A Minha Galera
Fernando Luz de Azevedo
 
Há dias entrei no site do Colégio Nova Friburgo e fui conferir, como ex-aluno, se o meu nome estava relacionado em “aniversariantes do mês”. Não estava. Meu sentido de permanência despencou. Afinal, se enquanto estudei lá não fui o aluno do ano, o esportista do ano, o melhor nem pior de alguma coisa, ao menos fui um destacado longevo: sete anos de frequência ininterrupta, vivendo vários e muitos momentos importantes. Esse pertencimento fez com que providenciasse rapidamente a atualização do cadastro, uma espécie de segunda via de diferenciadissima identidade, um rito de volta ao passado, com firma reconhecida no presente. Deu certo: já estou novamente registrado nos aniversariantes, ancorado no 5 de abril e ao lado de outros tantos arianos. Dali não saio, dali ninguém me tira.

Entretanto, o imponderável mais uma vez falou alto. Ao mobilizar-me em busca de nova “matricula” acabei enredado em recordações, estimuladas ainda mais por um recente texto do Afonso Brito Chermont, um nato contador de histórias.

Não só contador, mas “vivedor” de histórias, pois ele pertence a uma espécie de galeria mítica de alunos do CNF. Essa galeria, ou “galera”, conforme diz a juventude hoje, era formada por caras especiais. Diferenciados sob a minha ótica, o que significa que centenas dos não assim qualificados por mim certamente têm lugar nos “olimpos” de outras vozes, que com certeza os chamarão - fazendo justiça plena.

Como vinha relatando, essa galera era composta por figuras extraordinárias, como o Lunardi, meu irmão de sangue; o Abelhinha (onde andará?); o Erthal, que dizia-se natural de Good Garden, a pequena cidade vizinha de Friburgo; o espalhafatoso Marreco, isto é, espalhafatoso e afetuoso; o Ceará, ponta esquerdo atrevido e jornalista idem, de saudosa memória; o Xingu, grande goleiro, com estatura improvável e elasticidade amazônica; o professor Xianca (perdão: ou será Chianca?), que após o futebol na chuva e o banho quente esfregava a toalha na cabeça molhada da gurizada pra ninguém ficar gripado ( um verdadeiro oásis: professor de educação física com coração de mãe); o Junqueira, mineirinho tinhoso de Leopoldina, com quem saí na porrada várias vezes; o Artur Waldir, que ia jogar na seleção brasileira de basquete, mas foi expulso da partida antes mesmo dela começar; o Cataguases, bom de bola e de lábia, vendedor nato desde sapatos a edifícios, concretos ou não; o Bocão, lídimo representante de Campos dos Goytacases dos bons tempos; o Carlinhos, que tinha uma mágoa danada da vida e tocava um violão de primeira; o Fruzire, gaúcho gauche; os Capeluto, que eram dois só para os íntimos; a Alice, semi-interna que trazia de casa, feito por sua avó, uns pedaços de bolo cujo gosto recuperava uma idéia de lar, cozinha, aconchego, colo; o John Aune, que construia belos e inacreditáveis veleiros enquanto mal dávamos conta de uma raquete de ping-pong nas aulas de trabalhos manuais; o Michel, enfant-terrible que se não me engano levou um tapa do professor de francês (quem mandou ter a dramaticidade desse nome?); o Roberto Croccia Batista, o gentílico mais eufônico da chamada e cujo pai aparecia com uns carros importados espetaculares e nos levava para passear; o Barata representando Esopo no teatro do professor Castillo, e de muitos e muitos outros que ainda hei de me lembrar, entre eles o Azeitona, cuja hostilidade remeteu-me a um épico existencial-porradístico, mas esta estória fica para uma próxima vez...

O teatro do professor Castillo... o próprio Chermont foi intérprete, se não me trai a memória, de Major Barbara, peça de Bernard Shaw. Impecavelmente uniformizado como oficial militar – não me lembro de que arma – o seu personagem mergulhava na dialética que condenava racionalismo e capitalismo, tecnologia de guerra e ética humana. É mole ou quer mais? (Eu também estava no elenco e, confesso, passaram-se bons anos para começar a entender que discussão era aquela...)

Lembro ainda, ou acho que lembro (afinal, são mais de quatro décadas) que uma namoradada do Chermont de vez em quando assistia a uns ensaios. Ah, que ele me desculpe, mas que cobiça tivemos da sua namorada loura, esguia, alta. Chermont, o oficial inglês de mentirinha, mas autêntico guerreiro marajoara, conquistando uma escandinava maravilhosa. Um orgulho para os demais nanicos incompetentes. Com todo o respeito ao bravo oficial, grandes homenagens foram prestadas à louraça por aqueles pobres invejosos ...

E não era só. Lembro também do Marreco na Banda do Colégio – mister se faz sublinhar que “ser da Banda” era uma das graduações mais importantes para ingressar na tal galera mítica. Ele lá na frente, tocando bumbo (ou era surdo?), do “alto” da sua estatura, compassando um orgulho coletivo de meninos que extrapolava os limites das avenidas e ruas de Nova Friburgo nos desfiles de 7 de setembro. Marchávamos muito além da simplificadora visão de moral e cívica (a que o CNF jamais aderiu, proclame-se), ultrapassávamos o dia da pátria e desaguávamos no futuro concreto de uma moçada que aprendia com nossos jovens (e os que tinham mais idade, eram jovens de espírito) professores. Estávamos, todos, melhorando o Brasil que acelerava na reta do final dos anos 50, início dos 60 (ah, a gente não imaginava as curvas que estavam por vir...)

Bem, estes são flashes que vieram com a falta do meu nome na lista de aniversariantes e que retenho de alguns momentos e amigos do CNF. E se cito uns poucos, culpem em primeiro lugar a minha memória. Mas tudo é uma questão de praticar: cismei que vou desencavar mais histórias e recordações. Me aguardem. Enquanto isso, um forte abraço aos personagens da minha galera.

Abril 2005