Geólogo, Mestre em Geociências e Professor de Geologia em diversas Universidades, atualmente na UFRGS

 

Caros Amigos
Roberto Cunha
 

Desde que encontrei o site do colégio e me pluguei, tenho recebido mails de amigos da minha turma, de colegas do meu tempo e mesmo de colegas que nem conheci (!), anteriores ou posteriores ao meu tempo. Todos se mostraram muito contentes com a minha entrada na rede. Puxa vida, que ligação é esta que se forma entre as pessoas que, mesmo distantes no tempo e no espaço, não deixam de manter uma afinidade carinhosa entre si? Será que o ar que respirávamos em Friburgo tem algum componente que estimula o carinho e o afeto entre as pessoas? Ou será que o nosso isolamento (quase!) do mundo nos aproximava, como se quiséssemos nos proteger (de que?)? O fato é que senti, pelo teor dos mails, que os nossos sentimentos em relação ao colégio (espaço físico), aos professores (espaço intelectual) e colegas (espaço afetivo) eram e são os mesmos, podendo ser traduzidos como SAUDADES.

Saudades dos corredores (das correrias), dos dormitórios (é bom nem falar!), do refeitório (das goiabadas e marmeladas grudadas no teto e das guerras de canelonis – vulgos faraós – quando a luz apagava), das salas de aulas (verdadeiras fortalezas medievais, protegidas à ferro e fogo), dos laboratórios (aquele anfiteatro do laboratório de ciências sempre me fascinou, aquele esqueleto pendurado em um canto), dos ginásio de esportes (até boxe eu lutei lá. Vocês podem imaginar eu de luvas de boxe? Olhem as fotos da minha turma de 60), da piscina (mais vazia do que cheia), do campo de futebol (nunca me esqueço de um gol que fiz no Grossmann do meio do campo! Minha intenção era só dar um passe para o Mussi na entrada da área!), do auditório (a guerra de drops de anis! Também, quem mandou distribuir drops de anis?), da biblioteca (quem não leu A Carne do Júlio Ribeiro que atire a primeira pedra!), dos bar do científico (dos bailes...) e de cada canto, cada pedra, cada árvore...Saudades do Ezequiel (professor de história)- uma vez fomos à sua casa (dele!) fazer uma serenata! E ele abriu a porta, pediu para não acordar sua (dele!) mulher e caiu na cantoria; ou então quando ele deixou o Japiassú em segunda época só para encontrá-lo em fevereiro.

Eu então pedi para ficar também e assim nos reencontramos nas férias. Adivinhem se alguém fez prova?; Saudades do Talvane (professor de matemática)- num dos “bate-pé” no auditório, no escuro, um aluno andando de costas, pisou no pé dele! Não seria quase nada se aquele pé não estivesse enfaixado, resultado de uma disputa de bola com a nossa turma, à tarde!; Saudades do Danny, professor de filosofia – aquelas aulas dos paradoxos do Zenão – o coelho e a tartaruga – ficaram para sempre na minha memória; Saudades do Délio, professor de física, coordenador do científico e um grande amigo; Saudades do Amaury, diretor à época, que livrou a nossa cara no episódio “lamentável” da dispensa – vide crônica do Japiassú, que mesmo com muita fantasia, se aproxima da realidade; Saudades do Barbosa, professor de Geografia que tinha um coleção de discos estupenda. Mas o destaque (meu, é claro) fica para a irmã de um amigo nosso da Quarta série (desculpem, me fogem os nomes) que era freira e veio de Campinas nos dar aulas de religião (1961). Linda e de uma meiguice que nos cativou à todos (mesmo com o ciúmes do irmão!). Quando perguntamos por que ela usava aliança, ela nos respondeu, ruborizada, mas muito convicta: “Sou casada com Deus!” Querem mais?Das Saudades dos amigos vou falar em outra ocasião, depois que passar esta emoção forte (não se preocupem, amigos médicos, pressão 12/8 e estável!) e depois que eu organizar o arquivo da memória (da minha, não do meu PC!), com fatos que podem até abalar os mais sólidos alicerces!!!Mas, sem dúvida, aqueles anos juntos nos ensinaram que as saudades podem ser doces (‘tá bom, podem colocar uma pitada de sal!) e são e serão, as nossas ligações com o passado que está aí, vivo e passando muito bem!Beijos, abraços, carinhos, afetos e, é claro, SAUDADES!!!

Rato Cunha

30 de janeiro de 2002.