Economista ecológico e pesquisador social da Fundação Joaquim Nabuco
Professor da Universidade Federal de Pernambuco

clovis.cavalcanti@yahoo.com.br

 

 

Uma Catástrofe Financeira?
Clóvis Cavalcanti
No dia 3.10.05, um amigo meu, economista-chefe de gestão de risco no Brasil de importante banco multinacional, escreveu-me e-mail desesperado. Perguntava qual seria "a menor derrocada do sistema [financeiro] inteiro que nos permitirá caminhar novamente e não cair de vez". E consultava: "Quanto tempo você acha que nós temos?". Acrescia: "Aqui, do lado do mercado financeiro, não dá para ficar menos assustado ... tudo está dependente da loucura insana dos Estados Unidos ... A falência financeira dos Estados Unidos só poderá ser escamoteada no máximo por uns dois ou três anos". Concluía: "É de aterrorizar qualquer ser pensante, não é mesmo?". Casualmente, há poucos dias, encontrei a mensagem, que eu imprimi ao receber. Verifico agora a precisão do cálculo de meu amigo: entre outubro de 2007 e outubro de 2008, os EUA quebraram. Sobre isso, Alan Greenspan, ex-banqueiro central todo-poderoso dos EUA em 1987-2006, escreveu na revista britânica The Economist de 20.12.08: "A intermediação financeira global está quebrada". Isso aconteceu depois da falência do Lehman Brothers no dia 15.9.08, momento em que a atividade econômica financiada pelo crédito bancário cessou virtualmente de existir. Ao mesmo tempo, um valor de bolsa de 30 trilhões de dólares foi varrido do mapa, sumiu. Só se pode concluir que o caso é de uma catástrofe financeira terrível.
O estrategista financeiro global David M. Smick, em artigo no New York Times de 10.3.09, escreveu: "Não há soluções para a crise dos bancos sem riscos políticos e financeiros extraordinários". Nos seus cálculos, o verdadeiro valor de mercado dos ativos tóxicos dos bancos americanos ("a coisa horrorosa que precisa ser removida dos balanços") vale entre 5 e 30 por cento do que custam efetivamente. Para que permaneçam solventes (em condições de pagar seus compromissos), contudo, os bancos falam que é preciso que esse valor seja de 50 a 60 por cento. Ou seja, simplesmente, o sistema bancário estadunidense requer dois trilhões de dólares de socorro do contribuinte, além da montanha de dinheiro que já recebeu. Para não se usar o dinheiro público, a solução seria estatizar agora os bancos ("nationalize", em inglês; ou, literalmente, "nacionalizar") para reprivatizá-los mais tarde. Esta saída tem o perigo de se ter que cair na "rede potencialmente letal" dos instrumentos de seguro de papéis (derivativos) chamados "credit default swaps". Ninguém sabe o que há aí nesse verdadeiro buraco negro. Mexer nele pode desencadear um terremoto financeiro inimaginável. Como pode não acontecer nada. Essa realidade cria um ar de total incerteza. Daí por que o secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, está adotando "um approach tríplice": demorar, demorar, demorar, na esperança de que alguém surja com uma saída confiável - segundo Smick.
Tristemente, os papéis derivativos tornaram-se os senhores do sistema financeiro. Segundo os operadores do mercado, ao desmontar um grande banco - o que teria que ser feito com a estatização - o mercado totalmente não regulado desses títulos ficaria transtornado, "com conseqüências financeiras globais catastróficas", no dizer de Smick. Ou não, pois, no caso, singram-se mares ignotos, conforme esse conhecedor profundo do mercado. Sua ilação: "Geithner tem razões para morrer de medo". Ele fez parte da equipe de seu predecessor no Tesouro, a qual subestimou o efeito de contágio devastador do colapso do Lehman Brohers, responsável pela crise nas suas gigantescas proporções atuais. E foi um banco só. Imaginem se fossem vários, como o Citigroup ou Bank of America. Os derivativos financeiros globais, não regulamentados, ascendem a 40 trilhões de dólares (dois terços do PIB do planeta). É para deixar qualquer um assustado. Mas uma tribo da Amazônia, ou mesmo um sertanejo nordestino, em seu pedacinho de terra, não teria nada a temer. Benefício da não-globalização?

Publicado no "Diario de Pernambuco"
em 22.3.09

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O Poder do Dinheiro
Clóvis Cavalcanti
 
Em dezembro de 1996, o presidente do Banco Central americano (que lá se chama de Junta Federal de Reserva e se conhece afetivamente como Fed), Alan Greenspan, cunhou a expressão "exuberância irracional". Usou-a para se referir aos mercados financeiros e para repreendê-los por seu comportamento cada vez mais destoante das regras da racionalidade, à semelhança da bolha que vai explodir e não se pára de encher. Esse comportamento, que elevava o valor das ações negociadas em bolsa a preços insustentáveis, prosseguiu da forma denunciada por Greenspan até que, em 2000, a bolha explodiu, atingindo especialmente as empresas de alta tecnologia (as chamadas "pontocom" ou, em inglês, "dotcom"), cuja bolsa é a Nasdaq. Já antes, um problema muito sério ocorrera, em setembro de 1998, quando o sistema financeiro internacional sofreu sua maior ameaça até hoje. Foi na ocasião em que a empresa Long-Term Capital Management (LTCM), trabalhando com somas excessivamente altas no negócio de arbitragem (mais ou menos, uma aposta no valor futuro das cotações de papéis negociados em bolsa), simplesmente faliu. O Fed e uma plêiade de bancos poderosíssimos tiveram que socorrer a LTCM por causa do risco de um colapso financeiro global.
Esses cuidados, infelizmente, não se aplicam a países ameaçados de turbulências semelhantes, como se pode ver agora no caso da Argentina, entregue à própria sorte, depois de seguir fielmente - pelo menos, muito mais fielmente que o Brasil, a Rússia e o México, por exemplo - os princípios da liberação dos mercados, das privatizações, da desregulamentação da economia, da abertura ao comércio e ao fluxo internacional de capitais, etc. Para que o mundo possa seguir a fórmula de progresso que a integração financeira pressupõe, é indispensável que exista um mecanismo de supervisão e aplicação de regras de conduta. Do contrário, a "exuberância irracional" termina levando a situações insustentáveis. No caso da bolha das empresas de tecnologia da informação dos EUA, denunciada por Greenspan, pôde o Fed tomar providências para suavizar o impacto de sua derrocada - a qual, diga-se de passagem, ainda não se concluiu. Ainda assim, com os cuidados da vigilância do poder público, não se pôde evitar, em dezembro de 2001, o enorme fracasso da Enron, empresa de energia americana cuja falência é a maior da história do capitalismo. Ora, se, com formas de governança estabelecidas, os problemas da economia financeira se multiplicam e surpreendem a cada vez pela força das turbulências que desencadeiam, que dirá quando se está à mercê do mercado, sem nenhuma possibilidade de intervir no contrapé de sua irracionalidade exuberante.
Para dar conta dessa realidade, que começa a tomar corpo depois da Grande Depressão (anos 30), foi criado em 1944 o Fundo Monetário Internacional, o qual deveria ser uma espécie de Fed do mundo, agindo para evitar transtornos nas finanças mundiais. Seu principal inspirador foi o, talvez, maior economista do século XX, o britânico John Maynard Keynes (1883-1946), que defendia exatamente o controle do movimento internacional de capitais. Sua opinião está em palavras que expressou em 1933, advogando que, no que toca a finanças, elas "sejam primariamente nacionais". Na verdade, Keynes propunha livre movimento de idéias, conhecimento, arte, hospitalidade, turismo, "coisas que deveriam, por sua natureza, ser internacionais". No seu entender, o movimento de mercadorias deveria sujeitar-se à conhecida "lei das vantagens comparativas", mas o de dinheiro, à disciplina de cada nação. Esta não é a visão que prevalece hoje, com a conseqüente vulnerabilidade cada vez maior de economias de menor poder de barganha. Caso da brasileira, que, por qualquer motivo que incomode os centros das finanças globalizadas, se vê sob a ameaça das agências que calculam os riscos-país. Esta situação, que mostrou sua face sombria ultimamente, em função de prognósticos para as eleições presidenciais de outubro indicando vitória da oposição, não assumia em 1989, por exemplo, tanta gravidade. Naquele instante, Luís Inácio Lula da Silva esteve perto de vencer Fernando Collor, espalhou-se o boato de que as poupanças seriam seqüestradas pelo primeiro e nada disso criou o nervosismo que se vê agora.
Acontece que o mundo das finanças mudou muito desde os anos oitenta, haja vista que, como mostra a revista The Economist (18.5.02), o montante pendente nos mercados globais de derivativos - uma forma nova de investimento, altamente volátil - passou de 30 para 120 trilhões de dólares de 1990 a 2001. O mercado global de divisas estrangeiras, bem mais antigo, deu um salto de 0,6 para 1,2 trilhão de dólares de negócios diários, de 1989 para 2001, tendo chegado a 1,5 trilhão em 2000 (a queda subseqüente já foi efeito do estouro da bolha do mercado de papéis). Ora, nesse mesmo período, a economia real - a que produz bens e serviços de consumo, que dá emprego e gera renda efetiva - evoluiu de modo muito mais modesto (algo em torno de 35 por cento) e seu patamar mundial hoje é de apenas 40 trilhões de dólares. Dólares anuais, entenda-se. A economia financeira, a que pode despencar violentamente, como no caso da Nasdaq, ultrapassa os 500 trilhões por ano. Quem tem dinheiro quer vê-lo crescer. Isso é possível, exponencialmente, sem limite, porque o dinheiro não passa de um símbolo, de um registro contábil. O mesmo não se dá com produção e consumo de coisas físicas. Para estes, há limites. Entretanto, é a economia que os abarca que tende a ser sufoca pela economia (virtual) das finanças. Keynes tinha razão.

Lhes compete analisar o aspecto formal das leis; aos jornalistas não lhes cabe tampouco a função de estudar as explanações teóricas dos candidatos ao título de jurisconsulto, a menos que as aberrações lingüísticas mereçam algum destaque, como as dos candidatos aos exames da OAB.

Já me referi, em outra ocasião, às decisões judiciais contraditórias ou discutíveis que, vez por outra, nos surpreendem, como, só para ilustração, os dois casos seguintes: no dia 21 de maio de 1996, a 2ª turma do STF absolveu o encanador Márcio Luiz de Carvalho, de MG, acusado de ter estuprado uma menina de 12 anos, em 1991. O relator do processo, o ministro Marco Aurélio de Mello, disse, na época, que "nos nossos dias não há crianças, mas moças de 12 anos". No dia 22 de outubro de 1996, ou seja, menos de seis meses depois, o STF confirmou a condenação de Claudinei Hacker, de Santa Catarina, acusado de estupro de uma garota de 13 anos. Vale dizer: estuprar uma menina de 12 anos não é crime, mas estuprar uma de 13 anos pode dar seis anos e três meses de prisão, pena a que foi condenado o infeliz catarinense.
Essas contradições existem por culpa do sistema, que permite a qualquer detentor do diploma de bacharel em direito - tenha ou não titulação acadêmica - a dignidade de ministro da maior corte do país, desde que seja amigo do "rei".

Mas o que pretendo comentar aqui são os erros chambões ou as tropeçadas lingüísticas inadmissíveis em quem tem obrigação histórica de zelar pela língua, e não a parte técnica ou jurídica das decisões judiciais ou das nomeações de juízes e ministros. Afinal, não sou advogado e não pretendo, já sexagenário, abraçar a carreira das leis, ainda que a ache fascinante, maravilhosa e a mais gratificante, promissora e diversificada de todas as profissões de nível superior do mundo.

Deixarei de comentar as bobagens escritas em latim, como "a grosso modo" ou "a contrario sensu" ou "status quo", por exemplo (as formas corretas são grosso modo e contrario sensu, sem a preposição a inicial, e statu quo, sem o s final, porque é ablativo, parte da expressão in statu quo ante), porque o latim, infelizmente, embora cultuado não por amor à cultura clássica, mas por exibicionismo pessoal, no exercício barroco do estilo jurídico tradicionalmente empolado, deixou há muito de ser ensinado nas escolas brasileiras e há muito deixou também de ser matéria do vestibular de Direito. Pretendo ater-me aqui aos desvios lingüísticos e às inovações que agridem a nossa língua portuguesa em seu nível formal.

O Novo Código de Trânsito (Lei nº 9.503/97) é uma antologia de calinadas e de atrocidades lingüísticas, algumas dignas de apedeutas engravatados. Só para ilustração, eis algumas delas, escolhidas aleatoriamente:

l. No Art. 302, § único, lê-se: "... se o agente: (...) II - praticá-lo..." (Desde crianças, aprendemos que não existe ênclise com futuro; "praticá-lo" é futuro do subjuntivo com o pronome enclítico. É como se alguém pudesse dizer "se quisé-lo", "se pudé-lo", "se fizé-lo". Aliás, não há ênclise tampouco em orações subordinadas desenvolvidas, porque a conjunção atrai o pronome clítico.);
2. no Art. 231, inciso V, lê-se mais de uma vez o número mil escrito por extenso com um antes: "um mil" (Pena que tenha faltado o h inicial para ornamentar a calinada!);
3. no Art. 46, Contran aparece escrito adequadamente, apenas com a inicial maiúscula; em quase todos os outros artigos em que aparece, o nome Contran vem grafado com todas as letras maiúsculas (os acrônimos, isto é, os nomes formados com a primeira letra ou com a sílaba ou sílabas iniciais de várias palavras, se escrevem com minúsculas, exceto a primeira, se se tratar de nome próprio, como: radar, Petrobras, Ufes, Arena, Varig, Vasp, laser, Bradesco, etc. As siglas - que não formam novas palavras na língua - é que se escrevem com todas as letras maiúsculas, como PMDB, STF, IPTU, UFRJ, BCG, etc. Se o acrônimo tiver menos de quatro letras, todas se escreverão em versal, como as siglas, como, por exemplo, TAP, ONU, TAM, etc. Esse erro é desculpável, já que nas duas primeiras edições do Aurélio se grafou aids com todas as letras maiúsculas: AIDS. A nova edição corrigiu as anteriores, mas cometeu erro idêntico ao grafar SIDA no verbete próprio. O que não é desculpável é a falta de uniformidade: Contran/CONTRAN.);
4. no art. 148 § 3º lê-se: "A carteira Nacional de Habilitação será conferida ao condutor no término de um ano, desde que o mesmo não tenha cometido nenhuma infração (...)" (Grifo nosso.) (Se se dessem o trabalho de consultar o Aurélio, no verbete mesmo, os legisladores teriam evitado esse uso inadequado de o mesmo, em lugar do pronome pessoal ele.);
5. no Art. 21, inciso XI; no Art. 22, inciso XII; no Art. 24, inciso XV, lê-se a mesma bobagem: "promover e participar de projetos e programas" (Ora, qualquer aluno de 2º grau sabe que dois verbos de regência diferente não podem ter o mesmo complemento. Diz-se promover algo e participar de algo; um mesmo termo não pode ser simultaneamente objeto direto e objeto indireto, até mesmo pelo princípio lógico da não-contradição: uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo.);
6. no Art. 116, o verbo obedecer, que é transitivo indireto, aparece na voz passiva, numa construção que, embora usual e encontradiça até em bons escritores, a grande maioria dos gramáticos rejeitaria, com base na regra de que só os verbos que têm objeto direto na voz ativa admitem construção passiva, porque é o objeto da ativa que vai ser o sujeito da passiva.);

Não quero estender-me mais nessa aberração lingüística que é o Novo Código de Trânsito, espelho do preparo (ou despreparo) cultural dos nossos legisladores. Passemos a outro documento legal, aleatoriamente escolhido. Por exemplo: a Lei nº 9.279/96, que é o Código de Propriedade Industrial. O Art. 195, só para ilustração, nos incisos XI, XII e XIV, apresenta repetidamente duas tolices grossas: o uso do mesmo complemento para verbos de regência diferente e o uso da ênclise em oração subordinada desenvolvida: "Comete crime
de concorrência desleal quem divulga, explora ou utiliza-se (...) de conhecimentos..." Não é um belo exemplo de incompetência lingüística?

Até mesmo a Lei de Diretrizes e Bases que deveria primar pela correção lingüística apresenta bobagens como, por exemplo, opor sistematicamente jovem a adulto, como se um adulto não pudesse ser jovem ou um jovem não pudesse ser adulto!

Deixemos de lado os textos legais. Nem os deputados, nem os senadores - nossos legisladores - foram eleitos por sua brilhante inteligência ou por seu notório saber. Passemos ao uso que da língua fazem os profissionais do Direito.

Nos poucos textos que tive a oportunidade de examinar, encontrei as seguintes expressões ou termos inexistentes ou inadequados:

l. vez que (com o sentido de uma vez que);
2. a-histórico (por aistórico ou anistórico);
3. frente a, face a (Todas as locuções prepositivas que são formadas com um substantivo, à exceção, talvez única, de graças a, têm sempre duas preposições: uma antes e outra depois do substantivo, como a propósito de, em nível de, em (com) relação a, em função de, com respeito a, a respeito de, em torno de, em favor de, em direção a, etc. Portanto, o correto é dizer em frente de, em frente a, em face de...);
4. posto que (com o sentido inadequado de porque; posto que significa "embora", "apesar de que");
5. eis que (com o sentido de porque; eis que só se usa no início de frases anunciativas ou no início de expressões que indicam surpresa, nunca com sentido causal);
6. inobstante (inovação desnecessária, equivalente a não obstante);
7. supedanear (O nome supedâneo existe, mas o verbo, não. Melhor seria a utilização de verbos já existentes, como basear, sustentar, alicerçar, apoiar e quejandos.);
8. pertine (A expressão adequada é ser pertinente. Não existe na língua nenhum verbo de que pertine possa fazer parte: nem pertinar, nem pertiner, nem pertinir. Atente-se para o fato de que a existência de um adjetivo - pertinente - não nos autoriza a pressupor a existência de um verbo de mesmo radical; existem os adjetivos irrespondível, impossível e imperdoável, por exemplo, mas não existem os verbos irresponder, impoder ou imperdoar.);
9. exauriente, satisfativa, irresignado, improvido - são algumas das inovações lexicais mais comuns;
10. a teor de - locução prepositiva inventada;
11. implicar em - o verbo implicar se usa sem preposição, com o sentido de pressupor, provocar: A implica B, e não "em B";
12. deparar-se com - o correto, apesar da lição espúria da 3ª edição do Aurélio, é: A deparou B; deparou-se B a A; A deparou com B.
13. sequer com sentido negativo (sequer significa "ao menos", "pelo menos", e não tem sentido negativo por si só: "Ele ganha pouco mas sequer pôde comprar um carro importado.");
14. intime-se-o - (O correto é intime-se ele. Quando se tem numa oração o pronome se, o sujeito dessa oração é sempre o primeiro substantivo ou pronome que aparecer sem preposição; o o é pronome sem preposição, mas é exclusivo da função de objeto direto; por isso, se o é construção inexistente na língua culta, exceto se o o é pronome demonstrativo, seguido de relativo, como em "Sabe-se o / que ele fez".);
15. A lei está vigindo - (Por "A lei está vigendo". O verbo é viger, da 2ª conjugação.);
16. Nada importa que o requerente inclua... (Ora, o sujeito de importa é a oração seguinte e, ao mesmo tempo, o pronome nada. Em português, é impossível que um sujeito com mais de um núcleo não tenha esses núcleos coordenados em sucessão. A bizarra construção não levou em conta que nada não é apenas uma negação, mas um pronome indefinido, com função nuclear em qualquer oração a que pertença.)
Fiquemos por aqui. Se é verdade que os bacharéis recém-saídos da Universidade tropeçam nos exames da OAB, não é menos verdade que muitos profissionais, já em final de carreira, ainda tropeçam na língua, e, o que é pior, na ilusão de que a sabem.
É um erro pensar que a norma culta portuguesa tenha sido sedimentada pela linguagem dos escritores. O aprendizado da língua culta era adquirido pela leitura de textos legais ou, às vezes, de textos dos cronistas, nome por que eram conhecidos os "guardas das escrituras" ou escrivães, contratados pelos reis para contar as histórias e feitos reais como suas testemunhas oculares. Os primeiros gramáticos portugueses não citavam exemplos de conterrâneos escritores, contemporâneos ou não. Foi a tradição dos gramáticos latinos que introduziu essa prática, justificável pelo fato de só podermos saber como era o latim culto pela observação do uso que dele faziam os grandes poetas, como Ovídio ou Virgílio, ou os grandes prosadores, como César ou Cícero. Mas o objetivo de um escritor é ou deveria ser o de subverter a norma, o de se valer de feitos de fala, de desvios eufóricos, a fim de ser diferente dos outros, e não como os outros. Por isso, comete um erro de metodologia o gramático moderno que abonar regras com exemplos de escritores. Os exemplos deveriam ser colhidos em obras não-artísticas, em que predomina a linguagem denotativa, isto é, sem metáforas, sem figuras, sem intenção estética, mas apenas ou quase exclusivamente em sua função referencial.
Sabemos, pelos trabalhos lingüísticos de Chomsky, que todos os falantes de uma língua têm competência lingüística, no sentido de que têm capacidade de dizer, entender e reconhecer como de sua língua frases que nunca ouviram antes. Mas a essa competência pragmática, digamos assim, opõe-se a competência literária, aqui entendida como a competência lingüística no registro mais formal da língua. E é essa que a muitos "sábios" acaba faltando, sem que eles próprios se dêem conta disso.
A linguagem jurídica poderia voltar a ser a linguagem padrão da elite cultural do país, e um modelo de língua castiça a ser imitado e louvado em todas as escolas. Mas o poder sobe à cabeça, e a vaidade cega.
Infelizmente.

 
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O Caos Aeroviário Brasileiro
Clóvis Cavalcanti
 
No dia 13 de julho deste ano, voltando para o Recife de uma viagem à África do Sul, fui para o aeroporto de Guarulhos com bastante antecedência. Meu vôo (TAM) era às 9h20 e eu cheguei lá cerca de 7h30. Havia uma fila monumental. Entrei nela, mas o ritmo de avanço era lento. Parecia não permitir que eu fizesse o despacho (agora chamam de check-in) a tempo.

Aproveitando minha condição de maior de 60 anos, mudei para o guichê de “atendimento especial”, onde só havia umas três ou quatro pessoas (a fila era confusa). Durante 30 minutos, um único passageiro ficou sendo atendido. Achei inacreditável. Quando eram 10h, pedi a uma atendente que fizesse meu despacho, pois estava em cima da hora. Ela fez e aí me comunicou que meu vôo estava atrasado. De fato, ele só saiu às 14h. Ninguém avisou nada enquanto eu e tanta gente nos martirizávamos. Na verdade, o problema era uma cerração (comum, aliás) no local do aeroporto – cerração que não existia até 5 km antes desse mesmo local. É incrível como escolheram um sítio para movimento de aviões tão ruim quanto o de Guarulhos. Todos os vôos atrasaram no dia 13 de julho, mas não se disseminava essa informação entre os aflitos passageiros. Pior: quando fui para o portão de embarque, não havia como eu saber nada acerca de meu vôo. Passei um tempão à mercê de um sistema absolutamente caótico. Pude então cotejá-lo com o que havia visto nos dias anteriores na África do Sul, onde Johanesburgo constitui um nó aeroviário muito importante. Lá, o atendimento tinha sido excelente – além dos bons serviços do aeroporto, com lojas cheias de uma imensa variedade de artigos sul-africanos. Não havia ainda problemas de controle de tráfego, como os que ora se apresentam aumentando as incertezas das viagens aéreas no território nacional.

Tenho uma longa experiência de viajante, pois comecei nisso em março de 1952, quando fui do Recife ao Rio para estudar em Nova Friburgo. A viagem foi num avião Curtiss Commander do Lóide Aéreo Nacional, uma das dez empresas de aviação que, na época, tornavam muito competitivo o mercado. De fato, operavam então nessa área, além do Lóide, a Panair, Varig, Real, NAB, Aerovias, Vasp, Cruzeiro do Sul, a Paraense, creio que também a Sadia. Hoje, o que se tem é o que os economistas chamam de duopólio. Não existem alternativas sólidas. Ou se toma a TAM, ou a Gol. A Varig, tão importante para o transporte aéreo nacional, sumiu. A situação é mais grave por dois motivos, pelo menos. Primeiro, a população brasileira se aproxima hoje de 200 milhões de habitantes (em 1952, era de 50 milhões). E não há, no país, um meio que concorra com o avião. Não se conta aqui com trens, navios e boas rodovias. Temos estradas asfaltadas, mas nada parecido com a malha, por exemplo, de São Paulo. Como se pode planejar confiavelmente uma viagem de ônibus a Salvador, Belo Horizonte ou Belém do Pará? Eu já fui de navio do Recife ao Rio duas vezes; mas isso foi na década de cinqüenta, quando existia o recurso.

Recorrendo a minha experiência, a sensação clara de agora é que o Brasil piorou muito em matéria de avião. As filas demoradas se tornaram comuns nos aeroportos. E só não incomodam mais porque se viaja pouco no país. Antes, era possível chegar ao aeroporto uma hora antes do vôo e ainda poder desfrutar de tempo na livraria para comprar alguma coisa. Isso se tornou mais difícil. É chegar e embarcar, enfrentando novas filas. No dia 25 de julho, indo a Brasília, tive, com os demais passageiros, que esperar mais de uma hora dentro do avião (da TAM). Havia um problema no sistema de comunicações. Um único sistema, sem uma rede paralela para contingências como aquela. Assim, quando se percebe que a realidade é agora ainda pior, devido à situação dos controladores de vôo, fica a indagação sobre o que pode ainda trazer mais problemas. Eu sempre me acostumei a fazer viagens internacionais, antigamente via Galeão (Rio de Janeiro), hoje por Guarulhos. Não havia necessidade de sair muito cedo do Recife, pois as conexões eram quase perfeitas, tipo tomar um vôo às 18h nos Guararapes e outro às 22h no Rio. No momento atual, isso é impensável. Tenho uma viagem no dia 9, às 20h, em Guarulhos (à Índia). Já estou planejando sair daqui de véspera. Isso é desenvolvimento?!

 

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Mensagem de Natal
Clóvis Cavalcanti
 

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Verdade Incoveniente
Clóvis Cavalcanti
 
Em julho de 1996, assisti na Universidade de Boston (EUA) a uma palestra de Sandra Postel, atual diretora do Projeto Mundial de Políticas Referentes à Água. Fiquei deslumbrado com a complexa utilização que ela fez dos recursos tecnológicos modernos para uma exposição pública. Além disso, a conferencista dispunha de informações impressionantes sobre o problema da água. Combinando seu conhecimento da realidade com os meios que power-points e data-shows – bem apoiados por uma retaguarda consistente – oferecem, Sandra Postel transmitiu competentemente a mensagem que desejava fazer chegar aos que, como eu, em auditório lotado, a ouviam. Na verdade, os recursos tecnológicos da computação se tornam dispensáveis quando o expositor é alguém como o escritor Edson Nery da Fonseca, cujas palestras que assisti até hoje sempre me causaram a maior admiração. No seu caso, à erudição, ao conhecimento dos assuntos, ao bom uso dos meios disponíveis, junta-se uma capacidade de discurso elegante com a dicção mais clara possível que o fazem distinguir-se como o melhor conferencista que já vi falar no Brasil. Essas duas reminiscências vêm-me à mente depois de assistir ao soberbo documentário de Davis Guggenheim Uma Verdade Inconveniente. É que esse filme, do começo ao fim – com breves inserções de outro caráter –, constitui uma palestra acadêmica do mais elevado nível. Assunto relevante e atual, roteiro didático de exposição, conferencista sem pompa e bem-humorado, seqüência de apresentação que prende a audiência – a aula que qualquer professor gostaria de dar, especialmente por conta da infra-estrutura de dados, gráficos, fotos, filmes, vídeos, mapas animados, etc., à disposição da palestra. Que tem como expositor o ex-vice-presidente americano Albert Gore, candidato derrotado de modo não convincente pelo presidente George W. Bush em 2000.

O assunto do documentário, e da palestra, é o aquecimento global, tema que tem preocupado Gore há muito tempo. Sabe-se que Bush II não dá a mínima para o agravamento do problema de aumento da temperatura do planeta causado pelo efeito estufa. Nem por isso, o filme se prende ao plano da política dos EUA, preferindo colocar-se no nível do interesse de toda a espécie humana. Na verdade, até que caberia uma insistência de Gore com respeito ao fato de que, por detrás da eleição de Bush, estavam os interesses avassaladores do petróleo. O presidente americano e seu vice, Dick Cheney, como é amplamente sabido (Michael Moore fala bem disso em seu filme Fahrenheit 9/11) têm estreitas ligações com a indústria petrolífera. A invasão do Iraque, supostamente para acabar com armas de destruição em massa (queriam mesmo era pegar Saddam Hussein), tem como fundamento primeiro o domínio do petróleo do Oriente Médio. Guggenheim segue a mensagem, já antiga, de Gore, quanto à questão do uso insustentável que se faz dos recursos ecológicos do planeta. Sobre isso, Gore escreveu um livro em 1992 (traduzido em português como A Terra à Procura de Equilíbrio), que tem como subtítulo “ecologia e o espírito humano”. Nesse livro, Gore fala da profunda experiência pessoal que o fez tornar-se ambientalista: o atropelamento, que testemunhou, do filho de 6 anos, deixando este, durante semanas, entre a vida e a morte.

O filme de Guggenheim é fascinante e ajuda a esclarecer a questão de como o mundo atual contribui para sua própria desgraça através de ações que destroem de forma irremediável os recursos ecossistêmicos do planeta. Gore fala dos inúmeros desastres ambientais de grande porte que estão acontecendo no mundo. Fala, inclusive, do perigo de transposição de águas de rios (ele não tem nada a ver com o São Francisco), mencionando o exemplo do rio Colorado, nos EUA, e do mar de Aral, no Casaquistão-Usbequistão. No filme, Gore enfatiza o que chama de “nossa emergência planetária”. Mostra isso do modo mais convincente possível. Não há como ficar paralisado diante da denúncia. Mesmo uma publicação cética do ambientalismo como The Economist conclui sua análise da película dizendo: “Se o Sr. Gore estiver certo, e ele pode estar, o tempo está correndo mais rápido do que a maioria do mundo pensa”. Diante disso, só cabe lamentar como estão atrasadas nossas elites do governo e oposição no culto que devotam a um oco “espetáculo do crescimento.

 

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A Floresta
Clóvis Cavalcanti
 
Sou Tucano
Sou Arara
Sou Peixe
Sou também Boto Cor de Rosa

Quando amanhece
A Mata tem vida
Só não tem Mata
Que agüente uma queimada

Nem Tucano
Nem Arara
Nem Peixe
Muito menos Boto Cor de Rosa

Por isso quero me salvar
Se não, não vou poder contar, minha história
Para meus netos, nem filhos
Porque também eu amo a terra

VITO VANDERLEI CAVALCANTI MAZZER

Minhas Amigas, meus Amigos:
Com o poema de meu neto Vito (11 anos), quero lhes desejar vida renovada e feliz no Natal e Ano Novo.

Muita paz, com a amizade de

Clóvis.

Olinda / Recife, dezembro de 2006.


 
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Honestidade, Ética e o Povo Brasileiro
Clóvis Cavalcanti
 
É conhecido de todos o admirável episódio do faxineiro da Infraero em Brasília, Francisco Basílio Cavalcante, que encontrou uma carteira abandonada contendo dez mil dólares e a devolveu ao dono, um turista suíço. Na ocasião, começo de 2004, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou em instante captado pela televisão que, se alguém achasse dinheiro dessa forma e ficasse com ele, não estaria cometendo um ato de desonestidade, pois, afinal, o dinheiro não tinha dono. Na verdade, conhecemos a máxima de que “achado não é roubado”. O primeiro mandatário, portanto, não estava inventando. Contudo, nossa consciência manda em ocasiões assim procurar o proprietário da coisa encontrada ao acaso. Uma vez, há quinze anos, esqueci uma bolsa no Cantinho da Sé, agradável restaurante de Olinda. Nela, além de meus documentos, talão de cheque, etc., havia cerca de seiscentos dólares que restaram de viagem internacional que eu acabara de fazer (nessa época, nossos cartões de crédito não valiam no exterior). Quando me dei conta do esquecimento, horas depois, retornei ao restaurante e lá, guardada e inviolada, estava minha bolsa. Há uma semana, na feira de Gravatá, paguei R$ 3,40 a uma feirante por uma despesa de R$ 2,40. Ela pegou o dinheiro, disse que estava errado. Pensei que houvesse pagado de menos, mas ela esclareceu que não e devolveu o real extra. Essas historinhas são de todos nós no nosso dia-a-dia e revelam que o povo é honesto. Pode até não ser em certos casos, mas a tendência é de sê-lo.

Por isso, incomodou-me ver Lula há poucos dias, visitando obras no aeroporto de Brasília, segurando a mão do mesmo Francisco Basílio e, diante de um microfone, declarar que, se houvesse 180 milhões de brasileiros como aquele faxineiro, o país seria decente. Ora, creio que haja no Brasil até mais de 180 milhões de brasileiros honestos. São assim, pelo menos, as pessoas com quem lido. Meu mecânico de quase trinta anos de bons serviços, Elpídio Sacramento (Abel), por exemplo, ele próprio um exemplo de honestidade, sempre me disse que queria ser acusado de incompetente, mas não de desonesto. O pranteado geógrafo Mário Lacerda, digno pesquisador e homem de caráter, costumava aconselhar que, dos gestores públicos, se deveria exigir, primeiro, honradez e, depois, competência. Essa percepção, infelizmente, por alguma forma de maldição, parece não fazer parte aqui das práticas de gestão do bem comum. Promessas eleitorais, como se sabe, são freqüentemente descumpridas, e de modo desolador em certos casos, como se isso fosse uma ação sem nada a ver com desonestidade. O dominicano Frei Betto, de que sou admirador, escreveu no jornal O Globo, de 23.7.2002: “Na seara dos especuladores, Lula funciona como um espantalho [...] O risco não é Lula vencer, é o Brasil continuar refém da alta dos juros”. Isso foi antes da eleição presidencial, quando todos esperavam uma política econômica do PT diferente da que os anos de FHC tinham seguido.

Não se trata de querer que o governo fizesse pajelanças a partir de janeiro de 2003. Ele tinha autoridade para mudar rumos como no caso da expectativa externada por Frei Betto de que o Brasil não iria continuar refém das altas taxas de juros. Muitos economistas respeitáveis davam elementos para uma guinada na condução dos negócios da economia brasileira, até porque, do ponto de vista da razão, é inconcebível que exista apenas um modo de proceder (ou “pensamento único”) no tocante à política econômica da nação. Ora, Frei Betto sempre foi íntimo de Lula. Se antes das urnas afirmava o que escreveu, deve ter se frustrado diante da falta de palavra que veio depois. Entrevistado em julho passado, o sociólogo pernambucano e professor da USP Chico de Oliveira foi confrontado com a pergunta: “Lula afirmou recentemente: ‘Ninguém neste país tem mais autoridade moral e ética do que eu para fazer o que precisa ser feito nesse país’. O senhor concorda?”. Chico respondeu: “Não, não concordo. Isso é uma presunção e arrogância. Há milhões de brasileiros com tanta autoridade moral e ética quanto ele. Isso não é uma boa forma de melhorar a educação política da cidadania. Acho absolutamente abominável essa pretensão de colocar-se acima do bem e do mal perante a sociedade, cujo governo ele comanda”. Tem razão.

 
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Exemplo de Cidadão
Clóvis Cavalcanti
 
Um dos cidadãos mais exemplares que conheci deixou nossa convivência no último dia 8 de dezembro - coincidentemente, data de meu aniversário. Foi meu amigo Bruno da Silveira, grande amigo, de fato, que conheci em 1956 no Colégio Nova Friburgo, onde ambos estudamos como alunos internos na década dos 50. Bruno era pernambucano, um pouco mais velho do que eu, mas morava no Rio de Janeiro. Seu pai era o deputado federal Breno da Silveira, do
PSB carioca. Aliás, quando eu não era ainda eleitor, fui levado por Bruno, que já o era, a uma reunião do partido em Nova Friburgo. O encontro foi presidido por um friburguense ilustre, Raja Gabaglia, e contou com a presença do poeta - figura muito popular, mais tarde, também, deputado federal - J.G. de Araújo Jorge. Alguns dias depois, comparecemos a um jantar do PSB em que estava presente, com ar cansado e olheiras, o cronista pernambucano Antônio Maria. Foi dessa forma, pelas mãos de Bruno, que me iniciei na política. Nessa época, o Partido Socialista Brasileiro, presidido nacionalmente belo baiano João Mangabeira, era uma legenda de
grande autenticidade, uma alternativa ao comunismo de inspiração soviética. Bruno e eu comungávamos de ideais comuns. O que não era pouco para ele, dado, no aspecto econômico, as origens robustas de sua família. Na verdade, uma família rica, mas não burguesa, como muito bem disso tratou em seu sincero livro de memórias, Às Vezes, Penso que Sou Noé, a mãe de Bruno, d. Cyra.

A relação de afeto que Bruno tinha com os amigos estendia-se a quem ele percebesse que precisava de carinho. Nos seus últimos tempos de vida, quando o câncer que o vitimou não parava de avançar, os esforços que ele dedicava a uma educação de qualidade tomaram ainda maior impulso. Nas ocasiões em que conversamos ao longo de 2006 - a doença vinha de 2002 -, pessoalmente ou pela internet, Bruno não cansava de retomar o assunto. Recebi dele, inclusive, convite para fazer parte do conselho de um projeto de educação que ele procurava levar adiante com muitos apoios. Bruno se empenhou pela recuperação do Ginásio Pernambucano e, quando foi dirigente da Fundação Emílio Odebrecht, procurou apoiar iniciativas bem concebidas na área educacional. Ele se entregava a tudo isso com paixão, com
seriedade, com crença no que fazia. Aliás, fé foi um atributo de sua personalidade. Fé nos valores espirituais. Fé em Jesus Cristo, fé em Deus, fé na família e nos amigos. Isso ele comunicava a todos os nomes de uma lista que construiu na internet, chamada de Meus Queridos, na qual fui incluído. As mensagens de Bruno continham elementos de uma visão espiritual alimentada de fé verdadeira.Numa das mensagens de dois anos atrás, ele falava do abraço que a morte lhe propiciaria dar em Jesus Cristo.

Diante da morte, convém dizer, Bruno nunca demonstrou sinais de fraqueza. Ele lutou pela vida. Fez tudo o que era possível para conservá-la. Mas não fugia da realidade do fim. Graças a sua fé, ele pôde estender sua existência bem mais do que se podia imaginar. Seu irmão Cydno, também aluno de Nova Friburgo, costumava dizer que Bruno já havia entrado da prorrogação da sobrevida que os médicos lhe haviam dado muitas vezes. Em fevereiro deste ano, encontrei-o no Shopping em Boa Viagem para uma conversa na hora do almoço. Quando eu ia para o encontro, pensava como o veria - provavelmente, muito abatido. Que nada! Ele estava alegre, bem disposto, com a mesma boa aparência de homem bonito que foi. Tivemos excelente conversa, na qual muitos planos dele foram expostos. Sua vibração com o que fazia era impressionante. Não reclamava de nada. Continuou assim, mesmo quando seu corpo definhava e ele perdia o porte de grande atleta que foi no colégio - o melhor atleta da escola em 1957. Sua ligação com o esporte continuou na vida adulta. Ele foi diretor de futebol do Flamengo quando nosso amigo comum Márcio Braga era presidente do clube no inicio dos anos 80 e Cláudio Coutinho, técnico. Teve então papel importante na formação de uma das melhores equipes que o rubro-negro carioca já possuiu. Na mesma ocasião, foi vice-presidente da Finep, onde deu o melhor de si para o desenvolvimento da ciência e tecnologia no Brasil. Em Pernambuco, sua terra natal e onde terminou seus dias, não se tornou um nome conhecido. Pelo exemplo de vida que deu, porém, não se pode deixar que o esquecimento cerque sua morte.

Publicado no Diário de Pernambuco - Domingo, 17 -12 -05

 

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A Difícil Luta a Favor da Natureza
Clóvis Cavalcanti
 
Nos meses recentes, tem se visto no Brasil todo tipo de investida dos que atribuem à economia uma importância capital, acima de qualquer outra consideração, inclusive o meio ambiente. O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis), por exemplo, é atacado como inimigo do país. A ponto de o senador Antônio Carlos Magalhães ter dito em discurso no Senado, em abril de 2004, que "ou o Brasil acaba com o Ibama ou o Ibama acaba com o desenvolvimento brasileiro". Na verdade, o Ibama apenas faz o que manda a legislação, da qual ele é guardião (um papel nem tão rigoroso assim, algumas vezes). A lei não foi criada por esse órgão, e sim pelo Congresso, exprimindo a vontade da população. A qual, hoje, se inclina por atitudes de defesa ambiental, conforme indicam pesquisas do Instituto Superior de Estudos da Religião, do Rio de Janeiro. Ou seja, percebe-se a crise ambiental e que é preciso fazer alguma coisa para contê-la. Nesse sentido, o Ibama age coberto de toda legalidade.

Quem não observa princípios legais são, isto sim, os produtores de soja que, contra as leis do país, impuseram o plantio de soja transgênica, introduzida clandestinamente no país. O governo, ao invés de opor-se ao crime, sacramentou-o, liberando por medidas provisórias (a última das quais em outubro de 2004) a cultura da soja geneticamente modificada. A razão dada para isso é que os agricultores tinham feito despesas, assumido débitos, etc. Uma conversa fiada que não se aplica quando se trata, por exemplo, de condenar o MST por estar, com suas invasões, violando a propriedade privada. Na Amazônia (conforme registros precisos da Rede Globo, inclusive no "Fantástico" de domingo 30 de janeiro último), atualmente, testemunham-se ações irregulares de madeireiras que destroem ilegalmente a floresta. Ora, a quem pertence o patrimônio da uma floresta, resultante de décadas, ou até séculos, de desenvolvimento das forças da natureza? Pertence a alguma madeireira? Ou pertence à nação, especialmente aos povos que protegeram o ecossistema para que ele nos desse essa floresta rica de biodiversidade? A Constituição brasileira em vigor estabelece que a floresta amazônica é "patrimônio nacional". Acusar o Ibama de ser contra o desenvolvimento do país porque ele tenta levantar a bandeira legítima da defesa do bem público reflete a mentalidade estreita, imediatista, de exploração máxima da natureza, que caracteriza os defensores do interesse econômico acima de qualquer outro propósito.

É a mesma coisa que acontece no Recife com a esdrúxula permissão da Prefeitura para a construção de dois espigões no cais da Mesbla, bem próximo ao bairro, de simpático casario baixo, de São José. Ora, o meio ambiente inclui, nas definições científicas dele feitas, o ar e a paisagem. Um prédio alto rouba ar e rouba paisagem, ambos representando bens públicos. Que direito tem uma empreiteira de construir o que bem quiser no cenário com o qual estamos acostumados há quinhentos anos, modificando-o dolorosamente ? e ainda mais com o beneplácito do poder municipal? Diante disso, é pura hipocrisia atacar o MST por invadir propriedade. Sobretudo porque nosso desenvolvimento urbano se faz com a invasão do espaço atmosférico por imobiliárias movidas por pura ganância econômica (e não por necessidade de sobrevivência). Deveria haver um plebiscito para saber se é isso mesmo o que a população quer, pois o que se constata agora é uma situação de completa irregularidade e de desrespeito a princípios de um desenvolvimento ecologicamente são.

Minha amiga Marisa Gibson, em sua (boa) coluna do DP de domingo passado, disse que os produtores de camarão (em cativeiro), como se não bastassem os problemas que enfrentam, teriam um outro neste começo de ano: "a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, está criando um grupo de trabalho para barrar o crescimento da atividade". Ora, as fazendas de camarão, onde quer que se implantem, causam enormes danos ambientais: destruição de manguezais (aumentando a erosão litorânea e diminuindo a proteção natural que o mangue oferece), diminuição da pesca que havia anteriormente no local, prejuízos para as comunidades pesqueiras, etc. Será que isso não conta? Será que os produtores de camarão sofreriam mesmo tanto (coitados!) por sua atividade? Francamente, precisamos acordar para o passivo ambiental que não paramos de fazer crescer.

Fevereiro 2005

 

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O Bem do Exercício Físico
Clóvis Cavalcanti
 
Quase tudo que leio sobre saúde termina ressaltando o valor tanto da boa alimentação (até para problemas mentais e psíquicos) quanto do exercício físico. Tento seguir alguma forma de comer saudável (baseada na macrobiótica) e não paro nunca de me movimentar, apesar do sedentarismo próprio da atividade intelectual. Parte importante dos meus cuidados é a corrida praticamente diária que faço desde o domingo de Carnaval de 1973. Antes eu já corria de vez em quando e seguia o método de ginástica da Real Força Aérea Canadense, cujo manual me trouxe grandes benefícios. No entanto, sob a influência de Kenneth Cooper, do famoso método (usado com sucesso por Cláudio Coutinho na preparação física da seleção brasileira de futebol de 1970), tomei a resolução de correr todos os dias. Comecei a fazê-lo em Fazenda Nova, onde passava o Carnaval de 1973, num domingo como o de hoje, só que 4 (e não 2) de março. Sempre gostei muito de Carnaval (estarei hoje no Sala de Justiça, Bloco da Saudade, Caranguejo no Caçuá e outros), mas, com filhos pequenos, preferi naquele ano me distanciar da folia. Pela manhã do domingo, enquanto corria, avistei na estrada (asfaltada), ao longe, uma senhora esguia que caminhava pelo acostamento. Pensei comigo: quando passar por ela, vou causar-lhe um susto. Só que, quando emparelhamos e eu olhei para a figura, vi que se tratava de um homem, com bigode e tudo, e um lenço à maneira de Carmen Miranda amarrado à cabeça. Início divertido de uma atividade que, em trinta anos (sou assim, persistente em tudo), nunca foi interrompida.

Na verdade, correr é um dos maiores prazeres de minha vida (junto com namorar, confraternizar com as pessoas queridas e ler). Por isso, nem me canso nem invento desculpas para mim próprio a fim de, alguma vez, evitar meu exercício diário. E assim, nessa prática quase religiosa e imensamente gratificante, creio que já percorri entre 45 e 50 mil quilômetros, talvez mais, uma distância bem maior do que uma volta à Terra pelo Equador. Algumas vezes, quando começo a corrida e penso na distância que vou percorrer (atualmente, em geral uns 7-8 km por dia), lembro da máxima de Confúcio de que "A marcha de 5.000 milhas começa com o primeiro passo". Daí para a frente, não me dá vontade de parar. Pelo contrário, se pudesse, correria cada dia uma distância maior. Como faço percursos que se iniciam e terminam em minha casa, calculo distância, tempo, etc., para não passar da conta. Mas nos domingos, gosto de sair do Carmo (Olinda), ir ao bairro do Recife, descer pelo de São José, Boa Vista e tomar um táxi na Agamenon de volta para casa. Outras vezes, vou de Olinda ao Museu do Estado e daí ao Derby. Corredor regular, não sinto o mínimo cansaço; pelo contrário, as sensações são de alegria, de bem-estar. Como corro cedo da manhã, desfruto de momentos tranqüilos observando a paisagem, conhecendo melhor os lugares.

No dia 15 de novembro de 1980, data da I Maratona do Rio de Janeiro, organizada pelo Jornal do Brasil, a que não pude comparecer, tendo-o feito em outras de suas versões posteriores, fui da minha casa, junto ao Convento de São Francisco em Olinda, até a fábrica da Brahma, no Cabo, seguindo pelo rumo da Abdias de Carvalho, Curado, Ceasa, Prazeres, Ponte dos Carvalhos. Essa foi uma corrida das mais gostosas: 42,2 km percorridos entre as 4h30 e as 8h. Caiu enorme chuva durante o percurso, que, se foi boa por refrescar-me, deixou meus sapatos pesados e apertando. Porém, no final eu estava fisicamente bem, como, aliás, sucedeu até hoje nas cerca de 200 corridas que faço por ano, durante três décadas. Certa ocasião, em Brasília, creio que em 1979, o diretor de Educação Física do Ministério da Educação me falou que eu não corresse; que nós temos um coração programado para certo número de pulsações e que a corrida, acelerando-o, reduz o tempo de vida. Ora, se isso é verdade, a qualidade de vida que correr me proporciona excede a vantagem de viver mais alguns anos como um velho cheio de achaques em que eu possa acaso me tornar. Há pessoas que dizem que existe o risco de contusões com o exercício. Durante 30 anos, tive uma ou outra tendinite - a última delas curada com acupuntura e argila (pois não tomo medicamento de qualquer espécie) - e dois ou três problemas de joelho, o último deles, em março de 2002, provocado por irregularidades do calçamento da ladeira do Monte em Olinda e curado exclusivamente com argila. Meu acupunturista, o competente médico Marcos Freire Jr., ensinou-me também umas massagens chinesas para o joelho, as quais, depois que passei a aplicar, parece que tornaram meus joelhos mais resistentes.

O que posso dizer, aos 62 anos e com base em minha experiência, é que a corrida de alguns quilômetros por dia, feita com convicção e sem descontinuidades (parei uns dias em 1975, devido à cheia do Recife, onde morava então), só tem benefícios. No meu caso, prefiro correr mais em ruas do que na praia por achar cansativo ir e vir na mesma paisagem, muito embora já tenha feito lindas corridas de 15 km ou mais à beira-mar. Também gosto de correr em estradas, especialmente de lugares distantes (como Sete Cidades, no Piauí, ou Pontas de Pedra, na ilha de Marajó). Divirto-me igualmente em metrópoles (já corri em Londres, Lisboa, Glasgow, Luanda, Lima, Canberra, Chicago, Los Angeles, Buenos Aires, Caracas, etc.). É uma forma de turismo... Se eu soubesse que correr era tão bom, teria começado minha prática muito antes de 1973. Só não corro mais, hoje, é durante o Carnaval, já que sou desses foliões que se esbaldam o dia todo, dispensando mais exercícios. Enfim, dançar, correr - além de amar (a Deus, em primeiro lugar) e namorar - são atividades que só fazem bem.

2005

 
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A Dura Realidade do Natal
Clóvis Cavalcanti
 
Quem não gostaria que a realidade do Natal fosse a da fartura da mesa, da tranqüilidade do lar, da realização da cidadania? Infelizmente, isso só acontece para a casta de privilegiados a que eu e a maioria dos meus leitores pertencem. Rezo nestes dias de agradável confraternização natalina para que as oportunidades que tenho sejam compartilhadas com os excluídos da sociedade. Com os que lutam pela terra e uma vida decente para seus entes queridos. Com os que querem desenvolver pequenos negócios, mas encontram barrados os caminhos para isso. Com os que, por seu trabalho árduo, ajudam a que a vida flua mais naturalmente para todos. Não estou aqui querendo enviar uma mensagem para esta época de festas. Na verdade, desejo reportar-me a fatos que negam o espírito de solidariedade, o discurso da justiça, as promessas de uma transformação que esperamos entre nós há pelo menos duas décadas.

Dois anos depois da instalação do governo de esperanças do presidente Lula da Silva, por exemplo, o desgosto dos que esperam ter seus pequenos negócios funcionando saudavelmente só faz crescer. Para se tomar um empréstimo em um programa de apoio ao pequeno empreendedor (Agência do Trabalho, Recife), pagam-se juros mensais de 4,5% ao mês. Isso significa que uma quantia de 1.000 reais em dezembro de 2004 valerá 1.697 reais em dezembro de 2005! Não é à toda que a sóbria publicação britânica The Economist, porta-voz mundial do conservadorismo, diz em seu número de 27 de novembro último: "Em um país com taxas de juros reais entre as maiores do mundo, um banco não tem que saber muito sobre seu negócio para ganhar dinheiro ... No Brasil, onde a taxa de juros básica é de 17,25% e a inflação está dez pontos percentuais mais baixo, os bancos são peritos nesse jogo. No ano passado, eles informaram lucros quase recordes, enquanto a economia encolhia e os negócios urravam. Nos três primeiros trimestres de 2004, os quatro maiores bancos privados elevaram seus lucros em 17%".

Ainda há pouco o Banco Central fez subir a taxa básica para 17,75% ao ano, produzindo um quadro aterrador para a sociedade. É inacreditável que a Argentina, com inflação anual de 5,6%, tenha taxa de juros básica de 5,19%; que o Chile, com inflação de 1,9%, tenha juros de 2,28%; e o México apresente juros de 8,36% para inflação de 5,4%. A Turquia é o único país importante que tem inflação de 9,9% para juros muito maiores, de 23,01%. Na União Européia, a inflação é de 2,4% e os juros de curto prazo, de 2,17%. Como é que alguém, no aperto, poderá pagar taxas de juros de 4,5% ao mês no Brasil? Definitivamente, isso representa um confisco, uma transferência de renda consentida pelas autoridades das camadas sofridas para as afluentes, tudo semelhante ao que a tão indesejada inflação galopante fazia.

Outra situação que assusta relaciona-se com a realidade rural. Dados a respeito indicam que os grandes proprietários de terra são beneficiados (via Ministério da Agricultura) por 90% dos recursos para investimentos federais no setor. Enquanto isso, os que se destinam, através do Ministério de Desenvolvimento Agrário, para a pequena produção representam 10% do volume disponível. O quadro é de grandes empresas transnacionais investindo maciçamente (com recursos próprios), aumentando a produção e a produtividade, ao mesmo tempo em que eliminam empregos e expropriam camponeses (além de causar assustadora destruição ambiental, como no caso da soja). O agronegócio gera um posto de trabalho para cada 200 hectares, ao passo que a agricultura campesina gera um emprego em cada 8 hectares.

esultado disso é que o agronegócio controla 80% da área cultivável, fica com 90% dos recursos e produz 60% da produção agrícola nacional. Os pequenos agricultores ficam com 10% dos recursos, respondendo por 40% da produção nacional em apenas 20% da área cultivável.

Nessa situação, o MST, que ainda sofre de campanhas que o denigrem, vê com freqüência a morte de militantes seus. A riqueza de uns, assim, não pára de aumentar, sem se reduzirem a miséria e o sofrimento de setores majoritários com acesso vedado ao festim econômico. Essa é uma dura realidade do Natal!

28 de dezembro 2004

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Crescimento Econômico ou Desenvolvimento?
Clóvis Cavalcanti
 
Um dos temas de maior popularidade nas conversas sérias, no noticiário da Imprensa, no discurso dos políticos, etc. é o da "retomada do desenvolvimento". Fala-se disso como a melhor coisa do mundo. Só que, em seguida, vem a menção da "taxa de crescimento" que a economia deve seguir. Aí surgem os dados, os palpites sobre valores concretos. Hoje, por exemplo, todo mundo quer dizer alguma coisa a respeito de uma suposta taxa de 4,7% ao ano, que seria a que está prevalecendo para o crescimento da economia brasileira. Há, na verdade, uma confusão visceral entre crescimento e desenvolvimento. Os dois conceitos são usados como se significassem a mesma coisa. Passa-se de um a outro com a maior naturalidade. Faz pouco, importante jornal do Recife estampou na primeira página manchete reveladora: "Crescimento vertical de Caruaru retrata o desenvolvimento". Na verdade, essa confusão pode ser admitida pelo próprio léxico, mas os conceitos em questão possuem significados próprios desde que um ilustre economista e historiador econômico austríaco, Joseph Schumpeter, fez a distinção há setenta anos.

Crescimento significa aumento, expansão. Desenvolvimento refere-se a evolução, transformação, mudança. Nos sistemas naturais, nenhum fenômeno assume o modelo do crescimento ininterrupto. Quando isso acontece, o desfecho é sempre catastrófico, a exemplo de uma bola de neve. O câncer ilustra igualmente bem a situação. O termo se refere a um leque de doenças que têm em comum apenas o fato de que são causadas por células que não sabem quando devem parar de dobrar em número. Por outro lado, na busca de compreensão da essência do desenvolvimento, convém deixar patente que o objetivo derradeiro do ser humano é a realização do bem supremo, o summum bonum de São Tomás de Aquino, o nirvana ou satori do budismo. A felicidade, enfim. Produzir e consumir não valem nada, se não possuem a direção do bem supremo. Nós consumimos não por consumir, mas porque iremos desfrutar de um prazer, de uma alegria. Porque nos faz bem.

Assim, o desenvolvimento pode ser entendido como uma questão de valores humanos e de atitudes a realizar, de objetivos definidos por sociedades e critérios que determinam o que são custos toleráveis a serem aceitos, e por quem, no processo de mudança que o processo envolve. Segundo Amartya Sen, o indiano Nobel de economia de 1998, o desenvolvimento consiste na remoção de vários tipos de faltas de liberdade ("unfreedoms", na sua expressão), as quais deixam as pessoas com pouca escolha e pouca oportunidade de exercitar sua capacidade consciente de ação. Enfim, o desenvolvimento implica a realização de certos objetivos de valor que demandam a confrontação de benefícios e custos, e não o conhecimento unicamente de benefícios como os que se exprimem nos valores monetários do produto interno bruto (PIB), total ou per capita, ou nas taxas de aumento dessas grandezas. Importa saber de que forma se obteve um total em determinado ano, digamos, de 500 bilhões de dólares do PIB. E o que esse valor oculta no tocante a fatos que significam diminuição das liberdades, destruição de recursos, danos à saúde, desperdício, destruição da natureza.

O Brasil tinha 41,2 milhões de pessoas em 1940, ano em que nasci. Hoje, segundo a nossa querida Fundação Getúlio Vargas, tem 56 milhões de pessoas na extrema pobreza. Ou seja, em 2004, o país Brasil dos miseráveis é demograficamente maior do que o Brasil todo de 1940. Houve, no caso, crescimento econômico, mas representa para mim um tour de force (forçar a barra) dizer que tivemos desenvolvimento. Desenvolvimento seria se houvesse apenas 4 milhões de miseráveis no Brasil. Se tivéssemos alcançado a taxa de mortalidade infantil cubana (a mais baixa das Américas), se os mucambos do Recife ou as favelas do Rio de Janeiro houvessem sido substituídos por casas simpáticas de alvenaria com jardins e em bairros urbanizados, se as pensões dos aposentados não sofressem ameaças permanentes de rebaixamento. Desenvolvimento haveria com universidade gratuita e de boa qualidade para todos, com escolas públicas que não fossem exemplo de degradação na maioria dos casos e se os índices de violência fossem ínfimos. Nada disso, lamentavelmente, ocorre. A miséria se multiplica e, ao mesmo tempo, não se pára de destruir a natureza de forma persistente e criminosa (para cultivar camarões em cativeiro; para fazer especulação imobiliária; para plantio de soja no Mato Grosso). Pagamos custos altíssimos e, no fim, não temos desenvolvimento genuíno nem a sociedade é mais feliz. É isso o que sucede quando se confundem as coisas.

01 de dezembro de 2004

 
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Com Fidel, em Cuba
Clóvis Cavalcanti
 
Matando desejo de muitas décadas, estive finalmente em Cuba durante uma semana, no final de outubro passado. Foram dias extraordinários, nos quais, inclusive, sem que o previsse, pude conviver com Fidel Castro. Representando a Fundação Joaquim Nabuco, compareci à III Conferência Latino-Americana e Caribenha de Ciências Sociais, realizada em Havana. Esse evento deu continuidade ao que a FJN concebeu, a I Conferência, por iniciativa que foi minha e que coordenei, em parceria com o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), no Recife, em 1999, a segunda versão do qual ocorreu em Guadalajara, em 2001. Aqui, em 1999, a abertura do encontro contou com as presenças do vice Marco Maciel e do governador Jarbas Vasconcelos, os quais assistiram à parte formal da sessão, aquela dos discursos, retirando-se logo a seguir, antes da primeira palestra da programação (proferida pelo cientista político americano Adam Przerworski). Em Havana, Fidel Castro, que não usou da palavra na sessão, compôs a mesa de abertura, desmanchada para duas palestras que se seguiram - do pernambucano Francisco de Oliveira e do egípcio Samir Amin. Desfeita a mesa, o líder cubano desceu para a platéia e lá ficou durante três horas, escutando os palestrantes durante suas exposições e na subseqüente rodada de debates. Todo tempo, a pouca distância dele, vi-o anotar muitas coisas e não arredar pé dali, exceto quando a solenidade havia se encerrado. Essa atitude muito me surpreendeu, pois a norma, como aconteceu na conferência do Recife em 1999, é as autoridades permanecerem somente na parte mais social do momento e não voltarem mais para outros instantes da reunião.
A surpresa iria se repetir, porém, nos quatro dias que ainda duraria a conferência de Havana. No segundo dia, Fidel chegou à tarde para uma sessão de pequeno tamanho, do grupo de trabalho que iria discutir relações entre os países periféricos. Ficou lá e, depois das 19h, assistiu à palestra da noite, do professor do MIT (Estados Unidos) Noam Chomski, seguida de debates. Tudo terminou às 23h. Assim aconteceu nos três dias posteriores, em que o "Comandante", sempre acompanhado do ministro da Cultura Abel Prieto e, às vezes, do presidente da Assembléia Nacional, Ricardo Alarcón de Quesada, procurava assistir a tudo. No encerramento do evento, dia 31, a tribuna lhe foi dada pelo secretário executivo do Clacso, Atilio Borón, às 18h, para "algumas palavras". Fidel Castro falou, sem interrupção, sem tomar um gole de água, de pé, até às 23h! O auditório, no Palácio das Convenções - por sinal, com excelentes instalações e de grande porte -, estava lotado e ficou assim até tudo estar concluído. Fidel já havia falado no dia anterior, quando se discutiu o tema dos movimentos sociais na América Latina, inclusive com a presença do líder boliviano (e também deputado) Evo Morales e da inteligente representante do movimento indígena do Equador Blanca Chancoso, durante uma hora e vinte minutos. Nessa ocasião, contou como se faz uma revolução, reportando-se à experiência da Sierra Maestra e da situação de desgraça que seu país vivia naquela ocasião. E emitiu a opinião, segundo ele, ofendendo as regras da diplomacia, de que a América Latina, hoje, está pior do que Cuba antes da Revolução.
Ouvir uma pessoa falar durante cinco horas seguidas nunca tinha me acontecido na vida, muito menos em encontro científico. Eu próprio, porém, quando membro do Diretório Acadêmico da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Recife (hoje UFPE), em 1962, falei durante seis horas continuadas em uma reunião (naquela oportunidade, ao falar, eu só lembrava dos longos discursos de Fidel Castro...). Mas apartes eram concedidos de vez em quando. Estava, pela oposição, numa briga política e nossa tática era matar a situação pelo cansaço; só que, finalmente, a palavra me foi cassada - e eu terminei exausto. Por isso, espantei-me como Fidel tivesse agüentado falar tanto na conferência de Havana e não demonstrasse nada, nenhum depauperamento ao acabar, quando então desceu para conversar conosco da maneira mais cordial possível, beijando as mulheres (muitas delas, jovencitas), abraçando os marmanjos. Embora depois de duas horas e meia escutando-o, eu achasse que já havia ouvido demais, não me deu vontade de sair do auditório, e quase ninguém saiu também. Na mesa principal havia duas norueguesas e um sueco. Conversei mais tarde com uma das mulheres, Else Oyen, diretora de uma organização nórdica. Perguntei o que ela tinha achado. Para minha surpresa, ela (que se tornara minha amiga nos dias anteriores), confessou que havia gostado, que Fidel queria dizer algumas coisas importantes e que fez o que parecia justo.
Na verdade, sua longuíssima intervenção foi um balanço, à luz de sua experiência, de tudo o que ele ali escutara em cinco dias de discussões, especialmente no tocante à palestra do professor americano, de Yale, Robert Dahl, que deu uma aula sobre democracia. Fidel tentou mostrar os contrastes de Cuba antes e depois da revolução que liderou e lidera, identificando os traços da democracia cubana, que não seriam os mesmos de outras democracias. E foi especialmente duro com relação à forma violenta com que os Estados Unidos tentam impor seu modelo político e cultural ao mundo. Ele quis mostrar como tudo se faz em Cuba dentro da lei, respeitando-se as normas vigentes no país (embora eu ache que ele poderia comutar penas severas que ali se aplicam a dissidentes do regime), não se adotando a prática de tortura nas prisões cubanas, etc. Interessante quanto ao discurso de Fidel foi ele dizer que tinha aprendido muito na conferência, que ela tinha superado suas melhores expectativas e que o pensamento social é necessário para a condução do processo político. Interessante também foi, durante cinco horas de fala, ele não haver se repetido, não haver sido monótono, dogmático, chato ou arrogante, não haver se esquecido de dados numéricos importantes (até a taxa de desemprego em países como Brasil e Argentina foi citada corretamente) e não haver perdido seu senso de humor (alto, por sinal). Quando já fazia cinco horas que falava, Fidel consultou o relógio e provocou risos ao exclamar "Ainda é cedo!" Terminou aplaudido de pé.

 

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Aquele que é Capaz
Clóvis Cavalcanti
 
Há dois anos, ouvi de Pelópidas Silveira, esse admirável homem público pernambucano, o relato da deposição de Miguel Arraes no dia 1º de abril de 1964. Já escutara a mesma história, com iguais detalhes e sinais inequívocos da dignidade do ex-governador do Estado, na voz de Celso Furtado. O episódio estava bem vivo na memória do último, pois foi lembrado ainda em 1964, logo que o conheci em New Haven, nos Estados Unidos, para onde eu fora estudar. Sem nenhuma diferença, ouvi do próprio Miguel Arraes, como muita gente mais, em solenidade no Teatro Apolo, na década de noventa, seu depoimento acerca da humilhação que lhe impuseram os militares golpistas, que queriam que ele renunciasse ao cargo de governador. Arraes recusou-se a isso, alegando que só devia satisfações ao povo de Pernambuco e que, se se submetesse às ordens dos generais, não teria como olhar nos olhos seus filhos no futuro. A foto que registra a ocasião consegue transmitir a força da raça de sertanejo destemido que Arraes soube ser. Daí, dizia Pelópidas, ele sempre votara em Arraes. Isso me fez sentir em boa companhia, ao verificar que meu voto para governador fora sempre também para Arraes, desde 1962, nas vezes em que ele foi candidato.

A recordação do momento da deposição vem forte à mente na hora em que Pernambuco e, a bem da verdade, o Brasil inteiro, como constatei na semana que passou, no Rio de Janeiro, aonde fui a um seminário sobre Celso Furtado, lamentam a morte do grande político que foi Miguel Arraes. Não que fosse uma morte inesperada. Mas é que o falecimento de alguém da importância de nosso ex-governador em três mandatos sempre é motivo de forte emoção. Emoção que teve minha empregada Zeza das Neves, em Gravatá, quando me transmitiu a triste notícia na manhã do último domingo. Com voz compungida, ela me disse: “Arraes se foi”. Por estar longe, terminei não podendo comparecer ao velório. Mas rememorei a importância, para minhas crenças nacionalistas e no socialismo democrático, que Arraes oferecia. Dele me aproximei naturalmente, pois desde que comecei a acompanhar a política, na adolescência, sempre me posicionei à esquerda. Lembro, por exemplo, de, com 17 anos, ter estado na Assembléia Legislativa de Pernambuco na posse de Cid Sampaio e ver a primeira manifestação que me atraiu para o nome de Arraes, quando ele foi lançado para prefeito do Recife. As eleições só se realizariam no ano seguinte, mas a liderança de Arraes aparecia ali. Em 1959, tornei-me amigo de Zé Almino, seu filho, no colégio em que estudávamos, em Nova Friburgo, no Estado do Rio. Nesse ano, muitos colegas, tais como o carioca Sérgio Fisher e o cearense Walter Cabral, torcíamos por Arraes. Sua vitória foi motivo para celebrações nossas.

Em 1962, no corso da vitória de Arraes sobre João Cleofas, surgiu, que eu saiba, pela primeira vez, o refrão “O povo quer aquele que é capaz”, que continuava assim: “Arraes, Arraes, Arraes, / a Reação já passou pra trás”. O último verso virou “em 86 só vai dar Arraes”. Infelizmente, esse fenômeno, que se repetiu em 1994, não foi renovado em 1998. Procurou-se na época passar uma imagem de não-modernidade do ex-governador, imagem que Arraes concebia de outra forma. Isso ficou patente em bela carta sua ao deputado Ulysses Guimarães por volta de 1989, quando Arraes dizia que modernidade, para a população que vivia isolada na zona rural, era ter abastecimento de água, fornecimento de luz, crédito. Sua visão de mundo não era, certamente, e com muito senso do real, a dos que querem o embelezamento de obras de fachada, ignorando a sorte dos excluídos e das classes oprimidas da sociedade. Arraes entendia bem as angústias, as dores, as mazelas de que são vítimas as massas deserdadas do mundo em que vivemos. Sobre isso, expressou-se muito bem o padre Edwaldo Gomes, de Casa Forte, ao longo da celebração a que presidiu no sétimo dia de Arraes. Na ocasião, padre Edwaldo, usando o Eclesiástico (capítulo 44), lembrou dos que morreram como se não tivessem vivido, concluindo que Arraes vive como se não tivesse morrido. De fato, seu legado de defesa da justiça social, de um nacionalismo autêntico e de valorização de nossa identidade cultural é imperecível.

 
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GNF,CNF
Clóvis Cavalcanti
 
Ah! Friburgo!

GNF! CNF!

O mês de novembro,

com sol, calor

e a saudade que crescia

nas vésperas do fim do ano.

Mas havia maio

com a neblina persistente

e um frio que arrepiava

a espinha.

E junho,

com a fogueira e a batata assada,

a quadrilha

e o frio das montanhas.

Ah! Friburgo!

GNF! CNF!

Só entende essa saudade gostosa

quem viveu lá

e experimentou na carinhosa

década de 50,

um convívio de amizade,

de um colégio interno

que era amado.

"Nas montanhas de Friburgo,

jovens lutamos para vencer"

- dizia o hino do CNF.

E completava:

"Nosso lema é a virtude,

é a saúde, é o saber."

Foi a época de James Dean,

dos boleros dançados no Clube dos 50

e nas festinhas do Científico.

A banda "Papoula" não tinhas guitarras elétricas,

mas tinha bongô,

piano

e um som muito animado.

Éramos adolescentes

de cabelo cortado

e penteado para trás.

Namorávamos as meninas da cidade,

que moravam distante.

Era preciso descer uma ladeirona

para sair das montanhas onde vivíamos

até o vale lá em baixo.

Ladeira difícil,

mas com cheiros de eucaliptos

e pinheiros,

o Castelinho

e uma paisagem venerada.

Ah! Friburgo!

GNF! CNF!

Tantas marcas, tantas recordações.

Tantas tardes, tantos dias, tantas manhãs.

Éramos felizes

- e o sabíamos.

 

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Nós e as Árvores
Clóvis Cavalcanti
 
Isto eu aprendi de meu amigo Cláudio de Moura Castro, que aprendeu, por sua vez, com seu avô, o erudito expert no Marquês de Pombal, Marcos Carneiro de Mendonça, também ex-goleiro da seleção brasileira, em 1919, e que conheci no seu casarão do Cosme Velho, no Rio de Janeiro: uma das penas previstas nas Ordenações Filipinas do começo do século XVII, em Portugal, era o degredo para o Brasil das pessoas que cometiam o crime de cortar uma árvore (em caso de corte de duas árvores, o castigo era degredo na África!). Tendo nascido sob a égide de tal maldição, não se pode esperar do brasileiro de ascendência européia uma atitude mais civilizada diante da natureza (porque os nossos indígenas sempre a tiveram de forma admirável). Os brasileiros, de fato, parecem comprazer-se com a destruição do meio ambiente. Uma vez, andando de barco no rio São Francisco, em 1975, perto de Barra, na Bahia, junto com minha mulher e meus filhos, vi um dentista (pernambucano) exercitar sua pontaria, só para demonstrar sua perícia, em cima de um pobre pássaro que se divertia no galho de uma árvore a certa distância. Ouvimos o tiro de espingarda e ainda percebemos o indefeso animalzinho cair morto nas águas turvas do Velho Chico. Foi revoltante. O gesto assassino do dentista - natural de Caruaru e então morando na cidade de Barra, que matou por matar - provocou enorme mal-estar em um antropólogo inglês, nosso amigo, que desfrutava do mesmo modo do passeio. Foi difícil conter-lhe a fúria e agüentar a companhia, por mais algumas horas, daquele filho de degredados portugueses que, por cometerem crimes ecológicos em sua terra, eram banidos para cá.
Um desses criminosos, provavelmente, terá cortado os dois pés de azeitona frondosos, belíssimos, que tornavam mais gostoso o terreno vazio - de propriedade do espólio do ex-diretor do Patrimônio Histórico em Pernambuco, Ayrton da Costa Carvalho - junto da minha casa em Olinda. Foi no dia 11 de setembro. Eu e minha mulher estávamos em Gravatá. Na nossa volta, no dia 12 (domingo), à noite, encontramos as duas árvores literalmente esquartejadas a serra elétrica, bem no estilo hediondo dos que põem abaixo a floresta amazônica. Aqueles dois espécimes vegetais, que tinham, talvez, mais de cinqüenta anos de idade e que não faziam mal a ninguém, foram destruídos impiedosamente, sem que se saiba exatamente por quê. Se alguém deveria incomodar-se com as árvores, este alguém seria eu, porquanto elas depositavam suas folhas sobre o telhado de minha casa, provocando entupimento de calhas e grandes goteiras quando começavam as chuvas de cada ano. Longe de mim, entretanto, qualquer sentimento de mal-estar pela presença de tão belos - como dizem os matutos - pés de pau. O incômodo das goteiras e da necessidade de removê-las era só um pequeno ônus diante do enorme benefício, inclusive estético, que as árvores proporcionavam. Razão tinha Gilberto Freyre quando, em 30 de dezembro de 1923, escreveu aqui mesmo neste DIARIO: "Em centenas de anos, não aprendemos a sentir o encanto das nossas árvores. Nem o valor. Porque se os sentíssemos, acima de considerações de ordem econômica, estaria o esforço a favor da árvore - da árvore na rua e da árvore ao lado ou em redor das habitações".
Tentei descobrir de onde partira a permissão para a derrubada das azeitoneiras (que também causavam nódoas no meu carro, o que nunca me aborreceu). Apelei para a Prefeitura de Olinda, mas não obtive retorno. Afinal, no sítio histórico olindense, árvore só se abate com permissão do governo municipal. Uma ação como a praticada, por outro lado, não parece ter comovido ninguém que passasse por ali na hora, pois o sensato, neste caso, era questionar a ação (afinal, tudo acontecia num local aberto, à beira da calçada, por onde transitam todo dia numerosos turistas passeando na direção da Sé). Era o caso de chamar a imprensa, de telefonar para a polícia do meio ambiente (Cipoma), para a prefeitura, para os bombeiros, para ONG's ambientalistas. Em um lugar mais tocado pelo sentimento do encanto de nossas árvores, do registro juvenil de Gilberto Freyre, as pessoas deveriam abraçar os pés de azeitona, subir neles, chamar a atenção, enfim, dos que testemunhavam o crime ecológico. Uma legislação dura como as Ordenações Filipinas faz falta nessas ocasiões, para despachar infratores como os deste episódio para destinos no Timor Leste, Serra Leoa ou Ruanda.
Em Gravatá, onde há uma tradição de destruir e podar árvores em que só ficam cotocos de lembrança, atitude de descaso também se observa hoje - como espelho de coisas semelhantes que estão sucedendo no Recife (haja vista o mau exemplo do projeto Eu Vi o Mundo... e seu sacrifício de árvores na praça do Marco Zero) e em todo o país - com a Prefeitura escolhendo para lixão um terreno em ponto de 700 metros de altitude, de onde escorrem águas para inúmeras nascentes nas encostas vizinhas e inclusive na direção de um açude que abastece de água a cidade! Isso chega a ser inacreditável e precisar de uma ação enérgica dos defensores do meio ambiente para que não só se preserve o local, como o próprio suprimento de água de um núcleo urbano tão carente desse líquido. Aliás, também em Gravatá pode-se ver um depósito infecto de lixo amontoado bem juntinho de tanques da Compesa e chafarizes de que se serve a população desprovida de água corrente em suas casas.
Coisas assim não deveriam fazer nenhum sentido. Elas, porém, só tendem a se agravar na medida em que nós, ironicamente, avançamos em graus de desenvolvimento e nos aproximamos de um novo século e de um novo milênio. Enquanto isso, em países como a Costa Rica - que nem exército tem - tomam-se todos os cuidados para a preservação das árvores, da natureza, dos ecossistemas. Lá, por exemplo, é proibido construir qualquer coisa junto das praias. Se o turista vai, por exemplo, a Punta Leona, no Pacífico, onde foi feito o filme Colombo, com Gerard Depardieu, só vê mato à beira-mar. Não há um único vendedor do que quer que seja, nenhuma casa, nenhum hotel. Tudo está oculto a uma distância conveniente e nada dos espigões, que por lá chamam de rasca-cielos. Dar valor à natureza, às árvores, é isso. Não o que fizeram e fazem em Olinda, no Recife, em Pernambuco. Ah, as Ordenações Filipinas!

 

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O Dia da Paz Consumada
Clóvis Cavalcanti
 
As multidões chegam com o nascer do sol,
trazendo cestas douradas de comida, marmitas e farnéis.
E reúnem-se em todas as praças do planeta
(ainda mais floridas para a ocasião).
Há um milhão de pessoas na Praça Vermelha, em Moscou.
São trezentas mil na Praça de São Pedro, no Vaticano.
Mais de dois milhões no Central Park, em Nova York.
Passam das oitocentas mil no ensolarado Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Há umas dez mil no Pau Pombo, em Garanhuns.
São milhares, milhões nas praças de cidades, vilas e lugarejos.
Sempre chegando ao amanhecer desse dia
- dia frio e cinzento aqui, claro e estival ali,
indefinido e morno acolá, fresco e suave no brejo de Gravatá,
barulhento e fervilhante no Parque da Jaqueira, no Recife.
O mesmo dia.
A mesma expectativa.
As mesmas vozes de esperança,
cantando
dançando
confraternizando.
Como se todo mundo comemorasse simultaneamente
em cada canto
uma vitória definitiva de Copa do Mundo.

Velhos fatigados, arrastando antigos sofrimentos,
sustentam expressões de espanto.
Jovens bailam, dão-se mãos e lábios, abraçam-se.
Mulheres e homens amadurecidos na desconfiança
entreolham-se, vêem-se em novas expressões, tocam-se calidamente.
As crianças reafirmam docilmente suas ancestrais inocências.

Há alto-falantes que fazem proclamações felizes
e locutores barulhentos anunciando eventos incomuns
(como a derrubada de todos os muros da vergonha).
Artistas exibem-se em palanques - cantam, sapateiam e bailam.
Há toda a excitação de um magnífico Woodstock universal.
O dia avança e as multidões não param de chegar.
Teme-se pela segurança da reunião concomitante
de multidões tão espessas.
O clima, porém, é de surpreendente ordem.
Como em um vasto, imenso, colossal domingo de Carnaval em Olinda.
Há batuques, palmas e cânticos renovados.
Tocam guitarras e violões, acordeões, trompetes, clarinetes, violinos, flautas.
E há sorrisos, lágrimas, mas nenhuma dor.
A hora é uma só,
a mesma em toda parte,
quando se informa
que esse dia de paz universal
não é um sonho
- e durará para sempre.

 

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Tempo Inexorável
Clóvis Cavalcanti
 
Tempo efêmero,

irreversível,

de força inexorável,

cuja passagem

exaure a vida

- pois a vida é rica

em conteúdo de tempo.

Tempo efêmero,

irreversível,

de força inexorável,

cujas marcas indeléveis

se exprimem em faces vincadas,

em mãos trêmulas

e em funções vitais terminadas.

Tempo efêmero,

irreversível,

de força inexorável,

que não pode ser contido,

nem apreendido

ou visualizado.

Tempo efêmero,

irreversível,

de força inexorável:

parai um instante, ó tempo,

para que possamos entendê-lo!

 

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Guerra ou Paz?
Clóvis Cavalcanti
 
Eu estava em Washington, capital dos EUA, até às 20h da última segunda-feira, quando de lá saí pela United Airlines. Nunca imaginei que, quando chegasse ao Recife, às 14h do dia seguinte, fosse encontrar tamanho clima de convulsão em virtude dos horríveis atentados terroristas cometidos nos Estados Unidos. Somente aqui é que fiquei sabendo do que havia acontecido, pois na conexão em Guarulhos (após viagem tranqüila) nada transpareceu até à hora do novo embarque, às 11h, nem do assunto se falou no vôo da Varig (também tranqüilo) que tomei. Vendo depois na televisão, pela CNN, o que estava se verificando, com Manhattan ferida e coberta por denso manto de poeira, fiquei ainda mais chocado. No entanto, não chegou a ser surpresa extraordinária para mim saber de tamanha tragédia, tendo em vista o clima de violência crescente que se arma em todo o mundo, sem que se trabalhe no plano ético ou de valores para contê-lo. Surpresa, sim, foi perceber a vulnerabilidade do sistema de defesa americano – que sabe que tem muitos inimigos em toda parte –, ao não conseguir impedir que, 35 minutos depois do segundo atentado ao World Trade Center, algo semelhante acontecesse justamente com o Pentágono, sua imponente sede.Em Washington, eu tinha participado de um congresso de latino-americanistas, onde temas ligados à situação do continente foram tratados, inclusive a globalização. Ficou patente aí, como tem acontecido em fóruns semelhantes, como estamos vivendo em um mundo que se empobrece e se mostra cada vez mais socialmente injusto. O resultado são manifestações de violência e intolerância, aguçadas pelo consumismo desenfreado, que faz com que acumular bens termine se tornando a finalidade da vida. Como a maioria das pessoas, hoje com acesso irrestrito à televisão e suas mensagens materialistas de posse e acumulação de riqueza, não consegue atingir níveis de renda que lhes abram as portas para o paraíso do consumo, o resultado são reações de insatisfação, de agressão e brutalidade. É incrível, na verdade, como toda a sociedade se embrutece e a violência se banaliza. No caso dos aviões que foram atirados contra os prédios nova-iorquinos e seu conseqüente desmoronamento, o que a televisão procurava ressaltar era um espetáculo de efeitos telegênicos. Não ouvi ninguém comentar, junto com as cenas mostradas, que, ao ruir um edifício com o impacto de um Boeing, o que estava acontecendo era a morte trágica sob a ocultação de paredes, fogo e fumaça, de milhares de pessoas em desespero. A esse propósito, li no New York Times do dia 11 o comentário de uma senhora, sobrevivente do primeiro edifício a tombar, relatando que, ao sair do prédio, foi avisada, de forma insistente, pelos policiais para não olhar em volta. De relance, porém, ela tentou ver o que acontecia. Foi somente quando, imaginem!, se deu conta da tragédia: espalhados ali, havia pedaços de corpos, cabeças soltas, troncos e membros cortados. Essa é um medida de nossa alienação. Não conseguimos ver o que está acontecendo por detrás da cortina enganosa de nossa realidade. Por essa razão é que ninguém se revoltou com a devida indignação contra o genocídio ocorrido em Ruanda em 1994. No entanto, lá, em valores absolutos e proporcionais, a brutalidade que teve lugar atingiu cifras muito mais aterradoras do que em Nova Iorque.Em Washington, na segunda-feira, enquanto esperava o avião, li no jornal Washington Post duas notícias de insensibilidade humana no país que me assustaram. Uma foi de uma mulher que parecia querer suicidar-se ameaçando atirar-se de uma ponte. Dizia o jornal que, nos carros que passavam, os motoristas, ansiosos por um espetáculo ao vivo qualquer que fosse, davam gritos de incentivo à mulher para que se jogasse, o que terminou ocorrendo (mas a mulher foi salva por alguém). A outra notícia era de uma adolescente negra e pobre, vítima de pronunciada escoliose, que, em 1992, foi deixada pela família no sistema de saúde para que dela cuidassem. Internada por sete anos, até que morreu por asfixia numa cadeira de rodas, com o corpo em forma de um L de cabeça para baixo, as únicas visitas que recebeu foram do serviço social, no inacreditável número de duas! Assistência médica foi lhe dada uma sóvez, na sua chegada ao abrigo, ficando o médico que a atendeu de voltar para aplicar-lhe tratamento adequado, o que jamais ocorreu. A saga cruel dessa menina estava descrita no jornal em longa matéria, com todos os detalhes possíveis.Os Estados Unidos, em muitos sentidos, são um país admirável. Todavia, são também uma terra de insensibilidade, rudeza e arrogância e de valores dominados pelo dinheiro, com os quais espalham sua influência pelo planeta (globalização, para muitos, é americanização). Isso termina se reproduzindo nas esferas governamentais. Neste exato momento, por exemplo, há um conflito entre duas tendências do governo W. Bush (ressaltada pela revista Time do último dia 10) – a do secretário de Estado, Colin Powell, centrista e multilateralista, em desvantagem, e a que está ganhando a parada, de um grupo comandado por Condoleezza Rice, assessora de segurança do presidente, que pende para o unilateralismo. Resultado disso é o isolamento do país, sua visão de policial do mundo, sua desconfiança de todos. Segundo a Sra. Rice, falando dos EUA, “dado nosso particular papel no mundo, temos a obrigação de fazer o que julgamos que é direito”. Foi assim na renúncia ao protocolo de Kyoto. Estará sendo assim na reação ao terrorismo dos últimos dias. Para onde nos levam: guerra ou paz?
 

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Meio Ambiente, Vida, Bem-estar
Clóvis Cavalcanti
 
No dia 29 de março deste ano aconteceu a que parece haver sido a maior tragédia ambiental do país até hoje. Apesar disso, o fato mereceu uma atenção muito abaixo da seriedade do desastre, indicando como as questões ambientais no Brasil não conseguem ainda ocupar, como deveriam, o foco de nossas preocupações. Naquele dia, rompeu-se um reservatório de rejeitos químicos de uma fábrica de papel da cidade de Cataguazes, em Minas Gerais, lançando a assustadora quantidade de 1,2 bilhão de litros de água contaminada no rio Pomba, afluente do Paraíba do Sul. Para efeito comparativo, lembre-se que o derrame de petróleo da Refinaria Duque de Caxias, da Petrobras, na baía da Guanabara, em janeiro de 2000, foi de 1,3 milhão de litros (ou seja, quase mil vezes menos). Após o acidente de Cataguases, a televisão mostrou uma assustadora e gigantesca espuma branca, resultado da reação dos produtos tóxicos do reservatório, nada menos do que cloro e soda cáustica (quando se usa soda cáustica para desentupir pia tem-se que usar luvas, como mandam as instruções da embalagem do produto), que avançava impiedosamente e de forma rápida pelo rio Pomba. No seu rastro, a mancha foi matando e destruindo ao longo de 200 km de rios e, depois, de 100 km de costa. Morriam peixes, pássaros, capivaras, cães, gatos, patos, bois e milhões de microrganismos que compõem o que resta do elenco de biodiversidade na região. Cidades ficaram privadas de seu regular abastecimento de água, pescadores não puderam – e continuam sem poder – realizar suas atividades, moradores da zona ribeirinha tiveram que se conformar com uma visão de inferno que não esperavam em vida. Quatro horas depois do acidente, os rejeitos químicos já haviam dizimado mais de 2,5 milhões de peixes etiquetados (anilhados) a partir de 1998 pelo Projeto Piabanha (de reconhecimento internacional), para estudo da fauna fluvial da região.

O baixo interesse revelado por um evento tão lamentável parece dar razão ao físico Fritjof Capra, que propõe a realização de nossa alfabetização ecológica. Com efeito, embora todos gostem de um ambiente saudável para levar a vida e ninguém de sã consciência imagina passar dias de descanso no meio de uma rua de trânsito congestionado ou junto de uma fábrica de cimento, o fato é que ninguém se questiona quanto à forma como nossos recursos ecológicos são utilizados. Talvez isso fosse compreensível em 1900, digamos, quando os seres humanos podiam explorar os recursos naturais, desmatar, jogar lixo e resíduos químicos nos rios (como faziam as usinas de açúcar de Pernambuco com suas caldas mal cheirosas), soltar gases tóxicos na atmosfera, etc., sem esperar grandes modificações ambientais. A Terra então era grande demais em relação à população (em 1900 só havia 1,5 bilhão de pessoas no planeta, contra 6,2 bilhões hoje) e a atividade econômica global era 30 vezes menor que a de 2003. Segundo cálculos de 1986 do biólogo de Stanford, universidade da Califórnia, P. Vitousek, e colaboradores, a presença humana já consome mais de 40% da biomassa terrestre (incluindo os oceanos, a fração cai para 25%). Isso quer dizer que generalizar para todo o planeta o padrão de uso atual dos recursos naturais significa uma impossibilidade. Estamos esbarrando em limites.

Mas quem é que está preocupado com limites ao crescimento econômico – e por isso não tem pejo em usar e abusar do meio ambiente, comprometendo a vida tanto do ponto de vista da qualidade quanto da quantidade? Gilberto Freyre, nas suas reflexões sobre o que ele chamava de rurbanização, desde 1952, já advertia para o fato de que à mística do crescimento das grandes cidades se deveria contrapor “a mística de que tais crescimentos estão se fazendo acompanhar de tal modo de desequilíbrios ecológicos, através dos efeitos de crescentes poluições, de crescentes desajustes entre o suprimento de alimentos e aumento de populações urbanas, de crescente devastação, por empreendimentos urbanos descontrolados, de recursos naturais, que é realmente preciso parar o crescimento desordenado”. Infelizmente, a grande maioria dos indivíduos vê a natureza como uma dispensa inesgotável e lhe parece insuportável lidar com a idéia de limites – seja do crescimento urbano, seja de qualquer outro tipo. Tende a prevalecer a lógica produtivista, que guia o sistema econômico em toda parte, de que produzir sempre mais é bom, ao lado da cultura do consumo que transforma as pessoas em zumbis do desejo de ter mais e mais. Conseqüência disso é a injustiça ecológica, marcada pela depredação inexorável dos ecossistemas, com a simultânea geração de injustiça social, através de desigualdades indecentes que fazem de uns poucos consumidores vorazes do supérfluo e da grande maioria, excluídos de um mínimo decente de satisfação de necessidades. Essa realidade se exibe com toda crueza no último relatório anual, recém-publicado, da ONG americana Worldwatch Institute, Estado do Mundo 2003, segundo o qual (contra o que pensa o governo dos Estados Unidos) são patentes as tendências alarmantes da pobreza, da doença e da ruína ambiental no mundo.

Ao término de mais uma Semana do Meio Ambiente (dia 5 foi o “Dia Mundial da Ecologia e do Meio Ambiente”), só nos resta esperar que a idéia de F. Capra da ecoalfabetização se transforme em realidade e as pessoas despertem para o fato de que não existe sociedade que valha a pena, nem economia, com um ecossistema doente, mal tratado e sujeito a desgraças como a do rio Pomba.

2003
 
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Ganância Infecciosa
Clóvis Cavalcanti
 
Alan Greenspan, o presidente do Fed, forma abreviada de chamar o Banco Central dos Estados Unidos – que lá tem a denominação de Federal Reserve Board –, cunhou há duas semanas a expressão “ganância infecciosa”. Estava prestando seu depoimento semestral ao Congresso americano e referia-se à crise do capitalismo suscitada por empresas vilãs como a Enron (dona da nossa Embratel), a WorldCom, a Xerox, a Andersen (que está fechando as portas) e outras que utilizam procedimentos escusos para camuflar prejuízos e enganar acionistas e investidores na bolsa. A expressão que empregou foi “infectious greed”, que pode significar também cobiça ou voracidade infecciosa, como advertência de que um capitalismo assim contaminado põe em risco sua sobrevivência. A expressão me fez lembrar sugestivos versos do Romanceiro da Inconfidência: “Quando a sede de ouro / é sem cura e por ela subjugados / os homens matam-se e morrem, / ficam mortos, mas não fartos”. Do mesmo diapasão é um juízo de Gandhi, o Mahatma: “O mundo pode prover para a necessidade de todos, mas não para a cobiça de cada um”. Será que opiniões que procedem de fontes tão distintas não podem ensinar alguma coisa diante dos problemas que o Brasil e muitos países enfrentam hoje?
Na verdade, é espantoso como um país como o nosso, de tanto potencial, com tanta coisa feita – apesar de ainda muito lhe faltar –, com a décima economia do planeta e outros predicados mais, seja levado a situações de quase insolvência como a que se desenha hoje. O Brasil não foi fragilizado. Sua inflação se mantém em níveis próximos dos ideais, depois de vencer-se a cultura inflacionária de décadas de descontrole de preços. Não há ameaça de calote da dívida por parte do governo, nem dos candidatos viáveis na disputa pela presidência da República. Algo, portanto, mais além de nossa capacidade de produzir, de gerar emprego e renda, de prover para as necessidades da população está por trás das angústias que se vivem no dia-a-dia, com a disparada do dólar e a do risco-país. Algo da natureza do problema manifesta-se em certos indícios. Um deles se refere ao “ajuste fiscal”, nunca finalizado, porque não parece haver limites para o aperto do cinto. Há pouco, o governo decretou medidas de mais austeridade num esforço para se alcançarem (ou superarem) metas acordadas com o Fundo Monetário Internacional (FMI), condição para se receber socorro em face do ataque especulativo de que o país é vítima. E o que se fez? Cortou-se, por exemplo, no orçamento da merenda escolar – o dinheiro da comida das crianças pobres –, nos gastos em ciência e tecnologia (onde está nosso futuro), etc. Na área científica, o corte foi brutal: 42 por cento dos dispêndios previstos. Tudo para que se assegure um só coisa, o pagamento de juros ao sistema financeiro internacional.
No entanto, faz anos que o governo arrecada em impostos muito mais do que gasta em salários, custeio, investimento. Ou seja, tem superávit primário – e em níveis apreciáveis. Como a lei não prevê nem admite a compressão dos gastos com pagamento de juros, faz sentido chamá-la de “Lei da Responsabilidade Fiscal”? Talvez melhor seria chamá-la, como sugere César Benjamim, da Coordenação Nacional do Movimento Consulta Popular, de “Lei da Prioridade de Uso de Recursos Públicos para Pagamento aos Bancos" ou outro nome mais realista e honesto. Responsabilidade fiscal não significa somente não fraudar o direito dos credores, mas também o de toda a população, especialmente dos segmentos mais necessitados. Não faz sentido para país soberano algum possuir leis que tornem intocáveis os ganhos do sistema financeiro, à custa do bem-estar humano da população. Isso só acontece porque o lobby das finanças é muito mais poderoso do que qualquer outro. O castigo de quem “não age direito”, dizem seus porta-vozes, é a condenação dos caloteiros à desgraça eterna, ao fechamento de todo crédito e do acesso ao investimento estrangeiro direto. Será que isso é verdade? Não se trata de embuste? Afinal, o investimento estrangeiro direto, nome que se dá ao capital que é aplicado produtivamente, nunca deixou de ir para países como Vietnã, Sudão, Irã, Nigéria, etc., que não mostram sequer a sombra do nosso desempenho econômico. Tal capital aceita certos riscos; não é como o dinheiro volátil, virtual, especulativo que voa de um lugar para outro com enorme rapidez, o dinheiro de que ficamos justamente cada vez mais à mercê.
Em agosto de 1998, diante de uma situação gravíssima, com corrida bancária, a Rússia fez o impensável: suspendeu o pagamento da dívida, fechou seu mercado de capitais. Esperava-se o desastre como conseqüência (e ele quase aconteceu, mas não na Rússia, e sim nos Estados Unidos, devido à exposição de um fundo de investimento de alto risco, o LTCM, à crise. O problema foi sanado na undécima hora por intervenção do Fed). Houve um primeiro momento de sérias turbulências na economia russa em 1998. Todavia, ela hoje se acha em situação menos angustiante que a brasileira, apesar de sermos bons pagadores das dívidas (a de 1999, contraída com o FMI em face do ataque especulativo de então, foi saldada antes do prazo do vencimento). O PIB russo está crescendo atualmente a 3,7 por cento ao ano, a balança comercial do país tem superávit de 43 bilhões de dólares (graças à alta do preço do petróleo), suas reservas internacionais são de 40 bilhões de dólares (as brasileiras são de 33 bilhões). Não parece haver razões tão sérias, pois, para pânico no nosso caso. Devemos, sim, tomar decisões soberanas, de acordo com o interesse nacional. E enfrentar essa “ganância infecciosa” que está minando o próprio capitalismo americano. Eis aí o desafio.

"Diário de Pernambuco" 04 de agosto de 2002
 

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Reverenciando o Meio Ambiente
Clóvis Cavalcanti
 
Como acontece todos os anos, no dia 5 deste junho comemorou-se o Dia Mundial da Ecologia e do Meio Ambiente. O que não impede que homenageemos a biosfera maravilhosa e ímpar que nos abriga em todos os outros dias do calendário. Afinal, é isso o que faziam os indígenas que ocupavam o Brasil - ou Pindorama - desde milênios, quando os portugueses aqui chegaram. Nesse sentido, temos muito o que aprender com os nativos habitantes do País, que foram capazes de nos legar um patrimônio natural único e que, apesar de toda a destruição de quinhentos anos de história ocidental, ainda tem coisas grandiosas a oferecer. Uma característica da vida das populações que habitaram o Brasil desde tempos imemoriais (e que ainda teimam em sobreviver em alguns lugares da Amazônia, no mesmo estágio em que Pedro Álvares Cabral as encontrou) é de formarem grupos sociais de "lixo zero". Não que os índios - como os Caeté que viviam em Olinda - não produzissem lixo. Produziam. Mas nada que se compare, por exemplo, com os plásticos, o piche, o metal que emporcalham nossas praias - produtos, esses, da moderna "civilização". O que os indígenas geravam era lixo biodegradável, reciclável, que não se amontoava em espaços de convivência ou aterros sanitários. Esse é um princípio conservacionista que, lamentavelmente, não conseguimos incorporar à maneira de viver ecologicamente imprudente, malsã e dilapidadora dos recursos naturais que é a nossa.


Para dar conta do modo predatório de utilização do planeta, há dez anos (depois da Eco-92) se passou a empregar a noção de "desenvolvimento sustentável" como paradigma de uma sociedade em harmonia com o meio ambiente. A propósito desse assunto, em palestra que dei segunda-feira última em Gravatá - onde, desde 1997, por iniciativa da ONG Associação dos Amigos do Meio Ambiente, a AMA-Gravatá, se realiza nesta época do ano a Semana do Meio Ambiente (minha palestra foi a de abertura do evento) -, um jovem que a assistia me perguntou em que medida se está adotando a noção de "desenvolvimento sustentado" em Pernambuco. Expliquei-lhe que, primeiro, considero o conceito de desenvolvimento sustentado incorreto, preferindo a versão do "sustentável", que dá idéia de coisa ainda a ser alcançada. Em segundo lugar, comentei que há uma distância entre a compreensão da sustentabilidade, o discurso que a utiliza e as ações práticas que dão sentido à idéia. Na verdade, ninguém mais fala de desenvolvimento que não seja o sustentável. Só que a retórica dessa conversa, igualando desenvolvimento (que é evolução, progresso, transformação) a crescimento econômico (que é expansão, aumento, elevação do PIB), termina entrando em conflito visceral com a imposição de limites ecológicos que a concepção - que é das ciências da natureza - da sustentabilidade significa. Do ponto de vista biológico (e a sociedade e a economia são fenômenos da vida), é impossível haver crescimento sustentável.


Para se assimilarem rigorosamente os princípios do desenvolvimento sustentável, é preciso uma reeducação da sociedade, de suas elites, de seus técnicos, de seus dirigentes, de seus jornalistas. Nós fomos formados no sistema escolar sob a presunção de que a natureza pode ser manipulada impunemente pelo homem, que será capaz de consertar seus enganos através da ciência e da tecnologia. Isso é uma grande tolice, simplesmente porque, por exemplo, inexiste substituto para o recurso água doce (a salgada é outro tipo de líquido, que não se transforma facilmente naquele). Como tampouco inexiste substituto para o admirável processo da fotossíntese, essencial para que você e eu, entre tantas outras coisas, possamos estar lendo este jornal. Ninguém quer admitir que a economia moderna deva ser submetida a limites, embora não se precise ser gênio para perceber que nenhum país pode crescer durante 20 anos a um ritmo exponencial de, digamos, 20% por ano. Entretanto, é corriqueira, no discurso prevalecente de políticos e dos técnicos que os assessoram, a associação entre expressões de defesa do desenvolvimento sustentável e propostas de um crescimento do PIB da ordem de 5% ao ano.

Sobre isso, o sábio ecologista José Lutzenberger, cujo falecimento há menos de quatro semanas representou perda enorme para o Brasil (é próprio dos sábios viver na obscuridade), escreveu percucientes reflexões no prefácio de A Economia do Século XXI, livro de 1984 do americano Herman Daly que todos os que querem entender o desenvolvimento sustentável deveriam ler (como deveriam ler também o notável trabalho do biólogo paulista Samuel Murgel Branco, de 1989, Ecossistêmica: uma Abordagem Integrada dos Problemas do Meio Ambiente). Nas palavras de Lutzenberger, a expansão econômica de forma exponencial é típica de "sistemas ... inerentemente insustentáveis" que "terminam, inevitavelmente, em colapso ou desastre" (caso da bola de neve). Alguém, em sua santa ignorância, pode alegar "mas isso é na natureza". Sim, é na natureza. Da qual todos nós, pessoas, artefatos, sociedades, economias, fazemos parte. Não há como fugir a essa realidade. Assim, é mais do que justo que nos preocupemos com a ecologia e o meio ambiente não apenas no dia 5 de junho, mas em todos os dias do ano. Como, aliás, sempre fizeram os primitivos habitantes do Brasil - pessoas de quem Pero Vaz de Caminha, admirado, disse serem "tais e tão rijos e tão nédios que o não somos nós tanto, com quanto trigo e legumes comemos", com corpos "tão formosos, que não pode ser mais". Essa gente sabia conviver com a natureza e reverenciava o meio ambiente. Aprendamos com ela.

2002
 

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Viva o Brasil!
Clóvis Cavalcanti
 
Para quem admira o futebol - a despeito de tudo de ruim que se faz à sua volta - nada melhor do que chegar à Europa no dia seguinte ao de uma conquista definitiva do Brasil como a de Yokohama. Foi o que aconteceu comigo segunda-feira passada. Deixei o Recife na noite do domingo e desci em Madri com a alegria de ver nas bancas do aeroporto tudo o que é jornal ostentando nosso verde-amarelo nas primeiras páginas. O júbilo se multiplicou mais tarde quando cheguei no meu destino, Lisboa, e os ecos da conquista do Penta eram ainda mais intensos. A bordo dos aviões, já vira muita gente com a camisa da seleção e eu próprio viajei de paletó verde, camisa azul, gravata amarela e calça cáqui, provocando de uma funcionária do aeroporto de Guarulhos o comentário de que deveria estar com calça branca. Aliás, no embarque do Recife, encontrei meu amigo e senador José Jorge, que, por debaixo de seu terno azul-marinho, ostentava uma camisa pólo igual à de Felipão Scolari, com cinco estrelas verdes encimando o escudo da CBF. A providência de bordar a quinta estrela, confiantemente, fora tomada na véspera da final da Copa.

Essa confiança na vitória brasileira eu também tinha. E a razão para isso era dupla. Por um lado, a percepção de que o time brasileiro, do ponto de vista humano, estava coeso, integrado como uma família. Isso, certamente, é bom em qualquer ciscunstância da vida, sobretudo quando a emoção tem papel fundamental a desempenhar. Por outro lado, a seleção canarinha cresceu visivelmente ao longo da competição, do mesmo modo que em 1958 e 1970, quando os técnicos fizeram experiências ao longo da competição (Garrincha e Pelé, por exemplo, não foram lançados de saída na Copa da Suécia). Ademais, Scolari mostrou-se muito consciente de seu trabalho, adotando uma estratégia chinesa tradicional na administração das partidas disputadas. De fato, como a Folha de São Paulo do dia da final anotava, o livro de cabeceira de Felipão estava sendo A Arte da Guerra, do filósofo chinês Sun Tzu (ou Sunzi bigfa), escrito por volta de 500 a.C. Nessa obra se lê que "Aquele que quiser aproveitar uma vantagem, toma uma rota tortuosa e distante e faz dela o caminho mais curto. Transforma a desvantagem em vantagem". E: "alcançar uma centena de vitórias numa centena de batalhas não é a excelência suprema. Submeter o inimigo sem combater é a excelência suprema". Esse não é um procedimento cartesiano, mas funciona mesmo. Foi visível, por exemplo, o domínio alemão na primeira metade do jogo de domingo passado. Mas quem realmente ameaçou fazer gol - e venceu - foi o Brasil.


Desse modo, terminou-se chegando à vitória (freyriana) indiscutível da criatividade e do espírito alegre sobre a máquina e a organização burocrática (e do moreno sobre a superraça). Na verdade, a Alemanha foi até melhor contra o Brasil do que, por exemplo, quando venceu os Estados Unidos (numa partida que tirou por duas horas o chanceler Gerhard Schroeder de uma reunião de cúpula européia, em Sevilha). Mas em nenhum momento ameaçou a superioridade (algo zen) do Brasil. Tem-se dito que ganhamos por causa de lances geniais de Ronaldinho Gaúcho, Rivaldo, Ronaldo. Mas isso só ocorreu porque, além do nível excepcional de nossos jogadores, houve quem indicasse o caminho da paciência, da espera pelo momento certo - como na bela e fulminante arrancada de Ronaldinho no jogo com a Inglaterra - para então golear. Sempre achei que Felipão devia ser o técnico e fui completamente favorável à (justa) exclusão de Romário. Enganei-me, porém, ao achar que Ronaldo não tinha condições (inclusive psicológicas) de ir para a Copa da Coréia e Japão. Sua miraculosa recuperação, certamente, tem a ver com o ânimo que Scolari lhe injetou (como injetava em todos nós, simples torcedores). Quem podia perceber que estava em curso tal processo de mudança?


São de toda justiça as homenagens que estão sendo prestadas à seleção. As medalhas que o presidente Fernando Henrique lhe concedeu possuem bem mais merecimento do que muitas que o governo distribui de vez em quando. Os jogadores brasileiros, de forma honrosa, expuseram o País na vitrina mais globalizada de qualquer evento que se realize no planeta. Já depois do jogo da semi-final com a Turquia o site da BBC britânica na Internet dizia que o Brasil tinha sido brilhante. E foi. Não concordo quando se diz que a Copa de 2002 foi fraca tecnicamente, como o fez Maradona, quase desmerecendo totalmente nossa conquista (ele chegou a declarar que a Copa não deveria ter campeão!). Acompanho as copas desde 1950 e a última me proporcionou tanto prazer como a de 1970 (a de 1994, com retrancas nossas e de outros, como a de 1974 também, não me empolgou). A esse respeito, articulista de El País (Madri, 1o.7.02), Ramón Besa, salienta que inexiste uma vara para medir a qualidade do futebol e que, nessas ciscunstâncias "os gois valem igual em toda parte". Por sinal, toda a edição de El País da última segunda-feira é uma exaltação, em mais de dez páginas, ao futebol brasileiro, culminando com a manchete "Ronaldo, rey del mundo". A visão é completada pelo francês de Le Monde, Aimé Jacquet, no seu artigo de segunda-feira, "Um lindo mundial", afirmando - depois de fazer algumas críticas aos negócios do futebol (e são tantas as merecidas, inclusive quanto ao nosso glorioso, mesmo destroçado, Sport Club Recife): "não estraguemos o prazer. Esta foi uma linda Copa do Mundo e dela ficarão grandes recordações". Sou da mesma opinião, ainda mais diante do belo gesto dos turcos quando terminou seu grande jogo com a Coréia na disputa pelo terceiro lugar. O Brasil depois foi excepcional. Viva o Brasil!!!

2002
 
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Triste Espetáculo
Clóvis Cavalcanti
 
Millôr Fernandes, em seu inconfundível estilo, publicou caricatura no Jornal do Brasil do dia 18 deste mês com cena de propaganda eleitoral de rua. No desenho, uma miríade de cartazes de todo tamanho enche o espaço de algum logradouro urbano do País. São caras e mais caras rindo escancaradamente, junto de numerações de candidatos e raras letras (aparece muito a palavra “Eu”). Embaixo, a legenda, retirada de conhecida marchinha de Zé Keti e Pereira Matos (Redi), “Quanto riso, quanta alegria, mais de mil palhaços no salão”. Na verdade, essa é a sensação que se tem, olhando tantas faces risonhas (existem as exceções, algumas de bom gosto) nos cartazes de postes, nos mal-chamados (porque esse substantivo não existe no inglês, de onde supostamente foi retirado) outdoors e em outros tipos de material de propaganda. Que necessidade têm os políticos de se exibirem como animadores de auditório ou seguindo algum estereótipo de beleza (num “campeonato de narcisos”, segundo Roberto DaMatta)? Pequeno criador de gado em Gravatá me disse que se sentia revoltado com tantas pessoas rindo, como se “mangassem” das que lutam para sobreviver dignamente. Ora, Millôr deve ter tido como referência de seu desenho o Rio de Janeiro. Mas lá, o quadro da propaganda eleitoral exibe muito mais sobriedade do que o observado na Região Metropolitana do Recife. Percebi o contraste em visita que fiz ao Rio há menos de duas semanas. Na praia de Copacabana e em quase toda Zona Sul carioca são raríssimos os tais outdoors, verdadeira praga, porém, aqui em Pernambuco.

Há algum tempo que se discute a necessidade de disciplinamento rigoroso do uso da paisagem para fins que negam completamente a oportunidade de apreciação pelos cidadãos da beleza de muitos de nossos lugares. Justamente revoltado, o pintor Marcos Cordeiro comentava comigo recentemente o mal-estar que lhe causa ser obrigado a contemplar o triste espetáculo da usurpação do espaço pelos outdoors (no momento, em sua maioria, de políticos em campanha). De fato, não é possível tolerar que particulares se sirvam de bens públicos – como é o caso da paisagem, do visual de nossas cidades – para fins totalmente privados, de benefício e satisfação de interesses de uns poucos. Há casos de exagero ainda maior de certos candidatos, que se expõem ridiculamente com seus rostos sorridentes em tudo quanto é lugar possível – levando-nos à pergunta óbvia de onde é que vem tanto dinheiro, nesta época de penúria, para o festival de cartazes que podem expor desbragadamente. No meu entender, esses políticos, que pouco se tocam no sentido de respeitar bens públicos, são os mesmos que toleram outras formas de destruição do meio ambiente. Entre estas, a dos edifícios descomunais que se constroem por todo lado, deformando completamente o perfil elegante de lugares como a Av. Beira-Rio, Casa Forte, Espinheiro, etc.

Nesse aspecto, o exemplo carioca deveria nos servir de orientação. Lá, graças a iniciativas que envolvem associações de moradores, o prefeito César Maia e seu secretário de Urbanismo, Alfredo Sirkis (do Partido Verde), limitou-se drasticamente a construção dos detestáveis espigões em certas áreas como Jardim Botânico, Gávea, Leblon e Botafogo. As empreiteiras terão a lucratividade reduzida, mas a sociedade, de quem partiu a medida de contenção, irá beneficiar-se. Essa compreensão é que está por trás do movimento deflagrado pelo Fórum de Entidades Ambientalistas de Pernambuco (Feape) há dois meses, apoiando os Ministérios Públicos Federal e Estadual na defesa de uma lei (a de número 4.771/65, o chamado Código Florestal) que a própria Prefeitura do Recife estava desrespeitando na aprovação de edificações. Igual entendimento move a crítica que se faz aos horríveis (até no nome) outdoors. Estes deveriam ser banidos de certas áreas – e sobretudo de estradas e de vias de maior tráfego, como, aliás, acontece no mundo civilizado (caso mesmo de Portugal).

A cineasta portuguesa Isabel Stilwell, falando sobre Almodóvar, em artigo no Diário de Notícias de Lisboa de 7 de julho último, enunciou algo que vem ao caso: “O bonito gera o bonito, o bom gera o bom, o inteligente desenvolve a inteligência. Não é politicamente correto dizê-lo, mas é verdade. E explica muita coisa na vida. Resolve, por exemplo, aquela discussão eterna para se apurar se a televiolência e o telelixo, como o Big Brother, Masterplan e quejandos, fazem ou não mal às pessoas. Hoje tenho a certeza de que fazem, de que aquela história da influência das ‘más-companhias’ estende-se aos maus-filmes, às más-experiências, ao mau-urbanismo, às más-relações”. Certamente, o descuido estético de nossas cidades – que levou a grandes perdas arquitetônicas, como as registradas no caso de Gravatá por seu ilustre historiador Alberto Frederico Lins em denúncias pungentes – termina levando à destruição que os grafiteiros fazem na calada da noite. Estamos, com efeito, à mercê de três tipos de inimigos da paisagem. Dos especuladores imobiliários e seu desprezo pela herança arquitetônica. Dos donos de painéis de propaganda (não só eleitoral, registre-se). E dos pixadores de muros, monumentos, fachadas, portas, etc., que sequer revelam em seu “trabalho” qualquer pendor artístico que agrade ao espírito. A situação exige cuidados intensos – como os que César Maia e Alfredo Sirkis estão tendo no Rio de Janeiro. Exige reações vigorosas – como a da Feape e Ministério Público em Pernambuco. Exige providências concretas, enfim, logo, logo, antes que nada mais reste além do triste espetáculo que nos é oferecido agora.

 
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O Valor da Vida
Cóvis Cavalcanti
 
Somos lances da vida permanente:
desde sempre nascemos de ancestrais
e nos perpetuamos nos que nos seguirão,
sejam filhos e netos nossos
ou os que descendem de nossa geração.

Dessa forma, não morremos:
iremos continuar existindo
nos circuitos contínuos da Natureza,
nos fluxos que realimentam a terra a todo instante
e conservam para sempre matéria e energia.

Disso sabemos da física,
da ecologia e ciências biológicas.
Não há pois por que temer a morte,
que é sempre um acorde inevitável
da sinfonia da vida permanente.

A vida não se acaba:
há tão-só transformação,
como a madrugada sucedendo à noite,
as plantas que rebrotam na mata que queimou
ou a água evaporada que a chuva traz de volta.

A vida consciente dura breve instante da eternidade,
mas viveremos sempre, sem o sentir,
nas insondáveis entranhas da Natureza
em perpétua e diuturna transformação.

É a vida plena – vida bela
e mistério de infinitíssimo valor.

Recife, dezembro de 2001.


 

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Uma Educação Excepcional
Clóvis Cavalcanti
 
Há cinqüenta anos, foi inaugurado pelo Presidente Eurico Dutra, em Nova Friburgo, RJ, um internato de ensino secundário, o Colégio Nova Friburgo (CNF), de propriedade da Fundação Getúlio Vargas. A iniciativa resultou de projeto concebido pelo presidente da FGV, Luiz Simões Lopes, inspirado em internatos ingleses para meninos (como o do filme A Sociedade dos Poetas Mortos). Tentando adaptar a instituição às condições brasileiras, Simões Lopes, juntamente com a educadora Irene de Mello Carvalho, imaginou uma escola onde houvesse clima de ampla liberdade, com auto-disciplina dos jovens, professores selecionados através de processos rigorosos, em escala nacional, e vida comunitária em ambiente semelhante a um campus universitário, onde morassem não só os estudantes, mas também os professores e demais funcionários da escola. Em 1952, depois de passar por um exame de seleção nacional, fui para lá, com 11 anos de idade, fazer o admissão (que durava um ano todo). Longe de minha família, residente em Pernambuco e que eu via nas férias, nunca me senti deslocado no ambiente do CNF, em que fiquei até concluir o científico (em 1959).

A escola tinha uma localização privilegiada, quase 200 metros acima da cidade de Nova Friburgo, rodeada de montanhas, em 400 ha de área privada sua, com fontes de água próprias, belos jardins e um prédio central em estilo normando, lembrança em pequena escala do Hotel Quitandinha, de Petrópolis. Dispondo de um edifício para atividades esportivas em ambiente fechado (o lugar era muito frio, com temperaturas no inverno que chegavam a 2ºC), a escola contava ainda com campo de futebol e atletismo e quadras e piscinas ao ar livre. Compondo uma pequena vila, margeavam o campus do educandário, bem no sopé de suas elevadas montanhas, residências de muito boa feição, confortáveis, com lareiras, onde viviam os professores casados, além de outras casas, mais simples, dos funcionários administrativos do colégio.

Se o cenário era extraordinário – como podem comprovar os pernambucanos que lá estudaram, a exemplo de meu irmão Cláudio, Fernando Freyre, Luiz Carlos Freyre, Gustavo Queiroz, José Almino e Guel Arraes, Antônio José Lemos, Jorge Gomes Barros e muitos outros mais –, a educação que nele se oferecia só pode ser classificada com uma palavra: excepcional. Não que o Colégio tivesse o propósito de preparar gênios ou pessoas superdotadas. A questão é que, dentro de uma vida que, hoje, em retrospecto, parece claramente a de um hotel de muitas estrelas (dispúnhamos de muitas mordomias), tínhamos aulas e orientação extra-curricular, realizávamos práticas esportivas, etc., em nível da melhor qualidade. Era tempo integral de educação (que entrava pela noite, nos "estudos"). O Colégio possuía um sistema em que chegávamos numa segunda-feira à tarde, tendo-se aulas de terça a sábado (das 8h às 18h, com intervalos, é óbvio). No domingo, pausa, retomando-se o ritmo na segunda-feira, com aulas só até às quintas. Aí, uma interrupção, sem aulas, de sexta a segunda-feira, quando os que moravam não muito longe viajavam a suas casas. Até hoje, confesso, nunca vi nada parecido. Todo mundo gostava, pois estudávamos muito, mas também nos divertíamos. O bom rendimento era visível (eu aprendi lá francês, inglês e espanhol). A escola custava caro, como a boa educação em geral. Por isso, durou somente até 1977, quando, dobrando-se à mediocridade, teve de cerrar suas portas. Seu fabuloso patrimônio, meno male, está a serviço, hoje, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

setembro 2000

 
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Lições da Crise Mundial da Economia
Clóvis Cavalcanti
 

Em abril de 1997 o Banco Mundial publicou o que pretendia ser um elaborado estudo sobre as tendências da economia tailandesa, concluindo com dois cenários - um otimista, que previa taxas de crescimento de 10 % ao ano para os próximos cinco a dez anos, e um pessimista, com previsão de crescimento do PIB de 7 %. Pouco tempo depois, a realidade dura da Tailândia cuidou de desmontar todo esse trabalho técnico, esfarelando as tendências de aumento da economia e criando um clima de turbulência que ainda não parou de se espalhar pelo país e, pior ainda, pelo mundo. Na verdade, há um ano e meio atrás ninguém podia imaginar que os tigres asiáticos e o Japão afundariam em crise tão séria como a que se instalou a partir de meados de 1997, derrubando um a um os países que se apresentavam como modelos de economias emergentes. A situação agora se complica ainda mais com os problemas suscitados pela Rússia - este, sim, um país verdadeiramente ingovernável e onde o caos ainda não tomou conta inteiramente, devido a sua importância estratégica e aos esforços dos países do G7 para mantê-lo boiando e dar-lhe uma sobrevida.

Uma lição que se pode extrair da realidade observada a partir da derrubada dos (antes admirados) tigres asiáticos é a de que a economia não permite que se façam projeções lineares de tendências passadas. O mundo da economia, de fato, é um sistema complexo, sujeito a incertezas e mudanças absolutamente imprevisíveis, as quais não comportam brincadeiras numéricas - como diria Gunnar Myrdal - como as de muitos cálculos de modelos para a montagem de cenários de crescimento econômico. Não se sabe, por exemplo, qual vai ser o preço do barril de petróleo dentro de cinco anos - e o petróleo continua sendo um recurso crítico para a economia mundial, tanto que muito do que acontece hoje de favorável (a expansão americana, a recuperação européia, etc.) deve-se à queda do preço do barril, o qual situa-se hoje em um nível (12 dólares, o Brent) semelhante ao de 1973 e equivalendo a menos de 25 por cento do preço de 1980 (mais de 50 dólares, a valores corrigidos de 1998). É no mínimo irresponsável supor que esse preço vai se manter. Não vai. Entretanto, tampouco se conhece onde ele irá parar dentro de mais algum tempo. O certo é que os tomadores de decisão devem estar atentos para o fato e dispor, a todo momento, de planos estratégicos para qualquer eventualidade. Não pode é se ficar esperando, por exemplo, o desfecho da crise russa para se pensar no que fazer.

Na verdade, o caso da Rússia, embora interligado ao da Ásia, é um caso distinto. Trata-se de uma economia sem base industrial competitiva, onde um capitalismo de cupinchas (como diria Roberto Campos; em inglês seria crony capitalism) se instalou e em que a sociedade não tem familiaridade com o funcionamento de mercados livres. A Rússia só tem petróleo e gás natural para vender, enfrentando uma série de problemas estruturais no setor, além da queda do preço do petróleo no último ano - problema que afeta também, seriamente, a Venezuela. Neste ponto, a situação do Brasil não é tão crítica, seja pela diversificação da economia brasileira, seja por se tratar de um país que importa muito do petróleo que consome. Mas isto, numa perspectiva de mais longo prazo, não é para deixar ninguém satisfeito. A economia mundial (e também a brasileira) terá de depender menos do petróleo no futuro. A tendência provável é a de aumento do preço desse recurso, em virtude de sua concentração em áreas de controle ocidental precário (Arábia, Iraque, Iran) e porque os países que o possuem, mais cedo ou mais tarde, se darão conta da importância estratégica do bem, além de poderem deter futuramente, ao que tudo indica, maior poder de fixação de preços.

Da crise atual deve-se ainda extrair a lição dos riscos envolvidos numa dependência estreita do que acontece nos mercados financeiros globais, especialmente quando se fixa o interesse nos aspectos da economia de cassino desses mercados. Para o bem-estar efetivo da população não é a riqueza-papel que está em jogo. Isto serve para criar bolhas especulativas que um dia sempre estouram (não foi à toa que Alan Greenspan, o presidente da Junta Federal de Reserva, o banco central americano, falou de "exuberância irracional" do mercado em dezembro de 1996, alertando para a bolha de Wall Street, que agora está se esvaziando). O que interessa à sociedade é a chamada economia real, a economia da produção de bens e serviços. Para esta, o mercado financeiro tem importância em termos da mediação que pode fazer na captação de recursos para investimento direto. Por isso, assusta quando se faz a constatação de que, por dia, os mercados financeiros mundiais giram entre 1,5 e 2 trilhões de dólares, o que daria um total anual de 600 trilhões de dólares - que é a força da economia de papel -, contra apenas 24-25 trilhões de dólares anuais da economia medida pelo PIB global do planeta, esta a verdadeira economia que interessa à população.

"Diário de Pernambuco" de 13 de setembro de 1998

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