Um Gambá Muito Estranho
Eugênio Espíndula Borgo
 
Muita gente sabe o que é um gambá. Ou pelo menos pensa que sabe...

Havia alguns dias que os alunos do internato vinham notando a furtiva presença daquele estranho elemento nas cercanias da Praça do Getúlio, mais para os lados da canaleta. Aparecia e desaparecia rapidamente, deixando a todos os meninos que o surpreendiam nessas excursões um sentimento misto de cautela e caçador desafiado. E menino é bicho danado, que precisa viver mais um pouco até descobrir e respeitar certas coisas da vida. Faltava aqueles sentimentos que vão aparecendo mais tarde e que ainda não se haviam mostrado para nós, mal saídos da infância.

Numa daquelas noites em que não tínhamos nada para fazer, sentados na mureta contígua à sala dos telefonistas, alguém avistou novamente o representante da fauna brasileira, desta vez próximo ao busto de Getúlio Vargas. Desfilava calmamente, em flagrante contraste com o comportamento de suas aparições anteriores. Apesar da escuridão, pudemos observar sua forma lenta e bamboleante de andar, revelando que, ainda que mal identificado, o bicho seria um ótimo teste para aferir nossa capacidade de chefes de família, provedores de uma hipotética prole faminta á espera do jantar. O alvoroço aumentou quando o Cardosão, que vinha casualmente passando pelo local, sentenciou do alto de sua experiência: “É um gambá fêmea. E está prenhe. Vejam seu andar pesado. Não mexam com ela”. E ditas as esclarecedoras palavras, foi cuidar de seus afazeres de inspetor da noite.

Então era isso! O misterioso bicho era um gambá. Daqueles que se deve ter um cuidado enorme para que não borrife sobre nós seu fluido repugnante, que fica dias e dias impregnado no corpo e excluindo a vítima do convívio social. Mas, se é esse o único risco, vamos à caça! Afinal, longe dos olhares fiscalizadores das mães, muitos de nós não ficávamos tanto a dever aos fedorentos gambás. Talvez até a questão fosse quem deveria temer o cheiro de quem.

O grupo espalhou-se e teve início o cerco ao gambá. Ou melhor, “à” gambá, pois era uma fêmea, estava prenhe, etc. e etc. Afinal, o Cardosão nunca mentia.

Lembro que vários alunos internos participaram da missão. Mas um deles, o Alexandre Galinha, mostrou sua coragem e aptidão com muito mais eficiência do que os outros, ainda meio ressabiados e estudando o adversário antes do ataque final. Em determinado momento, Galinha se antecipou a todos, correu para cima do bicho tal qual um batedor de pênaltis que desperdiça o tiro pegando mal na bola e desferiu sobre ele um poderoso e decidido chute que levantou o animal a vários metros de altura. O gambá subiu, subiu e subiu. E mais embaixo, ao mesmo tempo em que o malcheiroso ainda mantinha sua trajetória ascendente, o valente caçador lançava-se ao chão urrando de dor... O que aconteceu? Bateu com o pé de mau jeito? Será que quebrou? Só podia ser isso, pois cheiro de gambá pode ser ruim mas não dói. Nos aproximamos mais e Alexandre não parava de gritar. Parecia grave a situação. Falava, entre doloridos gritos, que seu pé estava machucado, doía muito e que precisava de um médico. Carregamos o Galinha para um local mais iluminado e qual não foi a surpresa ao constatarmos que seu tênis “Bamba” estava coberto de enormes espinhos que, como pequenas lanças, trespassavam a borracha e o tecido do calçado. Colocado num carro e levado ao hospital pelos professores plantonistas, soubemos depois do longo martírio que foi retirar o tênis fixado ao pé por dezenas de aguilhões profundamente enterrados na carne. Pobre Galinha...

Acho que aquele chute poderia ter sido dado por qualquer um de nós, jovens inconseqüentes que ainda não estávamos livres do ancestral instinto predador, vindo de tempos em que o homem precisava caçar para se manter e que hoje nos esforçamos para erradicar de nossas crianças desde a mais tenra idade. Comunhão com a Natureza é o justo e politicamente correto lema atual. Só que naquele dia, com uma eficaz lição dessa mesma Mãe Natureza, coube ao infeliz Galinha descobrir, da maneira mais dolorosa, a diferença entre um gambá e um porco-espinho.

Acho que ele não os confundirá novamente.