumo de coisas físicas. Para
estes, há limites. Entretanto,
é a economia que os abarca que
tende a ser sufoca pela economia (virtual)
das finanças. Keynes tinha razão.
Lhes
compete analisar o aspecto formal das
leis; aos jornalistas não lhes
cabe tampouco a função
de estudar as explanações
teóricas dos candidatos ao título
de jurisconsulto, a menos que as aberrações
lingüísticas mereçam
algum destaque, como as dos candidatos
aos exames da OAB.
Já
me referi, em outra ocasião,
às decisões judiciais
contraditórias ou discutíveis
que, vez por outra, nos surpreendem,
como, só para ilustração,
os dois casos seguintes: no dia 21 de
maio de 1996, a 2ª turma do STF
absolveu o encanador Márcio Luiz
de Carvalho, de MG, acusado de ter estuprado
uma menina de 12 anos, em 1991. O relator
do processo, o ministro Marco Aurélio
de Mello, disse, na época, que
"nos nossos dias não há
crianças, mas moças de
12 anos". No dia 22 de outubro
de 1996, ou seja, menos de seis meses
depois, o STF confirmou a condenação
de Claudinei Hacker, de Santa Catarina,
acusado de estupro de uma garota de
13 anos. Vale dizer: estuprar uma menina
de 12 anos não é crime,
mas estuprar uma de 13 anos pode dar
seis anos e três meses de prisão,
pena a que foi condenado o infeliz catarinense.
Essas contradições existem
por culpa do sistema, que permite a
qualquer detentor do diploma de bacharel
em direito - tenha ou não titulação
acadêmica - a dignidade de ministro
da maior corte do país, desde
que seja amigo do "rei".
Mas
o que pretendo comentar aqui são
os erros chambões ou as tropeçadas
lingüísticas inadmissíveis
em quem tem obrigação
histórica de zelar pela língua,
e não a parte técnica
ou jurídica das decisões
judiciais ou das nomeações
de juízes e ministros. Afinal,
não sou advogado e não
pretendo, já sexagenário,
abraçar a carreira das leis,
ainda que a ache fascinante, maravilhosa
e a mais gratificante, promissora e
diversificada de todas as profissões
de nível superior do mundo.
Deixarei
de comentar as bobagens escritas em
latim, como "a grosso modo"
ou "a contrario sensu" ou
"status quo", por exemplo
(as formas corretas são grosso
modo e contrario sensu, sem a preposição
a inicial, e statu quo, sem o s final,
porque é ablativo, parte da expressão
in statu quo ante), porque o latim,
infelizmente, embora cultuado não
por amor à cultura clássica,
mas por exibicionismo pessoal, no exercício
barroco do estilo jurídico tradicionalmente
empolado, deixou há muito de
ser ensinado nas escolas brasileiras
e há muito deixou também
de ser matéria do vestibular
de Direito. Pretendo ater-me aqui aos
desvios lingüísticos e às
inovações que agridem
a nossa língua portuguesa em
seu nível formal.
O
Novo Código de Trânsito
(Lei nº 9.503/97) é uma
antologia de calinadas e de atrocidades
lingüísticas, algumas dignas
de apedeutas engravatados. Só
para ilustração, eis algumas
delas, escolhidas aleatoriamente:
l.
No Art. 302, § único, lê-se:
"... se o agente: (...) II - praticá-lo..."
(Desde crianças, aprendemos que
não existe ênclise com
futuro; "praticá-lo"
é futuro do subjuntivo com o
pronome enclítico. É como
se alguém pudesse dizer "se
quisé-lo", "se pudé-lo",
"se fizé-lo". Aliás,
não há ênclise tampouco
em orações subordinadas
desenvolvidas, porque a conjunção
atrai o pronome clítico.);
2. no Art. 231, inciso V, lê-se
mais de uma vez o número mil
escrito por extenso com um antes: "um
mil" (Pena que tenha faltado o
h inicial para ornamentar a calinada!);
3. no Art. 46, Contran aparece escrito
adequadamente, apenas com a inicial
maiúscula; em quase todos os
outros artigos em que aparece, o nome
Contran vem grafado com todas as letras
maiúsculas (os acrônimos,
isto é, os nomes formados com
a primeira letra ou com a sílaba
ou sílabas iniciais de várias
palavras, se escrevem com minúsculas,
exceto a primeira, se se tratar de nome
próprio, como: radar, Petrobras,
Ufes, Arena, Varig, Vasp, laser, Bradesco,
etc. As siglas - que não formam
novas palavras na língua - é
que se escrevem com todas as letras
maiúsculas, como PMDB, STF, IPTU,
UFRJ, BCG, etc. Se o acrônimo
tiver menos de quatro letras, todas
se escreverão em versal, como
as siglas, como, por exemplo, TAP, ONU,
TAM, etc. Esse erro é desculpável,
já que nas duas primeiras edições
do Aurélio se grafou aids com
todas as letras maiúsculas: AIDS.
A nova edição corrigiu
as anteriores, mas cometeu erro idêntico
ao grafar SIDA no verbete próprio.
O que não é desculpável
é a falta de uniformidade: Contran/CONTRAN.);
4. no art. 148 § 3º lê-se:
"A carteira Nacional de Habilitação
será conferida ao condutor no
término de um ano, desde que
o mesmo não tenha cometido nenhuma
infração (...)" (Grifo
nosso.) (Se se dessem o trabalho de
consultar o Aurélio, no verbete
mesmo, os legisladores teriam evitado
esse uso inadequado de o mesmo, em lugar
do pronome pessoal ele.);
5. no Art. 21, inciso XI; no Art. 22,
inciso XII; no Art. 24, inciso XV, lê-se
a mesma bobagem: "promover e participar
de projetos e programas" (Ora,
qualquer aluno de 2º grau sabe
que dois verbos de regência diferente
não podem ter o mesmo complemento.
Diz-se promover algo e participar de
algo; um mesmo termo não pode
ser simultaneamente objeto direto e
objeto indireto, até mesmo pelo
princípio lógico da não-contradição:
uma coisa não pode ser e não
ser ao mesmo tempo.);
6. no Art. 116, o verbo obedecer, que
é transitivo indireto, aparece
na voz passiva, numa construção
que, embora usual e encontradiça
até em bons escritores, a grande
maioria dos gramáticos rejeitaria,
com base na regra de que só os
verbos que têm objeto direto na
voz ativa admitem construção
passiva, porque é o objeto da
ativa que vai ser o sujeito da passiva.);
Não
quero estender-me mais nessa aberração
lingüística que é
o Novo Código de Trânsito,
espelho do preparo (ou despreparo) cultural
dos nossos legisladores. Passemos a
outro documento legal, aleatoriamente
escolhido. Por exemplo: a Lei nº
9.279/96, que é o Código
de Propriedade Industrial. O Art. 195,
só para ilustração,
nos incisos XI, XII e XIV, apresenta
repetidamente duas tolices grossas:
o uso do mesmo complemento para verbos
de regência diferente e o uso
da ênclise em oração
subordinada desenvolvida: "Comete
crime
de concorrência desleal quem divulga,
explora ou utiliza-se (...) de conhecimentos..."
Não é um belo exemplo
de incompetência lingüística?
Até
mesmo a Lei de Diretrizes e Bases que
deveria primar pela correção
lingüística apresenta bobagens
como, por exemplo, opor sistematicamente
jovem a adulto, como se um adulto não
pudesse ser jovem ou um jovem não
pudesse ser adulto!
Deixemos
de lado os textos legais. Nem os deputados,
nem os senadores - nossos legisladores
- foram eleitos por sua brilhante inteligência
ou por seu notório saber. Passemos
ao uso que da língua fazem os
profissionais do Direito.
Nos
poucos textos que tive a oportunidade
de examinar, encontrei as seguintes
expressões ou termos inexistentes
ou inadequados:
l.
vez que (com o sentido de uma vez que);
2. a-histórico (por aistórico
ou anistórico);
3. frente a, face a (Todas as locuções
prepositivas que são formadas
com um substantivo, à exceção,
talvez única, de graças
a, têm sempre duas preposições:
uma antes e outra depois do substantivo,
como a propósito de, em nível
de, em (com) relação a,
em função de, com respeito
a, a respeito de, em torno de, em favor
de, em direção a, etc.
Portanto, o correto é dizer em
frente de, em frente a, em face de...);
4. posto que (com o sentido inadequado
de porque; posto que significa "embora",
"apesar de que");
5. eis que (com o sentido de porque;
eis que só se usa no início
de frases anunciativas ou no início
de expressões que indicam surpresa,
nunca com sentido causal);
6. inobstante (inovação
desnecessária, equivalente a
não obstante);
7. supedanear (O nome supedâneo
existe, mas o verbo, não. Melhor
seria a utilização de
verbos já existentes, como basear,
sustentar, alicerçar, apoiar
e quejandos.);
8. pertine (A expressão adequada
é ser pertinente. Não
existe na língua nenhum verbo
de que pertine possa fazer parte: nem
pertinar, nem pertiner, nem pertinir.
Atente-se para o fato de que a existência
de um adjetivo - pertinente - não
nos autoriza a pressupor a existência
de um verbo de mesmo radical; existem
os adjetivos irrespondível, impossível
e imperdoável, por exemplo, mas
não existem os verbos irresponder,
impoder ou imperdoar.);
9. exauriente, satisfativa, irresignado,
improvido - são algumas das inovações
lexicais mais comuns;
10. a teor de - locução
prepositiva inventada;
11. implicar em - o verbo implicar se
usa sem preposição, com
o sentido de pressupor, provocar: A
implica B, e não "em B";
12. deparar-se com - o correto, apesar
da lição espúria
da 3ª edição do Aurélio,
é: A deparou B; deparou-se B
a A; A deparou com B.
13. sequer com sentido negativo (sequer
significa "ao menos", "pelo
menos", e não tem sentido
negativo por si só: "Ele
ganha pouco mas sequer pôde comprar
um carro importado.");
14. intime-se-o - (O correto é
intime-se ele. Quando se tem numa oração
o pronome se, o sujeito dessa oração
é sempre o primeiro substantivo
ou pronome que aparecer sem preposição;
o o é pronome sem preposição,
mas é exclusivo da função
de objeto direto; por isso, se o é
construção inexistente
na língua culta, exceto se o
o é pronome demonstrativo, seguido
de relativo, como em "Sabe-se o
/ que ele fez".);
15. A lei está vigindo - (Por
"A lei está vigendo".
O verbo é viger, da 2ª conjugação.);
16. Nada importa que o requerente inclua...
(Ora, o sujeito de importa é
a oração seguinte e, ao
mesmo tempo, o pronome nada. Em português,
é impossível que um sujeito
com mais de um núcleo não
tenha esses núcleos coordenados
em sucessão. A bizarra construção
não levou em conta que nada não
é apenas uma negação,
mas um pronome indefinido, com função
nuclear em qualquer oração
a que pertença.)
Fiquemos por aqui. Se é verdade
que os bacharéis recém-saídos
da Universidade tropeçam nos
exames da OAB, não é menos
verdade que muitos profissionais, já
em final de carreira, ainda tropeçam
na língua, e, o que é
pior, na ilusão de que a sabem.
É um erro pensar que a norma
culta portuguesa tenha sido sedimentada
pela linguagem dos escritores. O aprendizado
da língua culta era adquirido
pela leitura de textos legais ou, às
vezes, de textos dos cronistas, nome
por que eram conhecidos os "guardas
das escrituras" ou escrivães,
contratados pelos reis para contar as
histórias e feitos reais como
suas testemunhas oculares. Os primeiros
gramáticos portugueses não
citavam exemplos de conterrâneos
escritores, contemporâneos ou
não. Foi a tradição
dos gramáticos latinos que introduziu
essa prática, justificável
pelo fato de só podermos saber
como era o latim culto pela observação
do uso que dele faziam os grandes poetas,
como Ovídio ou Virgílio,
ou os grandes prosadores, como César
ou Cícero. Mas o objetivo de
um escritor é ou deveria ser
o de subverter a norma, o de se valer
de feitos de fala, de desvios eufóricos,
a fim de ser diferente dos outros, e
não como os outros. Por isso,
comete um erro de metodologia o gramático
moderno que abonar regras com exemplos
de escritores. Os exemplos deveriam
ser colhidos em obras não-artísticas,
em que predomina a linguagem denotativa,
isto é, sem metáforas,
sem figuras, sem intenção
estética, mas apenas ou quase
exclusivamente em sua função
referencial.
Sabemos, pelos trabalhos lingüísticos
de Chomsky, que todos os falantes de
uma língua têm competência
lingüística, no sentido
de que têm capacidade de dizer,
entender e reconhecer como de sua língua
frases que nunca ouviram antes. Mas
a essa competência pragmática,
digamos assim, opõe-se a competência
literária, aqui entendida como
a competência lingüística
no registro mais formal da língua.
E é essa que a muitos "sábios"
acaba faltando, sem que eles próprios
se dêem conta disso.
A linguagem jurídica poderia
voltar a ser a linguagem padrão
da elite cultural do país, e
um modelo de língua castiça
a ser imitado e louvado em todas as
escolas. Mas o poder sobe à cabeça,
e a vaidade cega.
Infelizmente.
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O
Caos Aeroviário Brasileiro
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Clóvis
Cavalcanti
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No
dia 13 de julho deste ano, voltando para
o Recife de uma viagem à África
do Sul, fui para o aeroporto de Guarulhos
com bastante antecedência. Meu vôo
(TAM) era às 9h20 e eu cheguei lá
cerca de 7h30. Havia uma fila monumental.
Entrei nela, mas o ritmo de avanço
era lento. Parecia não permitir que
eu fizesse o despacho (agora chamam de check-in)
a tempo.
Aproveitando
minha condição de maior
de 60 anos, mudei para o guichê
de atendimento especial, onde
só havia umas três ou quatro
pessoas (a fila era confusa). Durante
30 minutos, um único passageiro
ficou sendo atendido. Achei inacreditável.
Quando eram 10h, pedi a uma atendente
que fizesse meu despacho, pois estava
em cima da hora. Ela fez e aí me
comunicou que meu vôo estava atrasado.
De fato, ele só saiu às
14h. Ninguém avisou nada enquanto
eu e tanta gente nos martirizávamos.
Na verdade, o problema era uma cerração
(comum, aliás) no local do aeroporto
cerração que não
existia até 5 km antes desse mesmo
local. É incrível como escolheram
um sítio para movimento de aviões
tão ruim quanto o de Guarulhos.
Todos os vôos atrasaram no dia 13
de julho, mas não se disseminava
essa informação entre os
aflitos passageiros. Pior: quando fui
para o portão de embarque, não
havia como eu saber nada acerca de meu
vôo. Passei um tempão à
mercê de um sistema absolutamente
caótico. Pude então cotejá-lo
com o que havia visto nos dias anteriores
na África do Sul, onde Johanesburgo
constitui um nó aeroviário
muito importante. Lá, o atendimento
tinha sido excelente além
dos bons serviços do aeroporto,
com lojas cheias de uma imensa variedade
de artigos sul-africanos. Não havia
ainda problemas de controle de tráfego,
como os que ora se apresentam aumentando
as incertezas das viagens aéreas
no território nacional.
Tenho
uma longa experiência de viajante,
pois comecei nisso em março de
1952, quando fui do Recife ao Rio para
estudar em Nova Friburgo. A viagem foi
num avião Curtiss Commander do
Lóide Aéreo Nacional, uma
das dez empresas de aviação
que, na época, tornavam muito competitivo
o mercado. De fato, operavam então
nessa área, além do Lóide,
a Panair, Varig, Real, NAB, Aerovias,
Vasp, Cruzeiro do Sul, a Paraense, creio
que também a Sadia. Hoje, o que
se tem é o que os economistas chamam
de duopólio. Não existem
alternativas sólidas. Ou se toma
a TAM, ou a Gol. A Varig, tão importante
para o transporte aéreo nacional,
sumiu. A situação é
mais grave por dois motivos, pelo menos.
Primeiro, a população brasileira
se aproxima hoje de 200 milhões
de habitantes (em 1952, era de 50 milhões).
E não há, no país,
um meio que concorra com o avião.
Não se conta aqui com trens, navios
e boas rodovias. Temos estradas asfaltadas,
mas nada parecido com a malha, por exemplo,
de São Paulo. Como se pode planejar
confiavelmente uma viagem de ônibus
a Salvador, Belo Horizonte ou Belém
do Pará? Eu já fui de navio
do Recife ao Rio duas vezes; mas isso
foi na década de cinqüenta,
quando existia o recurso.
Recorrendo
a minha experiência, a sensação
clara de agora é que o Brasil piorou
muito em matéria de avião.
As filas demoradas se tornaram comuns
nos aeroportos. E só não
incomodam mais porque se viaja pouco no
país. Antes, era possível
chegar ao aeroporto uma hora antes do
vôo e ainda poder desfrutar de tempo
na livraria para comprar alguma coisa.
Isso se tornou mais difícil. É
chegar e embarcar, enfrentando novas filas.
No dia 25 de julho, indo a Brasília,
tive, com os demais passageiros, que esperar
mais de uma hora dentro do avião
(da TAM). Havia um problema no sistema
de comunicações. Um único
sistema, sem uma rede paralela para contingências
como aquela. Assim, quando se percebe
que a realidade é agora ainda pior,
devido à situação
dos controladores de vôo, fica a
indagação sobre o que pode
ainda trazer mais problemas. Eu sempre
me acostumei a fazer viagens internacionais,
antigamente via Galeão (Rio de
Janeiro), hoje por Guarulhos. Não
havia necessidade de sair muito cedo do
Recife, pois as conexões eram quase
perfeitas, tipo tomar um vôo às
18h nos Guararapes e outro às 22h
no Rio. No momento atual, isso é
impensável. Tenho uma viagem no
dia 9, às 20h, em Guarulhos (à
Índia). Já estou planejando
sair daqui de véspera. Isso é
desenvolvimento?!
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Mensagem
de Natal
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Clóvis
Cavalcanti
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Verdade
Incoveniente
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Clóvis
Cavalcanti
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Em
julho de 1996, assisti
na Universidade de Boston
(EUA) a uma palestra de
Sandra Postel, atual diretora
do Projeto Mundial de
Políticas Referentes
à Água.
Fiquei deslumbrado com
a complexa utilização
que ela fez dos recursos
tecnológicos modernos
para uma exposição
pública. Além
disso, a conferencista
dispunha de informações
impressionantes sobre
o problema da água.
Combinando seu conhecimento
da realidade com os meios
que power-points e data-shows
bem apoiados por
uma retaguarda consistente
oferecem, Sandra
Postel transmitiu competentemente
a mensagem que desejava
fazer chegar aos que,
como eu, em auditório
lotado, a ouviam. Na verdade,
os recursos tecnológicos
da computação
se tornam dispensáveis
quando o expositor é
alguém como o escritor
Edson Nery da Fonseca,
cujas palestras que assisti
até hoje sempre
me causaram a maior admiração.
No seu caso, à
erudição,
ao conhecimento dos assuntos,
ao bom uso dos meios disponíveis,
junta-se uma capacidade
de discurso elegante com
a dicção
mais clara possível
que o fazem distinguir-se
como o melhor conferencista
que já vi falar
no Brasil. Essas duas
reminiscências vêm-me
à mente depois
de assistir ao soberbo
documentário de
Davis Guggenheim Uma Verdade
Inconveniente. É
que esse filme, do começo
ao fim com breves
inserções
de outro caráter
, constitui uma
palestra acadêmica
do mais elevado nível.
Assunto relevante e atual,
roteiro didático
de exposição,
conferencista sem pompa
e bem-humorado, seqüência
de apresentação
que prende a audiência
a aula que qualquer
professor gostaria de
dar, especialmente por
conta da infra-estrutura
de dados, gráficos,
fotos, filmes, vídeos,
mapas animados, etc.,
à disposição
da palestra. Que tem como
expositor o ex-vice-presidente
americano Albert Gore,
candidato derrotado de
modo não convincente
pelo presidente George
W. Bush em 2000.
O
assunto do documentário,
e da palestra, é
o aquecimento global,
tema que tem preocupado
Gore há muito
tempo. Sabe-se que Bush
II não dá
a mínima para
o agravamento do problema
de aumento da temperatura
do planeta causado pelo
efeito estufa. Nem por
isso, o filme se prende
ao plano da política
dos EUA, preferindo
colocar-se no nível
do interesse de toda
a espécie humana.
Na verdade, até
que caberia uma insistência
de Gore com respeito
ao fato de que, por
detrás da eleição
de Bush, estavam os
interesses avassaladores
do petróleo.
O presidente americano
e seu vice, Dick Cheney,
como é amplamente
sabido (Michael Moore
fala bem disso em seu
filme Fahrenheit 9/11)
têm estreitas
ligações
com a indústria
petrolífera.
A invasão do
Iraque, supostamente
para acabar com armas
de destruição
em massa (queriam mesmo
era pegar Saddam Hussein),
tem como fundamento
primeiro o domínio
do petróleo do
Oriente Médio.
Guggenheim segue a mensagem,
já antiga, de
Gore, quanto à
questão do uso
insustentável
que se faz dos recursos
ecológicos do
planeta. Sobre isso,
Gore escreveu um livro
em 1992 (traduzido em
português como
A Terra à Procura
de Equilíbrio),
que tem como subtítulo
ecologia e o espírito
humano. Nesse
livro, Gore fala da
profunda experiência
pessoal que o fez tornar-se
ambientalista: o atropelamento,
que testemunhou, do
filho de 6 anos, deixando
este, durante semanas,
entre a vida e a morte.
O
filme de Guggenheim
é fascinante
e ajuda a esclarecer
a questão de
como o mundo atual contribui
para sua própria
desgraça através
de ações
que destroem de forma
irremediável
os recursos ecossistêmicos
do planeta. Gore fala
dos inúmeros
desastres ambientais
de grande porte que
estão acontecendo
no mundo. Fala, inclusive,
do perigo de transposição
de águas de rios
(ele não tem
nada a ver com o São
Francisco), mencionando
o exemplo do rio Colorado,
nos EUA, e do mar de
Aral, no Casaquistão-Usbequistão.
No filme, Gore enfatiza
o que chama de nossa
emergência planetária.
Mostra isso do modo
mais convincente possível.
Não há
como ficar paralisado
diante da denúncia.
Mesmo uma publicação
cética do ambientalismo
como The Economist conclui
sua análise da
película dizendo:
Se o Sr. Gore
estiver certo, e ele
pode estar, o tempo
está correndo
mais rápido do
que a maioria do mundo
pensa. Diante
disso, só cabe
lamentar como estão
atrasadas nossas elites
do governo e oposição
no culto que devotam
a um oco espetáculo
do crescimento.
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A
Floresta
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Clóvis
Cavalcanti
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Sou
Tucano
Sou Arara
Sou Peixe
Sou também Boto Cor de
Rosa
Quando
amanhece
A Mata tem vida
Só não tem Mata
Que agüente uma queimada
Nem
Tucano
Nem Arara
Nem Peixe
Muito menos Boto Cor de Rosa
Por
isso quero me salvar
Se não, não vou
poder contar, minha história
Para meus netos, nem filhos
Porque também eu amo a
terra
VITO
VANDERLEI CAVALCANTI MAZZER
Minhas
Amigas, meus Amigos:
Com o poema de meu neto Vito (11
anos), quero lhes desejar vida
renovada e feliz no Natal e Ano
Novo.
Muita
paz, com a amizade de
Clóvis.
Olinda
/ Recife, dezembro de 2006.
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Honestidade,
Ética e o Povo Brasileiro
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Clóvis
Cavalcanti
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É
conhecido de todos o admirável
episódio do faxineiro da
Infraero em Brasília, Francisco
Basílio Cavalcante, que
encontrou uma carteira abandonada
contendo dez mil dólares
e a devolveu ao dono, um turista
suíço. Na ocasião,
começo de 2004, o Presidente
Luiz Inácio Lula da Silva
declarou em instante captado pela
televisão que, se alguém
achasse dinheiro dessa forma e
ficasse com ele, não estaria
cometendo um ato de desonestidade,
pois, afinal, o dinheiro não
tinha dono. Na verdade, conhecemos
a máxima de que achado
não é roubado.
O primeiro mandatário,
portanto, não estava inventando.
Contudo, nossa consciência
manda em ocasiões assim
procurar o proprietário
da coisa encontrada ao acaso.
Uma vez, há quinze anos,
esqueci uma bolsa no Cantinho
da Sé, agradável
restaurante de Olinda. Nela, além
de meus documentos, talão
de cheque, etc., havia cerca de
seiscentos dólares que
restaram de viagem internacional
que eu acabara de fazer (nessa
época, nossos cartões
de crédito não valiam
no exterior). Quando me dei conta
do esquecimento, horas depois,
retornei ao restaurante e lá,
guardada e inviolada, estava minha
bolsa. Há uma semana, na
feira de Gravatá, paguei
R$ 3,40 a uma feirante por uma
despesa de R$ 2,40. Ela pegou
o dinheiro, disse que estava errado.
Pensei que houvesse pagado de
menos, mas ela esclareceu que
não e devolveu o real extra.
Essas historinhas são de
todos nós no nosso dia-a-dia
e revelam que o povo é
honesto. Pode até não
ser em certos casos, mas a tendência
é de sê-lo.
Por
isso, incomodou-me ver Lula
há poucos dias, visitando
obras no aeroporto de Brasília,
segurando a mão do mesmo
Francisco Basílio e,
diante de um microfone, declarar
que, se houvesse 180 milhões
de brasileiros como aquele faxineiro,
o país seria decente.
Ora, creio que haja no Brasil
até mais de 180 milhões
de brasileiros honestos. São
assim, pelo menos, as pessoas
com quem lido. Meu mecânico
de quase trinta anos de bons
serviços, Elpídio
Sacramento (Abel), por exemplo,
ele próprio um exemplo
de honestidade, sempre me disse
que queria ser acusado de incompetente,
mas não de desonesto.
O pranteado geógrafo
Mário Lacerda, digno
pesquisador e homem de caráter,
costumava aconselhar que, dos
gestores públicos, se
deveria exigir, primeiro, honradez
e, depois, competência.
Essa percepção,
infelizmente, por alguma forma
de maldição, parece
não fazer parte aqui
das práticas de gestão
do bem comum. Promessas eleitorais,
como se sabe, são freqüentemente
descumpridas, e de modo desolador
em certos casos, como se isso
fosse uma ação
sem nada a ver com desonestidade.
O dominicano Frei Betto, de
que sou admirador, escreveu
no jornal O Globo, de 23.7.2002:
Na seara dos especuladores,
Lula funciona como um espantalho
[...] O risco não é
Lula vencer, é o Brasil
continuar refém da alta
dos juros. Isso foi antes
da eleição presidencial,
quando todos esperavam uma política
econômica do PT diferente
da que os anos de FHC tinham
seguido.
Não
se trata de querer que o governo
fizesse pajelanças a
partir de janeiro de 2003. Ele
tinha autoridade para mudar
rumos como no caso da expectativa
externada por Frei Betto de
que o Brasil não iria
continuar refém das altas
taxas de juros. Muitos economistas
respeitáveis davam elementos
para uma guinada na condução
dos negócios da economia
brasileira, até porque,
do ponto de vista da razão,
é inconcebível
que exista apenas um modo de
proceder (ou pensamento
único) no tocante
à política econômica
da nação. Ora,
Frei Betto sempre foi íntimo
de Lula. Se antes das urnas
afirmava o que escreveu, deve
ter se frustrado diante da falta
de palavra que veio depois.
Entrevistado em julho passado,
o sociólogo pernambucano
e professor da USP Chico de
Oliveira foi confrontado com
a pergunta: Lula afirmou
recentemente: Ninguém
neste país tem mais autoridade
moral e ética do que
eu para fazer o que precisa
ser feito nesse país.
O senhor concorda?. Chico
respondeu: Não,
não concordo. Isso é
uma presunção
e arrogância. Há
milhões de brasileiros
com tanta autoridade moral e
ética quanto ele. Isso
não é uma boa
forma de melhorar a educação
política da cidadania.
Acho absolutamente abominável
essa pretensão de colocar-se
acima do bem e do mal perante
a sociedade, cujo governo ele
comanda. Tem razão.
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Exemplo
de Cidadão
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Clóvis
Cavalcanti
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Um
dos cidadãos mais exemplares que conheci
deixou nossa convivência no último
dia 8 de dezembro - coincidentemente, data de
meu aniversário. Foi meu amigo Bruno
da Silveira, grande amigo, de fato, que conheci
em 1956 no Colégio Nova Friburgo, onde
ambos estudamos como alunos internos na década
dos 50. Bruno era pernambucano, um pouco mais
velho do que eu, mas morava no Rio de Janeiro.
Seu pai era o deputado federal Breno da Silveira,
do
PSB carioca. Aliás, quando eu não
era ainda eleitor, fui levado por Bruno, que
já o era, a uma reunião do partido
em Nova Friburgo. O encontro foi presidido por
um friburguense ilustre, Raja Gabaglia, e contou
com a presença do poeta - figura muito
popular, mais tarde, também, deputado
federal - J.G. de Araújo Jorge. Alguns
dias depois, comparecemos a um jantar do PSB
em que estava presente, com ar cansado e olheiras,
o cronista pernambucano Antônio Maria.
Foi dessa forma, pelas mãos de Bruno,
que me iniciei na política. Nessa época,
o Partido Socialista Brasileiro, presidido nacionalmente
belo baiano João Mangabeira, era uma
legenda de
grande autenticidade, uma alternativa ao comunismo
de inspiração soviética.
Bruno e eu comungávamos de ideais comuns.
O que não era pouco para ele, dado, no
aspecto econômico, as origens robustas
de sua família. Na verdade, uma família
rica, mas não burguesa, como muito bem
disso tratou em seu sincero livro de memórias,
Às Vezes, Penso que Sou Noé, a
mãe de Bruno, d. Cyra.
A
relação de afeto que Bruno tinha
com os amigos estendia-se a quem ele percebesse
que precisava de carinho. Nos seus últimos
tempos de vida, quando o câncer que
o vitimou não parava de avançar,
os esforços que ele dedicava a uma
educação de qualidade tomaram
ainda maior impulso. Nas ocasiões em
que conversamos ao longo de 2006 - a doença
vinha de 2002 -, pessoalmente ou pela internet,
Bruno não cansava de retomar o assunto.
Recebi dele, inclusive, convite para fazer
parte do conselho de um projeto de educação
que ele procurava levar adiante com muitos
apoios. Bruno se empenhou pela recuperação
do Ginásio Pernambucano e, quando foi
dirigente da Fundação Emílio
Odebrecht, procurou apoiar iniciativas bem
concebidas na área educacional. Ele
se entregava a tudo isso com paixão,
com
seriedade, com crença no que fazia.
Aliás, fé foi um atributo de
sua personalidade. Fé nos valores espirituais.
Fé em Jesus Cristo, fé em Deus,
fé na família e nos amigos.
Isso ele comunicava a todos os nomes de uma
lista que construiu na internet, chamada de
Meus Queridos, na qual fui incluído.
As mensagens de Bruno continham elementos
de uma visão espiritual alimentada
de fé verdadeira.Numa das mensagens
de dois anos atrás, ele falava do abraço
que a morte lhe propiciaria dar em Jesus Cristo.
Diante
da morte, convém dizer, Bruno nunca
demonstrou sinais de fraqueza. Ele lutou pela
vida. Fez tudo o que era possível para
conservá-la. Mas não fugia da
realidade do fim. Graças a sua fé,
ele pôde estender sua existência
bem mais do que se podia imaginar. Seu irmão
Cydno, também aluno de Nova Friburgo,
costumava dizer que Bruno já havia
entrado da prorrogação da sobrevida
que os médicos lhe haviam dado muitas
vezes. Em fevereiro deste ano, encontrei-o
no Shopping em Boa Viagem para uma conversa
na hora do almoço. Quando eu ia para
o encontro, pensava como o veria - provavelmente,
muito abatido. Que nada! Ele estava alegre,
bem disposto, com a mesma boa aparência
de homem bonito que foi. Tivemos excelente
conversa, na qual muitos planos dele foram
expostos. Sua vibração com o
que fazia era impressionante. Não reclamava
de nada. Continuou assim, mesmo quando seu
corpo definhava e ele perdia o porte de grande
atleta que foi no colégio - o melhor
atleta da escola em 1957. Sua ligação
com o esporte continuou na vida adulta. Ele
foi diretor de futebol do Flamengo quando
nosso amigo comum Márcio Braga era
presidente do clube no inicio dos anos 80
e Cláudio Coutinho, técnico.
Teve então papel importante na formação
de uma das melhores equipes que o rubro-negro
carioca já possuiu. Na mesma ocasião,
foi vice-presidente da Finep, onde deu o melhor
de si para o desenvolvimento da ciência
e tecnologia no Brasil. Em Pernambuco, sua
terra natal e onde terminou seus dias, não
se tornou um nome conhecido. Pelo exemplo
de vida que deu, porém, não
se pode deixar que o esquecimento cerque sua
morte.
Publicado
no Diário de Pernambuco - Domingo,
17 -12 -05
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A
Difícil Luta a Favor
da Natureza
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Clóvis
Cavalcanti
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Nos
meses recentes, tem se visto
no Brasil todo tipo de investida
dos que atribuem à economia
uma importância capital,
acima de qualquer outra consideração,
inclusive o meio ambiente. O
Ibama (Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e Recursos
Naturais Renováveis),
por exemplo, é atacado
como inimigo do país.
A ponto de o senador Antônio
Carlos Magalhães ter
dito em discurso no Senado,
em abril de 2004, que "ou
o Brasil acaba com o Ibama ou
o Ibama acaba com o desenvolvimento
brasileiro". Na verdade,
o Ibama apenas faz o que manda
a legislação,
da qual ele é guardião
(um papel nem tão rigoroso
assim, algumas vezes). A lei
não foi criada por esse
órgão, e sim pelo
Congresso, exprimindo a vontade
da população.
A qual, hoje, se inclina por
atitudes de defesa ambiental,
conforme indicam pesquisas do
Instituto Superior de Estudos
da Religião, do Rio de
Janeiro. Ou seja, percebe-se
a crise ambiental e que é
preciso fazer alguma coisa para
contê-la. Nesse sentido,
o Ibama age coberto de toda
legalidade.
Quem
não observa princípios
legais são, isto sim,
os produtores de soja que,
contra as leis do país,
impuseram o plantio de soja
transgênica, introduzida
clandestinamente no país.
O governo, ao invés
de opor-se ao crime, sacramentou-o,
liberando por medidas provisórias
(a última das quais
em outubro de 2004) a cultura
da soja geneticamente modificada.
A razão dada para isso
é que os agricultores
tinham feito despesas, assumido
débitos, etc. Uma conversa
fiada que não se aplica
quando se trata, por exemplo,
de condenar o MST por estar,
com suas invasões,
violando a propriedade privada.
Na Amazônia (conforme
registros precisos da Rede
Globo, inclusive no "Fantástico"
de domingo 30 de janeiro último),
atualmente, testemunham-se
ações irregulares
de madeireiras que destroem
ilegalmente a floresta. Ora,
a quem pertence o patrimônio
da uma floresta, resultante
de décadas, ou até
séculos, de desenvolvimento
das forças da natureza?
Pertence a alguma madeireira?
Ou pertence à nação,
especialmente aos povos que
protegeram o ecossistema para
que ele nos desse essa floresta
rica de biodiversidade? A
Constituição
brasileira em vigor estabelece
que a floresta amazônica
é "patrimônio
nacional". Acusar o Ibama
de ser contra o desenvolvimento
do país porque ele
tenta levantar a bandeira
legítima da defesa
do bem público reflete
a mentalidade estreita, imediatista,
de exploração
máxima da natureza,
que caracteriza os defensores
do interesse econômico
acima de qualquer outro propósito.
É
a mesma coisa que acontece
no Recife com a esdrúxula
permissão da Prefeitura
para a construção
de dois espigões no
cais da Mesbla, bem próximo
ao bairro, de simpático
casario baixo, de São
José. Ora, o meio ambiente
inclui, nas definições
científicas dele feitas,
o ar e a paisagem. Um prédio
alto rouba ar e rouba paisagem,
ambos representando bens públicos.
Que direito tem uma empreiteira
de construir o que bem quiser
no cenário com o qual
estamos acostumados há
quinhentos anos, modificando-o
dolorosamente ? e ainda mais
com o beneplácito do
poder municipal? Diante disso,
é pura hipocrisia atacar
o MST por invadir propriedade.
Sobretudo porque nosso desenvolvimento
urbano se faz com a invasão
do espaço atmosférico
por imobiliárias movidas
por pura ganância econômica
(e não por necessidade
de sobrevivência). Deveria
haver um plebiscito para saber
se é isso mesmo o que
a população
quer, pois o que se constata
agora é uma situação
de completa irregularidade
e de desrespeito a princípios
de um desenvolvimento ecologicamente
são.
Minha
amiga Marisa Gibson, em sua
(boa) coluna do DP de domingo
passado, disse que os produtores
de camarão (em cativeiro),
como se não bastassem
os problemas que enfrentam,
teriam um outro neste começo
de ano: "a ministra do
Meio Ambiente, Marina Silva,
está criando um grupo
de trabalho para barrar o
crescimento da atividade".
Ora, as fazendas de camarão,
onde quer que se implantem,
causam enormes danos ambientais:
destruição de
manguezais (aumentando a erosão
litorânea e diminuindo
a proteção natural
que o mangue oferece), diminuição
da pesca que havia anteriormente
no local, prejuízos
para as comunidades pesqueiras,
etc. Será que isso
não conta? Será
que os produtores de camarão
sofreriam mesmo tanto (coitados!)
por sua atividade? Francamente,
precisamos acordar para o
passivo ambiental que não
paramos de fazer crescer.
Fevereiro
2005
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O
Bem do Exercício Físico
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Clóvis
Cavalcanti
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Quase
tudo que leio sobre saúde
termina ressaltando o valor
tanto da boa alimentação
(até para problemas mentais
e psíquicos) quanto do
exercício físico.
Tento seguir alguma forma de
comer saudável (baseada
na macrobiótica) e não
paro nunca de me movimentar,
apesar do sedentarismo próprio
da atividade intelectual. Parte
importante dos meus cuidados
é a corrida praticamente
diária que faço
desde o domingo de Carnaval
de 1973. Antes eu já
corria de vez em quando e seguia
o método de ginástica
da Real Força Aérea
Canadense, cujo manual me trouxe
grandes benefícios. No
entanto, sob a influência
de Kenneth Cooper, do famoso
método (usado com sucesso
por Cláudio Coutinho
na preparação
física da seleção
brasileira de futebol de 1970),
tomei a resolução
de correr todos os dias. Comecei
a fazê-lo em Fazenda Nova,
onde passava o Carnaval de 1973,
num domingo como o de hoje,
só que 4 (e não
2) de março. Sempre gostei
muito de Carnaval (estarei hoje
no Sala de Justiça, Bloco
da Saudade, Caranguejo no Caçuá
e outros), mas, com filhos pequenos,
preferi naquele ano me distanciar
da folia. Pela manhã
do domingo, enquanto corria,
avistei na estrada (asfaltada),
ao longe, uma senhora esguia
que caminhava pelo acostamento.
Pensei comigo: quando passar
por ela, vou causar-lhe um susto.
Só que, quando emparelhamos
e eu olhei para a figura, vi
que se tratava de um homem,
com bigode e tudo, e um lenço
à maneira de Carmen Miranda
amarrado à cabeça.
Início divertido de uma
atividade que, em trinta anos
(sou assim, persistente em tudo),
nunca foi interrompida.
Na
verdade, correr é um
dos maiores prazeres de minha
vida (junto com namorar, confraternizar
com as pessoas queridas e
ler). Por isso, nem me canso
nem invento desculpas para
mim próprio a fim de,
alguma vez, evitar meu exercício
diário. E assim, nessa
prática quase religiosa
e imensamente gratificante,
creio que já percorri
entre 45 e 50 mil quilômetros,
talvez mais, uma distância
bem maior do que uma volta
à Terra pelo Equador.
Algumas vezes, quando começo
a corrida e penso na distância
que vou percorrer (atualmente,
em geral uns 7-8 km por dia),
lembro da máxima de
Confúcio de que "A
marcha de 5.000 milhas começa
com o primeiro passo".
Daí para a frente,
não me dá vontade
de parar. Pelo contrário,
se pudesse, correria cada
dia uma distância maior.
Como faço percursos
que se iniciam e terminam
em minha casa, calculo distância,
tempo, etc., para não
passar da conta. Mas nos domingos,
gosto de sair do Carmo (Olinda),
ir ao bairro do Recife, descer
pelo de São José,
Boa Vista e tomar um táxi
na Agamenon de volta para
casa. Outras vezes, vou de
Olinda ao Museu do Estado
e daí ao Derby. Corredor
regular, não sinto
o mínimo cansaço;
pelo contrário, as
sensações são
de alegria, de bem-estar.
Como corro cedo da manhã,
desfruto de momentos tranqüilos
observando a paisagem, conhecendo
melhor os lugares.
No
dia 15 de novembro de 1980,
data da I Maratona do Rio
de Janeiro, organizada pelo
Jornal do Brasil, a que não
pude comparecer, tendo-o feito
em outras de suas versões
posteriores, fui da minha
casa, junto ao Convento de
São Francisco em Olinda,
até a fábrica
da Brahma, no Cabo, seguindo
pelo rumo da Abdias de Carvalho,
Curado, Ceasa, Prazeres, Ponte
dos Carvalhos. Essa foi uma
corrida das mais gostosas:
42,2 km percorridos entre
as 4h30 e as 8h. Caiu enorme
chuva durante o percurso,
que, se foi boa por refrescar-me,
deixou meus sapatos pesados
e apertando. Porém,
no final eu estava fisicamente
bem, como, aliás, sucedeu
até hoje nas cerca
de 200 corridas que faço
por ano, durante três
décadas. Certa ocasião,
em Brasília, creio
que em 1979, o diretor de
Educação Física
do Ministério da Educação
me falou que eu não
corresse; que nós temos
um coração programado
para certo número de
pulsações e
que a corrida, acelerando-o,
reduz o tempo de vida. Ora,
se isso é verdade,
a qualidade de vida que correr
me proporciona excede a vantagem
de viver mais alguns anos
como um velho cheio de achaques
em que eu possa acaso me tornar.
Há pessoas que dizem
que existe o risco de contusões
com o exercício. Durante
30 anos, tive uma ou outra
tendinite - a última
delas curada com acupuntura
e argila (pois não
tomo medicamento de qualquer
espécie) - e dois ou
três problemas de joelho,
o último deles, em
março de 2002, provocado
por irregularidades do calçamento
da ladeira do Monte em Olinda
e curado exclusivamente com
argila. Meu acupunturista,
o competente médico
Marcos Freire Jr., ensinou-me
também umas massagens
chinesas para o joelho, as
quais, depois que passei a
aplicar, parece que tornaram
meus joelhos mais resistentes.
O
que posso dizer, aos 62 anos
e com base em minha experiência,
é que a corrida de
alguns quilômetros por
dia, feita com convicção
e sem descontinuidades (parei
uns dias em 1975, devido à
cheia do Recife, onde morava
então), só tem
benefícios. No meu
caso, prefiro correr mais
em ruas do que na praia por
achar cansativo ir e vir na
mesma paisagem, muito embora
já tenha feito lindas
corridas de 15 km ou mais
à beira-mar. Também
gosto de correr em estradas,
especialmente de lugares distantes
(como Sete Cidades, no Piauí,
ou Pontas de Pedra, na ilha
de Marajó). Divirto-me
igualmente em metrópoles
(já corri em Londres,
Lisboa, Glasgow, Luanda, Lima,
Canberra, Chicago, Los Angeles,
Buenos Aires, Caracas, etc.).
É uma forma de turismo...
Se eu soubesse que correr
era tão bom, teria
começado minha prática
muito antes de 1973. Só
não corro mais, hoje,
é durante o Carnaval,
já que sou desses foliões
que se esbaldam o dia todo,
dispensando mais exercícios.
Enfim, dançar, correr
- além de amar (a Deus,
em primeiro lugar) e namorar
- são atividades que
só fazem bem.
2005
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A
Dura Realidade do Natal
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Clóvis
Cavalcanti
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Quem
não gostaria que a realidade do Natal
fosse a da fartura da mesa, da tranqüilidade
do lar, da realização da cidadania?
Infelizmente, isso só acontece para a
casta de privilegiados a que eu e a maioria
dos meus leitores pertencem. Rezo nestes dias
de agradável confraternização
natalina para que as oportunidades que tenho
sejam compartilhadas com os excluídos
da sociedade. Com os que lutam pela terra e
uma vida decente para seus entes queridos. Com
os que querem desenvolver pequenos negócios,
mas encontram barrados os caminhos para isso.
Com os que, por seu trabalho árduo, ajudam
a que a vida flua mais naturalmente para todos.
Não estou aqui querendo enviar uma mensagem
para esta época de festas. Na verdade,
desejo reportar-me a fatos que negam o espírito
de solidariedade, o discurso da justiça,
as promessas de uma transformação
que esperamos entre nós há pelo
menos duas décadas.
Dois
anos depois da instalação do
governo de esperanças do presidente
Lula da Silva, por exemplo, o desgosto dos
que esperam ter seus pequenos negócios
funcionando saudavelmente só faz crescer.
Para se tomar um empréstimo em um programa
de apoio ao pequeno empreendedor (Agência
do Trabalho, Recife), pagam-se juros mensais
de 4,5% ao mês. Isso significa que uma
quantia de 1.000 reais em dezembro de 2004
valerá 1.697 reais em dezembro de 2005!
Não é à toda que a sóbria
publicação britânica The
Economist, porta-voz mundial do conservadorismo,
diz em seu número de 27 de novembro
último: "Em um país com
taxas de juros reais entre as maiores do mundo,
um banco não tem que saber muito sobre
seu negócio para ganhar dinheiro ...
No Brasil, onde a taxa de juros básica
é de 17,25% e a inflação
está dez pontos percentuais mais baixo,
os bancos são peritos nesse jogo. No
ano passado, eles informaram lucros quase
recordes, enquanto a economia encolhia e os
negócios urravam. Nos três primeiros
trimestres de 2004, os quatro maiores bancos
privados elevaram seus lucros em 17%".
Ainda
há pouco o Banco Central fez subir
a taxa básica para 17,75% ao ano, produzindo
um quadro aterrador para a sociedade. É
inacreditável que a Argentina, com
inflação anual de 5,6%, tenha
taxa de juros básica de 5,19%; que
o Chile, com inflação de 1,9%,
tenha juros de 2,28%; e o México apresente
juros de 8,36% para inflação
de 5,4%. A Turquia é o único
país importante que tem inflação
de 9,9% para juros muito maiores, de 23,01%.
Na União Européia, a inflação
é de 2,4% e os juros de curto prazo,
de 2,17%. Como é que alguém,
no aperto, poderá pagar taxas de juros
de 4,5% ao mês no Brasil? Definitivamente,
isso representa um confisco, uma transferência
de renda consentida pelas autoridades das
camadas sofridas para as afluentes, tudo semelhante
ao que a tão indesejada inflação
galopante fazia.
Outra
situação que assusta relaciona-se
com a realidade rural. Dados a respeito indicam
que os grandes proprietários de terra
são beneficiados (via Ministério
da Agricultura) por 90% dos recursos para
investimentos federais no setor. Enquanto
isso, os que se destinam, através do
Ministério de Desenvolvimento Agrário,
para a pequena produção representam
10% do volume disponível. O quadro
é de grandes empresas transnacionais
investindo maciçamente (com recursos
próprios), aumentando a produção
e a produtividade, ao mesmo tempo em que eliminam
empregos e expropriam camponeses (além
de causar assustadora destruição
ambiental, como no caso da soja). O agronegócio
gera um posto de trabalho para cada 200 hectares,
ao passo que a agricultura campesina gera
um emprego em cada 8 hectares.
esultado
disso é que o agronegócio controla
80% da área cultivável, fica
com 90% dos recursos e produz 60% da produção
agrícola nacional. Os pequenos agricultores
ficam com 10% dos recursos, respondendo por
40% da produção nacional em
apenas 20% da área cultivável.
Nessa
situação, o MST, que ainda sofre
de campanhas que o denigrem, vê com
freqüência a morte de militantes
seus. A riqueza de uns, assim, não
pára de aumentar, sem se reduzirem
a miséria e o sofrimento de setores
majoritários com acesso vedado ao festim
econômico. Essa é uma dura realidade
do Natal!
28
de dezembro 2004
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Crescimento
Econômico ou Desenvolvimento?
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Clóvis
Cavalcanti
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Um
dos temas de maior popularidade nas
conversas sérias, no noticiário
da Imprensa, no discurso dos políticos,
etc. é o da "retomada do
desenvolvimento". Fala-se disso
como a melhor coisa do mundo. Só
que, em seguida, vem a menção
da "taxa de crescimento" que
a economia deve seguir. Aí surgem
os dados, os palpites sobre valores
concretos. Hoje, por exemplo, todo mundo
quer dizer alguma coisa a respeito de
uma suposta taxa de 4,7% ao ano, que
seria a que está prevalecendo
para o crescimento da economia brasileira.
Há, na verdade, uma confusão
visceral entre crescimento e desenvolvimento.
Os dois conceitos são usados
como se significassem a mesma coisa.
Passa-se de um a outro com a maior naturalidade.
Faz pouco, importante jornal do Recife
estampou na primeira página manchete
reveladora: "Crescimento vertical
de Caruaru retrata o desenvolvimento".
Na verdade, essa confusão pode
ser admitida pelo próprio léxico,
mas os conceitos em questão possuem
significados próprios desde que
um ilustre economista e historiador
econômico austríaco, Joseph
Schumpeter, fez a distinção
há setenta anos.
Crescimento
significa aumento, expansão.
Desenvolvimento refere-se a evolução,
transformação, mudança.
Nos sistemas naturais, nenhum fenômeno
assume o modelo do crescimento ininterrupto.
Quando isso acontece, o desfecho é
sempre catastrófico, a exemplo
de uma bola de neve. O câncer
ilustra igualmente bem a situação.
O termo se refere a um leque de doenças
que têm em comum apenas o fato
de que são causadas por células
que não sabem quando devem
parar de dobrar em número.
Por outro lado, na busca de compreensão
da essência do desenvolvimento,
convém deixar patente que o
objetivo derradeiro do ser humano
é a realização
do bem supremo, o summum bonum de
São Tomás de Aquino,
o nirvana ou satori do budismo. A
felicidade, enfim. Produzir e consumir
não valem nada, se não
possuem a direção do
bem supremo. Nós consumimos
não por consumir, mas porque
iremos desfrutar de um prazer, de
uma alegria. Porque nos faz bem.
Assim,
o desenvolvimento pode ser entendido
como uma questão de valores
humanos e de atitudes a realizar,
de objetivos definidos por sociedades
e critérios que determinam
o que são custos toleráveis
a serem aceitos, e por quem, no processo
de mudança que o processo envolve.
Segundo Amartya Sen, o indiano Nobel
de economia de 1998, o desenvolvimento
consiste na remoção
de vários tipos de faltas de
liberdade ("unfreedoms",
na sua expressão), as quais
deixam as pessoas com pouca escolha
e pouca oportunidade de exercitar
sua capacidade consciente de ação.
Enfim, o desenvolvimento implica a
realização de certos
objetivos de valor que demandam a
confrontação de benefícios
e custos, e não o conhecimento
unicamente de benefícios como
os que se exprimem nos valores monetários
do produto interno bruto (PIB), total
ou per capita, ou nas taxas de aumento
dessas grandezas. Importa saber de
que forma se obteve um total em determinado
ano, digamos, de 500 bilhões
de dólares do PIB. E o que
esse valor oculta no tocante a fatos
que significam diminuição
das liberdades, destruição
de recursos, danos à saúde,
desperdício, destruição
da natureza.
O
Brasil tinha 41,2 milhões de
pessoas em 1940, ano em que nasci.
Hoje, segundo a nossa querida Fundação
Getúlio Vargas, tem 56 milhões
de pessoas na extrema pobreza. Ou
seja, em 2004, o país Brasil
dos miseráveis é demograficamente
maior do que o Brasil todo de 1940.
Houve, no caso, crescimento econômico,
mas representa para mim um tour de
force (forçar a barra) dizer
que tivemos desenvolvimento. Desenvolvimento
seria se houvesse apenas 4 milhões
de miseráveis no Brasil. Se
tivéssemos alcançado
a taxa de mortalidade infantil cubana
(a mais baixa das Américas),
se os mucambos do Recife ou as favelas
do Rio de Janeiro houvessem sido substituídos
por casas simpáticas de alvenaria
com jardins e em bairros urbanizados,
se as pensões dos aposentados
não sofressem ameaças
permanentes de rebaixamento. Desenvolvimento
haveria com universidade gratuita
e de boa qualidade para todos, com
escolas públicas que não
fossem exemplo de degradação
na maioria dos casos e se os índices
de violência fossem ínfimos.
Nada disso, lamentavelmente, ocorre.
A miséria se multiplica e,
ao mesmo tempo, não se pára
de destruir a natureza de forma persistente
e criminosa (para cultivar camarões
em cativeiro; para fazer especulação
imobiliária; para plantio de
soja no Mato Grosso). Pagamos custos
altíssimos e, no fim, não
temos desenvolvimento genuíno
nem a sociedade é mais feliz.
É isso o que sucede quando
se confundem as coisas.
01
de dezembro de 2004
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Com
Fidel, em Cuba
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Clóvis
Cavalcanti
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Matando
desejo de muitas décadas, estive
finalmente em Cuba durante uma semana,
no final de outubro passado. Foram dias
extraordinários, nos quais, inclusive,
sem que o previsse, pude conviver com
Fidel Castro. Representando a Fundação
Joaquim Nabuco, compareci à III
Conferência Latino-Americana e
Caribenha de Ciências Sociais,
realizada em Havana. Esse evento deu
continuidade ao que a FJN concebeu,
a I Conferência, por iniciativa
que foi minha e que coordenei, em parceria
com o Conselho Latino-Americano de Ciências
Sociais (Clacso), no Recife, em 1999,
a segunda versão do qual ocorreu
em Guadalajara, em 2001. Aqui, em 1999,
a abertura do encontro contou com as
presenças do vice Marco Maciel
e do governador Jarbas Vasconcelos,
os quais assistiram à parte formal
da sessão, aquela dos discursos,
retirando-se logo a seguir, antes da
primeira palestra da programação
(proferida pelo cientista político
americano Adam Przerworski). Em Havana,
Fidel Castro, que não usou da
palavra na sessão, compôs
a mesa de abertura, desmanchada para
duas palestras que se seguiram - do
pernambucano Francisco de Oliveira e
do egípcio Samir Amin. Desfeita
a mesa, o líder cubano desceu
para a platéia e lá ficou
durante três horas, escutando
os palestrantes durante suas exposições
e na subseqüente rodada de debates.
Todo tempo, a pouca distância
dele, vi-o anotar muitas coisas e não
arredar pé dali, exceto quando
a solenidade havia se encerrado. Essa
atitude muito me surpreendeu, pois a
norma, como aconteceu na conferência
do Recife em 1999, é as autoridades
permanecerem somente na parte mais social
do momento e não voltarem mais
para outros instantes da reunião.
A surpresa iria se repetir, porém,
nos quatro dias que ainda duraria a
conferência de Havana. No segundo
dia, Fidel chegou à tarde para
uma sessão de pequeno tamanho,
do grupo de trabalho que iria discutir
relações entre os países
periféricos. Ficou lá
e, depois das 19h, assistiu à
palestra da noite, do professor do MIT
(Estados Unidos) Noam Chomski, seguida
de debates. Tudo terminou às
23h. Assim aconteceu nos três
dias posteriores, em que o "Comandante",
sempre acompanhado do ministro da Cultura
Abel Prieto e, às vezes, do presidente
da Assembléia Nacional, Ricardo
Alarcón de Quesada, procurava
assistir a tudo. No encerramento do
evento, dia 31, a tribuna lhe foi dada
pelo secretário executivo do
Clacso, Atilio Borón, às
18h, para "algumas palavras".
Fidel Castro falou, sem interrupção,
sem tomar um gole de água, de
pé, até às 23h!
O auditório, no Palácio
das Convenções - por sinal,
com excelentes instalações
e de grande porte -, estava lotado e
ficou assim até tudo estar concluído.
Fidel já havia falado no dia
anterior, quando se discutiu o tema
dos movimentos sociais na América
Latina, inclusive com a presença
do líder boliviano (e também
deputado) Evo Morales e da inteligente
representante do movimento indígena
do Equador Blanca Chancoso, durante
uma hora e vinte minutos. Nessa ocasião,
contou como se faz uma revolução,
reportando-se à experiência
da Sierra Maestra e da situação
de desgraça que seu país
vivia naquela ocasião. E emitiu
a opinião, segundo ele, ofendendo
as regras da diplomacia, de que a América
Latina, hoje, está pior do que
Cuba antes da Revolução.
Ouvir uma pessoa falar durante cinco
horas seguidas nunca tinha me acontecido
na vida, muito menos em encontro científico.
Eu próprio, porém, quando
membro do Diretório Acadêmico
da Faculdade de Ciências Econômicas
da Universidade do Recife (hoje UFPE),
em 1962, falei durante seis horas continuadas
em uma reunião (naquela oportunidade,
ao falar, eu só lembrava dos
longos discursos de Fidel Castro...).
Mas apartes eram concedidos de vez em
quando. Estava, pela oposição,
numa briga política e nossa tática
era matar a situação pelo
cansaço; só que, finalmente,
a palavra me foi cassada - e eu terminei
exausto. Por isso, espantei-me como
Fidel tivesse agüentado falar tanto
na conferência de Havana e não
demonstrasse nada, nenhum depauperamento
ao acabar, quando então desceu
para conversar conosco da maneira mais
cordial possível, beijando as
mulheres (muitas delas, jovencitas),
abraçando os marmanjos. Embora
depois de duas horas e meia escutando-o,
eu achasse que já havia ouvido
demais, não me deu vontade de
sair do auditório, e quase ninguém
saiu também. Na mesa principal
havia duas norueguesas e um sueco. Conversei
mais tarde com uma das mulheres, Else
Oyen, diretora de uma organização
nórdica. Perguntei o que ela
tinha achado. Para minha surpresa, ela
(que se tornara minha amiga nos dias
anteriores), confessou que havia gostado,
que Fidel queria dizer algumas coisas
importantes e que fez o que parecia
justo.
Na verdade, sua longuíssima intervenção
foi um balanço, à luz
de sua experiência, de tudo o
que ele ali escutara em cinco dias de
discussões, especialmente no
tocante à palestra do professor
americano, de Yale, Robert Dahl, que
deu uma aula sobre democracia. Fidel
tentou mostrar os contrastes de Cuba
antes e depois da revolução
que liderou e lidera, identificando
os traços da democracia cubana,
que não seriam os mesmos de outras
democracias. E foi especialmente duro
com relação à forma
violenta com que os Estados Unidos tentam
impor seu modelo político e cultural
ao mundo. Ele quis mostrar como tudo
se faz em Cuba dentro da lei, respeitando-se
as normas vigentes no país (embora
eu ache que ele poderia comutar penas
severas que ali se aplicam a dissidentes
do regime), não se adotando a
prática de tortura nas prisões
cubanas, etc. Interessante quanto ao
discurso de Fidel foi ele dizer que
tinha aprendido muito na conferência,
que ela tinha superado suas melhores
expectativas e que o pensamento social
é necessário para a condução
do processo político. Interessante
também foi, durante cinco horas
de fala, ele não haver se repetido,
não haver sido monótono,
dogmático, chato ou arrogante,
não haver se esquecido de dados
numéricos importantes (até
a taxa de desemprego em países
como Brasil e Argentina foi citada corretamente)
e não haver perdido seu senso
de humor (alto, por sinal). Quando já
fazia cinco horas que falava, Fidel
consultou o relógio e provocou
risos ao exclamar "Ainda é
cedo!" Terminou aplaudido de pé.
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Aquele
que é Capaz
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Clóvis
Cavalcanti
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Há
dois anos, ouvi de Pelópidas
Silveira, esse admirável homem
público pernambucano, o relato
da deposição de Miguel
Arraes no dia 1º de abril de 1964.
Já escutara a mesma história,
com iguais detalhes e sinais inequívocos
da dignidade do ex-governador do Estado,
na voz de Celso Furtado. O episódio
estava bem vivo na memória do
último, pois foi lembrado ainda
em 1964, logo que o conheci em New Haven,
nos Estados Unidos, para onde eu fora
estudar. Sem nenhuma diferença,
ouvi do próprio Miguel Arraes,
como muita gente mais, em solenidade
no Teatro Apolo, na década de
noventa, seu depoimento acerca da humilhação
que lhe impuseram os militares golpistas,
que queriam que ele renunciasse ao cargo
de governador. Arraes recusou-se a isso,
alegando que só devia satisfações
ao povo de Pernambuco e que, se se submetesse
às ordens dos generais, não
teria como olhar nos olhos seus filhos
no futuro. A foto que registra a ocasião
consegue transmitir a força da
raça de sertanejo destemido que
Arraes soube ser. Daí, dizia
Pelópidas, ele sempre votara
em Arraes. Isso me fez sentir em boa
companhia, ao verificar que meu voto
para governador fora sempre também
para Arraes, desde 1962, nas vezes em
que ele foi candidato.
A
recordação do momento
da deposição vem forte
à mente na hora em que Pernambuco
e, a bem da verdade, o Brasil inteiro,
como constatei na semana que passou,
no Rio de Janeiro, aonde fui a um
seminário sobre Celso Furtado,
lamentam a morte do grande político
que foi Miguel Arraes. Não
que fosse uma morte inesperada. Mas
é que o falecimento de alguém
da importância de nosso ex-governador
em três mandatos sempre é
motivo de forte emoção.
Emoção que teve minha
empregada Zeza das Neves, em Gravatá,
quando me transmitiu a triste notícia
na manhã do último domingo.
Com voz compungida, ela me disse:
Arraes se foi. Por estar
longe, terminei não podendo
comparecer ao velório. Mas
rememorei a importância, para
minhas crenças nacionalistas
e no socialismo democrático,
que Arraes oferecia. Dele me aproximei
naturalmente, pois desde que comecei
a acompanhar a política, na
adolescência, sempre me posicionei
à esquerda. Lembro, por exemplo,
de, com 17 anos, ter estado na Assembléia
Legislativa de Pernambuco na posse
de Cid Sampaio e ver a primeira manifestação
que me atraiu para o nome de Arraes,
quando ele foi lançado para
prefeito do Recife. As eleições
só se realizariam no ano seguinte,
mas a liderança de Arraes aparecia
ali. Em 1959, tornei-me amigo de Zé
Almino, seu filho, no colégio
em que estudávamos, em Nova
Friburgo, no Estado do Rio. Nesse
ano, muitos colegas, tais como o carioca
Sérgio Fisher e o cearense
Walter Cabral, torcíamos por
Arraes. Sua vitória foi motivo
para celebrações nossas.
Em
1962, no corso da vitória de
Arraes sobre João Cleofas,
surgiu, que eu saiba, pela primeira
vez, o refrão O povo
quer aquele que é capaz,
que continuava assim: Arraes,
Arraes, Arraes, / a Reação
já passou pra trás.
O último verso virou em
86 só vai dar Arraes.
Infelizmente, esse fenômeno,
que se repetiu em 1994, não
foi renovado em 1998. Procurou-se
na época passar uma imagem
de não-modernidade do ex-governador,
imagem que Arraes concebia de outra
forma. Isso ficou patente em bela
carta sua ao deputado Ulysses Guimarães
por volta de 1989, quando Arraes dizia
que modernidade, para a população
que vivia isolada na zona rural, era
ter abastecimento de água,
fornecimento de luz, crédito.
Sua visão de mundo não
era, certamente, e com muito senso
do real, a dos que querem o embelezamento
de obras de fachada, ignorando a sorte
dos excluídos e das classes
oprimidas da sociedade. Arraes entendia
bem as angústias, as dores,
as mazelas de que são vítimas
as massas deserdadas do mundo em que
vivemos. Sobre isso, expressou-se
muito bem o padre Edwaldo Gomes, de
Casa Forte, ao longo da celebração
a que presidiu no sétimo dia
de Arraes. Na ocasião, padre
Edwaldo, usando o Eclesiástico
(capítulo 44), lembrou dos
que morreram como se não tivessem
vivido, concluindo que Arraes vive
como se não tivesse morrido.
De fato, seu legado de defesa da justiça
social, de um nacionalismo autêntico
e de valorização de
nossa identidade cultural é
imperecível.
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GNF,CNF
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Clóvis
Cavalcanti
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Ah!
Friburgo!
GNF!
CNF!
O
mês de novembro,
com
sol, calor
e
a saudade que crescia
nas
vésperas do fim do ano.
Mas
havia maio
com
a neblina persistente
e
um frio que arrepiava
a
espinha.
E
junho,
com
a fogueira e a batata assada,
a
quadrilha
e
o frio das montanhas.
Ah!
Friburgo!
GNF!
CNF!
Só
entende essa saudade gostosa
quem
viveu lá
e
experimentou na carinhosa
década
de 50,
um
convívio de amizade,
de
um colégio interno
que
era amado.
"Nas
montanhas de Friburgo,
jovens
lutamos para vencer"
-
dizia o hino do CNF.
E
completava:
"Nosso
lema é a virtude,
é
a saúde, é o saber."
Foi
a época de James Dean,
dos
boleros dançados no Clube dos 50
e
nas festinhas do Científico.
A
banda "Papoula" não tinhas
guitarras elétricas,
mas
tinha bongô,
piano
e
um som muito animado.
Éramos
adolescentes
de
cabelo cortado
e
penteado para trás.
Namorávamos
as meninas da cidade,
que
moravam distante.
Era
preciso descer uma ladeirona
para
sair das montanhas onde vivíamos
até
o vale lá em baixo.
Ladeira
difícil,
mas
com cheiros de eucaliptos
e
pinheiros,
o
Castelinho
e
uma paisagem venerada.
Ah!
Friburgo!
GNF!
CNF!
Tantas
marcas, tantas recordações.
Tantas
tardes, tantos dias, tantas manhãs.
Éramos
felizes
-
e o sabíamos.
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Nós
e as Árvores
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Clóvis
Cavalcanti
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Isto
eu aprendi de meu amigo Cláudio de Moura
Castro, que aprendeu, por sua vez, com seu avô,
o erudito expert no Marquês de Pombal,
Marcos Carneiro de Mendonça, também
ex-goleiro da seleção brasileira,
em 1919, e que conheci no seu casarão
do Cosme Velho, no Rio de Janeiro: uma das penas
previstas nas Ordenações Filipinas
do começo do século XVII, em Portugal,
era o degredo para o Brasil das pessoas que
cometiam o crime de cortar uma árvore
(em caso de corte de duas árvores, o
castigo era degredo na África!). Tendo
nascido sob a égide de tal maldição,
não se pode esperar do brasileiro de
ascendência européia uma atitude
mais civilizada diante da natureza (porque os
nossos indígenas sempre a tiveram de
forma admirável). Os brasileiros, de
fato, parecem comprazer-se com a destruição
do meio ambiente. Uma vez, andando de barco
no rio São Francisco, em 1975, perto
de Barra, na Bahia, junto com minha mulher e
meus filhos, vi um dentista (pernambucano) exercitar
sua pontaria, só para demonstrar sua
perícia, em cima de um pobre pássaro
que se divertia no galho de uma árvore
a certa distância. Ouvimos o tiro de espingarda
e ainda percebemos o indefeso animalzinho cair
morto nas águas turvas do Velho Chico.
Foi revoltante. O gesto assassino do dentista
- natural de Caruaru e então morando
na cidade de Barra, que matou por matar - provocou
enorme mal-estar em um antropólogo inglês,
nosso amigo, que desfrutava do mesmo modo do
passeio. Foi difícil conter-lhe a fúria
e agüentar a companhia, por mais algumas
horas, daquele filho de degredados portugueses
que, por cometerem crimes ecológicos
em sua terra, eram banidos para cá.
Um desses criminosos, provavelmente, terá
cortado os dois pés de azeitona frondosos,
belíssimos, que tornavam mais gostoso
o terreno vazio - de propriedade do espólio
do ex-diretor do Patrimônio Histórico
em Pernambuco, Ayrton da Costa Carvalho - junto
da minha casa em Olinda. Foi no dia 11 de setembro.
Eu e minha mulher estávamos em Gravatá.
Na nossa volta, no dia 12 (domingo), à
noite, encontramos as duas árvores literalmente
esquartejadas a serra elétrica, bem no
estilo hediondo dos que põem abaixo a
floresta amazônica. Aqueles dois espécimes
vegetais, que tinham, talvez, mais de cinqüenta
anos de idade e que não faziam mal a
ninguém, foram destruídos impiedosamente,
sem que se saiba exatamente por quê. Se
alguém deveria incomodar-se com as árvores,
este alguém seria eu, porquanto elas
depositavam suas folhas sobre o telhado de minha
casa, provocando entupimento de calhas e grandes
goteiras quando começavam as chuvas de
cada ano. Longe de mim, entretanto, qualquer
sentimento de mal-estar pela presença
de tão belos - como dizem os matutos
- pés de pau. O incômodo das goteiras
e da necessidade de removê-las era só
um pequeno ônus diante do enorme benefício,
inclusive estético, que as árvores
proporcionavam. Razão tinha Gilberto
Freyre quando, em 30 de dezembro de 1923, escreveu
aqui mesmo neste DIARIO: "Em centenas de
anos, não aprendemos a sentir o encanto
das nossas árvores. Nem o valor. Porque
se os sentíssemos, acima de considerações
de ordem econômica, estaria o esforço
a favor da árvore - da árvore
na rua e da árvore ao lado ou em redor
das habitações".
Tentei descobrir de onde partira a permissão
para a derrubada das azeitoneiras (que também
causavam nódoas no meu carro, o que nunca
me aborreceu). Apelei para a Prefeitura de Olinda,
mas não obtive retorno. Afinal, no sítio
histórico olindense, árvore só
se abate com permissão do governo municipal.
Uma ação como a praticada, por
outro lado, não parece ter comovido ninguém
que passasse por ali na hora, pois o sensato,
neste caso, era questionar a ação
(afinal, tudo acontecia num local aberto, à
beira da calçada, por onde transitam
todo dia numerosos turistas passeando na direção
da Sé). Era o caso de chamar a imprensa,
de telefonar para a polícia do meio ambiente
(Cipoma), para a prefeitura, para os bombeiros,
para ONG's ambientalistas. Em um lugar mais
tocado pelo sentimento do encanto de nossas
árvores, do registro juvenil de Gilberto
Freyre, as pessoas deveriam abraçar os
pés de azeitona, subir neles, chamar
a atenção, enfim, dos que testemunhavam
o crime ecológico. Uma legislação
dura como as Ordenações Filipinas
faz falta nessas ocasiões, para despachar
infratores como os deste episódio para
destinos no Timor Leste, Serra Leoa ou Ruanda.
Em Gravatá, onde há uma tradição
de destruir e podar árvores em que só
ficam cotocos de lembrança, atitude de
descaso também se observa hoje - como
espelho de coisas semelhantes que estão
sucedendo no Recife (haja vista o mau exemplo
do projeto Eu Vi o Mundo... e seu sacrifício
de árvores na praça do Marco Zero)
e em todo o país - com a Prefeitura escolhendo
para lixão um terreno em ponto de 700
metros de altitude, de onde escorrem águas
para inúmeras nascentes nas encostas
vizinhas e inclusive na direção
de um açude que abastece de água
a cidade! Isso chega a ser inacreditável
e precisar de uma ação enérgica
dos defensores do meio ambiente para que não
só se preserve o local, como o próprio
suprimento de água de um núcleo
urbano tão carente desse líquido.
Aliás, também em Gravatá
pode-se ver um depósito infecto de lixo
amontoado bem juntinho de tanques da Compesa
e chafarizes de que se serve a população
desprovida de água corrente em suas casas.
Coisas assim não deveriam fazer nenhum
sentido. Elas, porém, só tendem
a se agravar na medida em que nós, ironicamente,
avançamos em graus de desenvolvimento
e nos aproximamos de um novo século e
de um novo milênio. Enquanto isso, em
países como a Costa Rica - que nem exército
tem - tomam-se todos os cuidados para a preservação
das árvores, da natureza, dos ecossistemas.
Lá, por exemplo, é proibido construir
qualquer coisa junto das praias. Se o turista
vai, por exemplo, a Punta Leona, no Pacífico,
onde foi feito o filme Colombo, com Gerard Depardieu,
só vê mato à beira-mar.
Não há um único vendedor
do que quer que seja, nenhuma casa, nenhum hotel.
Tudo está oculto a uma distância
conveniente e nada dos espigões, que
por lá chamam de rasca-cielos. Dar valor
à natureza, às árvores,
é isso. Não o que fizeram e fazem
em Olinda, no Recife, em Pernambuco. Ah, as
Ordenações Filipinas!
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O
Dia da Paz Consumada
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Clóvis
Cavalcanti
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As
multidões chegam com o nascer do sol,
trazendo cestas douradas de comida, marmitas
e farnéis.
E reúnem-se em todas as praças
do planeta
(ainda mais floridas para a ocasião).
Há um milhão de pessoas na Praça
Vermelha, em Moscou.
São trezentas mil na Praça de
São Pedro, no Vaticano.
Mais de dois milhões no Central Park,
em Nova York.
Passam das oitocentas mil no ensolarado Aterro
do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Há umas dez mil no Pau Pombo, em Garanhuns.
São milhares, milhões nas praças
de cidades, vilas e lugarejos.
Sempre chegando ao amanhecer desse dia
- dia frio e cinzento aqui, claro e estival
ali,
indefinido e morno acolá, fresco e suave
no brejo de Gravatá,
barulhento e fervilhante no Parque da Jaqueira,
no Recife.
O mesmo dia.
A mesma expectativa.
As mesmas vozes de esperança,
cantando
dançando
confraternizando.
Como se todo mundo comemorasse simultaneamente
em cada canto
uma vitória definitiva de Copa do Mundo.
Velhos
fatigados, arrastando antigos sofrimentos,
sustentam expressões de espanto.
Jovens bailam, dão-se mãos e
lábios, abraçam-se.
Mulheres e homens amadurecidos na desconfiança
entreolham-se, vêem-se em novas expressões,
tocam-se calidamente.
As crianças reafirmam docilmente suas
ancestrais inocências.
Há
alto-falantes que fazem proclamações
felizes
e locutores barulhentos anunciando eventos
incomuns
(como a derrubada de todos os muros da vergonha).
Artistas exibem-se em palanques - cantam,
sapateiam e bailam.
Há toda a excitação de
um magnífico Woodstock universal.
O dia avança e as multidões
não param de chegar.
Teme-se pela segurança da reunião
concomitante
de multidões tão espessas.
O clima, porém, é de surpreendente
ordem.
Como em um vasto, imenso, colossal domingo
de Carnaval em Olinda.
Há batuques, palmas e cânticos
renovados.
Tocam guitarras e violões, acordeões,
trompetes, clarinetes, violinos, flautas.
E há sorrisos, lágrimas, mas
nenhuma dor.
A hora é uma só,
a mesma em toda parte,
quando se informa
que esse dia de paz universal
não é um sonho
- e durará para sempre.
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Tempo
Inexorável
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Clóvis
Cavalcanti
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Tempo
efêmero,
irreversível,
de
força inexorável,
cuja
passagem
exaure
a vida
-
pois a vida é rica
em
conteúdo de tempo.
Tempo
efêmero,
irreversível,
de
força inexorável,
cujas
marcas indeléveis
se
exprimem em faces vincadas,
em
mãos trêmulas
e
em funções vitais terminadas.
Tempo
efêmero,
irreversível,
de
força inexorável,
que
não pode ser contido,
nem
apreendido
ou
visualizado.
Tempo
efêmero,
irreversível,
de
força inexorável:
parai
um instante, ó tempo,
para
que possamos entendê-lo!
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Guerra
ou Paz?
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Clóvis
Cavalcanti
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Eu
estava em Washington, capital dos EUA,
até às 20h da última
segunda-feira, quando de lá saí
pela United Airlines. Nunca imaginei
que, quando chegasse ao Recife, às
14h do dia seguinte, fosse encontrar
tamanho clima de convulsão em
virtude dos horríveis atentados
terroristas cometidos nos Estados Unidos.
Somente aqui é que fiquei sabendo
do que havia acontecido, pois na conexão
em Guarulhos (após viagem tranqüila)
nada transpareceu até à
hora do novo embarque, às 11h,
nem do assunto se falou no vôo
da Varig (também tranqüilo)
que tomei. Vendo depois na televisão,
pela CNN, o que estava se verificando,
com Manhattan ferida e coberta por denso
manto de poeira, fiquei ainda mais chocado.
No entanto, não chegou a ser
surpresa extraordinária para
mim saber de tamanha tragédia,
tendo em vista o clima de violência
crescente que se arma em todo o mundo,
sem que se trabalhe no plano ético
ou de valores para contê-lo. Surpresa,
sim, foi perceber a vulnerabilidade
do sistema de defesa americano
que sabe que tem muitos inimigos em
toda parte , ao não conseguir
impedir que, 35 minutos depois do segundo
atentado ao World Trade Center, algo
semelhante acontecesse justamente com
o Pentágono, sua imponente sede.Em
Washington, eu tinha participado de
um congresso de latino-americanistas,
onde temas ligados à situação
do continente foram tratados, inclusive
a globalização. Ficou
patente aí, como tem acontecido
em fóruns semelhantes, como estamos
vivendo em um mundo que se empobrece
e se mostra cada vez mais socialmente
injusto. O resultado são manifestações
de violência e intolerância,
aguçadas pelo consumismo desenfreado,
que faz com que acumular bens termine
se tornando a finalidade da vida. Como
a maioria das pessoas, hoje com acesso
irrestrito à televisão
e suas mensagens materialistas de posse
e acumulação de riqueza,
não consegue atingir níveis
de renda que lhes abram as portas para
o paraíso do consumo, o resultado
são reações de
insatisfação, de agressão
e brutalidade. É incrível,
na verdade, como toda a sociedade se
embrutece e a violência se banaliza.
No caso dos aviões que foram
atirados contra os prédios nova-iorquinos
e seu conseqüente desmoronamento,
o que a televisão procurava ressaltar
era um espetáculo de efeitos
telegênicos. Não ouvi ninguém
comentar, junto com as cenas mostradas,
que, ao ruir um edifício com
o impacto de um Boeing, o que estava
acontecendo era a morte trágica
sob a ocultação de paredes,
fogo e fumaça, de milhares de
pessoas em desespero. A esse propósito,
li no New York Times do dia 11 o comentário
de uma senhora, sobrevivente do primeiro
edifício a tombar, relatando
que, ao sair do prédio, foi avisada,
de forma insistente, pelos policiais
para não olhar em volta. De relance,
porém, ela tentou ver o que acontecia.
Foi somente quando, imaginem!, se deu
conta da tragédia: espalhados
ali, havia pedaços de corpos,
cabeças soltas, troncos e membros
cortados. Essa é um medida de
nossa alienação. Não
conseguimos ver o que está acontecendo
por detrás da cortina enganosa
de nossa realidade. Por essa razão
é que ninguém se revoltou
com a devida indignação
contra o genocídio ocorrido em
Ruanda em 1994. No entanto, lá,
em valores absolutos e proporcionais,
a brutalidade que teve lugar atingiu
cifras muito mais aterradoras do que
em Nova Iorque.Em Washington, na segunda-feira,
enquanto esperava o avião, li
no jornal Washington Post duas notícias
de insensibilidade humana no país
que me assustaram. Uma foi de uma mulher
que parecia querer suicidar-se ameaçando
atirar-se de uma ponte. Dizia o jornal
que, nos carros que passavam, os motoristas,
ansiosos por um espetáculo ao
vivo qualquer que fosse, davam gritos
de incentivo à mulher para que
se jogasse, o que terminou ocorrendo
(mas a mulher foi salva por alguém).
A outra notícia era de uma adolescente
negra e pobre, vítima de pronunciada
escoliose, que, em 1992, foi deixada
pela família no sistema de saúde
para que dela cuidassem. Internada por
sete anos, até que morreu por
asfixia numa cadeira de rodas, com o
corpo em forma de um L de cabeça
para baixo, as únicas visitas
que recebeu foram do serviço
social, no inacreditável número
de duas! Assistência médica
foi lhe dada uma sóvez, na sua
chegada ao abrigo, ficando o médico
que a atendeu de voltar para aplicar-lhe
tratamento adequado, o que jamais ocorreu.
A saga cruel dessa menina estava descrita
no jornal em longa matéria, com
todos os detalhes possíveis.Os
Estados Unidos, em muitos sentidos,
são um país admirável.
Todavia, são também uma
terra de insensibilidade, rudeza e arrogância
e de valores dominados pelo dinheiro,
com os quais espalham sua influência
pelo planeta (globalização,
para muitos, é americanização).
Isso termina se reproduzindo nas esferas
governamentais. Neste exato momento,
por exemplo, há um conflito entre
duas tendências do governo W.
Bush (ressaltada pela revista Time do
último dia 10) a do secretário
de Estado, Colin Powell, centrista e
multilateralista, em desvantagem, e
a que está ganhando a parada,
de um grupo comandado por Condoleezza
Rice, assessora de segurança
do presidente, que pende para o unilateralismo.
Resultado disso é o isolamento
do país, sua visão de
policial do mundo, sua desconfiança
de todos. Segundo a Sra. Rice, falando
dos EUA, dado nosso particular
papel no mundo, temos a obrigação
de fazer o que julgamos que é
direito. Foi assim na renúncia
ao protocolo de Kyoto. Estará
sendo assim na reação
ao terrorismo dos últimos dias.
Para onde nos levam: guerra ou paz?
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Meio
Ambiente, Vida, Bem-estar
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Clóvis
Cavalcanti
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No
dia 29 de março deste ano aconteceu
a que parece haver sido a maior tragédia
ambiental do país até
hoje. Apesar disso, o fato mereceu uma
atenção muito abaixo da
seriedade do desastre, indicando como
as questões ambientais no Brasil
não conseguem ainda ocupar, como
deveriam, o foco de nossas preocupações.
Naquele dia, rompeu-se um reservatório
de rejeitos químicos de uma fábrica
de papel da cidade de Cataguazes, em
Minas Gerais, lançando a assustadora
quantidade de 1,2 bilhão de litros
de água contaminada no rio Pomba,
afluente do Paraíba do Sul. Para
efeito comparativo, lembre-se que o
derrame de petróleo da Refinaria
Duque de Caxias, da Petrobras, na baía
da Guanabara, em janeiro de 2000, foi
de 1,3 milhão de litros (ou seja,
quase mil vezes menos). Após
o acidente de Cataguases, a televisão
mostrou uma assustadora e gigantesca
espuma branca, resultado da reação
dos produtos tóxicos do reservatório,
nada menos do que cloro e soda cáustica
(quando se usa soda cáustica
para desentupir pia tem-se que usar
luvas, como mandam as instruções
da embalagem do produto), que avançava
impiedosamente e de forma rápida
pelo rio Pomba. No seu rastro, a mancha
foi matando e destruindo ao longo de
200 km de rios e, depois, de 100 km
de costa. Morriam peixes, pássaros,
capivaras, cães, gatos, patos,
bois e milhões de microrganismos
que compõem o que resta do elenco
de biodiversidade na região.
Cidades ficaram privadas de seu regular
abastecimento de água, pescadores
não puderam e continuam
sem poder realizar suas atividades,
moradores da zona ribeirinha tiveram
que se conformar com uma visão
de inferno que não esperavam
em vida. Quatro horas depois do acidente,
os rejeitos químicos já
haviam dizimado mais de 2,5 milhões
de peixes etiquetados (anilhados) a
partir de 1998 pelo Projeto Piabanha
(de reconhecimento internacional), para
estudo da fauna fluvial da região.
O
baixo interesse revelado por um evento
tão lamentável parece
dar razão ao físico
Fritjof Capra, que propõe a
realização de nossa
alfabetização ecológica.
Com efeito, embora todos gostem de
um ambiente saudável para levar
a vida e ninguém de sã
consciência imagina passar dias
de descanso no meio de uma rua de
trânsito congestionado ou junto
de uma fábrica de cimento,
o fato é que ninguém
se questiona quanto à forma
como nossos recursos ecológicos
são utilizados. Talvez isso
fosse compreensível em 1900,
digamos, quando os seres humanos podiam
explorar os recursos naturais, desmatar,
jogar lixo e resíduos químicos
nos rios (como faziam as usinas de
açúcar de Pernambuco
com suas caldas mal cheirosas), soltar
gases tóxicos na atmosfera,
etc., sem esperar grandes modificações
ambientais. A Terra então era
grande demais em relação
à população (em
1900 só havia 1,5 bilhão
de pessoas no planeta, contra 6,2
bilhões hoje) e a atividade
econômica global era 30 vezes
menor que a de 2003. Segundo cálculos
de 1986 do biólogo de Stanford,
universidade da Califórnia,
P. Vitousek, e colaboradores, a presença
humana já consome mais de 40%
da biomassa terrestre (incluindo os
oceanos, a fração cai
para 25%). Isso quer dizer que generalizar
para todo o planeta o padrão
de uso atual dos recursos naturais
significa uma impossibilidade. Estamos
esbarrando em limites.
Mas
quem é que está preocupado
com limites ao crescimento econômico
e por isso não tem pejo
em usar e abusar do meio ambiente,
comprometendo a vida tanto do ponto
de vista da qualidade quanto da quantidade?
Gilberto Freyre, nas suas reflexões
sobre o que ele chamava de rurbanização,
desde 1952, já advertia para
o fato de que à mística
do crescimento das grandes cidades
se deveria contrapor a mística
de que tais crescimentos estão
se fazendo acompanhar de tal modo
de desequilíbrios ecológicos,
através dos efeitos de crescentes
poluições, de crescentes
desajustes entre o suprimento de alimentos
e aumento de populações
urbanas, de crescente devastação,
por empreendimentos urbanos descontrolados,
de recursos naturais, que é
realmente preciso parar o crescimento
desordenado. Infelizmente, a
grande maioria dos indivíduos
vê a natureza como uma dispensa
inesgotável e lhe parece insuportável
lidar com a idéia de limites
seja do crescimento urbano,
seja de qualquer outro tipo. Tende
a prevalecer a lógica produtivista,
que guia o sistema econômico
em toda parte, de que produzir sempre
mais é bom, ao lado da cultura
do consumo que transforma as pessoas
em zumbis do desejo de ter mais e
mais. Conseqüência disso
é a injustiça ecológica,
marcada pela depredação
inexorável dos ecossistemas,
com a simultânea geração
de injustiça social, através
de desigualdades indecentes que fazem
de uns poucos consumidores vorazes
do supérfluo e da grande maioria,
excluídos de um mínimo
decente de satisfação
de necessidades. Essa realidade se
exibe com toda crueza no último
relatório anual, recém-publicado,
da ONG americana Worldwatch Institute,
Estado do Mundo 2003, segundo o qual
(contra o que pensa o governo dos
Estados Unidos) são patentes
as tendências alarmantes da
pobreza, da doença e da ruína
ambiental no mundo.
Ao
término de mais uma Semana
do Meio Ambiente (dia 5 foi o Dia
Mundial da Ecologia e do Meio Ambiente),
só nos resta esperar que a
idéia de F. Capra da ecoalfabetização
se transforme em realidade e as pessoas
despertem para o fato de que não
existe sociedade que valha a pena,
nem economia, com um ecossistema doente,
mal tratado e sujeito a desgraças
como a do rio Pomba.
2003
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Ganância
Infecciosa
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Clóvis
Cavalcanti
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Alan
Greenspan, o presidente do Fed, forma
abreviada de chamar o Banco Central
dos Estados Unidos que lá
tem a denominação de Federal
Reserve Board , cunhou há
duas semanas a expressão ganância
infecciosa. Estava prestando seu
depoimento semestral ao Congresso americano
e referia-se à crise do capitalismo
suscitada por empresas vilãs
como a Enron (dona da nossa Embratel),
a WorldCom, a Xerox, a Andersen (que
está fechando as portas) e outras
que utilizam procedimentos escusos para
camuflar prejuízos e enganar
acionistas e investidores na bolsa.
A expressão que empregou foi
infectious greed, que pode
significar também cobiça
ou voracidade infecciosa, como advertência
de que um capitalismo assim contaminado
põe em risco sua sobrevivência.
A expressão me fez lembrar sugestivos
versos do Romanceiro da Inconfidência:
Quando a sede de ouro / é
sem cura e por ela subjugados / os homens
matam-se e morrem, / ficam mortos, mas
não fartos. Do mesmo diapasão
é um juízo de Gandhi,
o Mahatma: O mundo pode prover
para a necessidade de todos, mas não
para a cobiça de cada um.
Será que opiniões que
procedem de fontes tão distintas
não podem ensinar alguma coisa
diante dos problemas que o Brasil e
muitos países enfrentam hoje?
Na verdade, é espantoso como
um país como o nosso, de tanto
potencial, com tanta coisa feita
apesar de ainda muito lhe faltar ,
com a décima economia do planeta
e outros predicados mais, seja levado
a situações de quase insolvência
como a que se desenha hoje. O Brasil
não foi fragilizado. Sua inflação
se mantém em níveis próximos
dos ideais, depois de vencer-se a cultura
inflacionária de décadas
de descontrole de preços. Não
há ameaça de calote da
dívida por parte do governo,
nem dos candidatos viáveis na
disputa pela presidência da República.
Algo, portanto, mais além de
nossa capacidade de produzir, de gerar
emprego e renda, de prover para as necessidades
da população está
por trás das angústias
que se vivem no dia-a-dia, com a disparada
do dólar e a do risco-país.
Algo da natureza do problema manifesta-se
em certos indícios. Um deles
se refere ao ajuste fiscal,
nunca finalizado, porque não
parece haver limites para o aperto do
cinto. Há pouco, o governo decretou
medidas de mais austeridade num esforço
para se alcançarem (ou superarem)
metas acordadas com o Fundo Monetário
Internacional (FMI), condição
para se receber socorro em face do ataque
especulativo de que o país é
vítima. E o que se fez? Cortou-se,
por exemplo, no orçamento da
merenda escolar o dinheiro da
comida das crianças pobres ,
nos gastos em ciência e tecnologia
(onde está nosso futuro), etc.
Na área científica, o
corte foi brutal: 42 por cento dos dispêndios
previstos. Tudo para que se assegure
um só coisa, o pagamento de juros
ao sistema financeiro internacional.
No entanto, faz anos que o governo arrecada
em impostos muito mais do que gasta
em salários, custeio, investimento.
Ou seja, tem superávit primário
e em níveis apreciáveis.
Como a lei não prevê nem
admite a compressão dos gastos
com pagamento de juros, faz sentido
chamá-la de Lei da Responsabilidade
Fiscal? Talvez melhor seria chamá-la,
como sugere César Benjamim, da
Coordenação Nacional do
Movimento Consulta Popular, de Lei
da Prioridade de Uso de Recursos Públicos
para Pagamento aos Bancos" ou outro
nome mais realista e honesto. Responsabilidade
fiscal não significa somente
não fraudar o direito dos credores,
mas também o de toda a população,
especialmente dos segmentos mais necessitados.
Não faz sentido para país
soberano algum possuir leis que tornem
intocáveis os ganhos do sistema
financeiro, à custa do bem-estar
humano da população. Isso
só acontece porque o lobby das
finanças é muito mais
poderoso do que qualquer outro. O castigo
de quem não age direito,
dizem seus porta-vozes, é a condenação
dos caloteiros à desgraça
eterna, ao fechamento de todo crédito
e do acesso ao investimento estrangeiro
direto. Será que isso é
verdade? Não se trata de embuste?
Afinal, o investimento estrangeiro direto,
nome que se dá ao capital que
é aplicado produtivamente, nunca
deixou de ir para países como
Vietnã, Sudão, Irã,
Nigéria, etc., que não
mostram sequer a sombra do nosso desempenho
econômico. Tal capital aceita
certos riscos; não é como
o dinheiro volátil, virtual,
especulativo que voa de um lugar para
outro com enorme rapidez, o dinheiro
de que ficamos justamente cada vez mais
à mercê.
Em agosto de 1998, diante de uma situação
gravíssima, com corrida bancária,
a Rússia fez o impensável:
suspendeu o pagamento da dívida,
fechou seu mercado de capitais. Esperava-se
o desastre como conseqüência
(e ele quase aconteceu, mas não
na Rússia, e sim nos Estados
Unidos, devido à exposição
de um fundo de investimento de alto
risco, o LTCM, à crise. O problema
foi sanado na undécima hora por
intervenção do Fed). Houve
um primeiro momento de sérias
turbulências na economia russa
em 1998. Todavia, ela hoje se acha em
situação menos angustiante
que a brasileira, apesar de sermos bons
pagadores das dívidas (a de 1999,
contraída com o FMI em face do
ataque especulativo de então,
foi saldada antes do prazo do vencimento).
O PIB russo está crescendo atualmente
a 3,7 por cento ao ano, a balança
comercial do país tem superávit
de 43 bilhões de dólares
(graças à alta do preço
do petróleo), suas reservas internacionais
são de 40 bilhões de dólares
(as brasileiras são de 33 bilhões).
Não parece haver razões
tão sérias, pois, para
pânico no nosso caso. Devemos,
sim, tomar decisões soberanas,
de acordo com o interesse nacional.
E enfrentar essa ganância
infecciosa que está minando
o próprio capitalismo americano.
Eis aí o desafio.
"Diário
de Pernambuco" 04 de agosto de
2002
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Reverenciando
o Meio Ambiente
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Clóvis
Cavalcanti
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Como
acontece todos os anos, no dia 5 deste
junho comemorou-se o Dia Mundial da
Ecologia e do Meio Ambiente. O que não
impede que homenageemos a biosfera maravilhosa
e ímpar que nos abriga em todos
os outros dias do calendário.
Afinal, é isso o que faziam os
indígenas que ocupavam o Brasil
- ou Pindorama - desde milênios,
quando os portugueses aqui chegaram.
Nesse sentido, temos muito o que aprender
com os nativos habitantes do País,
que foram capazes de nos legar um patrimônio
natural único e que, apesar de
toda a destruição de quinhentos
anos de história ocidental, ainda
tem coisas grandiosas a oferecer. Uma
característica da vida das populações
que habitaram o Brasil desde tempos
imemoriais (e que ainda teimam em sobreviver
em alguns lugares da Amazônia,
no mesmo estágio em que Pedro
Álvares Cabral as encontrou)
é de formarem grupos sociais
de "lixo zero". Não
que os índios - como os Caeté
que viviam em Olinda - não produzissem
lixo. Produziam. Mas nada que se compare,
por exemplo, com os plásticos,
o piche, o metal que emporcalham nossas
praias - produtos, esses, da moderna
"civilização".
O que os indígenas geravam era
lixo biodegradável, reciclável,
que não se amontoava em espaços
de convivência ou aterros sanitários.
Esse é um princípio conservacionista
que, lamentavelmente, não conseguimos
incorporar à maneira de viver
ecologicamente imprudente, malsã
e dilapidadora dos recursos naturais
que é a nossa.
Para dar conta do modo predatório
de utilização do planeta,
há dez anos (depois da Eco-92)
se passou a empregar a noção
de "desenvolvimento sustentável"
como paradigma de uma sociedade em
harmonia com o meio ambiente. A propósito
desse assunto, em palestra que dei
segunda-feira última em Gravatá
- onde, desde 1997, por iniciativa
da ONG Associação dos
Amigos do Meio Ambiente, a AMA-Gravatá,
se realiza nesta época do ano
a Semana do Meio Ambiente (minha palestra
foi a de abertura do evento) -, um
jovem que a assistia me perguntou
em que medida se está adotando
a noção de "desenvolvimento
sustentado" em Pernambuco. Expliquei-lhe
que, primeiro, considero o conceito
de desenvolvimento sustentado incorreto,
preferindo a versão do "sustentável",
que dá idéia de coisa
ainda a ser alcançada. Em segundo
lugar, comentei que há uma
distância entre a compreensão
da sustentabilidade, o discurso que
a utiliza e as ações
práticas que dão sentido
à idéia. Na verdade,
ninguém mais fala de desenvolvimento
que não seja o sustentável.
Só que a retórica dessa
conversa, igualando desenvolvimento
(que é evolução,
progresso, transformação)
a crescimento econômico (que
é expansão, aumento,
elevação do PIB), termina
entrando em conflito visceral com
a imposição de limites
ecológicos que a concepção
- que é das ciências
da natureza - da sustentabilidade
significa. Do ponto de vista biológico
(e a sociedade e a economia são
fenômenos da vida), é
impossível haver crescimento
sustentável.
Para se assimilarem rigorosamente
os princípios do desenvolvimento
sustentável, é preciso
uma reeducação da sociedade,
de suas elites, de seus técnicos,
de seus dirigentes, de seus jornalistas.
Nós fomos formados no sistema
escolar sob a presunção
de que a natureza pode ser manipulada
impunemente pelo homem, que será
capaz de consertar seus enganos através
da ciência e da tecnologia.
Isso é uma grande tolice, simplesmente
porque, por exemplo, inexiste substituto
para o recurso água doce (a
salgada é outro tipo de líquido,
que não se transforma facilmente
naquele). Como tampouco inexiste substituto
para o admirável processo da
fotossíntese, essencial para
que você e eu, entre tantas
outras coisas, possamos estar lendo
este jornal. Ninguém quer admitir
que a economia moderna deva ser submetida
a limites, embora não se precise
ser gênio para perceber que
nenhum país pode crescer durante
20 anos a um ritmo exponencial de,
digamos, 20% por ano. Entretanto,
é corriqueira, no discurso
prevalecente de políticos e
dos técnicos que os assessoram,
a associação entre expressões
de defesa do desenvolvimento sustentável
e propostas de um crescimento do PIB
da ordem de 5% ao ano.
Sobre
isso, o sábio ecologista José
Lutzenberger, cujo falecimento há
menos de quatro semanas representou
perda enorme para o Brasil (é
próprio dos sábios viver
na obscuridade), escreveu percucientes
reflexões no prefácio
de A Economia do Século XXI,
livro de 1984 do americano Herman
Daly que todos os que querem entender
o desenvolvimento sustentável
deveriam ler (como deveriam ler também
o notável trabalho do biólogo
paulista Samuel Murgel Branco, de
1989, Ecossistêmica: uma Abordagem
Integrada dos Problemas do Meio Ambiente).
Nas palavras de Lutzenberger, a expansão
econômica de forma exponencial
é típica de "sistemas
... inerentemente insustentáveis"
que "terminam, inevitavelmente,
em colapso ou desastre" (caso
da bola de neve). Alguém, em
sua santa ignorância, pode alegar
"mas isso é na natureza".
Sim, é na natureza. Da qual
todos nós, pessoas, artefatos,
sociedades, economias, fazemos parte.
Não há como fugir a
essa realidade. Assim, é mais
do que justo que nos preocupemos com
a ecologia e o meio ambiente não
apenas no dia 5 de junho, mas em todos
os dias do ano. Como, aliás,
sempre fizeram os primitivos habitantes
do Brasil - pessoas de quem Pero Vaz
de Caminha, admirado, disse serem
"tais e tão rijos e tão
nédios que o não somos
nós tanto, com quanto trigo
e legumes comemos", com corpos
"tão formosos, que não
pode ser mais". Essa gente sabia
conviver com a natureza e reverenciava
o meio ambiente. Aprendamos com ela.
2002
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Viva
o Brasil!
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Clóvis
Cavalcanti
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Para
quem admira o futebol - a despeito
de tudo de ruim que se faz à
sua volta - nada melhor do que
chegar à Europa no dia
seguinte ao de uma conquista
definitiva do Brasil como a
de Yokohama. Foi o que aconteceu
comigo segunda-feira passada.
Deixei o Recife na noite do
domingo e desci em Madri com
a alegria de ver nas bancas
do aeroporto tudo o que é
jornal ostentando nosso verde-amarelo
nas primeiras páginas.
O júbilo se multiplicou
mais tarde quando cheguei no
meu destino, Lisboa, e os ecos
da conquista do Penta eram ainda
mais intensos. A bordo dos aviões,
já vira muita gente com
a camisa da seleção
e eu próprio viajei de
paletó verde, camisa
azul, gravata amarela e calça
cáqui, provocando de
uma funcionária do aeroporto
de Guarulhos o comentário
de que deveria estar com calça
branca. Aliás, no embarque
do Recife, encontrei meu amigo
e senador José Jorge,
que, por debaixo de seu terno
azul-marinho, ostentava uma
camisa pólo igual à
de Felipão Scolari, com
cinco estrelas verdes encimando
o escudo da CBF. A providência
de bordar a quinta estrela,
confiantemente, fora tomada
na véspera da final da
Copa.
Essa
confiança na vitória
brasileira eu também
tinha. E a razão para
isso era dupla. Por um lado,
a percepção
de que o time brasileiro,
do ponto de vista humano,
estava coeso, integrado como
uma família. Isso,
certamente, é bom em
qualquer ciscunstância
da vida, sobretudo quando
a emoção tem
papel fundamental a desempenhar.
Por outro lado, a seleção
canarinha cresceu visivelmente
ao longo da competição,
do mesmo modo que em 1958
e 1970, quando os técnicos
fizeram experiências
ao longo da competição
(Garrincha e Pelé,
por exemplo, não foram
lançados de saída
na Copa da Suécia).
Ademais, Scolari mostrou-se
muito consciente de seu trabalho,
adotando uma estratégia
chinesa tradicional na administração
das partidas disputadas. De
fato, como a Folha de São
Paulo do dia da final anotava,
o livro de cabeceira de Felipão
estava sendo A Arte da Guerra,
do filósofo chinês
Sun Tzu (ou Sunzi bigfa),
escrito por volta de 500 a.C.
Nessa obra se lê que
"Aquele que quiser aproveitar
uma vantagem, toma uma rota
tortuosa e distante e faz
dela o caminho mais curto.
Transforma a desvantagem em
vantagem". E: "alcançar
uma centena de vitórias
numa centena de batalhas não
é a excelência
suprema. Submeter o inimigo
sem combater é a excelência
suprema". Esse não
é um procedimento cartesiano,
mas funciona mesmo. Foi visível,
por exemplo, o domínio
alemão na primeira
metade do jogo de domingo
passado. Mas quem realmente
ameaçou fazer gol -
e venceu - foi o Brasil.
Desse modo, terminou-se chegando
à vitória (freyriana)
indiscutível da criatividade
e do espírito alegre
sobre a máquina e a
organização
burocrática (e do moreno
sobre a superraça).
Na verdade, a Alemanha foi
até melhor contra o
Brasil do que, por exemplo,
quando venceu os Estados Unidos
(numa partida que tirou por
duas horas o chanceler Gerhard
Schroeder de uma reunião
de cúpula européia,
em Sevilha). Mas em nenhum
momento ameaçou a superioridade
(algo zen) do Brasil. Tem-se
dito que ganhamos por causa
de lances geniais de Ronaldinho
Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo.
Mas isso só ocorreu
porque, além do nível
excepcional de nossos jogadores,
houve quem indicasse o caminho
da paciência, da espera
pelo momento certo - como
na bela e fulminante arrancada
de Ronaldinho no jogo com
a Inglaterra - para então
golear. Sempre achei que Felipão
devia ser o técnico
e fui completamente favorável
à (justa) exclusão
de Romário. Enganei-me,
porém, ao achar que
Ronaldo não tinha condições
(inclusive psicológicas)
de ir para a Copa da Coréia
e Japão. Sua miraculosa
recuperação,
certamente, tem a ver com
o ânimo que Scolari
lhe injetou (como injetava
em todos nós, simples
torcedores). Quem podia perceber
que estava em curso tal processo
de mudança?
São de toda justiça
as homenagens que estão
sendo prestadas à seleção.
As medalhas que o presidente
Fernando Henrique lhe concedeu
possuem bem mais merecimento
do que muitas que o governo
distribui de vez em quando.
Os jogadores brasileiros,
de forma honrosa, expuseram
o País na vitrina mais
globalizada de qualquer evento
que se realize no planeta.
Já depois do jogo da
semi-final com a Turquia o
site da BBC britânica
na Internet dizia que o Brasil
tinha sido brilhante. E foi.
Não concordo quando
se diz que a Copa de 2002
foi fraca tecnicamente, como
o fez Maradona, quase desmerecendo
totalmente nossa conquista
(ele chegou a declarar que
a Copa não deveria
ter campeão!). Acompanho
as copas desde 1950 e a última
me proporcionou tanto prazer
como a de 1970 (a de 1994,
com retrancas nossas e de
outros, como a de 1974 também,
não me empolgou). A
esse respeito, articulista
de El País (Madri,
1o.7.02), Ramón Besa,
salienta que inexiste uma
vara para medir a qualidade
do futebol e que, nessas ciscunstâncias
"os gois valem igual
em toda parte". Por sinal,
toda a edição
de El País da última
segunda-feira é uma
exaltação, em
mais de dez páginas,
ao futebol brasileiro, culminando
com a manchete "Ronaldo,
rey del mundo". A visão
é completada pelo francês
de Le Monde, Aimé Jacquet,
no seu artigo de segunda-feira,
"Um lindo mundial",
afirmando - depois de fazer
algumas críticas aos
negócios do futebol
(e são tantas as merecidas,
inclusive quanto ao nosso
glorioso, mesmo destroçado,
Sport Club Recife): "não
estraguemos o prazer. Esta
foi uma linda Copa do Mundo
e dela ficarão grandes
recordações".
Sou da mesma opinião,
ainda mais diante do belo
gesto dos turcos quando terminou
seu grande jogo com a Coréia
na disputa pelo terceiro lugar.
O Brasil depois foi excepcional.
Viva o Brasil!!!
2002
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Triste
Espetáculo
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Clóvis
Cavalcanti
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Millôr
Fernandes, em seu inconfundível
estilo, publicou caricatura no Jornal
do Brasil do dia 18 deste mês
com cena de propaganda eleitoral de
rua. No desenho, uma miríade
de cartazes de todo tamanho enche o
espaço de algum logradouro urbano
do País. São caras e mais
caras rindo escancaradamente, junto
de numerações de candidatos
e raras letras (aparece muito a palavra
Eu). Embaixo, a legenda,
retirada de conhecida marchinha de Zé
Keti e Pereira Matos (Redi), Quanto
riso, quanta alegria, mais de mil palhaços
no salão. Na verdade, essa
é a sensação que
se tem, olhando tantas faces risonhas
(existem as exceções,
algumas de bom gosto) nos cartazes de
postes, nos mal-chamados (porque esse
substantivo não existe no inglês,
de onde supostamente foi retirado) outdoors
e em outros tipos de material de propaganda.
Que necessidade têm os políticos
de se exibirem como animadores de auditório
ou seguindo algum estereótipo
de beleza (num campeonato de narcisos,
segundo Roberto DaMatta)? Pequeno criador
de gado em Gravatá me disse que
se sentia revoltado com tantas pessoas
rindo, como se mangassem
das que lutam para sobreviver dignamente.
Ora, Millôr deve ter tido como
referência de seu desenho o Rio
de Janeiro. Mas lá, o quadro
da propaganda eleitoral exibe muito
mais sobriedade do que o observado na
Região Metropolitana do Recife.
Percebi o contraste em visita que fiz
ao Rio há menos de duas semanas.
Na praia de Copacabana e em quase toda
Zona Sul carioca são raríssimos
os tais outdoors, verdadeira praga,
porém, aqui em Pernambuco.
Há
algum tempo que se discute a necessidade
de disciplinamento rigoroso do uso
da paisagem para fins que negam completamente
a oportunidade de apreciação
pelos cidadãos da beleza de
muitos de nossos lugares. Justamente
revoltado, o pintor Marcos Cordeiro
comentava comigo recentemente o mal-estar
que lhe causa ser obrigado a contemplar
o triste espetáculo da usurpação
do espaço pelos outdoors (no
momento, em sua maioria, de políticos
em campanha). De fato, não
é possível tolerar que
particulares se sirvam de bens públicos
como é o caso da paisagem,
do visual de nossas cidades
para fins totalmente privados, de
benefício e satisfação
de interesses de uns poucos. Há
casos de exagero ainda maior de certos
candidatos, que se expõem ridiculamente
com seus rostos sorridentes em tudo
quanto é lugar possível
levando-nos à pergunta
óbvia de onde é que
vem tanto dinheiro, nesta época
de penúria, para o festival
de cartazes que podem expor desbragadamente.
No meu entender, esses políticos,
que pouco se tocam no sentido de respeitar
bens públicos, são os
mesmos que toleram outras formas de
destruição do meio ambiente.
Entre estas, a dos edifícios
descomunais que se constroem por todo
lado, deformando completamente o perfil
elegante de lugares como a Av. Beira-Rio,
Casa Forte, Espinheiro, etc.
Nesse
aspecto, o exemplo carioca deveria
nos servir de orientação.
Lá, graças a iniciativas
que envolvem associações
de moradores, o prefeito César
Maia e seu secretário de Urbanismo,
Alfredo Sirkis (do Partido Verde),
limitou-se drasticamente a construção
dos detestáveis espigões
em certas áreas como Jardim
Botânico, Gávea, Leblon
e Botafogo. As empreiteiras terão
a lucratividade reduzida, mas a sociedade,
de quem partiu a medida de contenção,
irá beneficiar-se. Essa compreensão
é que está por trás
do movimento deflagrado pelo Fórum
de Entidades Ambientalistas de Pernambuco
(Feape) há dois meses, apoiando
os Ministérios Públicos
Federal e Estadual na defesa de uma
lei (a de número 4.771/65,
o chamado Código Florestal)
que a própria Prefeitura do
Recife estava desrespeitando na aprovação
de edificações. Igual
entendimento move a crítica
que se faz aos horríveis (até
no nome) outdoors. Estes deveriam
ser banidos de certas áreas
e sobretudo de estradas e de
vias de maior tráfego, como,
aliás, acontece no mundo civilizado
(caso mesmo de Portugal).
A
cineasta portuguesa Isabel Stilwell,
falando sobre Almodóvar, em
artigo no Diário de Notícias
de Lisboa de 7 de julho último,
enunciou algo que vem ao caso: O
bonito gera o bonito, o bom gera o
bom, o inteligente desenvolve a inteligência.
Não é politicamente
correto dizê-lo, mas é
verdade. E explica muita coisa na
vida. Resolve, por exemplo, aquela
discussão eterna para se apurar
se a televiolência e o telelixo,
como o Big Brother, Masterplan e quejandos,
fazem ou não mal às
pessoas. Hoje tenho a certeza de que
fazem, de que aquela história
da influência das más-companhias
estende-se aos maus-filmes, às
más-experiências, ao
mau-urbanismo, às más-relações.
Certamente, o descuido estético
de nossas cidades que levou
a grandes perdas arquitetônicas,
como as registradas no caso de Gravatá
por seu ilustre historiador Alberto
Frederico Lins em denúncias
pungentes termina levando à
destruição que os grafiteiros
fazem na calada da noite. Estamos,
com efeito, à mercê de
três tipos de inimigos da paisagem.
Dos especuladores imobiliários
e seu desprezo pela herança
arquitetônica. Dos donos de
painéis de propaganda (não
só eleitoral, registre-se).
E dos pixadores de muros, monumentos,
fachadas, portas, etc., que sequer
revelam em seu trabalho
qualquer pendor artístico que
agrade ao espírito. A situação
exige cuidados intensos como
os que César Maia e Alfredo
Sirkis estão tendo no Rio de
Janeiro. Exige reações
vigorosas como a da Feape e
Ministério Público em
Pernambuco. Exige providências
concretas, enfim, logo, logo, antes
que nada mais reste além do
triste espetáculo que nos é
oferecido agora.
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O
Valor da Vida
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Cóvis
Cavalcanti
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Somos
lances da vida permanente:
desde sempre nascemos de ancestrais
e nos perpetuamos nos que nos seguirão,
sejam filhos e netos nossos
ou os que descendem de nossa geração.
Dessa
forma, não morremos:
iremos continuar existindo
nos circuitos contínuos da Natureza,
nos fluxos que realimentam a terra a todo
instante
e conservam para sempre matéria e energia.
Disso
sabemos da física,
da ecologia e ciências biológicas.
Não há pois por que temer a
morte,
que é sempre um acorde inevitável
da sinfonia da vida permanente.
A
vida não se acaba:
há tão-só transformação,
como a madrugada sucedendo à noite,
as plantas que rebrotam na mata que queimou
ou a água evaporada que a chuva traz
de volta.
A
vida consciente dura breve instante da eternidade,
mas viveremos sempre, sem o sentir,
nas insondáveis entranhas da Natureza
em perpétua e diuturna transformação.
É
a vida plena vida bela
e mistério de infinitíssimo
valor.
Recife,
dezembro de 2001.
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Uma
Educação Excepcional
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Clóvis
Cavalcanti
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| Há
cinqüenta anos, foi inaugurado pelo
Presidente Eurico Dutra, em Nova Friburgo,
RJ, um internato de ensino secundário,
o Colégio Nova Friburgo (CNF),
de propriedade da Fundação
Getúlio Vargas. A iniciativa resultou
de projeto concebido pelo presidente da
FGV, Luiz Simões Lopes, inspirado
em internatos ingleses para meninos (como
o do filme A Sociedade dos Poetas Mortos).
Tentando adaptar a instituição
às condições brasileiras,
Simões Lopes, juntamente com a
educadora Irene de Mello Carvalho, imaginou
uma escola onde houvesse clima de ampla
liberdade, com auto-disciplina dos jovens,
professores selecionados através
de processos rigorosos, em escala nacional,
e vida comunitária em ambiente
semelhante a um campus universitário,
onde morassem não só os
estudantes, mas também os professores
e demais funcionários da escola.
Em 1952, depois de passar por um exame
de seleção nacional, fui
para lá, com 11 anos de idade,
fazer o admissão (que durava um
ano todo). Longe de minha família,
residente em Pernambuco e que eu via nas
férias, nunca me senti deslocado
no ambiente do CNF, em que fiquei até
concluir o científico (em 1959).
A
escola tinha uma localização
privilegiada, quase 200 metros acima
da cidade de Nova Friburgo, rodeada
de montanhas, em 400 ha de área
privada sua, com fontes de água
próprias, belos jardins e um
prédio central em estilo normando,
lembrança em pequena escala do
Hotel Quitandinha, de Petrópolis.
Dispondo de um edifício para
atividades esportivas em ambiente fechado
(o lugar era muito frio, com temperaturas
no inverno que chegavam a 2ºC),
a escola contava ainda com campo de
futebol e atletismo e quadras e piscinas
ao ar livre. Compondo uma pequena vila,
margeavam o campus do educandário,
bem no sopé de suas elevadas
montanhas, residências de muito
boa feição, confortáveis,
com lareiras, onde viviam os professores
casados, além de outras casas,
mais simples, dos funcionários
administrativos do colégio.
Se
o cenário era extraordinário
como podem comprovar os pernambucanos
que lá estudaram, a exemplo de
meu irmão Cláudio, Fernando
Freyre, Luiz Carlos Freyre, Gustavo
Queiroz, José Almino e Guel Arraes,
Antônio José Lemos, Jorge
Gomes Barros e muitos outros mais ,
a educação que nele se
oferecia só pode ser classificada
com uma palavra: excepcional. Não
que o Colégio tivesse o propósito
de preparar gênios ou pessoas
superdotadas. A questão é
que, dentro de uma vida que, hoje, em
retrospecto, parece claramente a de
um hotel de muitas estrelas (dispúnhamos
de muitas mordomias), tínhamos
aulas e orientação extra-curricular,
realizávamos práticas
esportivas, etc., em nível da
melhor qualidade. Era tempo integral
de educação (que entrava
pela noite, nos "estudos").
O Colégio possuía um sistema
em que chegávamos numa segunda-feira
à tarde, tendo-se aulas de terça
a sábado (das 8h às 18h,
com intervalos, é óbvio).
No domingo, pausa, retomando-se o ritmo
na segunda-feira, com aulas só
até às quintas. Aí,
uma interrupção, sem aulas,
de sexta a segunda-feira, quando os
que moravam não muito longe viajavam
a suas casas. Até hoje, confesso,
nunca vi nada parecido. Todo mundo gostava,
pois estudávamos muito, mas também
nos divertíamos. O bom rendimento
era visível (eu aprendi lá
francês, inglês e espanhol).
A escola custava caro, como a boa educação
em geral. Por isso, durou somente até
1977, quando, dobrando-se à mediocridade,
teve de cerrar suas portas. Seu fabuloso
patrimônio, meno male, está
a serviço, hoje, da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro.
setembro 2000
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Lições
da Crise Mundial da Economia
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Clóvis
Cavalcanti
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Em
abril de 1997 o Banco Mundial publicou o que
pretendia ser um elaborado estudo sobre as
tendências da economia tailandesa, concluindo
com dois cenários - um otimista, que
previa taxas de crescimento de 10 % ao ano
para os próximos cinco a dez anos,
e um pessimista, com previsão de crescimento
do PIB de 7 %. Pouco tempo depois, a realidade
dura da Tailândia cuidou de desmontar
todo esse trabalho técnico, esfarelando
as tendências de aumento da economia
e criando um clima de turbulência que
ainda não parou de se espalhar pelo
país e, pior ainda, pelo mundo. Na
verdade, há um ano e meio atrás
ninguém podia imaginar que os tigres
asiáticos e o Japão afundariam
em crise tão séria como a que
se instalou a partir de meados de 1997, derrubando
um a um os países que se apresentavam
como modelos de economias emergentes. A situação
agora se complica ainda mais com os problemas
suscitados pela Rússia - este, sim,
um país verdadeiramente ingovernável
e onde o caos ainda não tomou conta
inteiramente, devido a sua importância
estratégica e aos esforços dos
países do G7 para mantê-lo boiando
e dar-lhe uma sobrevida.
Uma
lição que se pode extrair da
realidade observada a partir da derrubada
dos (antes admirados) tigres asiáticos
é a de que a economia não permite
que se façam projeções
lineares de tendências passadas. O mundo
da economia, de fato, é um sistema
complexo, sujeito a incertezas e mudanças
absolutamente imprevisíveis, as quais
não comportam brincadeiras numéricas
- como diria Gunnar Myrdal - como as de muitos
cálculos de modelos para a montagem
de cenários de crescimento econômico.
Não se sabe, por exemplo, qual vai
ser o preço do barril de petróleo
dentro de cinco anos - e o petróleo
continua sendo um recurso crítico para
a economia mundial, tanto que muito do que
acontece hoje de favorável (a expansão
americana, a recuperação européia,
etc.) deve-se à queda do preço
do barril, o qual situa-se hoje em um nível
(12 dólares, o Brent) semelhante ao
de 1973 e equivalendo a menos de 25 por cento
do preço de 1980 (mais de 50 dólares,
a valores corrigidos de 1998). É no
mínimo irresponsável supor que
esse preço vai se manter. Não
vai. Entretanto, tampouco se conhece onde
ele irá parar dentro de mais algum
tempo. O certo é que os tomadores de
decisão devem estar atentos para o
fato e dispor, a todo momento, de planos estratégicos
para qualquer eventualidade. Não pode
é se ficar esperando, por exemplo,
o desfecho da crise russa para se pensar no
que fazer.
Na
verdade, o caso da Rússia, embora interligado
ao da Ásia, é um caso distinto.
Trata-se de uma economia sem base industrial
competitiva, onde um capitalismo de cupinchas
(como diria Roberto Campos; em inglês
seria crony capitalism) se instalou e em que
a sociedade não tem familiaridade com
o funcionamento de mercados livres. A Rússia
só tem petróleo e gás
natural para vender, enfrentando uma série
de problemas estruturais no setor, além
da queda do preço do petróleo
no último ano - problema que afeta
também, seriamente, a Venezuela. Neste
ponto, a situação do Brasil
não é tão crítica,
seja pela diversificação da
economia brasileira, seja por se tratar de
um país que importa muito do petróleo
que consome. Mas isto, numa perspectiva de
mais longo prazo, não é para
deixar ninguém satisfeito. A economia
mundial (e também a brasileira) terá
de depender menos do petróleo no futuro.
A tendência provável é
a de aumento do preço desse recurso,
em virtude de sua concentração
em áreas de controle ocidental precário
(Arábia, Iraque, Iran) e porque os
países que o possuem, mais cedo ou
mais tarde, se darão conta da importância
estratégica do bem, além de
poderem deter futuramente, ao que tudo indica,
maior poder de fixação de preços.
Da
crise atual deve-se ainda extrair a lição
dos riscos envolvidos numa dependência
estreita do que acontece nos mercados financeiros
globais, especialmente quando se fixa o interesse
nos aspectos da economia de cassino desses
mercados. Para o bem-estar efetivo da população
não é a riqueza-papel que está
em jogo. Isto serve para criar bolhas especulativas
que um dia sempre estouram (não foi
à toa que Alan Greenspan, o presidente
da Junta Federal de Reserva, o banco central
americano, falou de "exuberância
irracional" do mercado em dezembro de
1996, alertando para a bolha de Wall Street,
que agora está se esvaziando). O que
interessa à sociedade é a chamada
economia real, a economia da produção
de bens e serviços. Para esta, o mercado
financeiro tem importância em termos
da mediação que pode fazer na
captação de recursos para investimento
direto. Por isso, assusta quando se faz a
constatação de que, por dia,
os mercados financeiros mundiais giram entre
1,5 e 2 trilhões de dólares,
o que daria um total anual de 600 trilhões
de dólares - que é a força
da economia de papel -, contra apenas 24-25
trilhões de dólares anuais da
economia medida pelo PIB global do planeta,
esta a verdadeira economia que interessa à
população.
"Diário
de Pernambuco" de 13 de setembro de 1998
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