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Artigos

 

Por um Natal Cristão
Jose Augusto Carvalho
 

No início da década de 60, no século passado, o Pe. Aluísio Guerra publicou um livreto de título sugestivo: O catolicismo ainda é cristão? Referia-se a uma Igreja latifundiária e rica, cuja ostentação era um acinte à pobreza da grande maioria dos seus fiéis.

Toda religião, em princípio, é santa, porque une os homens à divindade pelo caminho do bem e da paz de consciência. O problema é que todo líder religioso, além de transformar a fé num rol de proibições e toda alegria da vida num pecado mortal, tende a fazer proselitismo e a convencer os outros, por bem ou por mal, de que a sua religião é a melhor de todas. Dizia Pascal (1623-1662) que “os homens jamais praticam o mal tão completa e alegremente como quando o fazem por convicção religiosa”. O pior é que os religiosos, muitas vezes, quando conseguem um cargo de mando ou alguma autoridade, tendem a impor sua moral e seus conceitos a quem não reza pela mesma cartilha. O divórcio, por exemplo, levou meio século para instituir-se no Brasil, graças à imposição de pregadores religiosos, que, absurdamente, toleravam o desquite, que era uma situação ainda pior que o divórcio, sob todos os pontos de vista, por permitir a mancebia e impedir novo enlace legal. O mal do século não é o estresse, não é o efeito estufa, não é o degelo polar. O grande mal do século ainda é a intolerância, o desrespeito às idéias alheias, à moral e à fé de quem pensa de maneira diferente.

No dia 25 de dezembro comemora-se o nascimento de Jesus, por uma especial concessão ao paganismo. Jesus teria nascido em março do ano IV, antes de Cristo, mas o Natal foi fixado pela Igreja no dia 25 de dezembro, no ano de 525, para cristianizar as festas pagãs que se realizavam nessa época ao deus solar Mitra que, apesar de persa, era festejado em Roma, nas comemorações do solstício de inverno. Ainda por concessão ao paganismo se cultuam os “reis magos” que não eram reis, mas sacerdotes da religião persa, que tinham o nome de “magos” por serem sábios e considerados possuidores de dons divinos. Também por concessão ao paganismo a sede da Igreja Católica se chama Vaticano, nome do deus romano responsável pela fala dos homens, porque se acreditava que a primeira sílaba de seu nome era a primeira manifestação lingüística oral de uma criança. Daí surgiu o verbo “vagir”, do latim “uagire”, que significa “fazer uá”.

Também concessão ao paganismo me parecem a multiplicidade de imagens, a extensa polimorfia da figura da mãe de Jesus e do próprio Cristo e a gigantesca hagiolatria católica.

Apesar de tudo, ainda se considera que o catolicismo seja cristão...

O Natal deveria ser realmente não uma data, mas uma época de confraternização e de paz. Dizia Jonathan Swift (1667-1745): “Temos bastante religião para fazer-nos odiar-nos uns aos outros, mas não o bastante para que nos amemos uns aos outros.”

Por isso, eu rezaria a Papai Noel e a Iemanjá que me dessem um presente útil a todos nós: que as religiões se respeitassem mutuamente, que nenhuma delas se considerasse a única verdadeira ou a melhor de todas e, finalmente, que o espírito do Natal prevalecesse todos os dias do ano, em todas as religiões.

 

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Amor Medieval
Jose Augusto Carvalho
 
Nesse conto, imito um pouco a linguagem medieval. JAC

A cada quem seu destino...

De mulher é pouco o falar muito, que todas são uma só, de diferentes rostros, mas a pran de igual felonia. E conto-vos per que faredes de mi gran juízo desto meu guisar de quedar-me solitário e pera mostrar que sandice maior non há que a de fazer-se creúdo da dereiteza de tôdalas mulheres.

E foi do modo seguinte.

Muito afazida com as coisas da casa e do lar diziam ser Dona Urraca, dama bem talhada, de muita fremosura e recato. Acaeceu, enton, que o marido, muito mal andante, enfermou de danoso mal que o achantou de vez em caixão de amesurado porte. Aguardei-me de declarar, seu aguça nem adiano, o meu amor de apaixonado sentir, per que non achava de aguisado proceder dizer-lhe que estava cobiçoso de ela, em per diante de tan recente enviudamento. Ao velório fui, muito acordado de morte tan desejada, mas enfingindo sofrença, e louvaminhando de passo calado a albergada dolorência que em mau ponto lhe tirara a ela o grado de viver.

Non queria eu agravecê-la com o apoer mal prez ou contar que o marido era doneador, mui galanteador de outras damas, aquestas pouco adestradas, per serem desvergonhadas e se darem a tôdolos que lhes pagassem. A viúva semelhava muita desaventurança e careza de saúde, tantas eram as lágrimas doridas que trilhavam seu rostro de alvaiade. Muito desensinado seria de minha parte propor entendença nova de amores con viúva recém, que orava em perante o corpo do marido. Per esso de muito ser cavalheiro foi que só lhe disse, mentireiro, per delicado devotamento:

— Senhora Dona, non sabedes vós desse marido con que vós agora non sodes mais, porende vos digo que duvidança non há que outro mais honesto en este mundo non acharedes, nem tam virtuoso de tôdalas virtudes de cavalheiro.

E afirmei-lhe que tôdolos cabeços canos de minha cabeça eu cortaria per câmbio de vê-la viçosa a ela, sem mais doloroso pranto.

E fui-me.

Alguns meses quedei-me à sua porta per vê-la de negro vestida entrar da missa, muito desejoso de um olhar seu dela. Mas um dia albergou meu coração façanhuda coragem de achegar-me a ela e falar-lhe de meu sentir.

— De mi non duvidedes, Senhora Dona, que muito vos amo de amor mais ancho que o mundo; que de tôdalas damas que conhoço, outra non há como vós, de aguisada dereiteza de dona bautizada e cristã. E acharedes en mi, pera correger vossa solitude e pobreza, em juntando casamento comigo, que sou um cavalheiro que non sabedes cujo é o passado, mas que acredita que tenhades en ele um futuro aventurado.

Desbulhei assi minha lazeira de amor, na querência de resposta esperançosa. E acalei-me, à espera do seu guisar, que non tardou, e que me fez trilhar de novo, mal treito, o chão da realidade treda: ela non havia queixume de mi, que me sabia homem de bom proceder, mas apenas aos domingos ela podia acordar-me dereitos de marido, per que em tôdolos outros dias da semana já outros cavalheiros a ocupavam com esses mesteres de cama, e que nem uma solitude sentia nem ouro lhe falecia, em desde que enterrara o esposo.

Arar com lobos não é aguisado de uma dama que eu pensei de boa formação cristã e virtude numerosa. Muito sanhudo teria eu me quedado, mas faça quis cada quem seu mester pera o qual é nascido. E todo o meu amor per ela se foi, na tristura desso que escuitei de seus próprios lábios. E assi me quedo eu hoje, solitário e triste, per que outra dama nunca mais olhei, descreúdo de tôdalas outras. E nunca mais tornei a vê-la de novo, pera non acender a paixão que ainda teima em quedar-se nos perdudos da minha saudade.

(De: “Uma história em quatro estilos”, do livro O braço e o cutelo (Vitória: Nemar, p. 27-8, 1993)

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A Nossa Bandeira
Jose Augusto Carvalho
 

Em alguma parte da sua obra, numa crônica de cujo título não me lembro, Rubem Braga se manifestou contra a divisa na nossa bandeira. Repare-se que ele foi contra os dizeres não da bandeira, mas na bandeira. A sutileza da língua pode levar às vezes a alguns mal-entendidos.

Não me lembro se Rubem Braga fez alusão à dificuldade que têm os estrangeiros de desenhar o nosso "lábaro estrelado". Quando o general Geisel, então presidente, foi ao Japão, foi recepcionado por crianças que agitavam na mão a nossa bandeira. Num "close" da câmera de televisão, pude ver que o lema "Ordem e Progresso" fora transformado num pedaço de gradil de porta pantográfica, numa sucessão de dáblios interligados. Os japoneses, por não decifrarem a legenda, acharam que a via láctea estilizada do nosso "pendão garrido" era apenas o desenho figurativo de um país em que até o céu estrelado aparecia com grades.

Acho que é tradição do brasileiro o gosto pela bandeira erudita. Está lá a citação incompleta de Virgílio a iluminar com reticências mentais o triânglo central da flâmula mineira: Libertas quae sera tamen. Ou o lema da bandeira espírito-santense, também reticente: "Trabalha e confia". As reticências ficam por conta do trabalhador, que confia na Previdência Social ou no Governo... Na Paraíba, a bandeira é um mistério. O leigo não sabe se o NÉGO que está lá é um acrônimo do tipo "Nunca estaremos gerando ódios", ou o início de uma citação latina, ou uma negação peremptória em vernáculo, ou - considerando que o acento agudo é um erro de impressão - o vocativo dengoso da morena, a chamar seu mulato inzoneiro.

Infelizmente, não foi nenhum brasileiro o autor do slogan "Ordem e Progresso", mas um filósofo francês chamado Augusto Comte. Parece que não havia brasileiro culto na época (1889), e, como o cartesianismo do "Je pense, donc je suis" (Fica melhor em latim: "Cogito, ergo sum.") estava em baixa, importaram a frase de uma nova "ideologia exótica" ou "alienígena". Não creio que nos interesse saber que Comte foi o fundador do positivismo ou o pai da sociologia. Para o nosso fervor patriótico, se a bandeira tem de ser alfabetizada, então que seja um brasileiro o autor de sua legenda. Poderíamos usar uma qualquer das 4.188 máximas do Marquês de Maricá. Como são grandes demais, podemos usar apenas o número. E sobraria espaço para colocarmos vários números e, portanto, vários lemas, numa antologia de conselhos para o povo. Ou, então, pôr lá "Viva a Democracia Relativa", pois a democracia relativa foi legitimamente inventada pelo próprio general Geisel. Ou poderíamos usar a frase tautológica de algum megalomaníaco com a paranóia do poder: "É vencer ou vencer".

O ideal mesmo, contudo, é pura e simplesmente suprimir os dizeres, para que nossa bandeira possa ser desenhada pela maioria analfabeta do nosso povo e para que um estrangeiro culto consiga desenhá-la também, ainda que alterando a ordem pretensamente erudita mas petulantemente pavoneada das estrelas sob o lema. É a simplicidade de um símbolo que o ajuda tornar-se universal, e universalmente conhecido.

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A Origem da Palavra Burro
Jose Augusto Carvalho
 

Um item lexical que tem recebido explicações etimológicas populares é a palavra burro.
Segundo José Pedro Machado (Dicionário etimológico da língua portuguesa. 2.ed. Lisboa: Confluência, 1967, s.v.), o nome burro, para o animal, se origina do nome latino burrus, que designa a cor ruça ou encarnada. E acrescenta que “em Portugal, o burro é vulgar e freqüentemente denominado “ruço”. Mas parece que não é exatamente essa a explicação adequada.

Existem histórias curiosas a respeito da origem dessa palavra. Uma delas sugere que burro, significando pessoa pouco inteligente, tenha vindo do nome latino da cor vermelha burrus, porque os dicionários tinham antigamente a capa vermelha. Como aquele que os consultava era ignorante ou burro, o nome da cor do livro, por metonímia, teria passado a designar o consulente e, por extensão, teria passado a designar todo aquele que fosse curto de inteligência.

Em Aventuras de um caçador de palavras (Rio de Janeiro: Acadêmica, 1965, p. 48-51), Aires da Mata Machado Filho, no estudo “Origem da palavra burro”, procura explicar como a palavra burro adquiriu a acepção escolar de “tradução literal de autor clássico para uso dos estudantes”, e refere-se também à crença greco-latina na estupidez do burro. Não é do burro, o livro facilitado, nem do sinônimo de “pouco inteligente” que venho falar aqui. Nem eu teria competência para acrescentar algo ao estudo sério do escritor mineiro. Nem mesmo pretendo falar da expressão “cor de burro quando foge”, que Castro Lopes acredita ser corruptela de “corre de burro quando foge”, num estudo incluído às páginas 249-250, do seu Origens de anexins (2. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909). Afinal, argumenta Castro Lopes, burro não apresenta nenhuma cor especial quando se põe em fuga. É possível contudo que a expressão “cor de burro quando foge” se refira à cor vermelha que um fujão possa apresentar (a etimologia explicaria a expressão).

Burrus é adjetivo de primeira classe em latim. Os adjetivos latinos de primeira classe têm declinações e formas distintas para cada um dos três gêneros: o masculino (em –us) e o neutro (em –um) seguem a segunda declinação, e o feminino (em –a) segue a primeira declinação. Assim, burrus tinha três formas: burrus (masculino), burra (feminino) e burrum (neutro). Segundo Ernout & Meillet (Dictionnaire étymologique de la langue latine, Paris: Klincksieck, 1967, s.v.), burro origina-se do grego pyrrós, e designa a cor ruiva. De burrus – dizem esses autores – deriva um adjetivo burranicus, substantivado, atestado pelo gramático Pompeius Festus (séc. II d.C).

A palavra francesa bourrique, para designar o asno, origina-se do espanhol borrico, pelo latim popular *burricus, alteração, por cruzamento, de burrus (ruivo) ou burra (crina) com buricus (pequeno cavalo), segundo Bloch & Wartburg (Dictionnaire étymologique de la langue française. 6.ed. Paris: Presses Universitaires de France, 1975, s.v.). Também há em francês bourricot e bourriquet.

Borrico, segundo Corominas (Diccionario crítico etimologico de la lengua castellana. Madrid: Gredos, 1976, s.v.), se origina do latim tardio *burricus (cavalo pequeno). O dicionário de latim de Lewis & Short (A latin dictionary. Oxford: Clarendon Press, 1975, s.v. burricus) registra burricus ou buricus, com a indicação de que a palavra foi usada por Varrão, Paulinus Nolanus e Vegetuis Renatus, com o sentido de “pequeno cavalo”.

Burro só pode ser, portanto, uma derivação regressiva de burricus, em português. Confirma-o o Dicionário etimológico da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Acadêmica, Francisco Alves, São José, Livros de Portugal – depositários, 1955, s.v.), de Antenor Nascentes, que rejeita, citando Diez, “a aproximação com o lat. burrus, ruivo(...)”.

A forma hipotética *buricus, registrada no citado dicionário de Ernout & Meillet, é palavra do latim vulgar, sinônima de mannus, designação dialetal de pônei, poldro ou potro.
Do adjetivo burrus, ruivo, temos o português borro (designativo do carneiro entre um e dois anos) e borracho (que designa o pombo sem penas, por sua coloração avermelhada). E possivelmente borrega (ovelha de um ano). Talvez não mais que isso. Infelizmente... para os que dão asas à imaginação, formulando histórias bonitas para suas etimologias populares.

 

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A Troca de Sons
Jose Augusto Carvalho
 
Um homem chamado William A. Spooner (1844-1930) gostava de trocar os sons das palavras, como “You have tasted two worms” (Você provou duas minhocas) e “You have wasted two terms (Você desperdiçou dois trimestres) ou “Queer Dean” (Estranho deão) por “Dear Queen” (Querida Rainha). É por causa de Spooner que esse fenômeno em inglês tem o nome de spoonerism, em homenagem ao seu cultor.

Em francês, o mesmo fenômeno tem o nome de contrepèterie, como em “Trompez sonnettes” (Enganai campainhas) por “Sonnez, trompettes” (Tocai, trombetas).

Não é necessário, contudo, que o spoonerism ou a contrepèterie tenham significado: “Pauvrice n’est pas vité” é frase “spoonerist” ou “contrepétée”, sem sentido, de “Pauvreté n’est pas vice” (Pobreza não é vício).

Em português, à falta de um nome popular, esse fenômeno é cientificamente chamado de hipértese intervocabular. A hipértese é o nome que tem a metátese à distância. A metátese é comum na evolução do latim para o português e na linguagem coloquial, como o lat. semper, que deu sempre, em português, ou como a pronúncia popular tauba por tábua. É a metátese (ou a hipértese) que explica prolações como estrupo, largato, falcudade, entre outras, corriqueiras na fala descontraída, por estupro, lagarto ou faculdade.

Esse fenômeno da hipértese intervocabular ficaria restrito à gramática ou a uma ou outra frase esporadicamente encontradiça na fala de algum brincalhão, como em “transmimento de pensassão” por ‘transmissão de pensamento”, não fosse o uso literário que dele fizeram autores como Millôr Fernandes e Paulo Leminski, por exemplo.

Do primeiro é a fábula “A Raposa e o Bode”, publicada na revista O Cruzeiro, em 1961, e no livro Fábulas fabulosas (Rio de Janeiro: José Álvaro, 1964, p. 133-4, com o título “A Baposa e o Rode”, e, mais tarde, em Trinta anos de mim mesmo (Rio de Janeiro: Editorial Nórdica, 1972, p. 98), da qual reproduzimos as duas frases iniciais e a moral: “Por um asino do destar, uma rapiu caosa num pundo profoço do quir não consegual saiu. Um rode, passi por alando, algois tum detempo, vosa a rapendo, foi mordado pela curiosidido.” “Moral: Jamie confais em qua estade em dificuldém.”

De Paulo Leminski é o “Diversonagens suspersas”, que, na p. 108 de sua Gramática da língua portuguesa (São Paulo: Scipione, 1997), Pasquale Cipro Neto e Ulisses Infante citaram como exemplo de “palavra-valise”. Além da hipértese intervocabular, Paulo Leminski utilizou também a metátese intravocabular, como no poema concreto do livro Caprichos e relaxos, em que joga, em 19 linossignos, com os sons do vocábulo metamorfose, a partir de “materesmofo”, passando por “mesamorfeto”, “termosefoma” e “motormefase”, entre outros falsos lexemas, até chegar a “metamorfose” (Melhores poemas. São Paulo: Global, 1996, p. 100).

Esse jogo lingüístico é encontradiço também em espanhol, segundo nos informa Marta G. de Torres Agüero, na tradução de La stylistique, de Pierre Guiraud (Buenos Aires: Editorial Nova, 1956, p. 25): “Cabizbundo y meditabajo” (por “Cabizbajo y meditabundo”).

Ainda que seja sempre interessante o efeito desse processo lúdico de troca de sons, é mais inteligente e surpreendente o seu uso, quando a versão hipertética mantém um sentido próprio, diferente do da frase original, como ocorria nas invenções do reverendo Spooner, merecidamente imortalizado em dicionários de língua inglesa.

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Descer Redondo
Jose Augusto Carvalho
 

Uma propaganda de bebida informa que se trata de “uma cerveja que desce redondo”. Não poucos estudiosos se debruçaram sobre essa frase, para concluir que redondo está aí como advérbio e que, portanto, não há concordância com cerveja, já que os advérbios são palavras normalmente invariáveis (os casos de flexão com advérbio são raros, mas existem, como, por exemplo, em “ela estava toda nua”, em que toda, embora advérbio, com o sentido de totalmente, se flexiona no feminino; compare-se “toda nua” com “todo-poderosa”, em que todo não varia).

Embora a conclusão dos estudiosos que admitem a não-concordância de redondo na frase da propaganda de cerveja seja defensável, é melhor refletirmos um pouco sobre a distinção básica entre adjetivo e advérbio, a partir das definições clássicas dessas duas classes de palavras. O adjetivo é a palavra variável que determina ou caracteriza um substantivo ou pronome; o advérbio é a palavra quase sempre invariável que caracteriza ou determina um adjetivo, um verbo ou outro advérbio. Por terem funções qualificadoras, confundem-se às vezes, e não raro um adjetivo se usa em lugar de um advérbio, naturalmente sem flexão.
A partir das definições acima, contudo, é possível explicar por que são consideradas erradas as frases abaixo (o asterisco indica a agramaticalidade da frase):

l. *A chuva caía barulhento (isto é, barulhentamente).
2. *Ela desceu apressado as escadas (isto é, apressadamente).
3. *Maria fuma desesperado (isto é, desesperadamente).
4. *Ela aguarda ansioso o resultado do exame (isto é, ansiosamente).
5. *Ela reagiu bravo à provocação (isto é, bravamente).
É também possível, pelas definições acima, explicar por que são corretas as seguintes frases:
6. Ela anda rápido (isto é, rapidamente).
7. Eles batem forte (isto é, fortemente).
8. Ela discursou bonito (isto é, de maneira bonita).

Ocorre que o adjetivo, quando usado em função adverbial, se associa ao verbo, como nos três últimos exemplos: se digo que Maria fala bonito, o bonito não se associa ao sujeito Maria, mas ao modo de falar, uma vez que uma pessoa feia pode falar de jeito bonito. Uma pessoa não precisa ser forte para bater com força. Portanto, em “Eles batem forte”, a ação é que é exercida fortemente.

Nos primeiros exemplos, “*A chuva caía barulhento” ou “*Ela desceu apressado”, barulhento e apressado não podem ser advérbios, porque se referem especificamente a qualidades do sujeito. São adjetivos e, por isso, variam: Ela é que é apressada ao descer; a chuva é que faz barulho ao cair. Portanto somos obrigados a fazer a concordância:

l. A chuva caía barulhenta.
2. Ela desceu apressada as escadas.
3. Maria fuma desesperada.
4. Ela aguarda ansiosa o resultado do exame.
5. Ela reagiu brava à provocação.

Quando dizemos “A lua vai alta no céu”, alta é adjetivo referente a lua, não pode ser um advérbio e não se refere ao verbo ir.

Em alguns casos, o uso do adjetivo pelo advérbio leva a interpretações dúbias. Na frase “Eles fizeram o trabalho independente de orientação”, o independente pode ser interpretado como adjetivo (e, nesse caso, se refere a trabalho) ou como advérbio (e, nesse caso, se refere ao ato de fazer).

Com relação à frase da propaganda de cerveja, é óbvio que redondo não se refere ao verbo descer, mas à qualidade da cerveja. Não existe uma ação redonda. A redondeza é a da cerveja que, por ser líquida, se adapta ao recipiente que a contém e acompanha a anatomia circular da garganta.

Observe-se que as restrições aqui expostas dizem respeito ao uso do adjetivo em função adverbial, e não ao uso do advérbio, como se pode perceber pelos exemplos precedidos de asterisco: são frases agramaticais quando apresentam o adjetivo em função adverbial, mas são frases perfeitamente aceitáveis quando se substitui o adjetivo adverbializado pelo advérbio ou pela locução adverbial (que aparece entre parênteses no final de cada exemplo). Tornemos mais claro este ponto.

Observemos as duas frases seguintes:

9. Ela anda rápido.
10. *Ela anda esfomeado.
Na primeira frase – Ela anda rápido __, eu posso dizer rápido em lugar de rápida, porque a referência à ação é óbvia. É a ação de andar que é rápida. Mas também posso fazer a concordância no feminino para indicar que ela é rápida quando anda. No segundo exemplo __

*Ela anda esfomeado __ , seria tolice pensar que o ato de andar é que é esfomeado. Por isso a concordância tem de ser feita exclusivamente no feminino: “Ela anda esfomeada”.
Quando vemos uma bola rolar no campo, devemos dizer que “Ela corre redonda”, pois a referência é à bola e não ao ato de correr. Portanto o mais adequado é dizer que “A cerveja desce redonda”, e não “redondo”. Com todo o respeito que tenho pelas opiniões em contrário.

Se o leitor estiver interessado em maiores explicações, recomendo a leitura do eruditíssimo estudo “Adjetivo e advérbio”, de Harri Meier, incluído nas páginas 61-127, do livro Ensaios de filologia românica I (3. ed. Rio de janeiro: Grifo, 1974).

Mas, seja como for, a frase da propaganda atingiu em cheio o seu objetivo em termos de marketing: provocou celeuma e fez a festa da cerveja...

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Etimologias Populares
Jose Augusto Carvalho
 
Muitas são as invenções etimológicas em que o povo acredita e professores de português difundem sem reflexão prévia. Assim, arigó não vem do inglês “are you going?” (o que não faz sentido), mas do iorubá ariyò, que significa “objeto de prazer, de alegria”. E forró não tem nada a ver com o inglês for all, porque é abreviatura de forrobodó, que aquela expressão em inglês não explica. Da mesma forma, quengo não vem do inglês “can go” (o que também não faz sentido), mas do quimbundo kenga, que designa vasilha feita de coco ou o seu conteúdo. Metáfora semelhante ocorreu na evolução do significado do latim testa que, originalmente, designava o vaso de terracota, e passou a designar cabeça em francês (tête), e fronte em português (testa).
Às vezes, palavras de significados extremamente distantes, como morfina e metamorfose, por exemplo, têm origem comum. No caso, o deus grego do sono, Morfeu, ou porque ele tinha a capacidade de tomar a forma de seres humanos, ou porque só aparecia aos homens à noite (a palavra grega morfnos significa “obscuro, tenebroso”). Sal é a raiz de saleiro e de salário, e rival, originalmente o habitante do rio (latim rivus), se relaciona com derivar.
Na análise morfológica, o professor deve estar atento à convergência de raízes distintas para evitar confundi-las. Não há relação nenhuma entre pedestre e pederasta, nem entre viola, violeta e violência. Ao contrário do que se já propagou, frango e frangalho não são palavras cognatas, isto é, não têm a mesma raiz.
Frango é regressivo de frangão, de origem obscura. No latim bárbaro, franganum documenta-se no séc. XIII, segundo José Pedro Machado (Dicionário etimológico da língua portuguesa, 2.ed. Lisboa: Confluência, 1967, s.v.), e, em português, no séc. XIV. O regressivo frango documenta-se no séc. XV. O Dicionário etimológico Nova Fronteira da língua portuguesa, de A. G. Cunha (1982), informa que “a forma frango proveio de frangão possivelmente por ter sido esta última considerada como aumentativo” (grifos do autor).
Já frangalho e esfrangalhar se relacionam com o verbo latino frango, is, fregi, fractum, frangere, que significa “quebrar, partir, despedaçar”, raiz de vários alomorfes, a qual aparece em palavras como: fragoso, franzir, fração, frágil, fragmento, fratura, franzino, infrator, refratário, infringir, náufrago (de nau-fragus, isto é, “que quebra o navio”), etc.
Essa raiz de frangere tem sua origem no gótico brikan, segundo o Dictionnaire étymologique de la langue latine, de Ernout & Meillet (Paris: Klincksieck, 1967, s.v.), que se relaciona com o português brecha e com o inglês break (segundo o Dicionário morfológico da língua portuguesa, de Evaldo Heckler et alii (São Leopoldo: Unisinos, 1984, s.v. fraçã (sic) família 2281-200, vol. II). Em outras palavras, frango não tem absolutamente nada a ver com frangalho ou esfrangalhar.
Outra etimologia popular, sem respaldo científico, pretende que etiqueta venha de ética, significando “pequena ética”. Ora, ética (em francês, “éthique”) se origina do grego êthikos, êthikê, de êthos, costumes, por intermédio do latim ethicus. E etiqueta vem do francês étiquette, documentado a partir de 1387, que designava inicialmente uma marca fixada a uma estaca e, posteriormente, no século XIX, a partir de 1802, algo escrito na pasta de um processo jurídico. Só mais recentemente étiquette passou a designar a tira escrita que se apõe aos objetos para reconhecimento. A relação de etiqueta com (pequena) ética deu-se por desconhecimento da etimologia e da história. A palavra francesa étiquette, com o sentido de “cerimonial”, vem da corte de Filipe, o Bom. Traduzamos o que diz a respeito o Dictionnaire étymologique de la langue française de Bloch e Wartburg (Paris: Presses Universitaires de France, 1975, s.v.): “Filipe, o Bom, para substituir o título de rei, que ambicionara em vão, deu à sua corte uma solenidade que não se conhecia em nenhum outro lugar; anotava-se num formulário tudo o que devia acontecer num dia; a coisa e a palavra passaram em seguida, graças ao casamento de Maria de Burgonha com Maximiliano da Áustria, de Flandres a Viena, mais tarde de Viena a Madri; a primeira atestação da palavra, de 1607, se refere à corte de Viena; a segunda, por volta de 1700, à de Madri; só atinge uma aplicação geral por volta de meados do século XVIII. A palavra deriva do antigo verbo estiquier, estiquer (“prender”).” O inglês ticket tem origem comum.

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A Letra do Hino Nacional
Jose Augusto Carvalho
 
O Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, simboliza, de certa forma, a verdade consensual de que todos nós, de algum modo, temos a nossa hora e a nossa vez. Não me refiro aos quinze minutos de glória que nem a todos se dão, mas à oportunidade de crescer, que sempre surge e que a grande maioria deixa escoar entre os dedos, por não tê-la percebido a tempo.
Osório Duque Estrada, mau poeta e pior gramático, teve, na ausência de talento criador, a inteligência de perceber que sua hora e sua vez estavam na música de um hino maravilhoso, que o gênio de Francisco Manuel da Silva compôs, aproveitando, aliás, a melodia escrita pelo Pe. José Maurício Nunes Garcia para um ofício religioso. Graças à beleza dessa marcha vibrante que nos enche de orgulho e de fervor patrióticos, desde os primeiros acordes, Osório Duque Estrada sepultou o anonimato a que o condenaria a própria incompetência, e para sempre entrou na História, porque teve também a audácia de anular a letra anterior, de Ovídio Saraiva de Carvalho, substituindo-a pela sua.
De vocabulário pouco usual ou difícil (como plácidas, fúlgidos, lábaro, florão, garrida e quejandos), com a sintaxe truncada, com dois versos de empréstimo da "Canção do Exílio", de Gonçalves Dias, com dois momentos semelhantes que levam à confusão, na hora do canto ("Brasil um sonho intenso..." e "Brasil de amor eterno..."), com um cacófato imperdoável logo no início ("heróico brado" - herói cobrado) e com uma ofensa ao país e ao povo, involuntária embora, numa leitura denotativa que teria passado despercebida ao "poeta" ("Deitado eternamente em berço esplêndido"), a letra infeliz de Osório Duque Estrada transformou o Brasil no único país cujo povo desconhece o próprio hino e cujo hino agride a nação.
Antônio Rangel Bandeira, num artigo publicado no livro Caixa de música, editado com o número 118 pelo Serviço de Documentação do MEC, para a coleção Os Cadernos da Cultura, em 1959, informa-nos a respeito das tentativas de modificação da letra do hino nacional, e, particularmente, refere-se ao projeto do deputado Herófilo Azambuja, apresentado à Câmara Federal, propondo alterações em alguns versos de Osório Duque Estrada. Antônio Rangel Bandeira, em seu artigo, manifesta-se contra as alterações por vários motivos, entre os quais o fato de já ser o hino um símbolo nacional e, portanto, parte da nossa História, e o fato de as alterações propostas apenas levarem o povo a uma confusão maior, que prejudicaria a uniformidade da letra.
Concordemos: alterar a letra é piorar o hino. Mas sejamos razoáveis: deixar a letra como está é continuar assinando o atestado da nossa burrice. O ideal seria promover um concurso de âmbito nacional, propondo não alterações, mas uma letra nova, com uma única parte (por que duas?). A substituição da letra atual por outra melhor não provocaria confusão, não lhe alteraria a uniformidade, e em menos de cinco anos o povo saberia cantá-la, e não passaríamos mais pelo constrangimento de calar a boca em certa parte do hino, esperando que outros mais afoitos ou de melhor memória o continuem por nós. Porque, desgraçadamente, muitos de nós desconhecemos se é o amor eterno ou o sonho intenso a meta prioritária do nosso patriotismo.


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Hipercaracterização
Jose Augusto Carvalho
 

A etimologia tem sido má conselheira dos que pretendem explicar fatos atuais da língua. O uso leva com freqüência ao esquecimento de como determinada palavra ou expressão se formou. E pode ocorrer o que em lingüística se chama hipercaracterização, que é uma redundância incorporada à língua e que não é mais sentida como redundância. Assim, pretender que suicidar-se ou meio ambiente sejam incorreções por serem originalmente pleonasmos (redundâncias de sentido) é pretender que se recomende dizer nosco ou migo por conosco ou comigo, em que a preposição com se repete. A alteração de mecum para migo levou o falante a esquecer a preposição embutida, e repetiu-a: comigo. Da mesma forma, o futuro irei ver, por exemplo, se forma a partir do esquecimento de que a perífrase com o presente de ir já indica o futuro: vou ver; o falante, então, conjuga o auxiliar no futuro, por hipercaracterização, o que, na verdade, não constitui um erro, mas um recurso legítimo de expressividade.
Não há redundância em suicidar-se, porque o sui se descaracterizou como pronome, tornando-se parte da raiz verbal. Afinal, dizemos “nós nos suicidamos”, “vós vos suicidais”, em que o sui ocorre sem referência à 3ª pessoa, distanciando-se, portanto, de sua origem etimológica.
Walter Porzig cita um caso interessante em seu livro Das Wunder der Sprache (de 1957). O particípio alemão é formado com a partícula -ge anteposta ao verbo. Assim, o verbo kommen (vir) forma gekommen (vindo), no particípio. Trinken (beber) forma getrunken (bebido); haben (ter) forma gehabt (tido), etc. O verbo essen (comer) tinha a forma arcaica regular gessen (comido), no particípio, mas o povo achou que a partícula faltava e colocou-a de novo. Hoje, o particípio de essen é gegessen, por hipercaracterização. É como se, em inglês, disséssemos loveded por loved (particípio de to love, amar), ou como se disséssemos camed por came (vindo), que já é forma pretérita em inglês.

É por hipercaracterização que dizemos “milharal”. De café se origina cafezal; de bambu, bambuzal; de algodão, algodoal; de laranja, laranjal, etc. De milho deveria originar-se milhal. Mas o sufixo repetiu-se: milhalal, que deu milharal por dissimilação do l do primeiro prefixo.
Condenar ou justificar os usos atuais da língua pela etimologia não me parece um atitude científica ou lingüísticamente válida. Do contrário, estaríamos proibidos de usar músculo (que significa “ratinho”) ou hidrofobia (que significa “horror à água”), ou rival (do latim rivus, rio, designativo etimológico de ribeirinho, isto é, do habitante das margens do rio) por exemplo, com o sentido que atribuímos hoje a tais formas.

Os tropos também contribuem para afastar a etimologia das explicações de fatos lingüísticos atuais, como a metonímia e a catacrese (que é uma metáfora cristalizada), por exemplo. É por catacrese que dizemos pé de mesa, barriga da perna, braço de poltrona, céu da boca, ou expressões como andar a cavalo num burro, embarcar num ônibus, enterrar uma agulha no dedo (não há portanto incoerência em se dizer “enterrar no mar”, posto que enterrar signifique “enfiar na terra”, originalmente). É por metonímia que usamos nomes de marcas registradas para produtos similares de outras marcas, como chiclete, gilete, modess, etc.

A etimologia apenas indica e explica a origem das palavras, sem implicações semânticas. Assim, pela etimologia, sabemos que Lúcifer, de origem latina, significa “o que leva (ferre) a luz (lux)”, equivalente ao grego fósforo. Ora, se formos usar a etimologia, Lúcifer poderia designar Jesus Cristo, mas passou a designar o diabo por um erro de interpretação dos doutores da Igreja, em duas passagens de Isaías, cap. XIV: o versículo 4, em que Isaías fala do rei da Babilônia, e o versículo 12, em que o rei caiu do céu e é chamado Lúcifer, tradução latina do hebraico ben-xabar (filho da aurora), designativo da estrela da manhã ou estrela d’alva. Os doutores da Igreja viram semelhança entre o que Isaías dizia a respeito do rei da Babilônia e a queda do anjo mau na mitologia cristã. E Lúcifer passou a ter um significado ruim, apesar da etimologia.

Um caso mais recente de hipercaracterização em português é a expressão canja de galinha. Originalmente, canja é caldo de galinha com arroz. O falante esqueceu a significação primitiva e reforçou-a: canja de galinha, o que me parece construção legítima, ou, pelo menos, legitimada pelos usuários cultos da língua, uma vez que, se existe canja musical, como a que termina os programas de entrevista de Jô Soares, na televisão, se torna necessário especificar a canja de que se fala.

Portanto, embora meio e ambiente sejam sinônimos isoladamente, a expressão meio ambiente está bem formada, por hipercaracterização, abonada pelo uso corrente.

 

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Natal sem Magia
Jose Augusto Carvalho
 

O Natal não é um dia, mas uma época por que eu ansiava quando criança. Ainda em novembro, numa tarde qualquer de um sábado qualquer, o mais velho dos meus irmãos sentava-se diante de uma pequena máquina de escrever Olympia e mandava-me ditar-lhe os meus pedidos a Papai Noel... Nunca recebi o que pedira em nenhuma dessas cartinhas, mas sempre mantive a esperança de que seria atendido, porque o Natal é sempre mágico para todas as crianças.

Meus Natais perderam sua magia quando recebi pela primeira vez “presentes úteis”: um estojo com lápis e borracha e uma pasta para os livros e cadernos que ainda seriam comprados dois meses depois, para a minha primeira aula, no Jardim da Infância.

Nunca mais vi magia no Natal, mas sempre procurei dar ao Natal dos meus filhos o sentido de magia que eu havia perdido cedo demais.

O Natal não é um dia, mas uma época. Já a partir de novembro, começam as promoções e reclames (como se dizia) do comércio; as músicas e jingles tocados à harpa nas ruas, nas lojas, nas rádios e nas TVs; os desenhos de Papai Noel nas revistas e jornais... Esse é o cenário talvez neutro, mas festivo, dos natais dos brasileiros adultos.

O cenário menos neutro, talvez ainda festivo, é o do 13º salário ou do abono salarial, para fazer menos sofrida a dor do outro cenário, o nada festivo e nada neutro da conseqüência: o das dívidas feitas com as compras, o do arrocho do ano seguinte, o dos aumentos dos impostos a pagar a partir de janeiro, o do horror da declaração do imposto de renda... Um cenário que dura até o mês de maio, quando se pode respirar melhor e sentir o gosto amargo da teimosia de sobreviver.

O Natal não é um dia, mas uma época. Uma época que lembra uma lei de Murphy: “As coisas sempre podem piorar. A gente é que não tem imaginação.”

04 - 12 - 06

 

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O Anacoluto
Jose Augusto Carvalho
 

O anacoluto é a interrupção brusca de uma frase inicial a que se segue outra à qual aquela não se integra. Por exemplo: “O presidente, eleito por causa da moeda forte e não por suas qualificações profissionais ou acadêmicas, os professores das Universidades Federais sabem que dele não podem esperar apoio.” O início do período – “O presidente... acadêmicas” __ não tem conexão com o resto, sintaticamente.

A frase inicial, não completada, na anacolutia, pode reduzir-se a uma única palavra (“Eu pareceu-me que ele tinha razão.”), ou pode estender-se a uma oração inteira (“Quem acha a caça não é desgraça.”), e nem sempre a nova frase que a interrompe mantém sua integridade sintática: (“Quem ama o feio bonito lhe parece.”)

Muitos provérbios começados por quem apresentam anacolutos: Quem apanha de mulher, o delegado não quer saber. Quem anda caipora, até cachorro lhe urina na perna. Quem faz a casa na praça, uns acham que é alta e outros que é baixa. Quem mais alto sobe maior é a queda. Quem não reza, Deus é xingado. Quem faz casa, a bolsa fica rasa. Quem mata gato, são sete anos de atraso. Quem muito vê, um olho basta. Quem o bem fizer, pra si é. Quem quer festa, sua-lhe a testa. Quem quiser morrer de fome e devagar, é fazer roça e não ir lá. Quem não tem tu vai tu mesmo. Quem dorme, sua fazenda ronca. Quem tem mazela todos falam nela. Etc.

Outros provérbios há que não começam por quem, mas apresentam anacoluto: “Cavalo dado não se olha (sic) os dentes.” “Pobre quando come frango um dos dois está doente.”

O soneto “A Antônio Nobre”, do livro A cinza das horas, de Manuel Bandeira (Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Record. 1998, p. 44), começa com um belo e longo anacoluto:

“Tu que penaste tanto e em cujo canto
Há a ingenuidade santa do menino;
Que amaste os choupos, o dobrar do sino,
E cujo pranto faz correr o pranto:

Com que magoado olhar, magoado espanto
Revejo em teu destino o meu destino!”

Epiphanio Dias (Syntaxe clássica portuguesa. 5.ed. Lisboa: Clássica, 1970, p. 334-6) define a anacolutia como uma ou mais palavras do princípio de uma oração que não se ligam ao que vem depois, segundo as regras de construção de frases, e estabelece quatro tipos de anacoluto, que consistem em:

l. pôr no princípio sem ligação com o resto a designação do objeto a respeito do qual se faz uma afirmação: “As outras, que as asas do anjo Asrael se estendam sobre os seus cadáveres” (Herculano);

2. repetir o princípio de uma frase que é interrompida por uma parentética ou por encaixes largos de subordinadas: “É possível (dizia Ezequias, quando o profeta o avisou para morrer), é possível que...” (Vieira);

3. repetir a conjunção que ou se mesmo sem intercalação de orações: “... devemos catar se este que apelou se he demandador se demandado” (Herculano);

4. principiar uma subordinada com que e terminá-la com infinitivo: “... ssem rrazom pareçe que aquel que he atormentado dar-lhi homem outro tormento” (Lei de D. Afonso II).

Há um outro tipo de anacoluto não previsto por Epiphanio Dias: a aposiopese, que consiste em suspender um pensamento por meio de uma quebra da estrutura sintática. O que provoca a aposiopese é a decisão do falante de não dizer mais do que deve, ou a indecisão a respeito do que vai dizer.

A aposiopese é mais freqüente na oralidade. Na escrita, a interrupção do pensamento é assinalada por reticências. Ex: “Você poderia... Bem, acho melhor que você mesmo decida.” “Aquela moça que você conhece... Parece que o marido anda com outra.” “Você sabe muito bem que... Cala-te, boca!”

O anacoluto em si não é condenável. Condenável é usá-lo sem saber explorar-lhe os recursos de expressividade artística ou emocional. Basta vermos o efeito que Manuel Bandeira conseguiu no primeiro terceto do seu soneto “A aranha”, para não condenarmos o anacoluto: “Eu que era branca e linda __ eis-me medonha e escura.” (BANDEIRA, Manuel, O.c. p.50).

É claro que às vezes o bom nome de um escritor leva os estudiosos a malabarismos de argumentação para tentar fazer-nos entender como arte e inventiva o que não passa de um tropeço sintático ou de um cochilo que ficou gravado por causa de uma revisão menos atenta, como neste exemplo de Alexandre Herculano: “Assentada nas margens do Chetawir, grande número de embarcações subiam e desciam o rio.” O que houve nessa sintaxe truncada foi basicamente a omissão pura e simples do nome da cidade de Alcácer, que deveria ser o sujeito da oração reduzida de particípio.

Melhor que tentar tirar sangue de pedra é talvez fazer como Horácio, que confessava em sua Arte Poética que se indignava toda vez que o bom Homero cochilava: “Indignor quandoque bonus dormitat Homerus.” Aliás, nem devemos indignar-nos diante dos cochilos dos nossos bons escritores. Basta-nos ser sinceros, e aceitar o erro como próprio da natureza humana. Os gênios também erram. Até Homero.

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O Dia da Mentira
Jose Augusto Carvalho
 

Abril vem de aprilis, nome de um dos espíritos que seguiam o carro de Marte, deus da guerra, que deu nome ao mês de março. Assim, aprilis não se relaciona com abrir (latim: aperire), mas com o grego Apros ou Afros, designativo de Afrodite, nome grego da deusa Vênus a quem abril era dedicado, ou com o sânscrito áparah, que significa "posterior" (aparentado com o gótico afar ou aftra, que significa "depois"), pois abril era o segundo mês do ano, no calendário civil de Rômulo (daí os nomes setembro, outubro, novembro e dezembro para os meses sete, oito, nove e dez, respectivamnte). A relação de aprilis com aperire (abrir) surgiu posteriormente, na vigência do calendário de Numa Pompílio, que instituiu os meses de janeiro e fevereiro, por ser abril o mês da primavera, em que "todas as coisas se abrem".

Nas modificações efetuadas por Numa Pompílio no calendário de Rômulo, o ano civil tinha um erro de dez dias em relação ao ano solar, por isso ele tentou corrigir o erro acrescentando um mês de dez dias entre 23 e 24 de fevereiro. Mas essa solução trouxe tantos problemas que, em 44 a.C., Júlio César resolveu modificar novamente o calendário, dando ao ano a duração de 12 meses ou 365 dias, de acordo com o calendário egípcio. Foi um astrônomo de Alexandria, chamado Sosígenes, que descobriu que o ano civil tinha seis horas menos que o ano solar.

Assim, Roma instituiu que a cada quatro anos seria acrescentado um dia em fevereiro. O dia 24 de fevereiro era chamado "sexto das calendas", isto é, o sexto dia antes do dia primeiro, que era chamado "calendas". Assim, com o dia adicional (acrescentado após o dia 24, com a mesma numeração), houve dois sextos (=bissexto) das calendas.

A reforma que Carlos IX empreendeu na França em 1564 provocou confusão, mas não foi responsável pela origem do dia das mentiras. Carlos IX apenas obrigou os franceses a seguir o calendário juliano (com o ano começando a primeiro de janeiro). Até então, e desde Carlos Magno, era o calendário de Rômulo (com o ano começando a primeiro de março) que vigorava na França.

 

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O Emprego dos Demonstrativos
Jose Augusto Carvalho
 

As gramáticas apresentam excesso de regras para o uso dos pronomes demonstrativos, muitas das quais redundantes e até confusas. Na verdade, o pronome demonstrativo tem duas funções ou dois empregos distintos. O ideal é conhecer a única regra básica para cada demonstrativo em cada um dessas funções.

A primeira função é chamada pragmática ou situacional, porque o pronome se refere à situação, ao contexto em que a fala ocorre, e seu emprego é paralelo e equivalente ao dos advérbios pronominais aqui (para a 1ª pessoa) , aí (para a 2ª pessoa) e ali (para a 3ª pessoa) . Assim, o emprego de este equivale, situacionalmente, ao de aqui; o emprego de esse, ao de aí; e o emprego de aquele, ao de ali. Ex.: “Quem é aquele homem (ali)?”, “Este rapaz que você vê (aqui) é meu amigo”, “Esse relógio (aí) é muito bonito”. Os pronomes demonstrativos, em seu emprego situacional, primitivamente representam, na escrita, gestos que acompanham a fala.
Nesse emprego situacional, este se refere ao universo espaciotemporal do falante: este relógio (aqui) é o que estou usando ou tenho em mão; esta sala (aqui) é a sala em que me encontro; este livro (aqui) é o que estou lendo ou segurando; este momento é sinônimo de “agora”, etc. Esse se refere ao universo distante do falante, mas não necessariamente próximo ao do ouvinte. Ao referir-me, por exemplo, a “esses políticos de Brasília”, não estou necessariamente apontando para o universo espaciotemporal do meu interlocutor. Mas, ao referir-me a “essa camisa (aí) que você está usando”, obviamente aponto para o universo do ouvinte. Aquele, por sua vez, só se refere a algo distante do falante e do ouvinte: “Quem é aquele homem que vai ali?”

A segunda função do demonstrativo é chamada textual ou sintática. O pronome demonstrativo, na função sintática, refere-se ao que já foi dito ou ao que ainda vai ser dito num texto.
Este quando empregado sozinho, sem oposição, se refere ao que ainda vai ser dito no texto: “O lema da nossa bandeira é este: Ordem e progresso.” Esse é sempre empregado sozinho, sem oposição, e refere-se sempre ao que já foi dito no texto: “Fé, esperança e caridade – essas são as virtudes teologais.”

Aquele é empregado unicamente em oposição a este e sempre em referência ao que já foi dito no texto. Ex.: “Pedro estuda e Maria se diverte. Aquele passará no vestibular, mas esta ficará reprovada.” Repare-se que nunca se deve dizer esse em oposição a aquele.

Essas regras têm exceção: delas se excluem as formas cristalizadas na língua e, portanto, inalteráveis, como isto é (nunca “isso é”), por isso (nunca “por isto”), posto isso (nunca “posto isto” e, menos ainda, “isto posto”,), etc.

Posto isso (apesar do que diz Evanildo Bechara, em suas Lições de português pela análise sintática, é melhor evitar isso posto, porque é categórica a regra segundo a qual o sujeito é posposto ao verbo nas reduzidas de particípio), espero que o leitor não tenha mais dúvidas sobre o emprego de este e de esse.

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O Português e o Direito
Jose Augusto Carvalho
 

Os jornais, vez por outra, comentam com estardalhaço os erros cometidos por bacharéis candidatos ao exercício da advocacia, nos exames da OAB. Recém-saídos da Universidade, inexperientes ainda, é desculpável que confundam habeas corpus com Corpus Christi, fazenda pública com propriedade agrícola do governo, ordem de vocação hereditária (ordem dos herdeiros na sucessão) com o fato de os filhos seguirem a mesma profissão dos pais, e até que confundam com nome de gente a expressão excelso pretório, que designa, barroca e talvez indevidamente, o Supremo Tribunal Federal, cada vez menos um pretório e cada vez mais uma repartição subalterna e subserviente do Poder Executivo, que, aliás, também transformou o Congresso Nacional praticamente em outra peça decorativa, graças ao expediente abusivo das Medidas Provisórias.

Piores do que esses erros de bacharéis, que o tempo se encarrega de corrigir, são os erros que o tempo se encarrega de perpetuar, na redação de autores de livros de Direito e de legisladores, cuja sintaxe de cozinheiro faz crer que estejam despreparados, cultural e academicamente, para as funções que ocupam. É claro que os jornais não falam desses, porque não lhes compete analisar o aspecto formal das leis; aos jornalistas não lhes cabe tampouco a função de estudar as explanações teóricas dos candidatos ao título de jurisconsulto, a menos que as aberrações lingüísticas mereçam algum destaque, como as dos candidatos aos exames da OAB.

Já me referi, em outra ocasião, às decisões judiciais contraditórias ou discutíveis que, vez por outra, nos surpreendem, como, só para ilustração, os dois casos seguintes: no dia 21 de maio de 1996, a 2ª turma do STF absolveu o encanador Márcio Luiz de Carvalho, de MG, acusado de ter estuprado uma menina de 12 anos, em 1991. O relator do processo, o ministro Marco Aurélio de Mello, disse, na época, que "nos nossos dias não há crianças, mas moças de 12 anos". No dia 22 de outubro de 1996, ou seja, menos de seis meses depois, o STF confirmou a condenação de Claudinei Hacker, de Santa Catarina, acusado de estupro de uma garota de 13 anos. Vale dizer: estuprar uma menina de 12 anos não é crime, mas estuprar uma de 13 anos pode dar seis anos e três meses de prisão, pena a que foi condenado o infeliz catarinense.
Essas contradições existem por culpa do sistema, que permite a qualquer detentor do diploma de bacharel em direito - tenha ou não titulação acadêmica - a dignidade de ministro da maior corte do país, desde que seja amigo do "rei".

Mas o que pretendo comentar aqui são os erros chambões ou as tropeçadas lingüísticas inadmissíveis em quem tem obrigação histórica de zelar pela língua, e não a parte técnica ou jurídica das decisões judiciais ou das nomeações de juízes e ministros. Afinal, não sou advogado e não pretendo, já sexagenário, abraçar a carreira das leis, ainda que a ache fascinante, maravilhosa e a mais gratificante, promissora e diversificada de todas as profissões de nível superior do mundo.

Deixarei de comentar as bobagens escritas em latim, como "a grosso modo" ou "a contrario sensu" ou "status quo", por exemplo (as formas corretas são grosso modo e contrario sensu, sem a preposição a inicial, e statu quo, sem o s final, porque é ablativo, parte da expressão in statu quo ante), porque o latim, infelizmente, embora cultuado não por amor à cultura clássica, mas por exibicionismo pessoal, no exercício barroco do estilo jurídico tradicionalmente empolado, deixou há muito de ser ensinado nas escolas brasileiras e há muito deixou também de ser matéria do vestibular de Direito. Pretendo ater-me aqui aos desvios lingüísticos e às inovações que agridem a nossa língua portuguesa em seu nível formal.

O Novo Código de Trânsito (Lei nº 9.503/97) é uma antologia de calinadas e de atrocidades lingüísticas, algumas dignas de apedeutas engravatados. Só para ilustração, eis algumas delas, escolhidas aleatoriamente:

l. No Art. 302, § único, lê-se: "... se o agente: (...) II - praticá-lo..." (Desde crianças, aprendemos que não existe ênclise com futuro; "praticá-lo" é futuro do subjuntivo com o pronome enclítico. É como se alguém pudesse dizer "se quisé-lo", "se pudé-lo", "se fizé-lo". Aliás, não há ênclise tampouco em orações subordinadas desenvolvidas, porque a conjunção atrai o pronome clítico.);
2. no Art. 231, inciso V, lê-se mais de uma vez o número mil escrito por extenso com um antes: "um mil" (Pena que tenha faltado o h inicial para ornamentar a calinada!);
3. no Art. 46, Contran aparece escrito adequadamente, apenas com a inicial maiúscula; em quase todos os outros artigos em que aparece, o nome Contran vem grafado com todas as letras maiúsculas (os acrônimos, isto é, os nomes formados com a primeira letra ou com a sílaba ou sílabas iniciais de várias palavras, se escrevem com minúsculas, exceto a primeira, se se tratar de nome próprio, como: radar, Petrobras, Ufes, Arena, Varig, Vasp, laser, Bradesco, etc. As siglas - que não formam novas palavras na língua - é que se escrevem com todas as letras maiúsculas, como PMDB, STF, IPTU, UFRJ, BCG, etc. Se o acrônimo tiver menos de quatro letras, todas se escreverão em versal, como as siglas, como, por exemplo, TAP, ONU, TAM, etc. Esse erro é desculpável, já que nas duas primeiras edições do Aurélio se grafou aids com todas as letras maiúsculas: AIDS. A nova edição corrigiu as anteriores, mas cometeu erro idêntico ao grafar SIDA no verbete próprio. O que não é desculpável é a falta de uniformidade: Contran/CONTRAN.);
4. no art. 148 § 3º lê-se: "A carteira Nacional de Habilitação será conferida ao condutor no término de um ano, desde que o mesmo não tenha cometido nenhuma infração (...)" (Grifo nosso.) (Se se dessem o trabalho de consultar o Aurélio, no verbete mesmo, os legisladores teriam evitado esse uso inadequado de o mesmo, em lugar do pronome pessoal ele.);
5. no Art. 21, inciso XI; no Art. 22, inciso XII; no Art. 24, inciso XV, lê-se a mesma bobagem: "promover e participar de projetos e programas" (Ora, qualquer aluno de 2º grau sabe que dois verbos de regência diferente não podem ter o mesmo complemento. Diz-se promover algo e participar de algo; um mesmo termo não pode ser simultaneamente objeto direto e objeto indireto, até mesmo pelo princípio lógico da não-contradição: uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo.);
6. no Art. 116, o verbo obedecer, que é transitivo indireto, aparece na voz passiva, numa construção que, embora usual e encontradiça até em bons escritores, a grande maioria dos gramáticos rejeitaria, com base na regra de que só os verbos que têm objeto direto na voz ativa admitem construção passiva, porque é o objeto da ativa que vai ser o sujeito da passiva.);

Não quero estender-me mais nessa aberração lingüística que é o Novo Código de Trânsito, espelho do preparo (ou despreparo) cultural dos nossos legisladores. Passemos a outro documento legal, aleatoriamente escolhido. Por exemplo: a Lei nº 9.279/96, que é o Código de Propriedade Industrial. O Art. 195, só para ilustração, nos incisos XI, XII e XIV, apresenta repetidamente duas tolices grossas: o uso do mesmo complemento para verbos de regência diferente e o uso da ênclise em oração subordinada desenvolvida: "Comete crime
de concorrência desleal quem divulga, explora ou utiliza-se (...) de conhecimentos..." Não é um belo exemplo de incompetência lingüística?

Até mesmo a Lei de Diretrizes e Bases que deveria primar pela correção lingüística apresenta bobagens como, por exemplo, opor sistematicamente jovem a adulto, como se um adulto não pudesse ser jovem ou um jovem não pudesse ser adulto!

Deixemos de lado os textos legais. Nem os deputados, nem os senadores - nossos legisladores - foram eleitos por sua brilhante inteligência ou por seu notório saber. Passemos ao uso que da língua fazem os profissionais do Direito.

Nos poucos textos que tive a oportunidade de examinar, encontrei as seguintes expressões ou termos inexistentes ou inadequados:

l. vez que (com o sentido de uma vez que);
2. a-histórico (por aistórico ou anistórico);
3. frente a, face a (Todas as locuções prepositivas que são formadas com um substantivo, à exceção, talvez única, de graças a, têm sempre duas preposições: uma antes e outra depois do substantivo, como a propósito de, em nível de, em (com) relação a, em função de, com respeito a, a respeito de, em torno de, em favor de, em direção a, etc. Portanto, o correto é dizer em frente de, em frente a, em face de...);
4. posto que (com o sentido inadequado de porque; posto que significa "embora", "apesar de que");
5. eis que (com o sentido de porque; eis que só se usa no início de frases anunciativas ou no início de expressões que indicam surpresa, nunca com sentido causal);
6. inobstante (inovação desnecessária, equivalente a não obstante);
7. supedanear (O nome supedâneo existe, mas o verbo, não. Melhor seria a utilização de verbos já existentes, como basear, sustentar, alicerçar, apoiar e quejandos.);
8. pertine (A expressão adequada é ser pertinente. Não existe na língua nenhum verbo de que pertine possa fazer parte: nem pertinar, nem pertiner, nem pertinir. Atente-se para o fato de que a existência de um adjetivo - pertinente - não nos autoriza a pressupor a existência de um verbo de mesmo radical; existem os adjetivos irrespondível, impossível e imperdoável, por exemplo, mas não existem os verbos irresponder, impoder ou imperdoar.);
9. exauriente, satisfativa, irresignado, improvido - são algumas das inovações lexicais mais comuns;
10. a teor de - locução prepositiva inventada;
11. implicar em - o verbo implicar se usa sem preposição, com o sentido de pressupor, provocar: A implica B, e não "em B";
12. deparar-se com - o correto, apesar da lição espúria da 3ª edição do Aurélio, é: A deparou B; deparou-se B a A; A deparou com B.
13. sequer com sentido negativo (sequer significa "ao menos", "pelo menos", e não tem sentido negativo por si só: "Ele ganha pouco mas sequer pôde comprar um carro importado.");
14. intime-se-o - (O correto é intime-se ele. Quando se tem numa oração o pronome se, o sujeito dessa oração é sempre o primeiro substantivo ou pronome que aparecer sem preposição; o o é pronome sem preposição, mas é exclusivo da função de objeto direto; por isso, se o é construção inexistente na língua culta, exceto se o o é pronome demonstrativo, seguido de relativo, como em "Sabe-se o / que ele fez".);
15. A lei está vigindo - (Por "A lei está vigendo". O verbo é viger, da 2ª conjugação.);
16. Nada importa que o requerente inclua... (Ora, o sujeito de importa é a oração seguinte e, ao mesmo tempo, o pronome nada. Em português, é impossível que um sujeito com mais de um núcleo não tenha esses núcleos coordenados em sucessão. A bizarra construção não levou em conta que nada não é apenas uma negação, mas um pronome indefinido, com função nuclear em qualquer oração a que pertença.)
Fiquemos por aqui. Se é verdade que os bacharéis recém-saídos da Universidade tropeçam nos exames da OAB, não é menos verdade que muitos profissionais, já em final de carreira, ainda tropeçam na língua, e, o que é pior, na ilusão de que a sabem.
É um erro pensar que a norma culta portuguesa tenha sido sedimentada pela linguagem dos escritores. O aprendizado da língua culta era adquirido pela leitura de textos legais ou, às vezes, de textos dos cronistas, nome por que eram conhecidos os "guardas das escrituras" ou escrivães, contratados pelos reis para contar as histórias e feitos reais como suas testemunhas oculares. Os primeiros gramáticos portugueses não citavam exemplos de conterrâneos escritores, contemporâneos ou não. Foi a tradição dos gramáticos latinos que introduziu essa prática, justificável pelo fato de só podermos saber como era o latim culto pela observação do uso que dele faziam os grandes poetas, como Ovídio ou Virgílio, ou os grandes prosadores, como César ou Cícero. Mas o objetivo de um escritor é ou deveria ser o de subverter a norma, o de se valer de feitos de fala, de desvios eufóricos, a fim de ser diferente dos outros, e não como os outros. Por isso, comete um erro de metodologia o gramático moderno que abonar regras com exemplos de escritores. Os exemplos deveriam ser colhidos em obras não-artísticas, em que predomina a linguagem denotativa, isto é, sem metáforas, sem figuras, sem intenção estética, mas apenas ou quase exclusivamente em sua função referencial.
Sabemos, pelos trabalhos lingüísticos de Chomsky, que todos os falantes de uma língua têm competência lingüística, no sentido de que têm capacidade de dizer, entender e reconhecer como de sua língua frases que nunca ouviram antes. Mas a essa competência pragmática, digamos assim, opõe-se a competência literária, aqui entendida como a competência lingüística no registro mais formal da língua. E é essa que a muitos "sábios" acaba faltando, sem que eles próprios se dêem conta disso.
A linguagem jurídica poderia voltar a ser a linguagem padrão da elite cultural do país, e um modelo de língua castiça a ser imitado e louvado em todas as escolas. Mas o poder sobe à cabeça, e a vaidade cega.
Infelizmente.

 

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O Rei Nu
Jose Augusto Carvalho
 

O rei decidira viajar pelo seu reino para saber se eram verdadeiras as pesquisas que o punham entre os mais queridos e populares governantes de sua dinastia. Seus ministros – que confundiam bajulação com fidelidade canina – prepararam-lhe o roteiro de seu périplo a que não faltariam trombetas nem foguetes. Mas os ministros, enquanto planejavam o trajeto do rei pelas ruas e cidades do reino, contrataram claques milionárias com o dinheiro dos contribuintes.
Quando o rei percorria com o seu séquito de políticos bajuladores as ruas enfeitadas do seu reino, olhava satisfeito o povo que o aplaudia, sem ouvir, por abafadas pelos aplausos e gritos de vivas da claque mercenária, as vaias e as pragas dos que morriam de fome.

Essa história, contada por Saint-Exupéry, em alguma parte de Citadelle e aqui reproduzida de memória, com algumas adaptações involuntárias, lembra a aventura de um rei que, viajando disfarçado pelo seu reino para colher pessoalmente as impressões dos seus súditos a seu respeito, resolveu passar a noite numa estalagem.

No dia seguinte, além de ter recebido uma conta alta e de ter sido destratado pelo estalajadeiro, o rei disfarçado teve a sua maleta roubada. Ao exigir satisfações do dono da estalagem pelas três surpresas desagradáveis, ouviu dele a explicação: o estalajadeiro era um funcionário público aposentado que seria um tolo se não aproveitasse a oportunidade única na vida de hospedar um rei e de ter o prazer de vingar-se das leis duras que puniam o trabalhador de classe média e dos impostos que o obrigavam, já velho, a voltar a trabalhar, e que, de tão escorchantes, o impediam de fazer economias para o futuro.

Sem saber, por ser pouco instruído, como o estalajadeiro descobrira sua identidade, o rei, ao ouvir aquilo, cofiou a barba tão manchada quanto a sua consciência, deu um aperto de mão no estalajadeiro, demagogicamente, e sussurrou-lhe ao ouvido alguma promessa de bons ventos de popa.

Embora pouco instruído, o rei tinha sabedoria política e não aprendeu a lição que recebera do estalajadeiro. Assim que voltou ao seu castelo, estudou com os ministros não só um aumento de salário para si e para eles, mas também o melhor jeito de acabar com os aposentados e trabalhadores de classe média do seu reino.
E entrou pela perna do pato e saiu pela perna do pinto e quem quiser que me conte mais cinco.

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Opinião Lastimável
Jose Augusto Carvalho
 

Envaidecido por ter uma crônica sua aproveitada num vestibular de Medicina, Mário Prata escreveu ao Ministro da Educação, Paulo Renato, uma carta aberta que nunca deveria ter saído da gaveta, tanto pelos primarismos sintáticos quanto pelo conteúdo lastimável.

Inicialmente, Mário Prata confessa ter errado as oito questões de múltipla escolha baseadas no seu texto, como se um usuário do português tivesse também a obrigação de ser técnico da língua, ou como se um maestro fosse obrigado a saber tocar algum instrumento para reger uma orquestra. Sua confissão de ignorância valeria um crédito a seu favor, não fosse a tolice de condenar nos outros o conhecimento que lhe falta.

"Aí para ser médico, o jovem precisa saber se esta pequena frase é poética, fática, metalingüística, emotivo-expressiva, referencial, conativa ou apelativa?" - pergunta ele a certa altura da carta, como se todo saber individual tivesse de ser necessariamente dirigido para uma prática profissional, como se o homem tivesse de usar antolhos para não ver o que se passa ao seu lado. Aldous Huxley, em Admirável mundo novo, imaginou assim um mundo em que a ciência genética determinava antes do nascimento a profissão de uma pessoa que, portanto, não precisava saber mais nada além daquilo para o qual foi programada. Mário Prata quer, parece-me, que nossos futuros médicos sejam apenas robôs da Medicina, incapazes de raciocinar além de doenças e de remédios. Por que um médico precisa saber História, Geografia, ou ler crônicas de Mário Prata?

A mesma tolice cometeu Luís Fernando Veríssimo ao vangloriar-se da sua falta de conhecimentos gramaticais, na crônica "O gigolô das palavras", que Celso Pedro Luft, irrefletida e equivocadamente, parafraseou, num livro em que renegava todo o seu passado de professor e autor de gramática. É por isso que Luís Fernando Veríssimo publicou um livro em que comete no próprio título uma gafe evitável que retrata um despreparo de que deveria envergonhar-se: Comédias para se ler na escola.

É claro que um escritor não tem a obrigação de seguir as normas do dialeto culto. Sua função é trabalhar a língua, recriá-la, brincar com ela. É preferível que o faça com conhecimento de causa, como Guimarães Rosa, Autran Dourado ou Adonias Filho, que estudavam gramática para subverter a sintaxe com competência. É claro, também, que um escritor não pensa em "opções fáticas", nem em "função apositiva", nem em "flexões nominais" quando cria. Mas não é por isso que deve condenar qualquer tipo de conhecimento simplesmente por não ver nele, numa ótica mesquinha, nada de prático para o exercício de uma profissão.

O pior de tudo é que Mário Prata deve estar crente de que "abafou" com sua demagógica carta ao Ministro.

O que é uma pena.

 

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Origem dos Nomes dos Dias da Semana
Jose Augusto Carvalho
 

Foi o meu sábio e grande mestre Isaac Nicolau Salum que, em sua tese de doutoramento A contribuição lingüística do Cristianismo na România antiga (São Paulo: USP, 1954), e na tese seguinte, A semana astrológica e a judeo-cristã: introdução à problemática da nomenclatura semanal românica (São Paulo: USP, 1967), me ensinou como se deram os nomes dos dias da semana nas línguas conhecidas. Baseio-me parcialmente aqui em seu estudo.

Os planetas conhecidos, por ordem decrescente da distância da Terra, eram os seguintes, na época do império romano: Saturno, Júpiter, Marte, Vênus e Mercúrio. Se iniciarmos a contagem pela Lua e pusermos o Sol no centro do sistema, teremos a seguinte ordem astrológica: Saturno, Júpiter, Marte, Sol, Vênus, Mercúrio e Lua.

O quatro representava o mundo com suas coisas terrenas. Quatro são as divisões da Terra, quatro são os ventos, quatro são os elementos, etc. O quadrado era o símbolo da perfeição, por ser sempre igual de qualquer lado por que é visto. Por isso, conta-se até quatro, a partir de Saturno, inclusive, até chegar ao Sol e temos o primeiro dia (Sunday); a partir do Sol, inclusive, conta-se até quatro e chega-se à Lua (Monday, lunes, lundi, lunedi); a partir da Lua, inclusive, conta-se quatro até Marte, portanto: mardi, martes, martedi. E assim por diante. Assim, o domingo é o dia do Sol; segunda-feira, o da Lua; terça-feira, o de Marte; quarta, o de Mercúrio; quinta, o de Júpiter (jeudi, jueves, giovedi); sexta, o de Vênus (vendredi, viernes, venerdi). Sábado é o dia de Saturno (Saturday).

Em inglês, Marte foi substituído por Tyw, o deus maneta da força e da guerra na mitologia nórdica (Tuesday). O dia de Mercúrio em inglês foi consagrado a Odin ou Wedin (na mitologia escandinava) ou Wotan, equivalente a Zeus, entre os germanos (Wednesday). O dia de Júpiter, quinta-feira, foi substituído por Thor, filho de Odin, na mitologia escandinava, ou o deus do trovão (que se traduz por Donner, donde Donnerstag, em alemão, para a quinta-feira). Assim Thursday significa "dia de Thor", em inglês. A sexta-feira era destinada à deusa Freya, esposa de Odin, deusa da juventude, do amor e da morte, na mitologia nórdica (daí o Freitag alemão ou o Friday inglês). Tag, em alemão, é dia.

O nome sábado vem do hebraico Shabbath, que significa "repouso". Para os hebreus, sábado é o sétimo dia da semana (que começa, portanto, no domingo). Para os cristãos, o último dia da semana é o domingo (de dies Dominica ou dia do Senhor). Senhor é traduzido por dominus (o senior latino, que deu senhor, significa "o mais velho", donde "senado", isto é, conselho de anciãos). De dominus temos dominar, dom, dona, donzela (de dominicella, senhorita, que deu origem ao "demoiselle" francês).

Os nomes em português têm outra origem. Vêm da feira que faziam os agricultores medievais que se reuniam no adro das igrejas a cada domingo (a primeira feira). É da expressão filius ecclesiae (filho da Igreja, da Assembléia) que se originou o nome "freguesia", inicialmente de cunho apenas religioso (ainda em voga, quando se diz "freguesia de Santa Rita", "baixar noutra freguesia", etc.). O dia seguinte ao domingo era o da xepa, o da segunda-feira... E feira ficou sendo o nome dos outros dias.

Essa é a origem dos nomes dos dias da semana.

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Pego ou Pegado
Jose Augusto Carvalho
 

Apesar da prolação generalizada pego (com o e fechado, de preferência) há razões para crer que o verbo pegar só admita pegado como particípio.

O Vocabulário Ortográfico da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Bloch, 1981) registra pego e pegado, como particípios de pegar, embora evidenciando a preferência pela forma regular. O Novo dicionário da língua portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975, 1.ed.; 1986, 2.ed e 3.ed. 1999) registra pego como brasileirismo. No seu Dicionário de dúvidas e dificuldades do idioma nacional (2.ed. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1944), Antenor Nascentes ensina que pegado é o único particípio de pegar; no Dicionário brasileiro da língua portuguesa, de Macedo Soares (Rio de Janeiro: MEC/INL, 1984, vol. 1; e 1955, vol. 2), há o verbete pegado, mas não há pego; o Dicionário de verbos portugueses conjugados, de Rodrigo de Sá Nogueira (Lisboa: Clássica, 1945), nega o particípio irregular a pegar, porque inclui esse verbo no paradigma da conjugação de chegar, ao lado de carregar, empregar e alguns outros mais, terminados em -egar; no Manual de conjugações verbais (Rio de Janeiro: Acadêmica, 1961), Cândido Jucá (filho) considera pego forma ainda sem abonação dos mestres (p. 106) e não bem aceita (p. 182); Otelo Reis, mais categórico, condena ( Breviário da conjugação dos verbos da língua portuguesa. 31.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1967, p. 90) como errônea a forma pego (ao lado de empregue); Adriano da Gama Kury (1000 perguntas: português. Rio de Janeiro: Rio, 1983) admite pego como correto, embora considere de menos uso na língua culta (Pergunta 215); Celso Cunha e Rocha Lima,(Gramática do português contemporâneo. Belo Horizonte: Bernardo Álvares, 1970, p. 306; Gramática normativa da língua portuguesa. 15.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, p. 150, respectivamente), admitem o verbo pegar na relação dos particípios duplos. Mas Domingos Paschoal Cegalla, na Novíssima gramática da língua portuguesa. 30.ed. São Paulo: Nacional, 1988), inclui pegar na relação de verbos abundantes, aceitando sem restrições o particípio pego ao lado de pegado (p. 154).

Nesse mar de opiniões, podemos destacar três linhas básicas:
l. a dos que aceitam pego como forma correta ao lado de pegado;
2 a dos que consideram pegado preferível a pego;
3. a dos que simplesmente consideram pego como incorreto e o rejeitam.

As razões que levam os autores a adotar uma dessas três lições não são explicitadas claramente, mas parecem prender-se à baixa freqüência do uso escrito de pego, nos escritores consultados como fonte de seus exemplos.

Ainda que houvesse um uso generalizado de pego entre os escritores brasileiros modernos, parece-me pouco científica e pouco válida a utilização da freqüência de ocorrência como critério de inclusão ou de exclusão de uma forma no dicionário ou na gramática da variante culta de uma língua; pouco científica, porque um escritor não precisa necessariamente (e, aliás, nem deve) obedecer às normas gramaticais do dialeto culto, já que sua função é recriar a realidade, retrabalhando a língua, e, portanto, é seu dever infringir e subverter os padrões normativos; pouco científica, porque, se aceitamos pego por tê-lo utilizado Drummond ou por ser usual no Rio de Janeiro, temos de aceitar canso, ao lado de cansado, porque José Américo de Almeida o utilizou em A bagaceira e é de uso freqüente em Pernambuco, e temos de aceitar empregue ao lado de empregado, porque é de uso corrente em Lisboa; e pouco válida porque, além do uso puro e simples de uma forma, é importante observar o comportamento dessa mesma forma dentro da rede de relações ou do sistema em que ela se inclui; pouco válida, ainda, porque, do ponto de vista não-normativo, mas estritamente lingüístico, formas como empregue, pego ou canso, ainda que usadas por escritores, não podem ser consideradas na gramática do dialeto culto, porque é aí, gramaticalmente, que elas se mostram verdadeiras anomalias, embora possam ser admitidas numa gramática dialetal, isto é, num, outro tipo de gramática que apresente padrões reais e não padrões ideais de comportamento lingüístico.
Expliquemo-nos: sempre que ocorre um particípio irregular na língua, esse particípio pode exercer a função de adjetivo. Se houver dois particípios, é normalmente o irregular – e não o outro – que pode exercer a função adjetiva. Vejamos: livro impresso (por “imprimido”), sapato roto (por “rompido”), leito seco (por “secado”), presente aceito (por “aceitado”), encomenda entregue (por “entregada”), aluno expulso (por “expulsado”), criança salva (por “salvada”), página solta (por “soltada”), envelope anexo (por “anexado”), copo limpo (por “limpado”), amigo oculto (por “ocultado”); para não nos alongarmos, bastar compararmos os pares abaixo: absorvido/absorto; afligido/aflito; cegado/cego; completado/completo; descalçado/descalço; pervertido/perverso; fixado/fixo; incluído/incluso; confessado/confesso, etc. etc. etc.
O particípio regular também pode aparecer ao lado do nome como o irregular, mas com ligeiras (ou, às vezes, acentuadas) nuances de significação:
escravo liberto (alforriado) ¹ escravo libertado (posto fora da prisão);
carro seguro (estável, firme ¹ carro segurado (coberto por uma seguradora);
duas pessoas juntas (reunidas) ¹ duas pessoas juntadas (amasiadas);
garota enxuta (de corpo bonito) ¹ garota enxugada (livre de umidade);
pessoa omitida (não lembrada) ¹ pessoa omissa (negligente); etc.

Em síntese, o particípio irregular pode exercer sempre uma função de adjetivo; o particípio regular, nem sempre. Ora, se pego (como empregue ou canso) fosse um particípio irregular admissível na gramática do dialeto culto, como padrão ideal, teríamos frases como:
l. *Moro numa casa pega com a prefeitura (em lugar de “pegada com a prefeitura”).
2. *Comprei dois apartamentos pegos um com ou outro (por “pegados”).
3.?Aqui estão os escravos pegos de volta (em lugar de “pegados”).
4.*Conheci um rapaz bem empregue (em lugar de “bem empregado”).
5.*Os homens cansos se sentaram(em lugar de “cansados”).

Ora, se as sentenças acima são agramaticais ou inaceitáveis, é porque pego, canso e empregue não podem ser considerados particípios irregulares, no dialeto culto, ainda que o possam ser em outro nível de língua ou em outro dialeto que ainda está por ser descrito. Mas isso é outro problema.
(Trancrito de Discurso e narração, p. 30-33)

 

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Plural dos nomes em - ÃO
Jose Augusto Carvalho
 

O plural dos nomes em –ão é problemático, não só porque há três possibilidades de pluralização (em –ões, –ães e –ãos), mas também porque, graças ao hábito de se copiarem uns aos outros, sem a necessária análise crítica, gramáticos chegaram a inventar formas fantasma, conforme denúncia de Mattoso Câmara, nas últimas linhas do cap. XI do seu livro Estrutura da Língua Portuguesa.
Numa tentativa de sistematização, podemos inicialmente apresentar algumas regras categóricas, isto é, sem exceção: 1) As paroxítonas fazem o plural em –ãos: bênçãos, órgãos, sótãos. 2) Fazem o plural em –ões (oxítono): a) os aumentativos e falsos aumentativos (falso aumentativo é o que parece o aumentativo de um nome pela semelhança formal, como “botão” em relação a “bota”): torrões (torre), escovões, caixões, limões (lima), baiões (baio), anões (Ana); b) os nomes em que –ão designa origem, proveniência ou agente: saxões, bretões, comilões (que comem muito), babões, beberrões; c) todos os nomes femininos: visões, razões, estações, paixões; d) os nomes que têm forma igual à de verbos: porões (porão, v. pôr); serões (serão, v. ser), verões (verão, v. ver).
Regras dos COGNATOS: a) fazem o plural em –ãos os nomes que apresentam cognatos (palavras da mesma família) em que o –a do ditongo –ão permanece seguido de –n– e de qualquer vogal, exceto –i. Ex.: vilãos (vilanaço), artesãos (artesanato), irmãos (irmanar), verãos (veraneio), vilãos (vilanesco), anãos (anano); b) fazem o plural em –ães os nomes cujos cognatos conservam o –a seguido de –n– e da vogal –i: anães (nanico), escrivães (escrivaninha), capitães (capitania), vilães (vilania), charlatães (charlatanice); c) fazem o plural em –ões os nomes que mudam a vogal –a do ditongo em –o ou em –io, nos cognatos: leões (leonino), mamões (mamoeiro), ferrões (ferroada), frações (fracionar), funções (funcionário), feijões (feijoada), etc.
Repare-se que “vilão” e “anão” têm três plurais, que nossas regras justificam: “vilões” e “anões” (falsos aumentativos de “vila” e “Ana”), “vilães” e “anães” (por terem “vilania” e “nanico” como cognatos) e “vilãos” e “anãos” (por terem “vilanaço” e “anano” como cognatos). “Verão” faz “verões” (por causa da forma igual à do verbo “ver”) e “verãos” (por causa do cognato “veraneio”).
Essas são as regras principais. Os monossílabos tônicos quase sempre são exceções, mas as regrinhas dos cognatos se podem aplicar a alguns monossílabos: pães (cognato: “panificadora”); mãos (cognato: “manual”; “manicure” é adaptação gráfica do francês “manucure”); cães (cognato: “canino”); “são” (sinônimo de “sadio”), apesar da forma igual à do verbo “ser”, faz o plural “sãos”, mas há a forma cognata “sanatório”, por exemplo, que justifica o plural “sãos”. Felizmente, as exceções quase sempre são palavras de uso corrente, sem muito risco de levar o falante a dizer bobagem: cidadãos, cortesãos, cristãos (falsos aumentativos), alemães, etc.
A regra mais usual e mais freqüente é a do plural em –ões, que se aplica também a nomes próprios não-paroxítonos: Joões, Sebastiões, Simões (Simão), etc. Mas: Cristóvãos (paroxítono).
(Este artigo é resumo de um trabalho longo que publiquei numa revista em 1979 e que serviu, para minha alegria, como base para a dissertação de mestrado de Marinalva Freire da Silva, defendida em 1982 e publicada pelo Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Univ. Federal da Paraíba, em 1993).

 

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Por Que se Diz Ano Bissexto
Jose Augusto Carvalho
 

O calendário romano tinha três datas com nome próprio: Kalendae ou Calendas (o primeiro dia de cada mês), Nonae ou Nonas (o dia 5 de todos os meses, exceto março, maio, julho e outubro, em que Nonae designava o dia 7) e Idus ou Idos (o dia 15 para aqueles quatro meses e o dia 13 para os outros meses). Os outros dias de cada mês eram citados a partir daqueles três nomes. Exemplifiquemos: o dia 3 de abril era chamado "o terceiro dia antes das nonas de abril" ("ante diem tertium nonas Apriles"); o dia 9 é o "quinto antes dos idos de abril" (os idos de abril caem no dia 13); o dia 26 de abril era o "sexto dia das calendas de maio".

Em outras palavras, em lugar de numerar os dias em seqüência crescente, como fazemos, os romanos preferiam numerar os dias usando as palavras Calendas, Nonas e Idos como pontos de referência. A complicação existe para nós. Não existia para eles. Para se ter uma idéia, a expressão "desde 3 de junho até 31 de agosto" se dizia em latim como "terceiro dia antes das nonas de junho até o primeiro das calendas de setembro" ("ante diem III Nonas Junias usque ad pridie Kalendas Septembres").

O dia 24 de fevereiro era chamado "o sexto das calendas de março". No nosso calendário, o gregoriano, no ano bissexto, temos um dia a mais, acrescentado ao último dia do mês de fevereiro. Assim, aos 28 dias normais desse mês se acrescenta o dia 29, no ano bissexto. Mas, no calendário juliano, o dia a mais era acrescentado ao dia 24. Ou melhor: havia dois dias de número 24. Portanto, havia duas vezes o sextus dies (bis sextus) antes das calendas de março. Desses dois sextos é que se originou a expressão "ano bissexto", que não tem nada a ver com os dois últimos dígitos do número 366, que os dias do ano bissexto totalizam.

Todas essas informações podem encontrar-se em boas gramáticas latinas. Recomendo a do Pe. João Ravizza (Gramática Latina. 13.ed. Niterói: Escola Industrial Dom Bosco, 1956, p. 400 e ss.), que não só apresenta um pequeno histórico dos nomes dos meses de julho (ex-Quintilis) e de agosto (ex-Sextilis), modificados, respectivamente, para Julius, em honra de Júlio César, e para Augustus, em honra de Otávio Augusto, mas também traz um exemplário dos nomes dos dias em latim, nos meses completos de janeiro a abril.

A Gramática superior da língua latina, de Ernesto Faria (Rio de Janeiro: Acadêmica, 1958) é mais completa do ponto de vista morfológico e sintático, mas carece dessas curiosidades de que é rica a gramática do Pe. Ravizza, que ainda traz, no final, um "Compêndio de história da literatura latina".

Pena que o latim não se ensine mais nas escolas brasileiras...

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Por Que se Usa M Antes de P e B ?
Jose Augusto Carvalho
 

Nossa ortografia às vezes é arbitrária. Não há razão, por exemplo, para que Bahia seja com h, já que os nomes próprios se originam de nomes comuns. Nem há razão para que tecido seja com c, se o ato de tecer se escreve com ss: tessitura. Mas, no caso do m antes do p e do b, nossa ortografia é adequada.
Muitos gramáticos dizem que o m ou o n que faz sílaba com uma vogal anterior constitui com ela um dígrafo vocálico (dígrafo é o nome que se dá ao conjunto de duas letras que representam um som único, como o ch de chave, que tem o som de x). Assim, o m e o n seriam apenas sinais de nasalidade em palavras como: âmbar, antes, êmbolo, entre, ímpio, índio, pomba, ontem, cumpro, funde. Mas não é bem essa a explicação lingüística.
Quando os órgãos da fala pronunciam um som, já se estão preparando, ao mesmo tempo, para pronunciar o som seguinte. É esse fenômeno de preparação prévia que provoca o que em lingüística se chama assimilação. É por assimilação que algumas pessoas dizem salchicha em lugar de salsicha, por exemplo. E é também por assimilação que quase todos os brasileiros dizem cosquinhas por coceguinhas: o –e- pretônico quase não soa em coceguinhas; assim, temos aí uma seqüência de sons díspares: o c surdo da sílaba pretônica e o g sonoro da sílaba tônica. Por assimilação, o som g ,sonoro, se transformou em k, surdo (a pronúncia é kós-kí-ña). É por assimilação que o s do artigo plural os soa z antes de fonema sonoro (os amigos, os bailes) e soa s antes de fonema surdo (os cavalos): o z é sonoro e o s é surdo.
Assim, quando pronunciamos o a de campo ou de câmbio, nossos órgãos da fala se preparam para pronunciar o p ou o b. Ora, o p e o b são bilabiais, como o m, isto é, é preciso juntar os lábios, fechando a boca, para pronunciar o p, o b e o m (como em mapa, por exemplo).
Ora, nosso ouvido não percebe, mas aparelhos especiais conseguem provar que, ao pronunciarmos vocábulos como bamba e campo, há a pronúncia de um m que “desliza” entre a vogal a e a consoante b ou p seguinte. Deslizar, em inglês, é glide (pronuncia-se “glaid”), por isso esse som do m quase imperceptível se chama glide.
Esse glide consonântico é representado fonologicamente por /N/, que simboliza um arquifonema. Arquifonema é uma classe de fonemas que perderam a sua capacidade de distinguir vocábulos. Quando dizemos mata e nata, o m e o n são fonemas porque distinguem vocábulos. O fonema é uma classe de sons. Por exemplo, o <r> inicial de <rato> pode soar como um h aspirado, como na palavra inglesa have (ter); pode soar como uma consoante gutural ou velar, semelhante ao ruído que se faz quando se limpa a garganta para escarrar; pode soar com a língua batendo nos alvéolos, como fazem os paulistas, etc. Todas essas pronúncias possíveis do <r> inicial são simbolizadas assim: /r/. Esse símbolo representa todas as pronúncias possíveis do <r>, mesmo as que não descrevemos aqui. O símbolo /r/ representa, portanto, não um som, mas uma classe de sons, que tem a função de distinguir vocábulos. O /r/ inicial é fonema porque distingue os vocábulos rato e pato, por exemplo (o /p/ também é um fonema, porque distingue pato de mato, por exemplo). Há casos, no entanto, em que dois fonemas diferentes perdem sua função de distinguir vocábulos. Por exemplo: o r simples entre vogais é um fonema, porque distingue o vocábulo caro de carro. Mas, em final de sílaba ou de vocábulo, os dois r, o simples e o múltiplo, deixam de ter função distintiva e podem ser pronunciados um pelo outro. Por exemplo, podemos pronunciar o r de mar seja como uma consoante batida ou flap (r simples) seja como uma velar ou alveolar (r múltiplo). Dizemos então que houve uma neutralização, isto é, os dois r se neutralizaram, perderam sua função distintiva. Temos então o arquifonema, isto é, uma classe de fonemas (assim como o fonema é uma classe de sons, o arquifonema é uma classe de fonemas), que é representado por uma letra maiúscula entre barras: /R/. Da mesma forma, o m e o n, em final de sílaba ou antes de pausa, não distinguem palavras: o m de quem, por exemplo, soa palatal antes de vogal: quem é soa quenhé (por isso não há diferença fônica entre nem um e nenhum ou entre sem hora e senhora, o que torna possível analisar em senhora um ditongo decrescente nasal -?y- [s?y-óra], que existe em nem e em sem); o m de um soa velar, como a nasal do inglês ring, em um amigo (o a é vogal velar); o m de um soa bilabial antes de pote: um pote; o m de um soa n (dental) antes de dote: um dote (o d é consoante dental), etc. etc.
Quando pronunciamos vocábulos como antes ou onde, pronunciamos também um glide dental (na pronúncia do t e do d a língua bate nos dentes; por isso, t e d são consoantes dentais).
Na pronúncia de campo, os órgãos se preparam para dizer o p quando ainda estão pronunciando o a . O resultado é o aparecimento de um m antes do p. Por quê? Porque o m é homorgânico do p: ambos são bilabiais. É por isso que escrevemos m antes de p e de b, que são bilabiais, e porque efetivamente existe a pronúncia do m, que “desliza” entre a vogal nasal e a consoante bilabial.
É por causa desse glide nasal, produzido por assimilação, que se escreve m (bilabial) antes de p e b (bilabiais).
Eis por que não existe dígrafo em antes ou em campo: o que há é a efetiva pronúncia do glide consonântico nasal. Os únicos dígrafos vocálicos que existem são os que se formam com uma vogal precedida de um h, normalmente de natureza etimológica, como ho em hora ou há (verbo haver), por exemplo, a que as gramáticas, no entanto, não fazem referência.

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Por Que "Ouvidos de Mercador"?
Jose Augusto Carvalho
 

Castro Lopes, sem dúvida, era um erudito, e seus neologismos, embora não tenham conseguido substituir os estrangeirismos ou empréstimos da língua, pelo menos são bem formados, e até há quem goste de esnobar, falando em “convescote” por piquenique, ou em “cinesíforo” por chofer (motorista).
Mas na pesquisa das origens de frases feitas (Origens de anexins, proloquios, locuções populares, siglas etc. 2.ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909), Castro Lopes deu asas à imaginação, e muitas de suas hipóteses devem ser descartadas ou por serem absurdas ou por carecerem de explicação adicional convincente. Assim, ao aventar a possibilidade de a expressão “lé com lé, cré com cré” ter vindo de “leigo com leigo, clérigo com clérigo”, Castro Lopes não explica como o ditongo fechado da sílaba travada lei poderia ter dado lé, com a vogal aberta. Há casos de monotongação e mudança de timbre em verbos, na distinção popular dos nomes homógrafos, como manéra, do verbo maneirar, que se distingue popularmente do substantivo manêra (maneira), ou como róbo, verbo roubar, a distinguir-se de rôbo (roubo) substantivo. Não é esse o caso de “leigo com leigo”. Também não é explicado por Castro Lopes o rotacismo na sílaba inical de clérigo (cré). Melhor hipótese é a de João Ribeiro, ao propor “lei com lei, credo com credo” (RIBEIRO, João. Frazes feitas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1908): pode ter faltado a explicação da mudança de lei para lé, mas, pelo menos, não foi preciso explicar a evolução de credo para cré. Vasco Botelho do Amaral, em Meditações críticas sobre a língua portuguesa (Lisboa: Edições Gama, 1945, p.120-l), cita, sem explicar, a locução “da mesma lé”. Seria sinônimo de “laia”?
Qualquer hipótese, nesse terreno arenoso, poderia ser tão ruim quanto as de Castro Lopes e João Ribeiro. Por que não “léu com léu, crepe com crepe” (por “nudez com nudez, roupa com roupa”)? Pelo menos nesta hipótese (que aqui apresento apenas como ilustração e como contestação) não é preciso explicar a mudança de timbre. É arriscado – para não dizer leviano – fazer conjeturas sem respaldo científico, sem documentação comprobatória.
Está neste caso a expressão “fazer ouvidos de mercador”, que Castro Lopes explicou como corruptela de “fazer ouvidos de mau credor”, sem explicar como se deu a confusão entre “mau credor” e “mercador”, ou como se processaram as alterações fônicas. João Ribeiro acha que não houve corruptela: na expressão, mercador é mercador mesmo, que, por gritar a plenos pulmões suas mercadorias em via pública, fez crer aos que o ouviam sua condição de mouco.
Melhor explicação, dá-no-la Orlando Neves (Dicionário das origens das frases feitas. Porto: Lello & Irmão, 1992, s.v. “Fazer ouvidos de mercador”), que atribui à palavra mercador uma corruptela de marcador, nome que se dava ao carrasco que marcava os ladrões com ferro em brasa, indiferente aos seus gritos de dor. O Diccionario do Moraes, se não consigna o termo marcador, pelo menos registra no verbete marcar a seguinte explicação: “Pôr marca, sinal; v.g. marcar o gado com ferro quente; marcar o ladrão na testa;” o que confirma, de alguma forma, a existência da pena cruel e, conseqüentemente, a daquele que a aplicava.
Assim, pois, o mercador da frase feita é corruptela de marcador, o carrasco sempre surdo às súplicas alheias.

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Próclise Obrigatória
Jose Augusto Carvalho
 

Antes de começar nosso estudo, expliquemos o que seja ênclise, próclise e mesóclise.

Chama-se clítico qualquer elemento oracional átono, cuja pronúncia depende de outro elemento oracional com tonicidade própria. Assim, muitas preposições, como a, de, em, por, etc., são elementos clíticos. Na frase “Hei de vencer”, a preposição DE se junta ao verbo HEI, formando um único vocábulo fônico: heide.

Costuma-se, no entanto, chamar clítico apenas ao pronome pessoal átono, por força da maior complexidade de seu emprego em relação ao verbo.

O pronome pessoal átono é, portanto, uma forma dependente do verbo, e pode situar-se antes, depois ou no meio dele. Quando o pronome átono se situa antes do verbo, ocorre a próclise, como em “Ele se matou”. Quando o pronome átono se encontra depois do verbo, ocorre a ênclise, como em “Ele matou-se”. Quando o pronome átono aparece no meio do verbo, ocorre a mesóclise, encontradiça apenas no futuro do presente e do pretérito, como em: “Ele matar-se-á; ele matar-se-ia.”

Há uma tendência atual, entre maus gramáticos, de ensinar a ênclise em orações subordinadas, quando há pausa entre a conjunção subordinativa (ou o pronome relativo) e o verbo.

Parece que essa má lição se originou da possibilidade de haver ênclise mesmo após um item que exigiria a próclise, quando existe pausa entre o termo que atrai o pronome e o verbo da oração. Mas essa regra, consensual entre os gramáticos, só se aplica a períodos simples ou a orações coordenadas em que a coordenação não se faça entre subordinadas. É o que dizem Celso Cunha e Lindley Cintra, em sua Nova gramática do português contemporâneo (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 304): “Observe-se por fim que, sempre que houver pausa entre um elemento capaz de provocar a PRÓCLISE e o verbo, pode ocorrer a ÊNCLISE: Pouco depois, detiveram-se de novo (Ferreira de Castro).”

Essa lição de Celso Cunha e Lindley Cintra se refere a períodos com um único verbo. Ao referirem-se às orações subordinadas, com um único verbo ou com perífrase verbal, esses dois autores são taxativos, quando dizem que se usa obrigatoriamente a próclise “nas orações subordinadas desenvolvidas, inclusive quando a conjunção está oculta: O sufrágio que me vai dar será para mim uma consagração (E. da Cunha).” (Id. Ib. p. 306)

Rocha Lima, em sua Gramática normativa da língua portuguesa (15.ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1972, p. 418), diz que é obrigatória a próclise nas orações subordinadas, independentemente de haver ou não pausa entre o termo subordinativo e o verbo da oração, mesmo que não haja a conjunção expressa: “Espero (que) me atendas sem demora.”

Quando expõe o critério de que não se pospõe o pronome átono a verbo flexionado em oração subordinada, Evanildo Bechara observa que, às vezes, pode ocorrer a ênclise quando há pausa antes do verbo, mas esclarece que são “esporádicos e não dignos de imitação os exemplos que dele [do critério exposto] se afastam” (BECHARA: Moderna gramática portuguesa. Ed. rev. e ampl. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999, p. 589; e BECHARA. Gramática escolar da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 2001, p. 470).

Há um caso, no entanto, não previsto pelas gramáticas, em que só a ênclise é possível em orações subordinadas a que falte a conjunção subordinativa: o caso em que se evita início de oração com pronome átono. Ex.: “Fosse-me dada a sorte de ser rico, eu compraria um carro importado.”

Há uma construção sintática que corrobora a afirmativa de que não se deve usar ênclise em oração subordinada, mesmo que haja pausa entre o termo subordinante e o verbo: é o caso de toda construção com futuro do subjuntivo. Observemos a frase: “O homem que, apesar de honesto, se calar diante de um crime torna-se cúmplice desse crime.” Seria impossível a ênclise depois de CALAR, mesmo com a pausa, pela simples razão de que não se trata aí de um infinitivo, mas de um futuro do subjuntivo, e uma regra unanimemente acolhida por todos os professores e gramáticos da língua assegura que não existe ênclise com futuro, no português atual.

Em outras palavras, seria absurdo usar ênclise na frase seguinte, em que há pausa entre o verbo e o termo subordinante: “Quando você, em qualquer momento, se vir em dificuldades, não se esqueça de mim.”

Desviam-se, portanto, da norma culta gramáticos e professores que usam a ênclise em oração subordinada, mesmo que haja pausa entre o verbo e o elemento subordinativo.

(José Augusto Carvalho é Doutor em Letras pela USP e professor da Ufes)

 

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A Lição do Mal
Jose Augusto Carvalho
 

O nome cesariana, que designa a operação de parto, não tem absolutamente nada a ver com Júlio César. O nome próprio César, aliás, que deu origem ao nome genérico dos imperadores alemães e russos (kaiser e czar ou tzar, respectivamente) é de origem etrusca, e não latina.

ão informações de Ernout e Meillet, no seu Dictionnaire étymologique de la langue latine (Paris: Klincksieck, 1967, s.v. Caesar). O nome cesariana relaciona-se com o verbo caedo, -is, cecidi, caesum, caedere, que deu origem ao fr. ciseaux (tesoura), ao ing. scissors (tesoura), à raiz –cida (de homicida, suicida, formicida, etc.) e a nomes como cisão, circuncisão, incisão, rescisão, precisão (corte prévio, isto é, eliminação do supérfluo), etc.

O Dicionário etimológico da língua portuguesa, de Antenor Nascentes, confirma: antes de Júlio César, muita gente já havia nascido por meio de cesariana, inclusive Cipião, o Africano, que viveu antes de César, quando essa operação já se chamava assim.

É comum a crença fácil na etimologia popular, que não explica nada, mas alimenta a imaginação do leigo curioso. O nome forró, por exemplo, não tem nada a ver com o inglês for all, apesar do filme com esse nome e da tradição generalizada. Forró é apenas a abreviatura de forrobodó, que for all não explica. Basta consultar o Aurélio para atestar o que digo. O Dicionário do folclore brasileiro, de Câmara Cascudo, esclarece isso, e elimina, indiretamente, essa bobagem inventada e divulgada por quem não tem conhecimento, mas tem muita imaginação.

Aliás, é extensa a lista de falsas etimologias: sincero não tem nada a ver com “sem cera” (o sin-, de sincero, tem relação com o sim- de simples; e o –cero tem relação com –cel-, de excelso ou com o –cer- de prócero); pontífice nada tem a ver com construtor de pontes (o pontifex latino sempre designou o sacerdote romano, sem relação com o verbo facere, fazer, e ainda menos com pons, ponte); religião nada tem a ver com o verbo ligar, mas com ler. A raiz da palavra religião se relaciona com o –lig- de diligente ou inteligente ou com –leg-, lec-, -lei, le- de eleger, lecionar, eleitor e ler, respectivamente. O re- inicial de religião é prefixo oriundo de red(i), vir, voltar, que aparece em redivivo ou relíquia. Uma consulta ao Dictionnaire étymologique de la langue latine, de Ernout & Meillet atestará essas informações.

Castro Lopes, em suas Origens de anexins, prolóquios, locuções populares, siglas, etc. (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909), explica-nos a contento muitas coisas interessantes, como, por exemplo, o fato de que IHS não representa a abreviatura de Iesus Hominum Salvator (Jesus Salvador dos homens), nem a sigla de “Jesuíta, homem sábio (ou santo)”, mas apenas a abreviatura em grego do nome de Jesus (iota, eta e sigma) (p. 63-6). Mas, em seus Neologismos indispensáveis (Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1909), propõe bobagens, como, por exemplo, para substituir o fr. avalanche, o termo runimol, acrônimo formado das iniciais das palavras ruere (ruir), nix (neve) e moles (massa), isto é, “massa de neve que rui” (p. 27-9).

Em matéria de etimologia, Castro Lopes também cometeu deslizes graves, como o de tentar derivar carnaval de lupercália ou de canto arval. Mais recentemente, Silveira Bueno (Tratado de semântica brasileira. 4.ed. São Paulo: Saraiva,1965, p. 115) tentou derivar gringo de uma canção americana começada com a expressão “green grow”, que a cavalaria americana cantava no séc. XIX, na época da guerra contra o México, embora o termo gringo já constasse de um dicionário de Esteban de Terreros y Pando, publicado na Espanha, um século antes da canção americana e da guerra contra o México, segundo informação do Corominas (Diccionario critico etimologico de la lengua castellana. Madrid: Gredos, 1976,s.v.).

Em matéria de imaginação, Gilles Ménage (1613-1692) ganharia o óscar: em seu Dictionnaire étymologique, de 1694, formado a partir do desenvolvimento de sua obra de 1650, Origines de la langue française, ele “deriva” haricot (feijão) de faba; laquais (lacaio), de verna; e quille (bola) de squilla (sino), por exemplo. É verdade que Ménage tem virtudes, e muitas de suas etimologias são verdadeiras, mas a sua imaginação para estabelecer a pretensa cadeia evolutiva entre o étimo e a forma atual (esta tão distante fonologicamente daquele) leva o consulente bem intencionado a descrer da obra toda. Teria sido melhor, talvez, que ele tivesse ficado apenas com seus versos galantes e mundanos, mas, certamente, não teria hoje o seu nome lembrado. Ganhou com suas bobagens mais que os quinze minutos de fama que o artista “pop” Andy Warhol preconizou para os mortais comuns. O que equivale a dizer que a tolice disfarçada em sabedoria rende mais que a erudição e a cautela de um cientista. Sabe-se que foi Eróstrato que, em 356 antes de Cristo, incendiou e destruiu o Templo de Diana (ou de Artêmis) em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Mas até hoje não se sabe o nome do arquiteto que projetou esse templo.

Em outras palavras, a mediocridade vale mais que tudo: angaria fãs e aplausos e torna o sucesso bem maior que os meros quinze minutos de glória que Warhol pretendeu que todo mundo poderia ter...


 

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Uma Fábula Exemplar
Jose Augusto Carvalho
 

George Orwell é autor de uma fábula notável chamada Animal farm: os bichos de uma granja, liderados pelos porcos, revoltaram-se contra o que diziam ser a escravidão que o homem lhes impunha, expulsaram o dono da granja e organizaram um governo comandado pelos porcos. A antiga Granja do Solar, como era chamada, passou a ser a Granja dos Bichos. Os porcos, no entanto, após a conquista do poder, dominaram os animais ditatorialmente, desrespeitando os ideais da sua revolução e escravizando seu povo. Como não podiam viver isolados do resto do mundo, os porcos acabaram associando-se aos homens, e a granja retomou o nome antigo de Granja do Solar. Durante um congresso entre porcos e homens, os bichos não conseguiam mais distinguir entre os congressistas quem era porco e quem era homem.
Um dos personagens centrais dessa fábula é um cavalo chamado Sansão. Trabalhava para o governo dos porcos incansavelmente, mas, quando ficou doente, o governo, em vez de aposentá-lo, mandou-o para o matadouro.

A fábula se presta a muitas interpretações, como toda obra literária. Mas uma lição se pode aproveitar dela, à guisa de moral que toda fábula deve ter: quando querem chegar ao poder, os porcos prometem mundos e fundos. Uma vez no poder, traem os ideais que defenderam, oprimem o seu povo, desprezam o trabalhador incansável e ajudam-no a morrer.
Uma deputada federal declarou publicamente ter votado contra os aposentados em desacordo com as próprias convicções que a levaram a filiar-se ao PT, sob a alegação de que estava cumprindo as decisões do partido. Embora dizendo-se arrependida, tornou a agir em desacordo com a própria consciência, votando novamente contra os aposentados. Agir contra a consciência é não apenas uma violência contra si mesmo, mas também um atentado à ética.
Quero crer que os únicos petistas que se mantiveram fiéis aos ideais que o PT sempre defendeu foram exatamente os que acabaram expulsos do partido.

A vida imita a arte. Por causa de caras-de-pau como a deputada petista acima mencionada, o povo, como na fábula de George Orwell, acaba não conseguindo mais distinguir entre os congressistas quem é porco de quem é gente.


 

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Verbo Vicário
Jose Augusto Carvalho
 

Verbo vicário (que alguns lingüistas chamam de “verbo pronominal”) é o que se usa em lugar de outro, anteriormente citado, para evitar-lhe a repetição. É da palavra latina vicarius, substituto, que se originou, por via erudita, vicário, e, por via popular, vigário (o sacerdote, o substituto do bispo), e suas formas derivadas, como vigarice, vigarismo, etc., que se relacionam ao “conto do vigário”, isto é, ao conto do substituto (a vítima leva o substituto do que acredita estar levando). Conto do vigário, portanto, não tem relação direta com o vigário, o sacerdote.

Nas nossas gramáticas são raras as referências ao verbo vicário, que merece um estudo em profundidade em nível de pós-graduação, pelas construções insólitas que seu uso acarreta. Os exemplos mais comuns de verbo vicário ocorrem com o verbo fazer, como em “Quem não passou neste vestibular pode fazê-lo no próximo (Fazê-lo está aí substituindo passar.).

Mas é com o verbo ser que se apresentam exemplos mais interessantes. Um desses exemplos colhi numa redação de vestibulando: “As coisas que os casais faziam era juntos”. O verbo era, no singular, está no lugar de faziam, plural; coisas é objeto direto de era. Outro exemplo: “Se eles perguntam é porque não sabem” – em que o verbo ser (é) substitui o verbo da oração anterior (perguntam). Reconstruído, sem o verbo ser, o período fica assim: “Se eles perguntam, perguntam porque não sabem”. Note-se que o verbo ser vicário fica no singular, apesar de substituir verbo no plural.

Essa é a particularidade do verbo ser vicário. Ele permanece na 3ª pessoa do singular mesmo que o sujeito esteja no plural e em outra pessoa, à diferença do verbo fazer, na mesma função. Observem-se os seguintes exemplos: 1. Quando nós falávamos era baixinho. 2. Eles sabiam a resposta, mas era só com o livro aberto. 3. Os que se vão calados raramente é por orgulho (Machado de Assis). 4. Eles vieram para casar-se onde pudesse ser. 5. Ele tinha medo e não sabia de que era. 6. Se te vais casar, tem de ser comigo. 7.Eu voltei mas foi para ficar (Roberto Carlos). Repare-se que o verbo ser vicário, varia em tempo, mas permanece sempre na 3ª pessoa do singular.

Na frase “O pouco que aprendi foi com esse professor”, citada por Domingos Paschoal Cegalla, como exemplo de verbo “ser vicário” (s.v. Ser), do livro Dicionário de dificuldades da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996), embora se possa substituir foi por aprendi, não há verbo vicário; o pouco é sujeito simples de foi, que aí está no sentido de correr, acontecer (“O pouco que aprendi ocorreu com esse professor”). Observe-se que a substituição de o pouco por uma expressão plural leva à concordância no plural: “As poucas coisas que aprendi foram com esse professor”. Compare-se esse exemplo de Cegalla com os que enumero linhas atrás, em que o verbo ser fica sempre no singular.

Com o verbo fazer vicário, a concordância é normal e há sempre um objeto direto pronominal: l. As moças conversavam e faziam-no com alarde. 2. Os índios pescam, mas fazem-no com arco e flecha.

O verbo ser (que também pode ser transitivo direto, como em “Fui Covas no primeiro turno” ou “Era uma vez dois reis” ou “Sou mais as louras que as morenas”) é um mundo ainda a ser explorado pelos nossos estudiosos.

Com a palavra os pós-graduandos de letras.


 

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Verdades Sobre o natal
Jose Augusto Carvalho
 

Dionysius Exiguus, isto é, Dionísio, o Pequeno, foi um monge cita ou armênio que nasceu no final do séc. V e morreu por volta de 540 da nossa era. Estudioso da vida de Cristo, Dionísio, o Pequeno, propôs que o ano do nascimento de Jesus fosse o do início da era cristã. Mas verificou-se depois que, por um erro de cálculo, o ano I da nossa era, proposto pelo monge cita, não coincidia com o ano de nascimento de Jesus Cristo. Segundo o capítulo 2 do Evangelho de São Mateus, Herodes Magno foi o responsável pelo massacre de inocentes e pela fuga da Sagrada Família para o Egito. Ora, Herodes Magno morreu no ano 4 antes de Cristo. Isso significa que Jesus Cristo deve ter nascido no mínimo quatro anos antes de Cristo... por mais absurdo que isso possa parecer.

O dia 25 de dezembro era o de uma festa pagã. Era um dia consagrado ao Sol, porque é nesse dia que começa o retorno do Sol ao seu zênite. Os egípcios celebravam o dia 25 de dezembro como a festa máxima de seu deus Osíris. Os persas festejavam nesse dia, nas comemorações da entrada do solstício de inverno, o nascimento de Mitra, um deus persa popular entre os romanos da época. Aliás, os magos, de que nos fala Mateus no citado capítulo 2 e que foram adorar o menino Jesus, eram na verdade sacerdotes persas e não reis. O sacerdote persa era chamado de “mago”. O deus Mitra, diga-se de passagem, era representado pela figura de um menino.

A Igreja aproveitou essas festas para incluir nelas também a do nascimento do seu Deus feito homem, embora haja evidências de que Jesus Cristo teria nascido no mês de março (signo de peixes). Como os cristãos da época já tivessem aceitado a data, o Papa Silvestre I oficializou-a, na reforma da liturgia católica. O reinado espiritual de Silvestre I ocorreu entre 314 e 335, sob o reinado temporal do Imperador Constantino I, o Grande, que instituiu o cristianismo como religião oficial do Império Romano.

Na Grécia católica, a partir do séc. III, o Natal era celebrado no dia 6 de janeiro. Graças à reforma de Silvestre I, unificou-se a celebração do Natal no dia 25 de dezembro, mas o dia 6 manteve suas festividades, na comemoração da visita dos magos à gruta de Belém. A construção dos presépios, celebrando o mistério da Natividade, foi introduzida nos festejos de Natal por São Francisco de Assis (circa 1182-circa 1226), possivelmente em 1220, quando voltou à Itália depois de sua estada no Marrocos (1213) e no Egito (1219).

Com relação a Papai Noel, sua vulgarização no Brasil é posterior a 1930. Sua origem está na lenda que cerca a vida de S. Nicolau, bispo de Mira, que viveu no séc. IV, patrono da Rússia e dos escolares. S. Nicolau teria fornecido bolsas de ouro a três moças pobres e ressuscitado três crianças. Os alemães é que teriam sido os grandes divulgadores tanto do Papai Noel quanto da árvore-de-natal (Tannenbaum). A figura do velhinho com roupa e capuz vermelhos e bota negra surgiu de uma descrição de um poema de 1822 do professor Clement Clarcke Moore institulado “The night before Christmas”. Com base na descrição desse poema, Thomas Nast (1840-1902), fez um desenho, mas em preto e branco, que publicou na revista Harper’s Weekly, de Nova Iorque, em 1863. A cor vermelha tornou-se oficial em 1931, quando Haddon Sundblom criou uma campanha publicitária para a Coca-Cola. A figura anterior do Papai Noel representava-se com um hábito talar, uma carapuça cônica e uma barba em ponta.

A tradição de se iluminar a árvore-de-natal se deve a Martim Lutero (1483-1546), por volta de 1525, após o seu casamento. A árvore-de-natal só chegou ao Brasil no início do séc. XX, por volta de 1909.

O relacionamento estreito entre a religião católica e o paganismo está presente até mesmo no nome da sede da Igreja Católica: Vaticano era o deus dos romanos que fazia profecias (o nome “Vaticano” se relaciona semanticamente com “vate” e “vaticínio”) e presidia os primeiros gritos dos meninos. Era representado sob a forma de uma criança gritando. O verbo latino uagio (cujo infinitivo é uagire ou vagire) é uma formação expressiva (“fazer uá”) para designar o grito das criancinhas, por isso, não raro, o nome Vaticano era confundido com “Vagicano”.

De qualquer forma, ainda que fruto de equívocos, o Natal não é uma data apenas restrita ao dia 25 de dezembro, mas uma época, um período de tempo que vai de meados de novembro até o dia 6 de janeiro, uma época em que as pessoas põem em prática seu espírito cristão de fraternidade e de paz e se iluminam na fé que as ajuda a viver e lhes dá alimento à alma...


 

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