Muita
gente sabe o que é um gambá. Ou
pelo menos pensa que sabe...
Havia
alguns dias que os alunos do internato vinham
notando a furtiva presença daquele estranho
elemento nas cercanias da Praça do Getúlio,
mais para os lados da canaleta. Aparecia e desaparecia
rapidamente, deixando a todos os meninos que
o surpreendiam nessas excursões um sentimento
misto de cautela e caçador desafiado.
E menino é bicho danado, que precisa
viver mais um pouco até descobrir e respeitar
certas coisas da vida. Faltava aqueles sentimentos
que vão aparecendo mais tarde e que ainda
não se haviam mostrado para nós,
mal saídos da infância.
Numa
daquelas noites em que não tínhamos
nada para fazer, sentados na mureta contígua
à sala dos telefonistas, alguém
avistou novamente o representante da fauna brasileira,
desta vez próximo ao busto de Getúlio
Vargas. Desfilava calmamente, em flagrante contraste
com o comportamento de suas aparições
anteriores. Apesar da escuridão, pudemos
observar sua forma lenta e bamboleante de andar,
revelando que, ainda que mal identificado, o
bicho seria um ótimo teste para aferir
nossa capacidade de chefes de família,
provedores de uma hipotética prole faminta
á espera do jantar. O alvoroço
aumentou quando o Cardosão, que vinha
casualmente passando pelo local, sentenciou
do alto de sua experiência: É
um gambá fêmea. E está prenhe.
Vejam seu andar pesado. Não mexam com
ela. E ditas as esclarecedoras palavras,
foi cuidar de seus afazeres de inspetor da noite.
Então
era isso! O misterioso bicho era um gambá.
Daqueles que se deve ter um cuidado enorme para
que não borrife sobre nós seu
fluido repugnante, que fica dias e dias impregnado
no corpo e excluindo a vítima do convívio
social. Mas, se é esse o único
risco, vamos à caça! Afinal, longe
dos olhares fiscalizadores das mães,
muitos de nós não ficávamos
tanto a dever aos fedorentos gambás.
Talvez até a questão fosse quem
deveria temer o cheiro de quem.
O
grupo espalhou-se e teve início o cerco
ao gambá. Ou melhor, à
gambá, pois era uma fêmea, estava
prenhe, etc. e etc. Afinal, o Cardosão
nunca mentia.
Lembro
que vários alunos internos participaram
da missão. Mas um deles, o Alexandre
Galinha, mostrou sua coragem e aptidão
com muito mais eficiência do que os outros,
ainda meio ressabiados e estudando o adversário
antes do ataque final. Em determinado momento,
Galinha se antecipou a todos, correu para cima
do bicho tal qual um batedor de pênaltis
que desperdiça o tiro pegando mal na
bola e desferiu sobre ele um poderoso e decidido
chute que levantou o animal a vários
metros de altura. O gambá subiu, subiu
e subiu. E mais embaixo, ao mesmo tempo em que
o malcheiroso ainda mantinha sua trajetória
ascendente, o valente caçador lançava-se
ao chão urrando de dor... O que aconteceu?
Bateu com o pé de mau jeito? Será
que quebrou? Só podia ser isso, pois
cheiro de gambá pode ser ruim mas não
dói. Nos aproximamos mais e Alexandre
não parava de gritar. Parecia grave a
situação. Falava, entre doloridos
gritos, que seu pé estava machucado,
doía muito e que precisava de um médico.
Carregamos o Galinha para um local mais iluminado
e qual não foi a surpresa ao constatarmos
que seu tênis Bamba estava
coberto de enormes espinhos que, como pequenas
lanças, trespassavam a borracha e o tecido
do calçado. Colocado num carro e levado
ao hospital pelos professores plantonistas,
soubemos depois do longo martírio que
foi retirar o tênis fixado ao pé
por dezenas de aguilhões profundamente
enterrados na carne. Pobre Galinha...
Acho
que aquele chute poderia ter sido dado por qualquer
um de nós, jovens inconseqüentes
que ainda não estávamos livres
do ancestral instinto predador, vindo de tempos
em que o homem precisava caçar para se
manter e que hoje nos esforçamos para
erradicar de nossas crianças desde a
mais tenra idade. Comunhão com a Natureza
é o justo e politicamente correto lema
atual. Só que naquele dia, com uma eficaz
lição dessa mesma Mãe Natureza,
coube ao infeliz Galinha descobrir, da maneira
mais dolorosa, a diferença entre um gambá
e um porco-espinho.
Acho
que ele não os confundirá novamente.