O
tempo passa, e com ele vai ficando dentro de
mim uma saudade muito grande de meu pai. Meu
pai que foi exemplo de dignidade, honestidade,
profissionalismo, humildade, caráter
e muito amor a nós e ao próximo.
Tinha
dentro dele a satisfação do dever
cumprido. O orgulho de ter tido a mulher que
teve e de ter proporcionado a ela tudo o que
tinha de si. Todas as suas atitudes eram voltadas
para a família, aqueles que conviveram
com ele sabem disso. Os amigos, o Campos, o
Danny, Lauro, Jayder, Ezequiel, Abelardo, Olavo,
Assunção e tantos outros e Jordão
seu grande companheiro de cursos e galhofas,
sabem do que estou falando.
Sabem
do seu desprendimento, que era capaz de tudo
para ajudar um amigo, mesmo que esses amigos
fossem nossos, pois fazia seus, os nossos amigos.
Nossa casa era uma grande comunidade. Minha
mãe mantinha tudo sob controle. Ela achava
que era mais fácil controlar os sete
filhos, se nós ficássemos em casa,
e conosco os amigos. Era sempre uma
grande alegria. Festas, torneios de biriba,
até ensaios de teatro em dias de descida
eram feitos lá em casa. E tudo com o
maior bom humor, coisa normal.
Quantos
irmãos CENEFISTAS eu tive. Quase todos
os alunos que eram convidados a se retirar do
colégio, ou que não podiam ficar
mais internos, iam morar lá em casa.
A gente espremia um pouco e já cabia
mais um. Isso sem falar dos nossos cachorros.
E nossas férias, como eram boas nossas
férias. Muitas
vezes Marataízes, marimbondo tinha uma
casa lá e emprestava para o pai que sempre
dava um jeitinho de dar um curso em Cachoeiras
do Itapemirim, para que nós pudéssemos
ir para lá.
Quanta
farra. Éramos os donos da cidade, desde
o único guarda da cidade, que ia lá
para casa com a farda embrulhada num jornal,
e quando acabava a nossa cerveja, colocava a
farda e partia para multar carros que chegavam
a 10, 20 km,
por excesso de velocidade, para angariar fundos
para continuarmos as nossas farras, até
o irmão do professor Heraldo, que era
Diretor do Iate Clube a quem sempre recorríamos
para convites de carnaval. Tinha uma galera
grande do colégio que passava as férias
lá também, né corujinha?
Quando
minha mãe, faleceu, achei que não
iríamos sobreviver. Larguei tudo para
ser a companheira do meu pai.
Viajamos muito. Fomos para o sul acampando e
depois fizemos uma memorável viagem para
o norte e nordeste. Essa viagem marcou tanto
a sua vida, que nos seus últimos meses
de vida, era uma das poucas coisas em que falava.
Tinha alguns lampejos de lucidez, recordando
os seus queridos alunos que, com suas famílias,
tão gentilmente nos receberam, Chermont,
Zeno, Zé Cunha.....e tantos outros.
Foi
para Assunção, e passava todas
as suas férias, em minha casa. Meu companheiro,
meu amigo. Como foi difícil para mim
cuidar de meu pai como um bebê. Como me
doía. Mas fazia com tanto amor, tanto
carinho, não era reconhecimento era puro
amor. Nunca imaginei que pudesse amar tanto.
Meu pai quanta saudade. Como eu gostaria que
estivesses ao meu lado, como sempre estavas.
Tomando nossa cervejinha, batendo nossos papos.
Quantas vezes chorei em teu ombro minhas dores,
tão pequenas (agora é que eu sei
o que é verdadeiramente dor) Os nossos
almoços de domingo sempre regados a amigos
. O teu clube de teatro, quantas alegrias, né
meu pai. Festivais de teatro. Fazias um trabalho
amador de primeira grandeza, muitos prêmios,
seu elenco era formado sempre de grandes amigos.
Quantas
serenatas, quantas vezes virávamos a
noite esperando abrir a padaria para comprar
o pão quentinho, as vezes esbarrávamos
na massa e ela murchava, naquele dia não
tinha o pão das 6h. Quantas vezes brincávamos
de polícia e ladrão, com a polícia.
Ganhávamos sempre, pois da varanda lá
de casa podíamos controlar os movimentos
do inimigo. Como a vida era boa. Nós
éramos felizes e sabíamos disso.
Talvez por isso meu pai, eu não consigo
aceitar não ter mais a tua presença
ao meu lado.
Queria,
Gayer, agradecer teu carinho e toda a atenção
que você teve comigo nos cuidados com
o pai. Não fui tua contemporânea
no colégio, mas com certeza aprendemos
junto o que é amizade e amor ao próximo,
serei sempre agradecida. A você gordo
egge, que foi o mentor da idéia de solicitar
dos amigos do colégio a ajuda nas despesas
de remédios. Aos amigos que me ajudaram,
alguns continuam ajudando, outros até
fazendo questão de se manterem anônimos,
podem ter a certeza de que de onde ele está,
e com certeza está muito bem, seu coração
está feliz por saber que fez tantos amigos
nessa sua passagem por essa vida. E tenho certeza
que ficou dele, um pedacinho dentro do coração
de cada um de nós.
Um
grande e fraternal abraço a todos os
amigos, em meu nome da minha família
e do meu Pai.