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Há
dias entrei no site do Colégio Nova Friburgo
e fui conferir, como ex-aluno, se o meu nome estava
relacionado em aniversariantes do mês.
Não estava. Meu sentido de permanência
despencou. Afinal, se enquanto estudei lá
não fui o aluno do ano, o esportista do
ano, o melhor nem pior de alguma coisa, ao menos
fui um destacado longevo: sete anos de frequência
ininterrupta, vivendo vários e muitos momentos
importantes. Esse pertencimento fez com que providenciasse
rapidamente a atualização do cadastro,
uma espécie de segunda via de diferenciadissima
identidade, um rito de volta ao passado, com firma
reconhecida no presente. Deu certo: já
estou novamente registrado nos aniversariantes,
ancorado no 5 de abril e ao lado de outros tantos
arianos. Dali não saio, dali ninguém
me tira.
Entretanto,
o imponderável mais uma vez falou alto.
Ao mobilizar-me em busca de nova matricula
acabei enredado em recordações,
estimuladas ainda mais por um recente texto do
Afonso Brito Chermont, um nato contador de histórias.
Não
só contador, mas vivedor de
histórias, pois ele pertence a uma espécie
de galeria mítica de alunos do CNF. Essa
galeria, ou galera, conforme diz a
juventude hoje, era formada por caras especiais.
Diferenciados sob a minha ótica, o que
significa que centenas dos não assim qualificados
por mim certamente têm lugar nos olimpos
de outras vozes, que com certeza os chamarão
- fazendo justiça plena.
Como
vinha relatando, essa galera era composta por
figuras extraordinárias, como o Lunardi,
meu irmão de sangue; o Abelhinha (onde
andará?); o Erthal, que dizia-se natural
de Good Garden, a pequena cidade vizinha de Friburgo;
o espalhafatoso Marreco, isto é, espalhafatoso
e afetuoso; o Ceará, ponta esquerdo atrevido
e jornalista idem, de saudosa memória;
o Xingu, grande goleiro, com estatura improvável
e elasticidade amazônica; o professor Xianca
(perdão: ou será Chianca?), que
após o futebol na chuva e o banho quente
esfregava a toalha na cabeça molhada da
gurizada pra ninguém ficar gripado ( um
verdadeiro oásis: professor de educação
física com coração de mãe);
o Junqueira, mineirinho tinhoso de Leopoldina,
com quem saí na porrada várias vezes;
o Artur Waldir, que ia jogar na seleção
brasileira de basquete, mas foi expulso da partida
antes mesmo dela começar; o Cataguases,
bom de bola e de lábia, vendedor nato desde
sapatos a edifícios, concretos ou não;
o Bocão, lídimo representante de
Campos dos Goytacases dos bons tempos; o Carlinhos,
que tinha uma mágoa danada da vida e tocava
um violão de primeira; o Fruzire, gaúcho
gauche; os Capeluto, que eram dois só para
os íntimos; a Alice, semi-interna que trazia
de casa, feito por sua avó, uns pedaços
de bolo cujo gosto recuperava uma idéia
de lar, cozinha, aconchego, colo; o John Aune,
que construia belos e inacreditáveis veleiros
enquanto mal dávamos conta de uma raquete
de ping-pong nas aulas de trabalhos manuais; o
Michel, enfant-terrible que se não me engano
levou um tapa do professor de francês (quem
mandou ter a dramaticidade desse nome?); o Roberto
Croccia Batista, o gentílico mais eufônico
da chamada e cujo pai aparecia com uns carros
importados espetaculares e nos levava para passear;
o Barata representando Esopo no teatro do professor
Castillo, e de muitos e muitos outros que ainda
hei de me lembrar, entre eles o Azeitona, cuja
hostilidade remeteu-me a um épico existencial-porradístico,
mas esta estória fica para uma próxima
vez...
O
teatro do professor Castillo... o próprio
Chermont foi intérprete, se não
me trai a memória, de Major Barbara, peça
de Bernard Shaw. Impecavelmente uniformizado como
oficial militar não me lembro de
que arma o seu personagem mergulhava na
dialética que condenava racionalismo e
capitalismo, tecnologia de guerra e ética
humana. É mole ou quer mais? (Eu também
estava no elenco e, confesso, passaram-se bons
anos para começar a entender que discussão
era aquela...)
Lembro
ainda, ou acho que lembro (afinal, são
mais de quatro décadas) que uma namoradada
do Chermont de vez em quando assistia a uns ensaios.
Ah, que ele me desculpe, mas que cobiça
tivemos da sua namorada loura, esguia, alta. Chermont,
o oficial inglês de mentirinha, mas autêntico
guerreiro marajoara, conquistando uma escandinava
maravilhosa. Um orgulho para os demais nanicos
incompetentes. Com todo o respeito ao bravo oficial,
grandes homenagens foram prestadas à louraça
por aqueles pobres invejosos ...
E
não era só. Lembro também
do Marreco na Banda do Colégio mister
se faz sublinhar que ser da Banda
era uma das graduações mais importantes
para ingressar na tal galera mítica. Ele
lá na frente, tocando bumbo (ou era surdo?),
do alto da sua estatura, compassando
um orgulho coletivo de meninos que extrapolava
os limites das avenidas e ruas de Nova Friburgo
nos desfiles de 7 de setembro. Marchávamos
muito além da simplificadora visão
de moral e cívica (a que o CNF jamais aderiu,
proclame-se), ultrapassávamos o dia da
pátria e desaguávamos no futuro
concreto de uma moçada que aprendia com
nossos jovens (e os que tinham mais idade, eram
jovens de espírito) professores. Estávamos,
todos, melhorando o Brasil que acelerava na reta
do final dos anos 50, início dos 60 (ah,
a gente não imaginava as curvas que estavam
por vir...)
Bem,
estes são flashes que vieram com a falta
do meu nome na lista de aniversariantes e que
retenho de alguns momentos e amigos do CNF. E
se cito uns poucos, culpem em primeiro lugar a
minha memória. Mas tudo é uma questão
de praticar: cismei que vou desencavar mais histórias
e recordações. Me aguardem. Enquanto
isso, um forte abraço aos personagens da
minha galera.
Abril 2005
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