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Por
um Natal Cristão
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Jose
Augusto Carvalho
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No
início da década de 60, no século
passado, o Pe. Aluísio Guerra publicou
um livreto de título sugestivo: O catolicismo
ainda é cristão? Referia-se a
uma Igreja latifundiária e rica, cuja
ostentação era um acinte à
pobreza da grande maioria dos seus fiéis.
Toda
religião, em princípio, é
santa, porque une os homens à divindade
pelo caminho do bem e da paz de consciência.
O problema é que todo líder religioso,
além de transformar a fé num rol
de proibições e toda alegria da
vida num pecado mortal, tende a fazer proselitismo
e a convencer os outros, por bem ou por mal,
de que a sua religião é a melhor
de todas. Dizia Pascal (1623-1662) que os
homens jamais praticam o mal tão completa
e alegremente como quando o fazem por convicção
religiosa. O pior é que os religiosos,
muitas vezes, quando conseguem um cargo de mando
ou alguma autoridade, tendem a impor sua moral
e seus conceitos a quem não reza pela
mesma cartilha. O divórcio, por exemplo,
levou meio século para instituir-se no
Brasil, graças à imposição
de pregadores religiosos, que, absurdamente,
toleravam o desquite, que era uma situação
ainda pior que o divórcio, sob todos
os pontos de vista, por permitir a mancebia
e impedir novo enlace legal. O mal do século
não é o estresse, não é
o efeito estufa, não é o degelo
polar. O grande mal do século ainda é
a intolerância, o desrespeito às
idéias alheias, à moral e à
fé de quem pensa de maneira diferente.
No
dia 25 de dezembro comemora-se o nascimento
de Jesus, por uma especial concessão
ao paganismo. Jesus teria nascido em março
do ano IV, antes de Cristo, mas o Natal foi
fixado pela Igreja no dia 25 de dezembro, no
ano de 525, para cristianizar as festas pagãs
que se realizavam nessa época ao deus
solar Mitra que, apesar de persa, era festejado
em Roma, nas comemorações do solstício
de inverno. Ainda por concessão ao paganismo
se cultuam os reis magos que não
eram reis, mas sacerdotes da religião
persa, que tinham o nome de magos
por serem sábios e considerados possuidores
de dons divinos. Também por concessão
ao paganismo a sede da Igreja Católica
se chama Vaticano, nome do deus romano responsável
pela fala dos homens, porque se acreditava que
a primeira sílaba de seu nome era a primeira
manifestação lingüística
oral de uma criança. Daí surgiu
o verbo vagir, do latim uagire,
que significa fazer uá.
Também
concessão ao paganismo me parecem a multiplicidade
de imagens, a extensa polimorfia da figura da
mãe de Jesus e do próprio Cristo
e a gigantesca hagiolatria católica.
Apesar
de tudo, ainda se considera que o catolicismo
seja cristão...
O
Natal deveria ser realmente não uma data,
mas uma época de confraternização
e de paz. Dizia Jonathan Swift (1667-1745):
Temos bastante religião para fazer-nos
odiar-nos uns aos outros, mas não o bastante
para que nos amemos uns aos outros.
Por
isso, eu rezaria a Papai Noel e a Iemanjá
que me dessem um presente útil a todos
nós: que as religiões se respeitassem
mutuamente, que nenhuma delas se considerasse
a única verdadeira ou a melhor de todas
e, finalmente, que o espírito do Natal
prevalecesse todos os dias do ano, em todas
as religiões.
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| Amor
Medieval |
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Jose
Augusto Carvalho
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Nesse
conto, imito um pouco a linguagem medieval. JAC
A
cada quem seu destino...
De
mulher é pouco o falar muito, que todas
são uma só, de diferentes rostros,
mas a pran de igual felonia. E conto-vos per
que faredes de mi gran juízo desto meu
guisar de quedar-me solitário e pera
mostrar que sandice maior non há que
a de fazer-se creúdo da dereiteza de
tôdalas mulheres.
E
foi do modo seguinte.
Muito
afazida com as coisas da casa e do lar diziam
ser Dona Urraca, dama bem talhada, de muita
fremosura e recato. Acaeceu, enton, que o marido,
muito mal andante, enfermou de danoso mal que
o achantou de vez em caixão de amesurado
porte. Aguardei-me de declarar, seu aguça
nem adiano, o meu amor de apaixonado sentir,
per que non achava de aguisado proceder dizer-lhe
que estava cobiçoso de ela, em per diante
de tan recente enviudamento. Ao velório
fui, muito acordado de morte tan desejada, mas
enfingindo sofrença, e louvaminhando
de passo calado a albergada dolorência
que em mau ponto lhe tirara a ela o grado de
viver.
Non
queria eu agravecê-la com o apoer mal
prez ou contar que o marido era doneador, mui
galanteador de outras damas, aquestas pouco
adestradas, per serem desvergonhadas e se darem
a tôdolos que lhes pagassem. A viúva
semelhava muita desaventurança e careza
de saúde, tantas eram as lágrimas
doridas que trilhavam seu rostro de alvaiade.
Muito desensinado seria de minha parte propor
entendença nova de amores con viúva
recém, que orava em perante o corpo do
marido. Per esso de muito ser cavalheiro foi
que só lhe disse, mentireiro, per delicado
devotamento:
Senhora Dona, non sabedes vós desse marido
con que vós agora non sodes mais, porende
vos digo que duvidança non há
que outro mais honesto en este mundo non acharedes,
nem tam virtuoso de tôdalas virtudes de
cavalheiro.
E
afirmei-lhe que tôdolos cabeços
canos de minha cabeça eu cortaria per
câmbio de vê-la viçosa a
ela, sem mais doloroso pranto.
E
fui-me.
Alguns
meses quedei-me à sua porta per vê-la
de negro vestida entrar da missa, muito desejoso
de um olhar seu dela. Mas um dia albergou meu
coração façanhuda coragem
de achegar-me a ela e falar-lhe de meu sentir.
De mi non duvidedes, Senhora Dona, que muito
vos amo de amor mais ancho que o mundo; que
de tôdalas damas que conhoço, outra
non há como vós, de aguisada dereiteza
de dona bautizada e cristã. E acharedes
en mi, pera correger vossa solitude e pobreza,
em juntando casamento comigo, que sou um cavalheiro
que non sabedes cujo é o passado, mas
que acredita que tenhades en ele um futuro aventurado.
Desbulhei
assi minha lazeira de amor, na querência
de resposta esperançosa. E acalei-me,
à espera do seu guisar, que non tardou,
e que me fez trilhar de novo, mal treito, o
chão da realidade treda: ela non havia
queixume de mi, que me sabia homem de bom proceder,
mas apenas aos domingos ela podia acordar-me
dereitos de marido, per que em tôdolos
outros dias da semana já outros cavalheiros
a ocupavam com esses mesteres de cama, e que
nem uma solitude sentia nem ouro lhe falecia,
em desde que enterrara o esposo.
Arar
com lobos não é aguisado de uma
dama que eu pensei de boa formação
cristã e virtude numerosa. Muito sanhudo
teria eu me quedado, mas faça quis cada
quem seu mester pera o qual é nascido.
E todo o meu amor per ela se foi, na tristura
desso que escuitei de seus próprios lábios.
E assi me quedo eu hoje, solitário e
triste, per que outra dama nunca mais olhei,
descreúdo de tôdalas outras. E
nunca mais tornei a vê-la de novo, pera
non acender a paixão que ainda teima
em quedar-se nos perdudos da minha saudade.
(De:
Uma história em quatro estilos,
do livro O braço e o cutelo (Vitória:
Nemar, p. 27-8, 1993)
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A
Nossa Bandeira
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Jose
Augusto Carvalho
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Em
alguma parte da sua obra, numa crônica
de cujo título não me lembro,
Rubem Braga se manifestou contra a divisa na
nossa bandeira. Repare-se que ele foi contra
os dizeres não da bandeira, mas na bandeira.
A sutileza da língua pode levar às
vezes a alguns mal-entendidos.
Não
me lembro se Rubem Braga fez alusão à
dificuldade que têm os estrangeiros de
desenhar o nosso "lábaro estrelado".
Quando o general Geisel, então presidente,
foi ao Japão, foi recepcionado por crianças
que agitavam na mão a nossa bandeira.
Num "close" da câmera de televisão,
pude ver que o lema "Ordem e Progresso"
fora transformado num pedaço de gradil
de porta pantográfica, numa sucessão
de dáblios interligados. Os japoneses,
por não decifrarem a legenda, acharam
que a via láctea estilizada do nosso
"pendão garrido" era apenas
o desenho figurativo de um país em que
até o céu estrelado aparecia com
grades.
Acho
que é tradição do brasileiro
o gosto pela bandeira erudita. Está lá
a citação incompleta de Virgílio
a iluminar com reticências mentais o triânglo
central da flâmula mineira: Libertas quae
sera tamen. Ou o lema da bandeira espírito-santense,
também reticente: "Trabalha e confia".
As reticências ficam por conta do trabalhador,
que confia na Previdência Social ou no
Governo... Na Paraíba, a bandeira é
um mistério. O leigo não sabe
se o NÉGO que está lá é
um acrônimo do tipo "Nunca estaremos
gerando ódios", ou o início
de uma citação latina, ou uma
negação peremptória em
vernáculo, ou - considerando que o acento
agudo é um erro de impressão -
o vocativo dengoso da morena, a chamar seu mulato
inzoneiro.
Infelizmente,
não foi nenhum brasileiro o autor do
slogan "Ordem e Progresso", mas um
filósofo francês chamado Augusto
Comte. Parece que não havia brasileiro
culto na época (1889), e, como o cartesianismo
do "Je pense, donc je suis" (Fica
melhor em latim: "Cogito, ergo sum.")
estava em baixa, importaram a frase de uma nova
"ideologia exótica" ou "alienígena".
Não creio que nos interesse saber que
Comte foi o fundador do positivismo ou o pai
da sociologia. Para o nosso fervor patriótico,
se a bandeira tem de ser alfabetizada, então
que seja um brasileiro o autor de sua legenda.
Poderíamos usar uma qualquer das 4.188
máximas do Marquês de Maricá.
Como são grandes demais, podemos usar
apenas o número. E sobraria espaço
para colocarmos vários números
e, portanto, vários lemas, numa antologia
de conselhos para o povo. Ou, então,
pôr lá "Viva a Democracia
Relativa", pois a democracia relativa foi
legitimamente inventada pelo próprio
general Geisel. Ou poderíamos usar a
frase tautológica de algum megalomaníaco
com a paranóia do poder: "É
vencer ou vencer".
O
ideal mesmo, contudo, é pura e simplesmente
suprimir os dizeres, para que nossa bandeira
possa ser desenhada pela maioria analfabeta
do nosso povo e para que um estrangeiro culto
consiga desenhá-la também, ainda
que alterando a ordem pretensamente erudita
mas petulantemente pavoneada das estrelas sob
o lema. É a simplicidade de um símbolo
que o ajuda tornar-se universal, e universalmente
conhecido.
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A
Origem da Palavra Burro
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Jose
Augusto Carvalho
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Um
item lexical que tem recebido explicações
etimológicas populares é a palavra
burro.
Segundo José Pedro Machado (Dicionário
etimológico da língua portuguesa.
2.ed. Lisboa: Confluência, 1967, s.v.),
o nome burro, para o animal, se origina do nome
latino burrus, que designa a cor ruça
ou encarnada. E acrescenta que em Portugal,
o burro é vulgar e freqüentemente
denominado ruço. Mas parece
que não é exatamente essa a explicação
adequada.
Existem
histórias curiosas a respeito da origem
dessa palavra. Uma delas sugere que burro, significando
pessoa pouco inteligente, tenha vindo do nome
latino da cor vermelha burrus, porque os dicionários
tinham antigamente a capa vermelha. Como aquele
que os consultava era ignorante ou burro, o
nome da cor do livro, por metonímia,
teria passado a designar o consulente e, por
extensão, teria passado a designar todo
aquele que fosse curto de inteligência.
Em
Aventuras de um caçador de palavras (Rio
de Janeiro: Acadêmica, 1965, p. 48-51),
Aires da Mata Machado Filho, no estudo Origem
da palavra burro, procura explicar como
a palavra burro adquiriu a acepção
escolar de tradução literal
de autor clássico para uso dos estudantes,
e refere-se também à crença
greco-latina na estupidez do burro. Não
é do burro, o livro facilitado, nem do
sinônimo de pouco inteligente
que venho falar aqui. Nem eu teria competência
para acrescentar algo ao estudo sério
do escritor mineiro. Nem mesmo pretendo falar
da expressão cor de burro quando
foge, que Castro Lopes acredita ser corruptela
de corre de burro quando foge, num
estudo incluído às páginas
249-250, do seu Origens de anexins (2. ed. Rio
de Janeiro: Francisco Alves, 1909). Afinal,
argumenta Castro Lopes, burro não apresenta
nenhuma cor especial quando se põe em
fuga. É possível contudo que a
expressão cor de burro quando foge
se refira à cor vermelha que um fujão
possa apresentar (a etimologia explicaria a
expressão).
Burrus
é adjetivo de primeira classe em latim.
Os adjetivos latinos de primeira classe têm
declinações e formas distintas
para cada um dos três gêneros: o
masculino (em us) e o neutro (em um)
seguem a segunda declinação, e
o feminino (em a) segue a primeira declinação.
Assim, burrus tinha três formas: burrus
(masculino), burra (feminino) e burrum (neutro).
Segundo Ernout & Meillet (Dictionnaire étymologique
de la langue latine, Paris: Klincksieck, 1967,
s.v.), burro origina-se do grego pyrrós,
e designa a cor ruiva. De burrus dizem
esses autores deriva um adjetivo burranicus,
substantivado, atestado pelo gramático
Pompeius Festus (séc. II d.C).
A
palavra francesa bourrique, para designar o
asno, origina-se do espanhol borrico, pelo latim
popular *burricus, alteração,
por cruzamento, de burrus (ruivo) ou burra (crina)
com buricus (pequeno cavalo), segundo Bloch
& Wartburg (Dictionnaire étymologique
de la langue française. 6.ed. Paris:
Presses Universitaires de France, 1975, s.v.).
Também há em francês bourricot
e bourriquet.
Borrico,
segundo Corominas (Diccionario crítico
etimologico de la lengua castellana. Madrid:
Gredos, 1976, s.v.), se origina do latim tardio
*burricus (cavalo pequeno). O dicionário
de latim de Lewis & Short (A latin dictionary.
Oxford: Clarendon Press, 1975, s.v. burricus)
registra burricus ou buricus, com a indicação
de que a palavra foi usada por Varrão,
Paulinus Nolanus e Vegetuis Renatus, com o sentido
de pequeno cavalo.
Burro
só pode ser, portanto, uma derivação
regressiva de burricus, em português.
Confirma-o o Dicionário etimológico
da língua portuguesa (Rio de Janeiro:
Acadêmica, Francisco Alves, São
José, Livros de Portugal depositários,
1955, s.v.), de Antenor Nascentes, que rejeita,
citando Diez, a aproximação
com o lat. burrus, ruivo(...).
A
forma hipotética *buricus, registrada
no citado dicionário de Ernout &
Meillet, é palavra do latim vulgar, sinônima
de mannus, designação dialetal
de pônei, poldro ou potro.
Do adjetivo burrus, ruivo, temos o português
borro (designativo do carneiro entre um e dois
anos) e borracho (que designa o pombo sem penas,
por sua coloração avermelhada).
E possivelmente borrega (ovelha de um ano).
Talvez não mais que isso. Infelizmente...
para os que dão asas à imaginação,
formulando histórias bonitas para suas
etimologias populares.
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A
Troca de Sons
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Jose
Augusto Carvalho
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Um
homem chamado William A. Spooner (1844-1930) gostava
de trocar os sons das palavras, como You
have tasted two worms (Você provou
duas minhocas) e You have wasted two terms
(Você desperdiçou dois trimestres)
ou Queer Dean (Estranho deão)
por Dear Queen (Querida Rainha). É
por causa de Spooner que esse fenômeno em
inglês tem o nome de spoonerism, em homenagem
ao seu cultor.
Em
francês, o mesmo fenômeno tem o
nome de contrepèterie, como em Trompez
sonnettes (Enganai campainhas) por Sonnez,
trompettes (Tocai, trombetas).
Não
é necessário, contudo, que o spoonerism
ou a contrepèterie tenham significado:
Pauvrice nest pas vité
é frase spoonerist ou contrepétée,
sem sentido, de Pauvreté nest
pas vice (Pobreza não é
vício).
Em
português, à falta de um nome popular,
esse fenômeno é cientificamente
chamado de hipértese intervocabular.
A hipértese é o nome que tem a
metátese à distância. A
metátese é comum na evolução
do latim para o português e na linguagem
coloquial, como o lat. semper, que deu sempre,
em português, ou como a pronúncia
popular tauba por tábua. É a metátese
(ou a hipértese) que explica prolações
como estrupo, largato, falcudade, entre outras,
corriqueiras na fala descontraída, por
estupro, lagarto ou faculdade.
Esse
fenômeno da hipértese intervocabular
ficaria restrito à gramática ou
a uma ou outra frase esporadicamente encontradiça
na fala de algum brincalhão, como em
transmimento de pensassão
por transmissão de pensamento,
não fosse o uso literário que
dele fizeram autores como Millôr Fernandes
e Paulo Leminski, por exemplo.
Do
primeiro é a fábula A Raposa
e o Bode, publicada na revista O Cruzeiro,
em 1961, e no livro Fábulas fabulosas
(Rio de Janeiro: José Álvaro,
1964, p. 133-4, com o título A
Baposa e o Rode, e, mais tarde, em Trinta
anos de mim mesmo (Rio de Janeiro: Editorial
Nórdica, 1972, p. 98), da qual reproduzimos
as duas frases iniciais e a moral: Por
um asino do destar, uma rapiu caosa num pundo
profoço do quir não consegual
saiu. Um rode, passi por alando, algois tum
detempo, vosa a rapendo, foi mordado pela curiosidido.
Moral: Jamie confais em qua estade em
dificuldém.
De
Paulo Leminski é o Diversonagens
suspersas, que, na p. 108 de sua Gramática
da língua portuguesa (São Paulo:
Scipione, 1997), Pasquale Cipro Neto e Ulisses
Infante citaram como exemplo de palavra-valise.
Além da hipértese intervocabular,
Paulo Leminski utilizou também a metátese
intravocabular, como no poema concreto do livro
Caprichos e relaxos, em que joga, em 19 linossignos,
com os sons do vocábulo metamorfose,
a partir de materesmofo, passando
por mesamorfeto, termosefoma
e motormefase, entre outros falsos
lexemas, até chegar a metamorfose
(Melhores poemas. São Paulo: Global,
1996, p. 100).
Esse
jogo lingüístico é encontradiço
também em espanhol, segundo nos informa
Marta G. de Torres Agüero, na tradução
de La stylistique, de Pierre Guiraud (Buenos
Aires: Editorial Nova, 1956, p. 25): Cabizbundo
y meditabajo (por Cabizbajo y meditabundo).
Ainda
que seja sempre interessante o efeito desse
processo lúdico de troca de sons, é
mais inteligente e surpreendente o seu uso,
quando a versão hipertética mantém
um sentido próprio, diferente do da frase
original, como ocorria nas invenções
do reverendo Spooner, merecidamente imortalizado
em dicionários de língua inglesa.
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Descer
Redondo
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Jose
Augusto Carvalho
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Uma
propaganda de bebida informa que se trata de uma
cerveja que desce redondo. Não poucos
estudiosos se debruçaram sobre essa frase,
para concluir que redondo está aí
como advérbio e que, portanto, não
há concordância com cerveja, já
que os advérbios são palavras normalmente
invariáveis (os casos de flexão
com advérbio são raros, mas existem,
como, por exemplo, em ela estava toda nua,
em que toda, embora advérbio, com o sentido
de totalmente, se flexiona no feminino; compare-se
toda nua com todo-poderosa,
em que todo não varia).
Embora
a conclusão dos estudiosos que admitem
a não-concordância de redondo na
frase da propaganda de cerveja seja defensável,
é melhor refletirmos um pouco sobre a distinção
básica entre adjetivo e advérbio,
a partir das definições clássicas
dessas duas classes de palavras. O adjetivo é
a palavra variável que determina ou caracteriza
um substantivo ou pronome; o advérbio é
a palavra quase sempre invariável que caracteriza
ou determina um adjetivo, um verbo ou outro advérbio.
Por terem funções qualificadoras,
confundem-se às vezes, e não raro
um adjetivo se usa em lugar de um advérbio,
naturalmente sem flexão.
A partir das definições acima, contudo,
é possível explicar por que são
consideradas erradas as frases abaixo (o asterisco
indica a agramaticalidade da frase):
l.
*A chuva caía barulhento (isto é,
barulhentamente).
2. *Ela desceu apressado as escadas (isto é,
apressadamente).
3. *Maria fuma desesperado (isto é, desesperadamente).
4. *Ela aguarda ansioso o resultado do exame (isto
é, ansiosamente).
5. *Ela reagiu bravo à provocação
(isto é, bravamente).
É também possível, pelas
definições acima, explicar por que
são corretas as seguintes frases:
6. Ela anda rápido (isto é, rapidamente).
7. Eles batem forte (isto é, fortemente).
8. Ela discursou bonito (isto é, de maneira
bonita).
Ocorre
que o adjetivo, quando usado em função
adverbial, se associa ao verbo, como nos três
últimos exemplos: se digo que Maria fala
bonito, o bonito não se associa ao sujeito
Maria, mas ao modo de falar, uma vez que uma pessoa
feia pode falar de jeito bonito. Uma pessoa não
precisa ser forte para bater com força.
Portanto, em Eles batem forte, a ação
é que é exercida fortemente.
Nos
primeiros exemplos, *A chuva caía
barulhento ou *Ela desceu apressado,
barulhento e apressado não podem ser advérbios,
porque se referem especificamente a qualidades
do sujeito. São adjetivos e, por isso,
variam: Ela é que é apressada ao
descer; a chuva é que faz barulho ao cair.
Portanto somos obrigados a fazer a concordância:
l.
A chuva caía barulhenta.
2. Ela desceu apressada as escadas.
3. Maria fuma desesperada.
4. Ela aguarda ansiosa o resultado do exame.
5. Ela reagiu brava à provocação.
Quando
dizemos A lua vai alta no céu,
alta é adjetivo referente a lua, não
pode ser um advérbio e não se refere
ao verbo ir.
Em
alguns casos, o uso do adjetivo pelo advérbio
leva a interpretações dúbias.
Na frase Eles fizeram o trabalho independente
de orientação, o independente
pode ser interpretado como adjetivo (e, nesse
caso, se refere a trabalho) ou como advérbio
(e, nesse caso, se refere ao ato de fazer).
Com
relação à frase da propaganda
de cerveja, é óbvio que redondo
não se refere ao verbo descer, mas à
qualidade da cerveja. Não existe uma ação
redonda. A redondeza é a da cerveja que,
por ser líquida, se adapta ao recipiente
que a contém e acompanha a anatomia circular
da garganta.
Observe-se
que as restrições aqui expostas
dizem respeito ao uso do adjetivo em função
adverbial, e não ao uso do advérbio,
como se pode perceber pelos exemplos precedidos
de asterisco: são frases agramaticais quando
apresentam o adjetivo em função
adverbial, mas são frases perfeitamente
aceitáveis quando se substitui o adjetivo
adverbializado pelo advérbio ou pela locução
adverbial (que aparece entre parênteses
no final de cada exemplo). Tornemos mais claro
este ponto.
Observemos
as duas frases seguintes:
9.
Ela anda rápido.
10. *Ela anda esfomeado.
Na primeira frase Ela anda rápido
__, eu posso dizer rápido em lugar de rápida,
porque a referência à ação
é óbvia. É a ação
de andar que é rápida. Mas também
posso fazer a concordância no feminino para
indicar que ela é rápida quando
anda. No segundo exemplo __
*Ela
anda esfomeado __ , seria tolice pensar que o
ato de andar é que é esfomeado.
Por isso a concordância tem de ser feita
exclusivamente no feminino: Ela anda esfomeada.
Quando vemos uma bola rolar no campo, devemos
dizer que Ela corre redonda, pois
a referência é à bola e não
ao ato de correr. Portanto o mais adequado é
dizer que A cerveja desce redonda,
e não redondo. Com todo o respeito
que tenho pelas opiniões em contrário.
Se
o leitor estiver interessado em maiores explicações,
recomendo a leitura do eruditíssimo estudo
Adjetivo e advérbio, de Harri
Meier, incluído nas páginas 61-127,
do livro Ensaios de filologia românica I
(3. ed. Rio de janeiro: Grifo, 1974).
Mas,
seja como for, a frase da propaganda atingiu em
cheio o seu objetivo em termos de marketing: provocou
celeuma e fez a festa da cerveja...
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Etimologias
Populares
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Jose
Augusto Carvalho
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Muitas
são as invenções etimológicas
em que o povo acredita e professores de português
difundem sem reflexão prévia. Assim,
arigó não vem do inglês are
you going? (o que não faz sentido),
mas do iorubá ariyò, que significa
objeto de prazer, de alegria. E forró
não tem nada a ver com o inglês for
all, porque é abreviatura de forrobodó,
que aquela expressão em inglês não
explica. Da mesma forma, quengo não vem
do inglês can go (o que também
não faz sentido), mas do quimbundo kenga,
que designa vasilha feita de coco ou o seu conteúdo.
Metáfora semelhante ocorreu na evolução
do significado do latim testa que, originalmente,
designava o vaso de terracota, e passou a designar
cabeça em francês (tête), e
fronte em português (testa).
Às vezes, palavras de significados extremamente
distantes, como morfina e metamorfose, por exemplo,
têm origem comum. No caso, o deus grego
do sono, Morfeu, ou porque ele tinha a capacidade
de tomar a forma de seres humanos, ou porque só
aparecia aos homens à noite (a palavra
grega morfnos significa obscuro, tenebroso).
Sal é a raiz de saleiro e de salário,
e rival, originalmente o habitante do rio (latim
rivus), se relaciona com derivar.
Na análise morfológica, o professor
deve estar atento à convergência
de raízes distintas para evitar confundi-las.
Não há relação nenhuma
entre pedestre e pederasta, nem entre viola, violeta
e violência. Ao contrário do que
se já propagou, frango e frangalho não
são palavras cognatas, isto é, não
têm a mesma raiz.
Frango é regressivo de frangão,
de origem obscura. No latim bárbaro, franganum
documenta-se no séc. XIII, segundo José
Pedro Machado (Dicionário etimológico
da língua portuguesa, 2.ed. Lisboa: Confluência,
1967, s.v.), e, em português, no séc.
XIV. O regressivo frango documenta-se no séc.
XV. O Dicionário etimológico Nova
Fronteira da língua portuguesa, de A. G.
Cunha (1982), informa que a forma frango
proveio de frangão possivelmente por ter
sido esta última considerada como aumentativo
(grifos do autor).
Já frangalho e esfrangalhar se relacionam
com o verbo latino frango, is, fregi, fractum,
frangere, que significa quebrar, partir,
despedaçar, raiz de vários
alomorfes, a qual aparece em palavras como: fragoso,
franzir, fração, frágil,
fragmento, fratura, franzino, infrator, refratário,
infringir, náufrago (de nau-fragus, isto
é, que quebra o navio), etc.
Essa raiz de frangere tem sua origem no gótico
brikan, segundo o Dictionnaire étymologique
de la langue latine, de Ernout & Meillet (Paris:
Klincksieck, 1967, s.v.), que se relaciona com
o português brecha e com o inglês
break (segundo o Dicionário morfológico
da língua portuguesa, de Evaldo Heckler
et alii (São Leopoldo: Unisinos, 1984,
s.v. fraçã (sic) família
2281-200, vol. II). Em outras palavras, frango
não tem absolutamente nada a ver com frangalho
ou esfrangalhar.
Outra etimologia popular, sem respaldo científico,
pretende que etiqueta venha de ética, significando
pequena ética. Ora, ética
(em francês, éthique)
se origina do grego êthikos, êthikê,
de êthos, costumes, por intermédio
do latim ethicus. E etiqueta vem do francês
étiquette, documentado a partir de 1387,
que designava inicialmente uma marca fixada a
uma estaca e, posteriormente, no século
XIX, a partir de 1802, algo escrito na pasta de
um processo jurídico. Só mais recentemente
étiquette passou a designar a tira escrita
que se apõe aos objetos para reconhecimento.
A relação de etiqueta com (pequena)
ética deu-se por desconhecimento da etimologia
e da história. A palavra francesa étiquette,
com o sentido de cerimonial, vem da
corte de Filipe, o Bom. Traduzamos o que diz a
respeito o Dictionnaire étymologique de
la langue française de Bloch e Wartburg
(Paris: Presses Universitaires de France, 1975,
s.v.): Filipe, o Bom, para substituir o
título de rei, que ambicionara em vão,
deu à sua corte uma solenidade que não
se conhecia em nenhum outro lugar; anotava-se
num formulário tudo o que devia acontecer
num dia; a coisa e a palavra passaram em seguida,
graças ao casamento de Maria de Burgonha
com Maximiliano da Áustria, de Flandres
a Viena, mais tarde de Viena a Madri; a primeira
atestação da palavra, de 1607, se
refere à corte de Viena; a segunda, por
volta de 1700, à de Madri; só atinge
uma aplicação geral por volta de
meados do século XVIII. A palavra deriva
do antigo verbo estiquier, estiquer (prender).
O inglês ticket tem origem comum.
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A
Letra do Hino Nacional
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Jose
Augusto Carvalho
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O
Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, simboliza,
de certa forma, a verdade consensual de que todos
nós, de algum modo, temos a nossa hora
e a nossa vez. Não me refiro aos quinze
minutos de glória que nem a todos se dão,
mas à oportunidade de crescer, que sempre
surge e que a grande maioria deixa escoar entre
os dedos, por não tê-la percebido
a tempo.
Osório Duque Estrada, mau poeta e pior
gramático, teve, na ausência de talento
criador, a inteligência de perceber que
sua hora e sua vez estavam na música de
um hino maravilhoso, que o gênio de Francisco
Manuel da Silva compôs, aproveitando, aliás,
a melodia escrita pelo Pe. José Maurício
Nunes Garcia para um ofício religioso.
Graças à beleza dessa marcha vibrante
que nos enche de orgulho e de fervor patrióticos,
desde os primeiros acordes, Osório Duque
Estrada sepultou o anonimato a que o condenaria
a própria incompetência, e para sempre
entrou na História, porque teve também
a audácia de anular a letra anterior, de
Ovídio Saraiva de Carvalho, substituindo-a
pela sua.
De vocabulário pouco usual ou difícil
(como plácidas, fúlgidos, lábaro,
florão, garrida e quejandos), com a sintaxe
truncada, com dois versos de empréstimo
da "Canção do Exílio",
de Gonçalves Dias, com dois momentos semelhantes
que levam à confusão, na hora do
canto ("Brasil um sonho intenso..."
e "Brasil de amor eterno..."), com um
cacófato imperdoável logo no início
("heróico brado" - herói
cobrado) e com uma ofensa ao país e ao
povo, involuntária embora, numa leitura
denotativa que teria passado despercebida ao "poeta"
("Deitado eternamente em berço esplêndido"),
a letra infeliz de Osório Duque Estrada
transformou o Brasil no único país
cujo povo desconhece o próprio hino e cujo
hino agride a nação.
Antônio Rangel Bandeira, num artigo publicado
no livro Caixa de música, editado com o
número 118 pelo Serviço de Documentação
do MEC, para a coleção Os Cadernos
da Cultura, em 1959, informa-nos a respeito das
tentativas de modificação da letra
do hino nacional, e, particularmente, refere-se
ao projeto do deputado Herófilo Azambuja,
apresentado à Câmara Federal, propondo
alterações em alguns versos de Osório
Duque Estrada. Antônio Rangel Bandeira,
em seu artigo, manifesta-se contra as alterações
por vários motivos, entre os quais o fato
de já ser o hino um símbolo nacional
e, portanto, parte da nossa História, e
o fato de as alterações propostas
apenas levarem o povo a uma confusão maior,
que prejudicaria a uniformidade da letra.
Concordemos: alterar a letra é piorar o
hino. Mas sejamos razoáveis: deixar a letra
como está é continuar assinando
o atestado da nossa burrice. O ideal seria promover
um concurso de âmbito nacional, propondo
não alterações, mas uma letra
nova, com uma única parte (por que duas?).
A substituição da letra atual por
outra melhor não provocaria confusão,
não lhe alteraria a uniformidade, e em
menos de cinco anos o povo saberia cantá-la,
e não passaríamos mais pelo constrangimento
de calar a boca em certa parte do hino, esperando
que outros mais afoitos ou de melhor memória
o continuem por nós. Porque, desgraçadamente,
muitos de nós desconhecemos se é
o amor eterno ou o sonho intenso a meta prioritária
do nosso patriotismo.
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Hipercaracterização
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Jose
Augusto Carvalho
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A
etimologia tem sido má conselheira dos
que pretendem explicar fatos atuais da língua.
O uso leva com freqüência ao esquecimento
de como determinada palavra ou expressão
se formou. E pode ocorrer o que em lingüística
se chama hipercaracterização,
que é uma redundância incorporada
à língua e que não é
mais sentida como redundância. Assim,
pretender que suicidar-se ou meio ambiente sejam
incorreções por serem originalmente
pleonasmos (redundâncias de sentido) é
pretender que se recomende dizer nosco ou migo
por conosco ou comigo, em que a preposição
com se repete. A alteração de
mecum para migo levou o falante a esquecer a
preposição embutida, e repetiu-a:
comigo. Da mesma forma, o futuro irei ver, por
exemplo, se forma a partir do esquecimento de
que a perífrase com o presente de ir
já indica o futuro: vou ver; o falante,
então, conjuga o auxiliar no futuro,
por hipercaracterização, o que,
na verdade, não constitui um erro, mas
um recurso legítimo de expressividade.
Não há redundância em suicidar-se,
porque o sui se descaracterizou como pronome,
tornando-se parte da raiz verbal. Afinal, dizemos
nós nos suicidamos, vós
vos suicidais, em que o sui ocorre sem
referência à 3ª pessoa, distanciando-se,
portanto, de sua origem etimológica.
Walter Porzig cita um caso interessante em seu
livro Das Wunder der Sprache (de 1957). O particípio
alemão é formado com a partícula
-ge anteposta ao verbo. Assim, o verbo kommen
(vir) forma gekommen (vindo), no particípio.
Trinken (beber) forma getrunken (bebido); haben
(ter) forma gehabt (tido), etc. O verbo essen
(comer) tinha a forma arcaica regular gessen
(comido), no particípio, mas o povo achou
que a partícula faltava e colocou-a de
novo. Hoje, o particípio de essen é
gegessen, por hipercaracterização.
É como se, em inglês, disséssemos
loveded por loved (particípio de to love,
amar), ou como se disséssemos camed por
came (vindo), que já é forma pretérita
em inglês.
É
por hipercaracterização que dizemos
milharal. De café se origina
cafezal; de bambu, bambuzal; de algodão,
algodoal; de laranja, laranjal, etc. De milho
deveria originar-se milhal. Mas o sufixo repetiu-se:
milhalal, que deu milharal por dissimilação
do l do primeiro prefixo.
Condenar ou justificar os usos atuais da língua
pela etimologia não me parece um atitude
científica ou lingüísticamente
válida. Do contrário, estaríamos
proibidos de usar músculo (que significa
ratinho) ou hidrofobia (que significa
horror à água), ou
rival (do latim rivus, rio, designativo etimológico
de ribeirinho, isto é, do habitante das
margens do rio) por exemplo, com o sentido que
atribuímos hoje a tais formas.
Os
tropos também contribuem para afastar
a etimologia das explicações de
fatos lingüísticos atuais, como
a metonímia e a catacrese (que é
uma metáfora cristalizada), por exemplo.
É por catacrese que dizemos pé
de mesa, barriga da perna, braço de poltrona,
céu da boca, ou expressões como
andar a cavalo num burro, embarcar num ônibus,
enterrar uma agulha no dedo (não há
portanto incoerência em se dizer enterrar
no mar, posto que enterrar signifique
enfiar na terra, originalmente).
É por metonímia que usamos nomes
de marcas registradas para produtos similares
de outras marcas, como chiclete, gilete, modess,
etc.
A
etimologia apenas indica e explica a origem
das palavras, sem implicações
semânticas. Assim, pela etimologia, sabemos
que Lúcifer, de origem latina, significa
o que leva (ferre) a luz (lux),
equivalente ao grego fósforo. Ora, se
formos usar a etimologia, Lúcifer poderia
designar Jesus Cristo, mas passou a designar
o diabo por um erro de interpretação
dos doutores da Igreja, em duas passagens de
Isaías, cap. XIV: o versículo
4, em que Isaías fala do rei da Babilônia,
e o versículo 12, em que o rei caiu do
céu e é chamado Lúcifer,
tradução latina do hebraico ben-xabar
(filho da aurora), designativo da estrela da
manhã ou estrela dalva. Os doutores
da Igreja viram semelhança entre o que
Isaías dizia a respeito do rei da Babilônia
e a queda do anjo mau na mitologia cristã.
E Lúcifer passou a ter um significado
ruim, apesar da etimologia.
Um
caso mais recente de hipercaracterização
em português é a expressão
canja de galinha. Originalmente, canja é
caldo de galinha com arroz. O falante esqueceu
a significação primitiva e reforçou-a:
canja de galinha, o que me parece construção
legítima, ou, pelo menos, legitimada
pelos usuários cultos da língua,
uma vez que, se existe canja musical, como a
que termina os programas de entrevista de Jô
Soares, na televisão, se torna necessário
especificar a canja de que se fala.
Portanto,
embora meio e ambiente sejam sinônimos
isoladamente, a expressão meio ambiente
está bem formada, por hipercaracterização,
abonada pelo uso corrente.
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Natal sem Magia
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Jose
Augusto Carvalho
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O
Natal não é um dia, mas uma época
por que eu ansiava quando criança. Ainda
em novembro, numa tarde qualquer de um sábado
qualquer, o mais velho dos meus irmãos
sentava-se diante de uma pequena máquina
de escrever Olympia e mandava-me ditar-lhe os
meus pedidos a Papai Noel... Nunca recebi o
que pedira em nenhuma dessas cartinhas, mas
sempre mantive a esperança de que seria
atendido, porque o Natal é sempre mágico
para todas as crianças.
Meus
Natais perderam sua magia quando recebi pela
primeira vez presentes úteis:
um estojo com lápis e borracha e uma
pasta para os livros e cadernos que ainda seriam
comprados dois meses depois, para a minha primeira
aula, no Jardim da Infância.
Nunca
mais vi magia no Natal, mas sempre procurei
dar ao Natal dos meus filhos o sentido de magia
que eu havia perdido cedo demais.
O
Natal não é um dia, mas uma época.
Já a partir de novembro, começam
as promoções e reclames (como
se dizia) do comércio; as músicas
e jingles tocados à harpa nas ruas, nas
lojas, nas rádios e nas TVs; os desenhos
de Papai Noel nas revistas e jornais... Esse
é o cenário talvez neutro, mas
festivo, dos natais dos brasileiros adultos.
O
cenário menos neutro, talvez ainda festivo,
é o do 13º salário ou do
abono salarial, para fazer menos sofrida a dor
do outro cenário, o nada festivo e nada
neutro da conseqüência: o das dívidas
feitas com as compras, o do arrocho do ano seguinte,
o dos aumentos dos impostos a pagar a partir
de janeiro, o do horror da declaração
do imposto de renda... Um cenário que
dura até o mês de maio, quando
se pode respirar melhor e sentir o gosto amargo
da teimosia de sobreviver.
O
Natal não é um dia, mas uma época.
Uma época que lembra uma lei de Murphy:
As coisas sempre podem piorar. A gente
é que não tem imaginação.
04
- 12 - 06
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O
Anacoluto
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Jose
Augusto Carvalho
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O
anacoluto é a interrupção
brusca de uma frase inicial a que se segue outra
à qual aquela não se integra.
Por exemplo: O presidente, eleito por
causa da moeda forte e não por suas qualificações
profissionais ou acadêmicas, os professores
das Universidades Federais sabem que dele não
podem esperar apoio. O início do
período O presidente...
acadêmicas __ não tem conexão
com o resto, sintaticamente.
A
frase inicial, não completada, na anacolutia,
pode reduzir-se a uma única palavra (Eu
pareceu-me que ele tinha razão.),
ou pode estender-se a uma oração
inteira (Quem acha a caça não
é desgraça.), e nem sempre
a nova frase que a interrompe mantém
sua integridade sintática: (Quem
ama o feio bonito lhe parece.)
Muitos
provérbios começados por quem
apresentam anacolutos: Quem apanha de mulher,
o delegado não quer saber. Quem anda
caipora, até cachorro lhe urina na perna.
Quem faz a casa na praça, uns acham que
é alta e outros que é baixa. Quem
mais alto sobe maior é a queda. Quem
não reza, Deus é xingado. Quem
faz casa, a bolsa fica rasa. Quem mata gato,
são sete anos de atraso. Quem muito vê,
um olho basta. Quem o bem fizer, pra si é.
Quem quer festa, sua-lhe a testa. Quem quiser
morrer de fome e devagar, é fazer roça
e não ir lá. Quem não tem
tu vai tu mesmo. Quem dorme, sua fazenda ronca.
Quem tem mazela todos falam nela. Etc.
Outros
provérbios há que não começam
por quem, mas apresentam anacoluto: Cavalo
dado não se olha (sic) os dentes.
Pobre quando come frango um dos dois está
doente.
O
soneto A Antônio Nobre, do
livro A cinza das horas, de Manuel Bandeira
(Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Record.
1998, p. 44), começa com um belo e longo
anacoluto:
Tu
que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:
Com
que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino!
Epiphanio
Dias (Syntaxe clássica portuguesa. 5.ed.
Lisboa: Clássica, 1970, p. 334-6) define
a anacolutia como uma ou mais palavras do princípio
de uma oração que não se
ligam ao que vem depois, segundo as regras de
construção de frases, e estabelece
quatro tipos de anacoluto, que consistem em:
l.
pôr no princípio sem ligação
com o resto a designação do objeto
a respeito do qual se faz uma afirmação:
As outras, que as asas do anjo Asrael
se estendam sobre os seus cadáveres
(Herculano);
2.
repetir o princípio de uma frase que
é interrompida por uma parentética
ou por encaixes largos de subordinadas: É
possível (dizia Ezequias, quando o profeta
o avisou para morrer), é possível
que... (Vieira);
3.
repetir a conjunção que ou se
mesmo sem intercalação de orações:
... devemos catar se este que apelou se
he demandador se demandado (Herculano);
4.
principiar uma subordinada com que e terminá-la
com infinitivo: ... ssem rrazom pareçe
que aquel que he atormentado dar-lhi homem outro
tormento (Lei de D. Afonso II).
Há
um outro tipo de anacoluto não previsto
por Epiphanio Dias: a aposiopese, que consiste
em suspender um pensamento por meio de uma quebra
da estrutura sintática. O que provoca
a aposiopese é a decisão do falante
de não dizer mais do que deve, ou a indecisão
a respeito do que vai dizer.
A
aposiopese é mais freqüente na oralidade.
Na escrita, a interrupção do pensamento
é assinalada por reticências. Ex:
Você poderia... Bem, acho melhor
que você mesmo decida. Aquela
moça que você conhece... Parece
que o marido anda com outra. Você
sabe muito bem que... Cala-te, boca!
O
anacoluto em si não é condenável.
Condenável é usá-lo sem
saber explorar-lhe os recursos de expressividade
artística ou emocional. Basta vermos
o efeito que Manuel Bandeira conseguiu no primeiro
terceto do seu soneto A aranha,
para não condenarmos o anacoluto: Eu
que era branca e linda __ eis-me medonha e escura.
(BANDEIRA, Manuel, O.c. p.50).
É
claro que às vezes o bom nome de um escritor
leva os estudiosos a malabarismos de argumentação
para tentar fazer-nos entender como arte e inventiva
o que não passa de um tropeço
sintático ou de um cochilo que ficou
gravado por causa de uma revisão menos
atenta, como neste exemplo de Alexandre Herculano:
Assentada nas margens do Chetawir, grande
número de embarcações subiam
e desciam o rio. O que houve nessa sintaxe
truncada foi basicamente a omissão pura
e simples do nome da cidade de Alcácer,
que deveria ser o sujeito da oração
reduzida de particípio.
Melhor
que tentar tirar sangue de pedra é talvez
fazer como Horácio, que confessava em
sua Arte Poética que se indignava toda
vez que o bom Homero cochilava: Indignor
quandoque bonus dormitat Homerus. Aliás,
nem devemos indignar-nos diante dos cochilos
dos nossos bons escritores. Basta-nos ser sinceros,
e aceitar o erro como próprio da natureza
humana. Os gênios também erram.
Até Homero.
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O
Dia da Mentira
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Jose
Augusto Carvalho
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Abril
vem de aprilis, nome de um dos espíritos
que seguiam o carro de Marte, deus da guerra,
que deu nome ao mês de março. Assim,
aprilis não se relaciona com abrir (latim:
aperire), mas com o grego Apros ou Afros, designativo
de Afrodite, nome grego da deusa Vênus
a quem abril era dedicado, ou com o sânscrito
áparah, que significa "posterior"
(aparentado com o gótico afar ou aftra,
que significa "depois"), pois abril
era o segundo mês do ano, no calendário
civil de Rômulo (daí os nomes setembro,
outubro, novembro e dezembro para os meses sete,
oito, nove e dez, respectivamnte). A relação
de aprilis com aperire (abrir) surgiu posteriormente,
na vigência do calendário de Numa
Pompílio, que instituiu os meses de janeiro
e fevereiro, por ser abril o mês da primavera,
em que "todas as coisas se abrem".
Nas
modificações efetuadas por Numa
Pompílio no calendário de Rômulo,
o ano civil tinha um erro de dez dias em relação
ao ano solar, por isso ele tentou corrigir o
erro acrescentando um mês de dez dias
entre 23 e 24 de fevereiro. Mas essa solução
trouxe tantos problemas que, em 44 a.C., Júlio
César resolveu modificar novamente o
calendário, dando ao ano a duração
de 12 meses ou 365 dias, de acordo com o calendário
egípcio. Foi um astrônomo de Alexandria,
chamado Sosígenes, que descobriu que
o ano civil tinha seis horas menos que o ano
solar.
Assim,
Roma instituiu que a cada quatro anos seria
acrescentado um dia em fevereiro. O dia 24 de
fevereiro era chamado "sexto das calendas",
isto é, o sexto dia antes do dia primeiro,
que era chamado "calendas". Assim,
com o dia adicional (acrescentado após
o dia 24, com a mesma numeração),
houve dois sextos (=bissexto) das calendas.
A
reforma que Carlos IX empreendeu na França
em 1564 provocou confusão, mas não
foi responsável pela origem do dia das
mentiras. Carlos IX apenas obrigou os franceses
a seguir o calendário juliano (com o
ano começando a primeiro de janeiro).
Até então, e desde Carlos Magno,
era o calendário de Rômulo (com
o ano começando a primeiro de março)
que vigorava na França.
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O
Emprego dos Demonstrativos
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Jose
Augusto Carvalho
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As
gramáticas apresentam excesso de regras
para o uso dos pronomes demonstrativos, muitas
das quais redundantes e até confusas.
Na verdade, o pronome demonstrativo tem duas
funções ou dois empregos distintos.
O ideal é conhecer a única regra
básica para cada demonstrativo em cada
um dessas funções.
A
primeira função é chamada
pragmática ou situacional, porque o pronome
se refere à situação, ao
contexto em que a fala ocorre, e seu emprego
é paralelo e equivalente ao dos advérbios
pronominais aqui (para a 1ª pessoa) , aí
(para a 2ª pessoa) e ali (para a 3ª
pessoa) . Assim, o emprego de este equivale,
situacionalmente, ao de aqui; o emprego de esse,
ao de aí; e o emprego de aquele, ao de
ali. Ex.: Quem é aquele homem (ali)?,
Este rapaz que você vê (aqui)
é meu amigo, Esse relógio
(aí) é muito bonito. Os
pronomes demonstrativos, em seu emprego situacional,
primitivamente representam, na escrita, gestos
que acompanham a fala.
Nesse emprego situacional, este se refere ao
universo espaciotemporal do falante: este relógio
(aqui) é o que estou usando ou tenho
em mão; esta sala (aqui) é a sala
em que me encontro; este livro (aqui) é
o que estou lendo ou segurando; este momento
é sinônimo de agora,
etc. Esse se refere ao universo distante do
falante, mas não necessariamente próximo
ao do ouvinte. Ao referir-me, por exemplo, a
esses políticos de Brasília,
não estou necessariamente apontando para
o universo espaciotemporal do meu interlocutor.
Mas, ao referir-me a essa camisa (aí)
que você está usando, obviamente
aponto para o universo do ouvinte. Aquele, por
sua vez, só se refere a algo distante
do falante e do ouvinte: Quem é
aquele homem que vai ali?
A
segunda função do demonstrativo
é chamada textual ou sintática.
O pronome demonstrativo, na função
sintática, refere-se ao que já
foi dito ou ao que ainda vai ser dito num texto.
Este quando empregado sozinho, sem oposição,
se refere ao que ainda vai ser dito no texto:
O lema da nossa bandeira é este:
Ordem e progresso. Esse é sempre
empregado sozinho, sem oposição,
e refere-se sempre ao que já foi dito
no texto: Fé, esperança
e caridade essas são as virtudes
teologais.
Aquele
é empregado unicamente em oposição
a este e sempre em referência ao que já
foi dito no texto. Ex.: Pedro estuda e
Maria se diverte. Aquele passará no vestibular,
mas esta ficará reprovada. Repare-se
que nunca se deve dizer esse em oposição
a aquele.
Essas
regras têm exceção: delas
se excluem as formas cristalizadas na língua
e, portanto, inalteráveis, como isto
é (nunca isso é),
por isso (nunca por isto), posto
isso (nunca posto isto e, menos
ainda, isto posto,), etc.
Posto
isso (apesar do que diz Evanildo Bechara, em
suas Lições de português
pela análise sintática, é
melhor evitar isso posto, porque é categórica
a regra segundo a qual o sujeito é posposto
ao verbo nas reduzidas de particípio),
espero que o leitor não tenha mais dúvidas
sobre o emprego de este e de esse.
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O
Português e o Direito
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Jose
Augusto Carvalho
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Os
jornais, vez por outra, comentam com estardalhaço
os erros cometidos por bacharéis candidatos
ao exercício da advocacia, nos exames
da OAB. Recém-saídos da Universidade,
inexperientes ainda, é desculpável
que confundam habeas corpus com Corpus Christi,
fazenda pública com propriedade agrícola
do governo, ordem de vocação hereditária
(ordem dos herdeiros na sucessão) com
o fato de os filhos seguirem a mesma profissão
dos pais, e até que confundam com nome
de gente a expressão excelso pretório,
que designa, barroca e talvez indevidamente,
o Supremo Tribunal Federal, cada vez menos um
pretório e cada vez mais uma repartição
subalterna e subserviente do Poder Executivo,
que, aliás, também transformou
o Congresso Nacional praticamente em outra peça
decorativa, graças ao expediente abusivo
das Medidas Provisórias.
Piores
do que esses erros de bacharéis, que
o tempo se encarrega de corrigir, são
os erros que o tempo se encarrega de perpetuar,
na redação de autores de livros
de Direito e de legisladores, cuja sintaxe de
cozinheiro faz crer que estejam despreparados,
cultural e academicamente, para as funções
que ocupam. É claro que os jornais não
falam desses, porque não lhes compete
analisar o aspecto formal das leis; aos jornalistas
não lhes cabe tampouco a função
de estudar as explanações teóricas
dos candidatos ao título de jurisconsulto,
a menos que as aberrações lingüísticas
mereçam algum destaque, como as dos candidatos
aos exames da OAB.
Já
me referi, em outra ocasião, às
decisões judiciais contraditórias
ou discutíveis que, vez por outra, nos
surpreendem, como, só para ilustração,
os dois casos seguintes: no dia 21 de maio de
1996, a 2ª turma do STF absolveu o encanador
Márcio Luiz de Carvalho, de MG, acusado
de ter estuprado uma menina de 12 anos, em 1991.
O relator do processo, o ministro Marco Aurélio
de Mello, disse, na época, que "nos
nossos dias não há crianças,
mas moças de 12 anos". No dia 22
de outubro de 1996, ou seja, menos de seis meses
depois, o STF confirmou a condenação
de Claudinei Hacker, de Santa Catarina, acusado
de estupro de uma garota de 13 anos. Vale dizer:
estuprar uma menina de 12 anos não é
crime, mas estuprar uma de 13 anos pode dar
seis anos e três meses de prisão,
pena a que foi condenado o infeliz catarinense.
Essas contradições existem por
culpa do sistema, que permite a qualquer detentor
do diploma de bacharel em direito - tenha ou
não titulação acadêmica
- a dignidade de ministro da maior corte do
país, desde que seja amigo do "rei".
Mas
o que pretendo comentar aqui são os erros
chambões ou as tropeçadas lingüísticas
inadmissíveis em quem tem obrigação
histórica de zelar pela língua,
e não a parte técnica ou jurídica
das decisões judiciais ou das nomeações
de juízes e ministros. Afinal, não
sou advogado e não pretendo, já
sexagenário, abraçar a carreira
das leis, ainda que a ache fascinante, maravilhosa
e a mais gratificante, promissora e diversificada
de todas as profissões de nível
superior do mundo.
Deixarei
de comentar as bobagens escritas em latim, como
"a grosso modo" ou "a contrario
sensu" ou "status quo", por exemplo
(as formas corretas são grosso modo e
contrario sensu, sem a preposição
a inicial, e statu quo, sem o s final, porque
é ablativo, parte da expressão
in statu quo ante), porque o latim, infelizmente,
embora cultuado não por amor à
cultura clássica, mas por exibicionismo
pessoal, no exercício barroco do estilo
jurídico tradicionalmente empolado, deixou
há muito de ser ensinado nas escolas
brasileiras e há muito deixou também
de ser matéria do vestibular de Direito.
Pretendo ater-me aqui aos desvios lingüísticos
e às inovações que agridem
a nossa língua portuguesa em seu nível
formal.
O
Novo Código de Trânsito (Lei nº
9.503/97) é uma antologia de calinadas
e de atrocidades lingüísticas, algumas
dignas de apedeutas engravatados. Só
para ilustração, eis algumas delas,
escolhidas aleatoriamente:
l.
No Art. 302, § único, lê-se:
"... se o agente: (...) II - praticá-lo..."
(Desde crianças, aprendemos que não
existe ênclise com futuro; "praticá-lo"
é futuro do subjuntivo com o pronome
enclítico. É como se alguém
pudesse dizer "se quisé-lo",
"se pudé-lo", "se fizé-lo".
Aliás, não há ênclise
tampouco em orações subordinadas
desenvolvidas, porque a conjunção
atrai o pronome clítico.);
2. no Art. 231, inciso V, lê-se mais de
uma vez o número mil escrito por extenso
com um antes: "um mil" (Pena que tenha
faltado o h inicial para ornamentar a calinada!);
3. no Art. 46, Contran aparece escrito adequadamente,
apenas com a inicial maiúscula; em quase
todos os outros artigos em que aparece, o nome
Contran vem grafado com todas as letras maiúsculas
(os acrônimos, isto é, os nomes
formados com a primeira letra ou com a sílaba
ou sílabas iniciais de várias
palavras, se escrevem com minúsculas,
exceto a primeira, se se tratar de nome próprio,
como: radar, Petrobras, Ufes, Arena, Varig,
Vasp, laser, Bradesco, etc. As siglas - que
não formam novas palavras na língua
- é que se escrevem com todas as letras
maiúsculas, como PMDB, STF, IPTU, UFRJ,
BCG, etc. Se o acrônimo tiver menos de
quatro letras, todas se escreverão em
versal, como as siglas, como, por exemplo, TAP,
ONU, TAM, etc. Esse erro é desculpável,
já que nas duas primeiras edições
do Aurélio se grafou aids com todas as
letras maiúsculas: AIDS. A nova edição
corrigiu as anteriores, mas cometeu erro idêntico
ao grafar SIDA no verbete próprio. O
que não é desculpável é
a falta de uniformidade: Contran/CONTRAN.);
4. no art. 148 § 3º lê-se: "A
carteira Nacional de Habilitação
será conferida ao condutor no término
de um ano, desde que o mesmo não tenha
cometido nenhuma infração (...)"
(Grifo nosso.) (Se se dessem o trabalho de consultar
o Aurélio, no verbete mesmo, os legisladores
teriam evitado esse uso inadequado de o mesmo,
em lugar do pronome pessoal ele.);
5. no Art. 21, inciso XI; no Art. 22, inciso
XII; no Art. 24, inciso XV, lê-se a mesma
bobagem: "promover e participar de projetos
e programas" (Ora, qualquer aluno de 2º
grau sabe que dois verbos de regência
diferente não podem ter o mesmo complemento.
Diz-se promover algo e participar de algo; um
mesmo termo não pode ser simultaneamente
objeto direto e objeto indireto, até
mesmo pelo princípio lógico da
não-contradição: uma coisa
não pode ser e não ser ao mesmo
tempo.);
6. no Art. 116, o verbo obedecer, que é
transitivo indireto, aparece na voz passiva,
numa construção que, embora usual
e encontradiça até em bons escritores,
a grande maioria dos gramáticos rejeitaria,
com base na regra de que só os verbos
que têm objeto direto na voz ativa admitem
construção passiva, porque é
o objeto da ativa que vai ser o sujeito da passiva.);
Não
quero estender-me mais nessa aberração
lingüística que é o Novo
Código de Trânsito, espelho do
preparo (ou despreparo) cultural dos nossos
legisladores. Passemos a outro documento legal,
aleatoriamente escolhido. Por exemplo: a Lei
nº 9.279/96, que é o Código
de Propriedade Industrial. O Art. 195, só
para ilustração, nos incisos XI,
XII e XIV, apresenta repetidamente duas tolices
grossas: o uso do mesmo complemento para verbos
de regência diferente e o uso da ênclise
em oração subordinada desenvolvida:
"Comete crime
de concorrência desleal quem divulga,
explora ou utiliza-se (...) de conhecimentos..."
Não é um belo exemplo de incompetência
lingüística?
Até
mesmo a Lei de Diretrizes e Bases que deveria
primar pela correção lingüística
apresenta bobagens como, por exemplo, opor sistematicamente
jovem a adulto, como se um adulto não
pudesse ser jovem ou um jovem não pudesse
ser adulto!
Deixemos
de lado os textos legais. Nem os deputados,
nem os senadores - nossos legisladores - foram
eleitos por sua brilhante inteligência
ou por seu notório saber. Passemos ao
uso que da língua fazem os profissionais
do Direito.
Nos
poucos textos que tive a oportunidade de examinar,
encontrei as seguintes expressões ou
termos inexistentes ou inadequados:
l.
vez que (com o sentido de uma vez que);
2. a-histórico (por aistórico
ou anistórico);
3. frente a, face a (Todas as locuções
prepositivas que são formadas com um
substantivo, à exceção,
talvez única, de graças a, têm
sempre duas preposições: uma antes
e outra depois do substantivo, como a propósito
de, em nível de, em (com) relação
a, em função de, com respeito
a, a respeito de, em torno de, em favor de,
em direção a, etc. Portanto, o
correto é dizer em frente de, em frente
a, em face de...);
4. posto que (com o sentido inadequado de porque;
posto que significa "embora", "apesar
de que");
5. eis que (com o sentido de porque; eis que
só se usa no início de frases
anunciativas ou no início de expressões
que indicam surpresa, nunca com sentido causal);
6. inobstante (inovação desnecessária,
equivalente a não obstante);
7. supedanear (O nome supedâneo existe,
mas o verbo, não. Melhor seria a utilização
de verbos já existentes, como basear,
sustentar, alicerçar, apoiar e quejandos.);
8. pertine (A expressão adequada é
ser pertinente. Não existe na língua
nenhum verbo de que pertine possa fazer parte:
nem pertinar, nem pertiner, nem pertinir. Atente-se
para o fato de que a existência de um
adjetivo - pertinente - não nos autoriza
a pressupor a existência de um verbo de
mesmo radical; existem os adjetivos irrespondível,
impossível e imperdoável, por
exemplo, mas não existem os verbos irresponder,
impoder ou imperdoar.);
9. exauriente, satisfativa, irresignado, improvido
- são algumas das inovações
lexicais mais comuns;
10. a teor de - locução prepositiva
inventada;
11. implicar em - o verbo implicar se usa sem
preposição, com o sentido de pressupor,
provocar: A implica B, e não "em
B";
12. deparar-se com - o correto, apesar da lição
espúria da 3ª edição
do Aurélio, é: A deparou B; deparou-se
B a A; A deparou com B.
13. sequer com sentido negativo (sequer significa
"ao menos", "pelo menos",
e não tem sentido negativo por si só:
"Ele ganha pouco mas sequer pôde
comprar um carro importado.");
14. intime-se-o - (O correto é intime-se
ele. Quando se tem numa oração
o pronome se, o sujeito dessa oração
é sempre o primeiro substantivo ou pronome
que aparecer sem preposição; o
o é pronome sem preposição,
mas é exclusivo da função
de objeto direto; por isso, se o é construção
inexistente na língua culta, exceto se
o o é pronome demonstrativo, seguido
de relativo, como em "Sabe-se o / que ele
fez".);
15. A lei está vigindo - (Por "A
lei está vigendo". O verbo é
viger, da 2ª conjugação.);
16. Nada importa que o requerente inclua...
(Ora, o sujeito de importa é a oração
seguinte e, ao mesmo tempo, o pronome nada.
Em português, é impossível
que um sujeito com mais de um núcleo
não tenha esses núcleos coordenados
em sucessão. A bizarra construção
não levou em conta que nada não
é apenas uma negação, mas
um pronome indefinido, com função
nuclear em qualquer oração a que
pertença.)
Fiquemos por aqui. Se é verdade que os
bacharéis recém-saídos
da Universidade tropeçam nos exames da
OAB, não é menos verdade que muitos
profissionais, já em final de carreira,
ainda tropeçam na língua, e, o
que é pior, na ilusão de que a
sabem.
É um erro pensar que a norma culta portuguesa
tenha sido sedimentada pela linguagem dos escritores.
O aprendizado da língua culta era adquirido
pela leitura de textos legais ou, às
vezes, de textos dos cronistas, nome por que
eram conhecidos os "guardas das escrituras"
ou escrivães, contratados pelos reis
para contar as histórias e feitos reais
como suas testemunhas oculares. Os primeiros
gramáticos portugueses não citavam
exemplos de conterrâneos escritores, contemporâneos
ou não. Foi a tradição
dos gramáticos latinos que introduziu
essa prática, justificável pelo
fato de só podermos saber como era o
latim culto pela observação do
uso que dele faziam os grandes poetas, como
Ovídio ou Virgílio, ou os grandes
prosadores, como César ou Cícero.
Mas o objetivo de um escritor é ou deveria
ser o de subverter a norma, o de se valer de
feitos de fala, de desvios eufóricos,
a fim de ser diferente dos outros, e não
como os outros. Por isso, comete um erro de
metodologia o gramático moderno que abonar
regras com exemplos de escritores. Os exemplos
deveriam ser colhidos em obras não-artísticas,
em que predomina a linguagem denotativa, isto
é, sem metáforas, sem figuras,
sem intenção estética,
mas apenas ou quase exclusivamente em sua função
referencial.
Sabemos, pelos trabalhos lingüísticos
de Chomsky, que todos os falantes de uma língua
têm competência lingüística,
no sentido de que têm capacidade de dizer,
entender e reconhecer como de sua língua
frases que nunca ouviram antes. Mas a essa competência
pragmática, digamos assim, opõe-se
a competência literária, aqui entendida
como a competência lingüística
no registro mais formal da língua. E
é essa que a muitos "sábios"
acaba faltando, sem que eles próprios
se dêem conta disso.
A linguagem jurídica poderia voltar a
ser a linguagem padrão da elite cultural
do país, e um modelo de língua
castiça a ser imitado e louvado em todas
as escolas. Mas o poder sobe à cabeça,
e a vaidade cega.
Infelizmente.
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O Rei Nu
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Jose
Augusto Carvalho
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O
rei decidira viajar pelo seu reino para saber
se eram verdadeiras as pesquisas que o punham
entre os mais queridos e populares governantes
de sua dinastia. Seus ministros que confundiam
bajulação com fidelidade canina
prepararam-lhe o roteiro de seu périplo
a que não faltariam trombetas nem foguetes.
Mas os ministros, enquanto planejavam o trajeto
do rei pelas ruas e cidades do reino, contrataram
claques milionárias com o dinheiro dos
contribuintes.
Quando o rei percorria com o seu séquito
de políticos bajuladores as ruas enfeitadas
do seu reino, olhava satisfeito o povo que o
aplaudia, sem ouvir, por abafadas pelos aplausos
e gritos de vivas da claque mercenária,
as vaias e as pragas dos que morriam de fome.
Essa
história, contada por Saint-Exupéry,
em alguma parte de Citadelle e aqui reproduzida
de memória, com algumas adaptações
involuntárias, lembra a aventura de um
rei que, viajando disfarçado pelo seu
reino para colher pessoalmente as impressões
dos seus súditos a seu respeito, resolveu
passar a noite numa estalagem.
No
dia seguinte, além de ter recebido uma
conta alta e de ter sido destratado pelo estalajadeiro,
o rei disfarçado teve a sua maleta roubada.
Ao exigir satisfações do dono
da estalagem pelas três surpresas desagradáveis,
ouviu dele a explicação: o estalajadeiro
era um funcionário público aposentado
que seria um tolo se não aproveitasse
a oportunidade única na vida de hospedar
um rei e de ter o prazer de vingar-se das leis
duras que puniam o trabalhador de classe média
e dos impostos que o obrigavam, já velho,
a voltar a trabalhar, e que, de tão escorchantes,
o impediam de fazer economias para o futuro.
Sem
saber, por ser pouco instruído, como
o estalajadeiro descobrira sua identidade, o
rei, ao ouvir aquilo, cofiou a barba tão
manchada quanto a sua consciência, deu
um aperto de mão no estalajadeiro, demagogicamente,
e sussurrou-lhe ao ouvido alguma promessa de
bons ventos de popa.
Embora
pouco instruído, o rei tinha sabedoria
política e não aprendeu a lição
que recebera do estalajadeiro. Assim que voltou
ao seu castelo, estudou com os ministros não
só um aumento de salário para
si e para eles, mas também o melhor jeito
de acabar com os aposentados e trabalhadores
de classe média do seu reino.
E entrou pela perna do pato e saiu pela perna
do pinto e quem quiser que me conte mais cinco.
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Opinião
Lastimável
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Jose
Augusto Carvalho
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Envaidecido
por ter uma crônica sua aproveitada num
vestibular de Medicina, Mário Prata escreveu
ao Ministro da Educação, Paulo
Renato, uma carta aberta que nunca deveria ter
saído da gaveta, tanto pelos primarismos
sintáticos quanto pelo conteúdo
lastimável.
Inicialmente,
Mário Prata confessa ter errado as oito
questões de múltipla escolha baseadas
no seu texto, como se um usuário do português
tivesse também a obrigação
de ser técnico da língua, ou como
se um maestro fosse obrigado a saber tocar algum
instrumento para reger uma orquestra. Sua confissão
de ignorância valeria um crédito
a seu favor, não fosse a tolice de condenar
nos outros o conhecimento que lhe falta.
"Aí
para ser médico, o jovem precisa saber
se esta pequena frase é poética,
fática, metalingüística,
emotivo-expressiva, referencial, conativa ou
apelativa?" - pergunta ele a certa altura
da carta, como se todo saber individual tivesse
de ser necessariamente dirigido para uma prática
profissional, como se o homem tivesse de usar
antolhos para não ver o que se passa
ao seu lado. Aldous Huxley, em Admirável
mundo novo, imaginou assim um mundo em que a
ciência genética determinava antes
do nascimento a profissão de uma pessoa
que, portanto, não precisava saber mais
nada além daquilo para o qual foi programada.
Mário Prata quer, parece-me, que nossos
futuros médicos sejam apenas robôs
da Medicina, incapazes de raciocinar além
de doenças e de remédios. Por
que um médico precisa saber História,
Geografia, ou ler crônicas de Mário
Prata?
A
mesma tolice cometeu Luís Fernando Veríssimo
ao vangloriar-se da sua falta de conhecimentos
gramaticais, na crônica "O gigolô
das palavras", que Celso Pedro Luft, irrefletida
e equivocadamente, parafraseou, num livro em
que renegava todo o seu passado de professor
e autor de gramática. É por isso
que Luís Fernando Veríssimo publicou
um livro em que comete no próprio título
uma gafe evitável que retrata um despreparo
de que deveria envergonhar-se: Comédias
para se ler na escola.
É
claro que um escritor não tem a obrigação
de seguir as normas do dialeto culto. Sua função
é trabalhar a língua, recriá-la,
brincar com ela. É preferível
que o faça com conhecimento de causa,
como Guimarães Rosa, Autran Dourado ou
Adonias Filho, que estudavam gramática
para subverter a sintaxe com competência.
É claro, também, que um escritor
não pensa em "opções
fáticas", nem em "função
apositiva", nem em "flexões
nominais" quando cria. Mas não é
por isso que deve condenar qualquer tipo de
conhecimento simplesmente por não ver
nele, numa ótica mesquinha, nada de prático
para o exercício de uma profissão.
O
pior de tudo é que Mário Prata
deve estar crente de que "abafou"
com sua demagógica carta ao Ministro.
O
que é uma pena.
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Origem
dos Nomes dos Dias da Semana
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Jose
Augusto Carvalho
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Foi
o meu sábio e grande mestre Isaac Nicolau
Salum que, em sua tese de doutoramento A contribuição
lingüística do Cristianismo na România
antiga (São Paulo: USP, 1954), e na tese
seguinte, A semana astrológica e a judeo-cristã:
introdução à problemática
da nomenclatura semanal românica (São
Paulo: USP, 1967), me ensinou como se deram
os nomes dos dias da semana nas línguas
conhecidas. Baseio-me parcialmente aqui em seu
estudo.
Os
planetas conhecidos, por ordem decrescente da
distância da Terra, eram os seguintes,
na época do império romano: Saturno,
Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio.
Se iniciarmos a contagem pela Lua e pusermos
o Sol no centro do sistema, teremos a seguinte
ordem astrológica: Saturno, Júpiter,
Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua.
O
quatro representava o mundo com suas coisas
terrenas. Quatro são as divisões
da Terra, quatro são os ventos, quatro
são os elementos, etc. O quadrado era
o símbolo da perfeição,
por ser sempre igual de qualquer lado por que
é visto. Por isso, conta-se até
quatro, a partir de Saturno, inclusive, até
chegar ao Sol e temos o primeiro dia (Sunday);
a partir do Sol, inclusive, conta-se até
quatro e chega-se à Lua (Monday, lunes,
lundi, lunedi); a partir da Lua, inclusive,
conta-se quatro até Marte, portanto:
mardi, martes, martedi. E assim por diante.
Assim, o domingo é o dia do Sol; segunda-feira,
o da Lua; terça-feira, o de Marte; quarta,
o de Mercúrio; quinta, o de Júpiter
(jeudi, jueves, giovedi); sexta, o de Vênus
(vendredi, viernes, venerdi). Sábado
é o dia de Saturno (Saturday).
Em
inglês, Marte foi substituído por
Tyw, o deus maneta da força e da guerra
na mitologia nórdica (Tuesday). O dia
de Mercúrio em inglês foi consagrado
a Odin ou Wedin (na mitologia escandinava) ou
Wotan, equivalente a Zeus, entre os germanos
(Wednesday). O dia de Júpiter, quinta-feira,
foi substituído por Thor, filho de Odin,
na mitologia escandinava, ou o deus do trovão
(que se traduz por Donner, donde Donnerstag,
em alemão, para a quinta-feira). Assim
Thursday significa "dia de Thor",
em inglês. A sexta-feira era destinada
à deusa Freya, esposa de Odin, deusa
da juventude, do amor e da morte, na mitologia
nórdica (daí o Freitag alemão
ou o Friday inglês). Tag, em alemão,
é dia.
O
nome sábado vem do hebraico Shabbath,
que significa "repouso". Para os hebreus,
sábado é o sétimo dia da
semana (que começa, portanto, no domingo).
Para os cristãos, o último dia
da semana é o domingo (de dies Dominica
ou dia do Senhor). Senhor é traduzido
por dominus (o senior latino, que deu senhor,
significa "o mais velho", donde "senado",
isto é, conselho de anciãos).
De dominus temos dominar, dom, dona, donzela
(de dominicella, senhorita, que deu origem ao
"demoiselle" francês).
Os
nomes em português têm outra origem.
Vêm da feira que faziam os agricultores
medievais que se reuniam no adro das igrejas
a cada domingo (a primeira feira). É
da expressão filius ecclesiae (filho
da Igreja, da Assembléia) que se originou
o nome "freguesia", inicialmente de
cunho apenas religioso (ainda em voga, quando
se diz "freguesia de Santa Rita",
"baixar noutra freguesia", etc.).
O dia seguinte ao domingo era o da xepa, o da
segunda-feira... E feira ficou sendo o nome
dos outros dias.
Essa
é a origem dos nomes dos dias da semana.
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Pego
ou Pegado
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Jose
Augusto Carvalho
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Apesar
da prolação generalizada pego
(com o e fechado, de preferência) há
razões para crer que o verbo pegar só
admita pegado como particípio.
O
Vocabulário Ortográfico da língua
portuguesa (Rio de Janeiro: Bloch, 1981) registra
pego e pegado, como particípios de pegar,
embora evidenciando a preferência pela
forma regular. O Novo dicionário da língua
portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda
Ferreira (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975,
1.ed.; 1986, 2.ed e 3.ed. 1999) registra pego
como brasileirismo. No seu Dicionário
de dúvidas e dificuldades do idioma nacional
(2.ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1944),
Antenor Nascentes ensina que pegado é
o único particípio de pegar; no
Dicionário brasileiro da língua
portuguesa, de Macedo Soares (Rio de Janeiro:
MEC/INL, 1984, vol. 1; e 1955, vol. 2), há
o verbete pegado, mas não há pego;
o Dicionário de verbos portugueses conjugados,
de Rodrigo de Sá Nogueira (Lisboa: Clássica,
1945), nega o particípio irregular a
pegar, porque inclui esse verbo no paradigma
da conjugação de chegar, ao lado
de carregar, empregar e alguns outros mais,
terminados em -egar; no Manual de conjugações
verbais (Rio de Janeiro: Acadêmica, 1961),
Cândido Jucá (filho) considera
pego forma ainda sem abonação
dos mestres (p. 106) e não bem aceita
(p. 182); Otelo Reis, mais categórico,
condena ( Breviário da conjugação
dos verbos da língua portuguesa. 31.ed.
Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1967, p. 90)
como errônea a forma pego (ao lado de
empregue); Adriano da Gama Kury (1000 perguntas:
português. Rio de Janeiro: Rio, 1983)
admite pego como correto, embora considere de
menos uso na língua culta (Pergunta 215);
Celso Cunha e Rocha Lima,(Gramática do
português contemporâneo. Belo Horizonte:
Bernardo Álvares, 1970, p. 306; Gramática
normativa da língua portuguesa. 15.ed.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, p.
150, respectivamente), admitem o verbo pegar
na relação dos particípios
duplos. Mas Domingos Paschoal Cegalla, na Novíssima
gramática da língua portuguesa.
30.ed. São Paulo: Nacional, 1988), inclui
pegar na relação de verbos abundantes,
aceitando sem restrições o particípio
pego ao lado de pegado (p. 154).
Nesse
mar de opiniões, podemos destacar três
linhas básicas:
l. a dos que aceitam pego como forma correta
ao lado de pegado;
2 a dos que consideram pegado preferível
a pego;
3. a dos que simplesmente consideram pego como
incorreto e o rejeitam.
As
razões que levam os autores a adotar
uma dessas três lições não
são explicitadas claramente, mas parecem
prender-se à baixa freqüência
do uso escrito de pego, nos escritores consultados
como fonte de seus exemplos.
Ainda
que houvesse um uso generalizado de pego entre
os escritores brasileiros modernos, parece-me
pouco científica e pouco válida
a utilização da freqüência
de ocorrência como critério de
inclusão ou de exclusão de uma
forma no dicionário ou na gramática
da variante culta de uma língua; pouco
científica, porque um escritor não
precisa necessariamente (e, aliás, nem
deve) obedecer às normas gramaticais
do dialeto culto, já que sua função
é recriar a realidade, retrabalhando
a língua, e, portanto, é seu dever
infringir e subverter os padrões normativos;
pouco científica, porque, se aceitamos
pego por tê-lo utilizado Drummond ou por
ser usual no Rio de Janeiro, temos de aceitar
canso, ao lado de cansado, porque José
Américo de Almeida o utilizou em A bagaceira
e é de uso freqüente em Pernambuco,
e temos de aceitar empregue ao lado de empregado,
porque é de uso corrente em Lisboa; e
pouco válida porque, além do uso
puro e simples de uma forma, é importante
observar o comportamento dessa mesma forma dentro
da rede de relações ou do sistema
em que ela se inclui; pouco válida, ainda,
porque, do ponto de vista não-normativo,
mas estritamente lingüístico, formas
como empregue, pego ou canso, ainda que usadas
por escritores, não podem ser consideradas
na gramática do dialeto culto, porque
é aí, gramaticalmente, que elas
se mostram verdadeiras anomalias, embora possam
ser admitidas numa gramática dialetal,
isto é, num, outro tipo de gramática
que apresente padrões reais e não
padrões ideais de comportamento lingüístico.
Expliquemo-nos: sempre que ocorre um particípio
irregular na língua, esse particípio
pode exercer a função de adjetivo.
Se houver dois particípios, é
normalmente o irregular e não
o outro que pode exercer a função
adjetiva. Vejamos: livro impresso (por imprimido),
sapato roto (por rompido), leito
seco (por secado), presente aceito
(por aceitado), encomenda entregue
(por entregada), aluno expulso (por
expulsado), criança salva
(por salvada), página solta
(por soltada), envelope anexo (por
anexado), copo limpo (por limpado),
amigo oculto (por ocultado); para
não nos alongarmos, bastar compararmos
os pares abaixo: absorvido/absorto; afligido/aflito;
cegado/cego; completado/completo; descalçado/descalço;
pervertido/perverso; fixado/fixo; incluído/incluso;
confessado/confesso, etc. etc. etc.
O particípio regular também pode
aparecer ao lado do nome como o irregular, mas
com ligeiras (ou, às vezes, acentuadas)
nuances de significação:
escravo liberto (alforriado) ¹ escravo
libertado (posto fora da prisão);
carro seguro (estável, firme ¹ carro
segurado (coberto por uma seguradora);
duas pessoas juntas (reunidas) ¹ duas pessoas
juntadas (amasiadas);
garota enxuta (de corpo bonito) ¹ garota
enxugada (livre de umidade);
pessoa omitida (não lembrada) ¹
pessoa omissa (negligente); etc.
Em
síntese, o particípio irregular
pode exercer sempre uma função
de adjetivo; o particípio regular, nem
sempre. Ora, se pego (como empregue ou canso)
fosse um particípio irregular admissível
na gramática do dialeto culto, como padrão
ideal, teríamos frases como:
l. *Moro numa casa pega com a prefeitura (em
lugar de pegada com a prefeitura).
2. *Comprei dois apartamentos pegos um com ou
outro (por pegados).
3.?Aqui estão os escravos pegos de volta
(em lugar de pegados).
4.*Conheci um rapaz bem empregue (em lugar de
bem empregado).
5.*Os homens cansos se sentaram(em lugar de
cansados).
Ora,
se as sentenças acima são agramaticais
ou inaceitáveis, é porque pego,
canso e empregue não podem ser considerados
particípios irregulares, no dialeto culto,
ainda que o possam ser em outro nível
de língua ou em outro dialeto que ainda
está por ser descrito. Mas isso é
outro problema.
(Trancrito de Discurso e narração,
p. 30-33)
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Plural
dos nomes em - ÃO
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Jose
Augusto Carvalho
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O
plural dos nomes em ão é
problemático, não só porque
há três possibilidades de pluralização
(em ões, ães e ãos),
mas também porque, graças ao hábito
de se copiarem uns aos outros, sem a necessária
análise crítica, gramáticos
chegaram a inventar formas fantasma, conforme
denúncia de Mattoso Câmara, nas
últimas linhas do cap. XI do seu livro
Estrutura da Língua Portuguesa.
Numa tentativa de sistematização,
podemos inicialmente apresentar algumas regras
categóricas, isto é, sem exceção:
1) As paroxítonas fazem o plural em ãos:
bênçãos, órgãos,
sótãos. 2) Fazem o plural em ões
(oxítono): a) os aumentativos e falsos
aumentativos (falso aumentativo é o que
parece o aumentativo de um nome pela semelhança
formal, como botão em relação
a bota): torrões (torre),
escovões, caixões, limões
(lima), baiões (baio), anões (Ana);
b) os nomes em que ão designa origem,
proveniência ou agente: saxões,
bretões, comilões (que comem muito),
babões, beberrões; c) todos os
nomes femininos: visões, razões,
estações, paixões; d) os
nomes que têm forma igual à de
verbos: porões (porão, v. pôr);
serões (serão, v. ser), verões
(verão, v. ver).
Regras dos COGNATOS: a) fazem o plural em ãos
os nomes que apresentam cognatos (palavras da
mesma família) em que o a do ditongo
ão permanece seguido de n
e de qualquer vogal, exceto i. Ex.: vilãos
(vilanaço), artesãos (artesanato),
irmãos (irmanar), verãos (veraneio),
vilãos (vilanesco), anãos (anano);
b) fazem o plural em ães os nomes
cujos cognatos conservam o a seguido de
n e da vogal i: anães
(nanico), escrivães (escrivaninha), capitães
(capitania), vilães (vilania), charlatães
(charlatanice); c) fazem o plural em ões
os nomes que mudam a vogal a do ditongo
em o ou em io, nos cognatos: leões
(leonino), mamões (mamoeiro), ferrões
(ferroada), frações (fracionar),
funções (funcionário),
feijões (feijoada), etc.
Repare-se que vilão e anão
têm três plurais, que nossas regras
justificam: vilões e anões
(falsos aumentativos de vila e Ana),
vilães e anães
(por terem vilania e nanico
como cognatos) e vilãos e
anãos (por terem vilanaço
e anano como cognatos). Verão
faz verões (por causa da
forma igual à do verbo ver)
e verãos (por causa do cognato
veraneio).
Essas são as regras principais. Os monossílabos
tônicos quase sempre são exceções,
mas as regrinhas dos cognatos se podem aplicar
a alguns monossílabos: pães (cognato:
panificadora); mãos (cognato:
manual; manicure é
adaptação gráfica do francês
manucure); cães (cognato:
canino); são
(sinônimo de sadio), apesar
da forma igual à do verbo ser,
faz o plural sãos, mas há
a forma cognata sanatório,
por exemplo, que justifica o plural sãos.
Felizmente, as exceções quase
sempre são palavras de uso corrente,
sem muito risco de levar o falante a dizer bobagem:
cidadãos, cortesãos, cristãos
(falsos aumentativos), alemães, etc.
A regra mais usual e mais freqüente é
a do plural em ões, que se aplica
também a nomes próprios não-paroxítonos:
Joões, Sebastiões, Simões
(Simão), etc. Mas: Cristóvãos
(paroxítono).
(Este artigo é resumo de um trabalho
longo que publiquei numa revista em 1979 e que
serviu, para minha alegria, como base para a
dissertação de mestrado de Marinalva
Freire da Silva, defendida em 1982 e publicada
pelo Centro de Ciências Humanas, Letras
e Artes da Univ. Federal da Paraíba,
em 1993).
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Por
Que se Diz Ano Bissexto
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Jose
Augusto Carvalho
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O
calendário romano tinha três datas
com nome próprio: Kalendae ou Calendas
(o primeiro dia de cada mês), Nonae ou
Nonas (o dia 5 de todos os meses, exceto março,
maio, julho e outubro, em que Nonae designava
o dia 7) e Idus ou Idos (o dia 15 para aqueles
quatro meses e o dia 13 para os outros meses).
Os outros dias de cada mês eram citados
a partir daqueles três nomes. Exemplifiquemos:
o dia 3 de abril era chamado "o terceiro
dia antes das nonas de abril" ("ante
diem tertium nonas Apriles"); o dia 9 é
o "quinto antes dos idos de abril"
(os idos de abril caem no dia 13); o dia 26
de abril era o "sexto dia das calendas
de maio".
Em
outras palavras, em lugar de numerar os dias
em seqüência crescente, como fazemos,
os romanos preferiam numerar os dias usando
as palavras Calendas, Nonas e Idos como pontos
de referência. A complicação
existe para nós. Não existia para
eles. Para se ter uma idéia, a expressão
"desde 3 de junho até 31 de agosto"
se dizia em latim como "terceiro dia antes
das nonas de junho até o primeiro das
calendas de setembro" ("ante diem
III Nonas Junias usque ad pridie Kalendas Septembres").
O
dia 24 de fevereiro era chamado "o sexto
das calendas de março". No nosso
calendário, o gregoriano, no ano bissexto,
temos um dia a mais, acrescentado ao último
dia do mês de fevereiro. Assim, aos 28
dias normais desse mês se acrescenta o
dia 29, no ano bissexto. Mas, no calendário
juliano, o dia a mais era acrescentado ao dia
24. Ou melhor: havia dois dias de número
24. Portanto, havia duas vezes o sextus dies
(bis sextus) antes das calendas de março.
Desses dois sextos é que se originou
a expressão "ano bissexto",
que não tem nada a ver com os dois últimos
dígitos do número 366, que os
dias do ano bissexto totalizam.
Todas
essas informações podem encontrar-se
em boas gramáticas latinas. Recomendo
a do Pe. João Ravizza (Gramática
Latina. 13.ed. Niterói: Escola Industrial
Dom Bosco, 1956, p. 400 e ss.), que não
só apresenta um pequeno histórico
dos nomes dos meses de julho (ex-Quintilis)
e de agosto (ex-Sextilis), modificados, respectivamente,
para Julius, em honra de Júlio César,
e para Augustus, em honra de Otávio Augusto,
mas também traz um exemplário
dos nomes dos dias em latim, nos meses completos
de janeiro a abril.
A
Gramática superior da língua latina,
de Ernesto Faria (Rio de Janeiro: Acadêmica,
1958) é mais completa do ponto de vista
morfológico e sintático, mas carece
dessas curiosidades de que é rica a gramática
do Pe. Ravizza, que ainda traz, no final, um
"Compêndio de história da
literatura latina".
Pena
que o latim não se ensine mais nas escolas
brasileiras...
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Por
Que se Usa M Antes de P e B ?
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Jose
Augusto Carvalho
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Nossa
ortografia às vezes é arbitrária.
Não há razão, por exemplo,
para que Bahia seja com h, já que os
nomes próprios se originam de nomes comuns.
Nem há razão para que tecido seja
com c, se o ato de tecer se escreve com ss:
tessitura. Mas, no caso do m antes do p e do
b, nossa ortografia é adequada.
Muitos gramáticos dizem que o m ou o
n que faz sílaba com uma vogal anterior
constitui com ela um dígrafo vocálico
(dígrafo é o nome que se dá
ao conjunto de duas letras que representam um
som único, como o ch de chave, que tem
o som de x). Assim, o m e o n seriam apenas
sinais de nasalidade em palavras como: âmbar,
antes, êmbolo, entre, ímpio, índio,
pomba, ontem, cumpro, funde. Mas não
é bem essa a explicação
lingüística.
Quando os órgãos da fala pronunciam
um som, já se estão preparando,
ao mesmo tempo, para pronunciar o som seguinte.
É esse fenômeno de preparação
prévia que provoca o que em lingüística
se chama assimilação. É
por assimilação que algumas pessoas
dizem salchicha em lugar de salsicha, por exemplo.
E é também por assimilação
que quase todos os brasileiros dizem cosquinhas
por coceguinhas: o e- pretônico
quase não soa em coceguinhas; assim,
temos aí uma seqüência de
sons díspares: o c surdo da sílaba
pretônica e o g sonoro da sílaba
tônica. Por assimilação,
o som g ,sonoro, se transformou em k, surdo
(a pronúncia é kós-kí-ña).
É por assimilação que o
s do artigo plural os soa z antes de fonema
sonoro (os amigos, os bailes) e soa s antes
de fonema surdo (os cavalos): o z é sonoro
e o s é surdo.
Assim, quando pronunciamos o a de campo ou de
câmbio, nossos órgãos da
fala se preparam para pronunciar o p ou o b.
Ora, o p e o b são bilabiais, como o
m, isto é, é preciso juntar os
lábios, fechando a boca, para pronunciar
o p, o b e o m (como em mapa, por exemplo).
Ora, nosso ouvido não percebe, mas aparelhos
especiais conseguem provar que, ao pronunciarmos
vocábulos como bamba e campo, há
a pronúncia de um m que desliza
entre a vogal a e a consoante b ou p seguinte.
Deslizar, em inglês, é glide (pronuncia-se
glaid), por isso esse som do m quase
imperceptível se chama glide.
Esse glide consonântico é representado
fonologicamente por /N/, que simboliza um arquifonema.
Arquifonema é uma classe de fonemas que
perderam a sua capacidade de distinguir vocábulos.
Quando dizemos mata e nata, o m e o n são
fonemas porque distinguem vocábulos.
O fonema é uma classe de sons. Por exemplo,
o <r> inicial de <rato> pode soar
como um h aspirado, como na palavra inglesa
have (ter); pode soar como uma consoante gutural
ou velar, semelhante ao ruído que se
faz quando se limpa a garganta para escarrar;
pode soar com a língua batendo nos alvéolos,
como fazem os paulistas, etc. Todas essas pronúncias
possíveis do <r> inicial são
simbolizadas assim: /r/. Esse símbolo
representa todas as pronúncias possíveis
do <r>, mesmo as que não descrevemos
aqui. O símbolo /r/ representa, portanto,
não um som, mas uma classe de sons, que
tem a função de distinguir vocábulos.
O /r/ inicial é fonema porque distingue
os vocábulos rato e pato, por exemplo
(o /p/ também é um fonema, porque
distingue pato de mato, por exemplo). Há
casos, no entanto, em que dois fonemas diferentes
perdem sua função de distinguir
vocábulos. Por exemplo: o r simples entre
vogais é um fonema, porque distingue
o vocábulo caro de carro. Mas, em final
de sílaba ou de vocábulo, os dois
r, o simples e o múltiplo, deixam de
ter função distintiva e podem
ser pronunciados um pelo outro. Por exemplo,
podemos pronunciar o r de mar seja como uma
consoante batida ou flap (r simples) seja como
uma velar ou alveolar (r múltiplo). Dizemos
então que houve uma neutralização,
isto é, os dois r se neutralizaram, perderam
sua função distintiva. Temos então
o arquifonema, isto é, uma classe de
fonemas (assim como o fonema é uma classe
de sons, o arquifonema é uma classe de
fonemas), que é representado por uma
letra maiúscula entre barras: /R/. Da
mesma forma, o m e o n, em final de sílaba
ou antes de pausa, não distinguem palavras:
o m de quem, por exemplo, soa palatal antes
de vogal: quem é soa quenhé (por
isso não há diferença fônica
entre nem um e nenhum ou entre sem hora e senhora,
o que torna possível analisar em senhora
um ditongo decrescente nasal -?y- [s?y-óra],
que existe em nem e em sem); o m de um soa velar,
como a nasal do inglês ring, em um amigo
(o a é vogal velar); o m de um soa bilabial
antes de pote: um pote; o m de um soa n (dental)
antes de dote: um dote (o d é consoante
dental), etc. etc.
Quando pronunciamos vocábulos como antes
ou onde, pronunciamos também um glide
dental (na pronúncia do t e do d a língua
bate nos dentes; por isso, t e d são
consoantes dentais).
Na pronúncia de campo, os órgãos
se preparam para dizer o p quando ainda estão
pronunciando o a . O resultado é o aparecimento
de um m antes do p. Por quê? Porque o
m é homorgânico do p: ambos são
bilabiais. É por isso que escrevemos
m antes de p e de b, que são bilabiais,
e porque efetivamente existe a pronúncia
do m, que desliza entre a vogal
nasal e a consoante bilabial.
É por causa desse glide nasal, produzido
por assimilação, que se escreve
m (bilabial) antes de p e b (bilabiais).
Eis por que não existe dígrafo
em antes ou em campo: o que há é
a efetiva pronúncia do glide consonântico
nasal. Os únicos dígrafos vocálicos
que existem são os que se formam com
uma vogal precedida de um h, normalmente de
natureza etimológica, como ho em hora
ou há (verbo haver), por exemplo, a que
as gramáticas, no entanto, não
fazem referência.
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Por
Que "Ouvidos de Mercador"?
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Jose
Augusto Carvalho
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Castro
Lopes, sem dúvida, era um erudito, e
seus neologismos, embora não tenham conseguido
substituir os estrangeirismos ou empréstimos
da língua, pelo menos são bem
formados, e até há quem goste
de esnobar, falando em convescote
por piquenique, ou em cinesíforo
por chofer (motorista).
Mas na pesquisa das origens de frases feitas
(Origens de anexins, proloquios, locuções
populares, siglas etc. 2.ed. Rio de Janeiro:
Francisco Alves, 1909), Castro Lopes deu asas
à imaginação, e muitas
de suas hipóteses devem ser descartadas
ou por serem absurdas ou por carecerem de explicação
adicional convincente. Assim, ao aventar a possibilidade
de a expressão lé com lé,
cré com cré ter vindo de
leigo com leigo, clérigo com clérigo,
Castro Lopes não explica como o ditongo
fechado da sílaba travada lei poderia
ter dado lé, com a vogal aberta. Há
casos de monotongação e mudança
de timbre em verbos, na distinção
popular dos nomes homógrafos, como manéra,
do verbo maneirar, que se distingue popularmente
do substantivo manêra (maneira), ou como
róbo, verbo roubar, a distinguir-se de
rôbo (roubo) substantivo. Não é
esse o caso de leigo com leigo.
Também não é explicado
por Castro Lopes o rotacismo na sílaba
inical de clérigo (cré). Melhor
hipótese é a de João Ribeiro,
ao propor lei com lei, credo com credo
(RIBEIRO, João. Frazes feitas. Rio de
Janeiro: Francisco Alves, 1908): pode ter faltado
a explicação da mudança
de lei para lé, mas, pelo menos, não
foi preciso explicar a evolução
de credo para cré. Vasco Botelho do Amaral,
em Meditações críticas
sobre a língua portuguesa (Lisboa: Edições
Gama, 1945, p.120-l), cita, sem explicar, a
locução da mesma lé.
Seria sinônimo de laia?
Qualquer hipótese, nesse terreno arenoso,
poderia ser tão ruim quanto as de Castro
Lopes e João Ribeiro. Por que não
léu com léu, crepe com crepe
(por nudez com nudez, roupa com roupa)?
Pelo menos nesta hipótese (que aqui apresento
apenas como ilustração e como
contestação) não é
preciso explicar a mudança de timbre.
É arriscado para não dizer
leviano fazer conjeturas sem respaldo
científico, sem documentação
comprobatória.
Está neste caso a expressão fazer
ouvidos de mercador, que Castro Lopes
explicou como corruptela de fazer ouvidos
de mau credor, sem explicar como se deu
a confusão entre mau credor
e mercador, ou como se processaram
as alterações fônicas. João
Ribeiro acha que não houve corruptela:
na expressão, mercador é mercador
mesmo, que, por gritar a plenos pulmões
suas mercadorias em via pública, fez
crer aos que o ouviam sua condição
de mouco.
Melhor explicação, dá-no-la
Orlando Neves (Dicionário das origens
das frases feitas. Porto: Lello & Irmão,
1992, s.v. Fazer ouvidos de mercador),
que atribui à palavra mercador uma corruptela
de marcador, nome que se dava ao carrasco que
marcava os ladrões com ferro em brasa,
indiferente aos seus gritos de dor. O Diccionario
do Moraes, se não consigna o termo marcador,
pelo menos registra no verbete marcar a seguinte
explicação: Pôr marca,
sinal; v.g. marcar o gado com ferro quente;
marcar o ladrão na testa; o que
confirma, de alguma forma, a existência
da pena cruel e, conseqüentemente, a daquele
que a aplicava.
Assim, pois, o mercador da frase feita é
corruptela de marcador, o carrasco sempre surdo
às súplicas alheias.
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Próclise
Obrigatória
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Jose
Augusto Carvalho
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Antes
de começar nosso estudo, expliquemos
o que seja ênclise, próclise e
mesóclise.
Chama-se
clítico qualquer elemento oracional átono,
cuja pronúncia depende de outro elemento
oracional com tonicidade própria. Assim,
muitas preposições, como a, de,
em, por, etc., são elementos clíticos.
Na frase Hei de vencer, a preposição
DE se junta ao verbo HEI, formando um único
vocábulo fônico: heide.
Costuma-se,
no entanto, chamar clítico apenas ao
pronome pessoal átono, por força
da maior complexidade de seu emprego em relação
ao verbo.
O
pronome pessoal átono é, portanto,
uma forma dependente do verbo, e pode situar-se
antes, depois ou no meio dele. Quando o pronome
átono se situa antes do verbo, ocorre
a próclise, como em Ele se matou.
Quando o pronome átono se encontra depois
do verbo, ocorre a ênclise, como em Ele
matou-se. Quando o pronome átono
aparece no meio do verbo, ocorre a mesóclise,
encontradiça apenas no futuro do presente
e do pretérito, como em: Ele matar-se-á;
ele matar-se-ia.
Há
uma tendência atual, entre maus gramáticos,
de ensinar a ênclise em orações
subordinadas, quando há pausa entre a
conjunção subordinativa (ou o
pronome relativo) e o verbo.
Parece
que essa má lição se originou
da possibilidade de haver ênclise mesmo
após um item que exigiria a próclise,
quando existe pausa entre o termo que atrai
o pronome e o verbo da oração.
Mas essa regra, consensual entre os gramáticos,
só se aplica a períodos simples
ou a orações coordenadas em que
a coordenação não se faça
entre subordinadas. É o que dizem Celso
Cunha e Lindley Cintra, em sua Nova gramática
do português contemporâneo (Rio
de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 304): Observe-se
por fim que, sempre que houver pausa entre um
elemento capaz de provocar a PRÓCLISE
e o verbo, pode ocorrer a ÊNCLISE: Pouco
depois, detiveram-se de novo (Ferreira de Castro).
Essa
lição de Celso Cunha e Lindley
Cintra se refere a períodos com um único
verbo. Ao referirem-se às orações
subordinadas, com um único verbo ou com
perífrase verbal, esses dois autores
são taxativos, quando dizem que se usa
obrigatoriamente a próclise nas
orações subordinadas desenvolvidas,
inclusive quando a conjunção está
oculta: O sufrágio que me vai dar será
para mim uma consagração (E. da
Cunha). (Id. Ib. p. 306)
Rocha
Lima, em sua Gramática normativa da língua
portuguesa (15.ed. Rio de Janeiro: José
Olympio, 1972, p. 418), diz que é obrigatória
a próclise nas orações
subordinadas, independentemente de haver ou
não pausa entre o termo subordinativo
e o verbo da oração, mesmo que
não haja a conjunção expressa:
Espero (que) me atendas sem demora.
Quando
expõe o critério de que não
se pospõe o pronome átono a verbo
flexionado em oração subordinada,
Evanildo Bechara observa que, às vezes,
pode ocorrer a ênclise quando há
pausa antes do verbo, mas esclarece que são
esporádicos e não dignos
de imitação os exemplos que dele
[do critério exposto] se afastam
(BECHARA: Moderna gramática portuguesa.
Ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999,
p. 589; e BECHARA. Gramática escolar
da língua portuguesa. Rio de Janeiro:
Lucerna, 2001, p. 470).
Há
um caso, no entanto, não previsto pelas
gramáticas, em que só a ênclise
é possível em orações
subordinadas a que falte a conjunção
subordinativa: o caso em que se evita início
de oração com pronome átono.
Ex.: Fosse-me dada a sorte de ser rico,
eu compraria um carro importado.
Há
uma construção sintática
que corrobora a afirmativa de que não
se deve usar ênclise em oração
subordinada, mesmo que haja pausa entre o termo
subordinante e o verbo: é o caso de toda
construção com futuro do subjuntivo.
Observemos a frase: O homem que, apesar
de honesto, se calar diante de um crime torna-se
cúmplice desse crime. Seria impossível
a ênclise depois de CALAR, mesmo com a
pausa, pela simples razão de que não
se trata aí de um infinitivo, mas de
um futuro do subjuntivo, e uma regra unanimemente
acolhida por todos os professores e gramáticos
da língua assegura que não existe
ênclise com futuro, no português
atual.
Em
outras palavras, seria absurdo usar ênclise
na frase seguinte, em que há pausa entre
o verbo e o termo subordinante: Quando
você, em qualquer momento, se vir em dificuldades,
não se esqueça de mim.
Desviam-se,
portanto, da norma culta gramáticos e
professores que usam a ênclise em oração
subordinada, mesmo que haja pausa entre o verbo
e o elemento subordinativo.
(José
Augusto Carvalho é Doutor em Letras pela
USP e professor da Ufes)
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A
Lição do Mal
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Jose
Augusto Carvalho
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O
nome cesariana, que designa a operação
de parto, não tem absolutamente nada
a ver com Júlio César. O nome
próprio César, aliás, que
deu origem ao nome genérico dos imperadores
alemães e russos (kaiser e czar ou tzar,
respectivamente) é de origem etrusca,
e não latina.
ão
informações de Ernout e Meillet,
no seu Dictionnaire étymologique de la
langue latine (Paris: Klincksieck, 1967, s.v.
Caesar). O nome cesariana relaciona-se com o
verbo caedo, -is, cecidi, caesum, caedere, que
deu origem ao fr. ciseaux (tesoura), ao ing.
scissors (tesoura), à raiz cida
(de homicida, suicida, formicida, etc.) e a
nomes como cisão, circuncisão,
incisão, rescisão, precisão
(corte prévio, isto é, eliminação
do supérfluo), etc.
O
Dicionário etimológico da língua
portuguesa, de Antenor Nascentes, confirma:
antes de Júlio César, muita gente
já havia nascido por meio de cesariana,
inclusive Cipião, o Africano, que viveu
antes de César, quando essa operação
já se chamava assim.
É
comum a crença fácil na etimologia
popular, que não explica nada, mas alimenta
a imaginação do leigo curioso.
O nome forró, por exemplo, não
tem nada a ver com o inglês for all, apesar
do filme com esse nome e da tradição
generalizada. Forró é apenas a
abreviatura de forrobodó, que for all
não explica. Basta consultar o Aurélio
para atestar o que digo. O Dicionário
do folclore brasileiro, de Câmara Cascudo,
esclarece isso, e elimina, indiretamente, essa
bobagem inventada e divulgada por quem não
tem conhecimento, mas tem muita imaginação.
Aliás,
é extensa a lista de falsas etimologias:
sincero não tem nada a ver com sem
cera (o sin-, de sincero, tem relação
com o sim- de simples; e o cero tem relação
com cel-, de excelso ou com o cer-
de prócero); pontífice nada tem
a ver com construtor de pontes (o pontifex latino
sempre designou o sacerdote romano, sem relação
com o verbo facere, fazer, e ainda menos com
pons, ponte); religião nada tem a ver
com o verbo ligar, mas com ler. A raiz da palavra
religião se relaciona com o lig-
de diligente ou inteligente ou com leg-,
lec-, -lei, le- de eleger, lecionar, eleitor
e ler, respectivamente. O re- inicial de religião
é prefixo oriundo de red(i), vir, voltar,
que aparece em redivivo ou relíquia.
Uma consulta ao Dictionnaire étymologique
de la langue latine, de Ernout & Meillet
atestará essas informações.
Castro
Lopes, em suas Origens de anexins, prolóquios,
locuções populares, siglas, etc.
(Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909), explica-nos
a contento muitas coisas interessantes, como,
por exemplo, o fato de que IHS não representa
a abreviatura de Iesus Hominum Salvator (Jesus
Salvador dos homens), nem a sigla de Jesuíta,
homem sábio (ou santo), mas apenas
a abreviatura em grego do nome de Jesus (iota,
eta e sigma) (p. 63-6). Mas, em seus Neologismos
indispensáveis (Rio de Janeiro: Francisco
Alves, 1909), propõe bobagens, como,
por exemplo, para substituir o fr. avalanche,
o termo runimol, acrônimo formado das
iniciais das palavras ruere (ruir), nix (neve)
e moles (massa), isto é, massa
de neve que rui (p. 27-9).
Em
matéria de etimologia, Castro Lopes também
cometeu deslizes graves, como o de tentar derivar
carnaval de lupercália ou de canto arval.
Mais recentemente, Silveira Bueno (Tratado de
semântica brasileira. 4.ed. São
Paulo: Saraiva,1965, p. 115) tentou derivar
gringo de uma canção americana
começada com a expressão green
grow, que a cavalaria americana cantava
no séc. XIX, na época da guerra
contra o México, embora o termo gringo
já constasse de um dicionário
de Esteban de Terreros y Pando, publicado na
Espanha, um século antes da canção
americana e da guerra contra o México,
segundo informação do Corominas
(Diccionario critico etimologico de la lengua
castellana. Madrid: Gredos, 1976,s.v.).
Em
matéria de imaginação,
Gilles Ménage (1613-1692) ganharia o
óscar: em seu Dictionnaire étymologique,
de 1694, formado a partir do desenvolvimento
de sua obra de 1650, Origines de la langue française,
ele deriva haricot (feijão)
de faba; laquais (lacaio), de verna; e quille
(bola) de squilla (sino), por exemplo. É
verdade que Ménage tem virtudes, e muitas
de suas etimologias são verdadeiras,
mas a sua imaginação para estabelecer
a pretensa cadeia evolutiva entre o étimo
e a forma atual (esta tão distante fonologicamente
daquele) leva o consulente bem intencionado
a descrer da obra toda. Teria sido melhor, talvez,
que ele tivesse ficado apenas com seus versos
galantes e mundanos, mas, certamente, não
teria hoje o seu nome lembrado. Ganhou com suas
bobagens mais que os quinze minutos de fama
que o artista pop Andy Warhol preconizou
para os mortais comuns. O que equivale a dizer
que a tolice disfarçada em sabedoria
rende mais que a erudição e a
cautela de um cientista. Sabe-se que foi Eróstrato
que, em 356 antes de Cristo, incendiou e destruiu
o Templo de Diana (ou de Artêmis) em Éfeso,
uma das sete maravilhas do mundo antigo. Mas
até hoje não se sabe o nome do
arquiteto que projetou esse templo.
Em
outras palavras, a mediocridade vale mais que
tudo: angaria fãs e aplausos e torna
o sucesso bem maior que os meros quinze minutos
de glória que Warhol pretendeu que todo
mundo poderia ter...
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Uma
Fábula Exemplar
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Jose
Augusto Carvalho
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George
Orwell é autor de uma
fábula notável
chamada Animal farm: os bichos
de uma granja, liderados pelos
porcos, revoltaram-se contra
o que diziam ser a escravidão
que o homem lhes impunha, expulsaram
o dono da granja e organizaram
um governo comandado pelos porcos.
A antiga Granja do Solar, como
era chamada, passou a ser a
Granja dos Bichos. Os porcos,
no entanto, após a conquista
do poder, dominaram os animais
ditatorialmente, desrespeitando
os ideais da sua revolução
e escravizando seu povo. Como
não podiam viver isolados
do resto do mundo, os porcos
acabaram associando-se aos homens,
e a granja retomou o nome antigo
de Granja do Solar. Durante
um congresso entre porcos e
homens, os bichos não
conseguiam mais distinguir entre
os congressistas quem era porco
e quem era homem.
Um dos personagens centrais
dessa fábula é
um cavalo chamado Sansão.
Trabalhava para o governo dos
porcos incansavelmente, mas,
quando ficou doente, o governo,
em vez de aposentá-lo,
mandou-o para o matadouro.
A
fábula se presta a muitas
interpretações,
como toda obra literária.
Mas uma lição
se pode aproveitar dela, à
guisa de moral que toda fábula
deve ter: quando querem chegar
ao poder, os porcos prometem
mundos e fundos. Uma vez no
poder, traem os ideais que defenderam,
oprimem o seu povo, desprezam
o trabalhador incansável
e ajudam-no a morrer.
Uma deputada federal declarou
publicamente ter votado contra
os aposentados em desacordo
com as próprias convicções
que a levaram a filiar-se ao
PT, sob a alegação
de que estava cumprindo as decisões
do partido. Embora dizendo-se
arrependida, tornou a agir em
desacordo com a própria
consciência, votando novamente
contra os aposentados. Agir
contra a consciência é
não apenas uma violência
contra si mesmo, mas também
um atentado à ética.
Quero crer que os únicos
petistas que se mantiveram fiéis
aos ideais que o PT sempre defendeu
foram exatamente os que acabaram
expulsos do partido.
A
vida imita a arte. Por causa
de caras-de-pau como a deputada
petista acima mencionada, o
povo, como na fábula
de George Orwell, acaba não
conseguindo mais distinguir
entre os congressistas quem
é porco de quem é
gente.
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Verbo
Vicário
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Jose
Augusto Carvalho
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Verbo
vicário (que alguns lingüistas
chamam de verbo pronominal)
é o que se usa em lugar
de outro, anteriormente citado,
para evitar-lhe a repetição.
É da palavra latina vicarius,
substituto, que se originou,
por via erudita, vicário,
e, por via popular, vigário
(o sacerdote, o substituto do
bispo), e suas formas derivadas,
como vigarice, vigarismo, etc.,
que se relacionam ao conto
do vigário, isto
é, ao conto do substituto
(a vítima leva o substituto
do que acredita estar levando).
Conto do vigário, portanto,
não tem relação
direta com o vigário,
o sacerdote.
Nas
nossas gramáticas são
raras as referências ao
verbo vicário, que merece
um estudo em profundidade em
nível de pós-graduação,
pelas construções
insólitas que seu uso
acarreta. Os exemplos mais comuns
de verbo vicário ocorrem
com o verbo fazer, como em Quem
não passou neste vestibular
pode fazê-lo no próximo
(Fazê-lo está aí
substituindo passar.).
Mas
é com o verbo ser que
se apresentam exemplos mais
interessantes. Um desses exemplos
colhi numa redação
de vestibulando: As coisas
que os casais faziam era juntos.
O verbo era, no singular, está
no lugar de faziam, plural;
coisas é objeto direto
de era. Outro exemplo: Se
eles perguntam é porque
não sabem
em que o verbo ser (é)
substitui o verbo da oração
anterior (perguntam). Reconstruído,
sem o verbo ser, o período
fica assim: Se eles perguntam,
perguntam porque não
sabem. Note-se que o verbo
ser vicário fica no singular,
apesar de substituir verbo no
plural.
Essa
é a particularidade do
verbo ser vicário. Ele
permanece na 3ª pessoa
do singular mesmo que o sujeito
esteja no plural e em outra
pessoa, à diferença
do verbo fazer, na mesma função.
Observem-se os seguintes exemplos:
1. Quando nós falávamos
era baixinho. 2. Eles sabiam
a resposta, mas era só
com o livro aberto. 3. Os que
se vão calados raramente
é por orgulho (Machado
de Assis). 4. Eles vieram para
casar-se onde pudesse ser. 5.
Ele tinha medo e não
sabia de que era. 6. Se te vais
casar, tem de ser comigo. 7.Eu
voltei mas foi para ficar (Roberto
Carlos). Repare-se que o verbo
ser vicário, varia em
tempo, mas permanece sempre
na 3ª pessoa do singular.
Na
frase O pouco que aprendi
foi com esse professor,
citada por Domingos Paschoal
Cegalla, como exemplo de verbo
ser vicário
(s.v. Ser), do livro Dicionário
de dificuldades da língua
portuguesa (Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1996), embora
se possa substituir foi por
aprendi, não há
verbo vicário; o pouco
é sujeito simples de
foi, que aí está
no sentido de correr, acontecer
(O pouco que aprendi ocorreu
com esse professor). Observe-se
que a substituição
de o pouco por uma expressão
plural leva à concordância
no plural: As poucas coisas
que aprendi foram com esse professor.
Compare-se esse exemplo de Cegalla
com os que enumero linhas atrás,
em que o verbo ser fica sempre
no singular.
Com
o verbo fazer vicário,
a concordância é
normal e há sempre um
objeto direto pronominal: l.
As moças conversavam
e faziam-no com alarde. 2. Os
índios pescam, mas fazem-no
com arco e flecha.
O
verbo ser (que também
pode ser transitivo direto,
como em Fui Covas no primeiro
turno ou Era uma
vez dois reis ou Sou
mais as louras que as morenas)
é um mundo ainda a ser
explorado pelos nossos estudiosos.
Com
a palavra os pós-graduandos
de letras.
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Verdades
Sobre o natal
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Jose
Augusto Carvalho
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Dionysius
Exiguus, isto é, Dionísio,
o Pequeno, foi um monge cita
ou armênio que nasceu
no final do séc. V e
morreu por volta de 540 da nossa
era. Estudioso da vida de Cristo,
Dionísio, o Pequeno,
propôs que o ano do nascimento
de Jesus fosse o do início
da era cristã. Mas verificou-se
depois que, por um erro de cálculo,
o ano I da nossa era, proposto
pelo monge cita, não
coincidia com o ano de nascimento
de Jesus Cristo. Segundo o capítulo
2 do Evangelho de São
Mateus, Herodes Magno foi o
responsável pelo massacre
de inocentes e pela fuga da
Sagrada Família para
o Egito. Ora, Herodes Magno
morreu no ano 4 antes de Cristo.
Isso significa que Jesus Cristo
deve ter nascido no mínimo
quatro anos antes de Cristo...
por mais absurdo que isso possa
parecer.
O
dia 25 de dezembro era o de
uma festa pagã. Era um
dia consagrado ao Sol, porque
é nesse dia que começa
o retorno do Sol ao seu zênite.
Os egípcios celebravam
o dia 25 de dezembro como a
festa máxima de seu deus
Osíris. Os persas festejavam
nesse dia, nas comemorações
da entrada do solstício
de inverno, o nascimento de
Mitra, um deus persa popular
entre os romanos da época.
Aliás, os magos, de que
nos fala Mateus no citado capítulo
2 e que foram adorar o menino
Jesus, eram na verdade sacerdotes
persas e não reis. O
sacerdote persa era chamado
de mago. O deus
Mitra, diga-se de passagem,
era representado pela figura
de um menino.
A
Igreja aproveitou essas festas
para incluir nelas também
a do nascimento do seu Deus
feito homem, embora haja evidências
de que Jesus Cristo teria nascido
no mês de março
(signo de peixes). Como os cristãos
da época já tivessem
aceitado a data, o Papa Silvestre
I oficializou-a, na reforma
da liturgia católica.
O reinado espiritual de Silvestre
I ocorreu entre 314 e 335, sob
o reinado temporal do Imperador
Constantino I, o Grande, que
instituiu o cristianismo como
religião oficial do Império
Romano.
Na
Grécia católica,
a partir do séc. III,
o Natal era celebrado no dia
6 de janeiro. Graças
à reforma de Silvestre
I, unificou-se a celebração
do Natal no dia 25 de dezembro,
mas o dia 6 manteve suas festividades,
na comemoração
da visita dos magos à
gruta de Belém. A construção
dos presépios, celebrando
o mistério da Natividade,
foi introduzida nos festejos
de Natal por São Francisco
de Assis (circa 1182-circa 1226),
possivelmente em 1220, quando
voltou à Itália
depois de sua estada no Marrocos
(1213) e no Egito (1219).
Com
relação a Papai
Noel, sua vulgarização
no Brasil é posterior
a 1930. Sua origem está
na lenda que cerca a vida de
S. Nicolau, bispo de Mira, que
viveu no séc. IV, patrono
da Rússia e dos escolares.
S. Nicolau teria fornecido bolsas
de ouro a três moças
pobres e ressuscitado três
crianças. Os alemães
é que teriam sido os
grandes divulgadores tanto do
Papai Noel quanto da árvore-de-natal
(Tannenbaum). A figura do velhinho
com roupa e capuz vermelhos
e bota negra surgiu de uma descrição
de um poema de 1822 do professor
Clement Clarcke Moore institulado
The night before Christmas.
Com base na descrição
desse poema, Thomas Nast (1840-1902),
fez um desenho, mas em preto
e branco, que publicou na revista
Harpers Weekly, de Nova
Iorque, em 1863. A cor vermelha
tornou-se oficial em 1931, quando
Haddon Sundblom criou uma campanha
publicitária para a Coca-Cola.
A figura anterior do Papai Noel
representava-se com um hábito
talar, uma carapuça cônica
e uma barba em ponta.
A
tradição de se
iluminar a árvore-de-natal
se deve a Martim Lutero (1483-1546),
por volta de 1525, após
o seu casamento. A árvore-de-natal
só chegou ao Brasil no
início do séc.
XX, por volta de 1909.
O
relacionamento estreito entre
a religião católica
e o paganismo está presente
até mesmo no nome da
sede da Igreja Católica:
Vaticano era o deus dos romanos
que fazia profecias (o nome
Vaticano se relaciona
semanticamente com vate
e vaticínio)
e presidia os primeiros gritos
dos meninos. Era representado
sob a forma de uma criança
gritando. O verbo latino uagio
(cujo infinitivo é uagire
ou vagire) é uma formação
expressiva (fazer uá)
para designar o grito das criancinhas,
por isso, não raro, o
nome Vaticano era confundido
com Vagicano.
De
qualquer forma, ainda que fruto
de equívocos, o Natal
não é uma data
apenas restrita ao dia 25 de
dezembro, mas uma época,
um período de tempo que
vai de meados de novembro até
o dia 6 de janeiro, uma época
em que as pessoas põem
em prática seu espírito
cristão de fraternidade
e de paz e se iluminam na fé
que as ajuda a viver e lhes
dá alimento à
alma...
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