Uma
vitória da vida é sempre uma vitória
das mulheres.
Primeiro,
foi uma vitória da Humanidade; segundo, do Brasil,
que liderou os países em vias de desenvolvimento; por
último, da obstinação de José
Serra, que é como um cão bulldog: quando agarra
o focinho do touro, tranca a mandíbula e não
larga mais. Falo da redação do Trips, o Tratado
de Defesa da Propriedade Intelectual, votado na reunião
da Organização Mundial de Saúde no Qatar.
Houve,
nessa luta, mudanças de aliados e de circunstâncias.
O antraz foi um grande aliado dos países emergentes.
A propagação do terrorismo postal nos Estados
Unidos fez com que o governo americano encostasse a faca no
peito da Bayer, proprietária da patente do antibiótico
específico contra a doença, o cipro. Tinham
a perspectiva de comprar 120 milhões de unidades do
remédio. Fizeram à empresa a chamada proposta
do padrinho. A que não pode ser recusada. Ou
vocês reduzem o preço do remédio ou nós
desrespeitamos a patente e fabricamos um genérico.
Dado o tamanho da indústria farmacêutica americana,
o volume da encomenda, a Bayer prontamente cortou o preço
pela metade.
A
questão do antraz e do cipro erodiu a posição
americana de defender o direito a patentes de qualquer maneira.
Moralmente, não poderiam mais sustentar uma posição
irredutível, como fizeram nas Nações
Unidas, onde ficaram isolados, ou na África do Sul,
onde as multinacionais desistiram na última hora de
manter a ação que moviam na Suprema Corte do
país contra o governo, em virtude das patentes de remédios
contra a Aids. Dizem que posicionamentos morais não
influem em matéria de negociações comerciais.
É verdade, mas há limites. No caso do julgamento
na África do Sul, as multinacionais tiveram medo do
boicote às suas marcas pelos consumidores dos países
ricos. Fazendo as contas de custos e benefícios, temeram
ter prejuízo. Agora, no caso das negociações
na OMC, os diplomatas americanos devem ter pensado no seu
público interno. Como explicariam aos contribuintes
um prejuízo de centenas de milhões de dólares
causado por uma defesa dos interesses de um único setor
produtivo, que tinha contra si não só uma parcela
importante da opinião pública mundial como o
posicionamento oficial de mais de 50 países, que acompanhavam
a atitude do Brasil?
Surpresa
foi a perda do apoio dos Médicos sem Fronteiras, organização
que já recebeu o prêmio Nobel da Paz, e da delegação
da Índia. Nas negociações passadas, tinham
sido ambos firmes sustentáculos das propostas de José
Serra. Os Médicos sem Fronteiras, por trabalharem em
alguns dos lugares mais pobres do mundo e necessitarem de
remédios baratos. Os indianos, porque têm 24
mil empresas farmacêuticas, exportam US$ 200 milhões
em remédios por ano e são um dos maiores produtores
de genéricos do mundo.
Acharam
ambos que os brasileiros fizeram uma concessão exagerada
aos americanos na redação do acordo final. Em
vez de manterem um texto que excluía explicitamente
o respeito às patentes quando isso implicasse risco
para a saúde pública, concordaram com uma redação
mais branda, que apenas permite a quebra das patentes. No
fundo, dá no mesmo. A posição brasileira
vence, mas não esfrega a vitória na cara do
adversário, humilhando-o. Ganha, mas não tripudia,
como recomenda a sabedoria política mineira.
Um
aliado de peso que o Brasil teve foi a Rede Internacional
das Mulheres para o Comércio (IGTN). Elas aprovaram
um documento prévio num seminário na Cidade
do Cabo para apresentar aos ministros reunidos no Qatar. Nesse
documento, fazem a crítica geral da agenda da OMC.
Em relação à propriedade intelectual,
tratada no Trips, sigla que corresponde a Trade-related Intellectual
Property Rights, elas pedem simplesmente que se elimine essa
questão da OMC. Dizem: O Trips ameaça
a segurança alimentar e a pequena agricultura, especialmente
quando permite o patenteamento por multinacionais de sementes
e dos recursos genéticos das plantas. O Trips restringe
o direito dos governos de planejar a saúde pública
dos povos e dá às empresas o monopólio
de estabelecer o preço dos remédios. E ainda
estabelece severas restrições à produção
de remédios genéricos, faz com que os medicamentos
se tornem caros e inacessíveis a homens e mulheres
que vivem na pobreza.
Como
opção, as mulheres declaram que: ...defendem
a vida e procuram promover condições para que
se viva uma vida decente e digna. Essa a razão por
que achamos que a vida, que consideramos sagrada, não
deve ser patenteada. A vida é a nossa herança
coletiva. Não deveria ser vendida ou comercializada
de qualquer forma.
A
mais antiga revista feminina americana, a Ladys
Home Journal, tem como lema: nunca subestime o poder
de uma mulher. José Serra e a delegação
brasileira puderam avaliar a veracidade da frase. Uma vitória
da vida é sempre uma vitória das mulheres.
http://oglobo.globo.com/colunas/marcio.htm
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O Globo.
Colaborou
Mônica Laranjeira Jácome
Humanidade vem saqueando a Terra
Relatório
das Nações Unidas diz que a crise global é
vasta e urgente
e sugere dar maior poder de decisão às mulheres
NAÇÕES
UNIDAS - A raça humana vem saqueando a Terra de forma
insustentável e dar às mulheres maior poder
de decisão sobre seu futuro pode salvar o planeta da
destruição, alerta o Fundo das Nações
Unidas para a População (FNUAP) em seu relatório
de 2001.
''As
mulheres representam mais da metade da força de trabalho
agrícola mundial e sabem administrar os recursos domésticos
de alimentos, água e energia'', diz o relatório.
''Estamos olhando o mundo de cima de um rochedo. É
uma crise global
de vastas proporções e que merece ser enfrentada
com urgência'', diz
Alex Marshall, editor do relatório Footprints and milestones:
Population
and environmental change (Marcas e marcos: População
e mudança
ambiental), divulgado ontem.
O
aumento da população, o crescente consumo, estimulado
pelas novas tecnologias, e a globalização, vêm
provocando mudanças sem
precedentes no planeta e no meio ambiente, constata a ONU,
citando especificamente a destruição dos hábitats,
a contaminação e o degelo das calotas polares
devido ao efeito estufa. ''As atividades humanas afetam cada
área do planeta, não importa quão remotas,
e cada ecossistema, do mais elementar ao mais complexo'',
diz o relatório.
Números - Os números citados são impressionantes
e assustadores. ''Desde 1960, a população mundial
dobrou para 6,1 bilhão de pessoas, a maioria em países
pobres. Até 2050 serão 9,3 bilhões. Os
gastos com o consumo mais que dobraram desde 1970, com aumento
significativo nos países mais ricos.
Ainda
assim, metade do mundo sobrevive com menos de US$ 2 ao dia.''
O documento informa que ''durante toda a sua vida, um recém-nascido
de um país industrializado vai consumir e poluir mais
do que entre 30 e 50 recém-nascidos de um país
em desenvolvimento''.
Se a raça humana aprendeu a extrair da terra os recursos
necessários
para sua sobrevivência não vem mostrando o mesmo
empenho em dispor sobre o lixo:
as emissões de dióxido de carbono aumentaram
12 vezes entre 1900 e
2000 e, no processo, o clima do mundo está mudando.
''A grande dúvida do século 21 é se as
atividades do século 20 nos colocaram em rota de colisão
com o meio ambiente. Se isso aconteceu, o que pode ser feito?'',
pergunta a ONU.
''À
medida que a população aumenta e a globalização
prossegue surgem
perguntas cruciais: como utilizar os recursos disponíveis
de água e
solo para produzir alimentos para todos? Como promover o desenvolvimento
econômico e pôr fim à pobreza de forma
que todos tenham o que comer?
Como enfrentar as conseqüências humanas e ambientais
da industri alização e os temores do aquecimento
global, da mudança climática e a perda de biodiversidade?''
Mulher
- Na opinião do FNUAP, as relações entre
meio ambiente,
população e desenvolvimento social passam pelo
aumento do poder
feminino. ''Remover os obstáculos ao exercício
do poder econômico e político das mulheres é
também uma das formas de pôr fim à pobreza'',
diz o relatório. ''A igualdade de direitos entre os
dois sexos, o direito à saúde reprodutiva, incluído
o direito de determinar o tamanho da família, ajudará
a diminuir o crescimento da população, reduzir
seu tamanho e reduzir a pressão sobre o meio ambiente.''
A taxa de fertilidade, segundo a ONU, é mais alta nos
países mais
pobres e bem mais elevada entre os miseráveis desses
países. Não por acaso, lembra, eles estão
entre os mais ameaçados pela degradação
do solo, pela escassez de água e pelo déficit
de alimentos.
''A
boa notícia'', lembra o FNUAP, é que a taxa
de fertilidade dos países em desenvolvimento está
caindo para três crianças por mulher, metade
do índice de 1969, e a expectativa é de que
entre 2045-2050 fique em 2,17 crianças por mulher.
Aids
- Entretanto, a expectativa de vida em todo o mundo está
crescendo fora das áreas mais afetadas pela Aids. Em
1950 era em média de 46 anos, em 2001 passou a 66 anos.
''As pessoas estão mais saudáveis do que em
qualquer outra época'', diz o relatório. Citando
documento da Organização Mundial da Saúde
(OMS), o FNUAP diz que a epidemia de Aids tem ligação
com fatores de desenvolvimento - pobreza, desnutrição,
vulnerabilidade a doenças, desigualdade de gênero
e vizinhança insegura - e vem causando um devastador
impacto sobre a saúde e a família, com reflexos
sobre o meio ambiente
e os problemas agrícolas, sobrecarregando, principalmente,
as camponesas.
Por essa participação intensiva da mulher, o
FNUAP insiste na
necessidade de se pôr em prática o acertado na
Conferência Internacional sobre População
e Desenvolvimento, de 1994, sobre a necessidade de garantir
os direitos da mulher como a chave para o desenvolvimento
sustentável.
Mais
gente, pouca água.
NAÇÕES
UNIDAS - O uso sustentável dos recursos naturais,
principalmente da água, é destacado pelo relatório
do Fundo das Nações Unidas para a População
(FNUAP) como um bom começo para se tentar salvar o
que ainda resta do mundo. ''Nos últimos 70 anos, o
uso da água foi multiplicado por seis; 54% da água
potável disponível anualmente são utilizados,
dois terços desses recursos pela agricultura'', diz
o relatório. ''Até 2025, o índice pode
subir para 70% devido unicamente ao aumento da população.''
Muito países empregam meios pouco sustentáveis
para obter água e
estão exaurindo seus aqüíferos, como ocorre
em algumas cidades da China, da América Latina e do
Sul da Ásia. ''A água de mares e rios é
desviada para irrigação e para a indústria,
às vezes com resultados desastrosos'',
prossegue
o FNUAP.
''No
ano passado, 508 milhões de pessoas viviam em 31 países
onde há
falta dágua ou onde ela é escassa. Em 2005,
serão 3 bilhões de pessoas em 48 países
e, em 2050, mais de 45% da população mundial,
4,2 bilhões de pessoas, vão viver em países
onde não terão os 50 litros de água por
pessoa considerados o mínimo necessário'', calcula
o relatório.
OMS
- A Organização Mundial de Saúde (OMS)
estima que 1,1 bilhão de pessoas não tenham
acesso à água potável. Em países
em desenvolvimento, entre 90% e 95% dos esgotos e 70% dos
dejetos industriais são lançados, sem tratamento,
nas águas de superfície (rios, mares, lagoas)
poluindo os recursos hídricos disponíveis.
Em muitos países industrializados, poluentes químicos,
de fertilizantes a
pesticidas, e a chuva ácida resultante da poluição
ambiental exigem o
tratamento da água a custos elevados e grande consumo
de energia.
O uso da água está diretamente relacionado à
produção de alimentos.
Entre 1985 e 1995 em 64 dos 105 países em desenvolvimento
analisados a produção de alimentos perdeu para
o aumento populacional. A situação foi mais
grave no continente africano. O organismo das Nações
Unidas para Alimentos e Agricultura, FAO, define um país
pobre como aquele de ''baixa renda e com déficit de
alimentos''. Segundo o FNUAP, 800 milhões de pessoas
vivem em
permanente estado de desnutrição e outros 2
bilhões às vezes passam
fome.
''A
capacidade de produzir alimentos em muitos países pobres
está
caindo devido à deterioração do solo,
a falta dágua, às práticas agrícolas
não apropriadas e ao rápido crescimento populacional.
Boa parte das terras férteis é dedicada a colheitas
para exportação, o que não só
priva as populações de alimentos como de solo
para plantar'', explica o FNUAP.
Para
abrigar as quase 8 bilhões de pessoas que se espera
vão povoar a Terra em 2025 e garantir-lhes um mínimo
de comida, será necessário dobrar a produção
mundial de alimentos e melhorar bastante sua distribuição.
No entanto, as variedades de cereais que costumam ter boa
produtividade também exigem fertilizantes e pesticidas
específicos, o que poderá afetar o equilíbrio
ecológico.