Meu Pai, Prof. Castillo
Sandra Massot Castillo
 

O tempo passa, e com ele vai ficando dentro de mim uma saudade muito grande de meu pai. Meu pai que foi exemplo de dignidade, honestidade, profissionalismo, humildade, caráter e muito amor a nós e ao próximo.

Tinha dentro dele a satisfação do dever cumprido. O orgulho de ter tido a mulher que teve e de ter proporcionado a ela tudo o que tinha de si. Todas as suas atitudes eram voltadas para a família, aqueles que conviveram com ele sabem disso. Os amigos, o Campos, o Danny, Lauro, Jayder, Ezequiel, Abelardo, Olavo, Assunção e tantos outros e Jordão seu grande companheiro de cursos e galhofas, sabem do que estou falando.

Sabem do seu desprendimento, que era capaz de tudo para ajudar um amigo, mesmo que esses amigos fossem nossos, pois fazia seus, os nossos amigos. Nossa casa era uma grande comunidade. Minha mãe mantinha tudo sob controle. Ela achava que era mais fácil controlar os sete filhos, se nós ficássemos em casa, e conosco os amigos. Era sempre uma
grande alegria. Festas, torneios de biriba, até ensaios de teatro em dias de descida eram feitos lá em casa. E tudo com o maior bom humor, coisa normal.

Quantos irmãos CENEFISTAS eu tive. Quase todos os alunos que eram convidados a se retirar do colégio, ou que não podiam ficar mais internos, iam morar lá em casa. A gente espremia um pouco e já cabia mais um. Isso sem falar dos nossos cachorros. E nossas férias, como eram boas nossas férias. Muitas
vezes Marataízes, marimbondo tinha uma casa lá e emprestava para o pai que sempre dava um jeitinho de dar um curso em Cachoeiras do Itapemirim, para que nós pudéssemos ir para lá.

Quanta farra. Éramos os donos da cidade, desde o único guarda da cidade, que ia lá para casa com a farda embrulhada num jornal, e quando acabava a nossa cerveja, colocava a farda e partia para multar carros que chegavam a 10, 20 km,
por excesso de velocidade, para angariar fundos para continuarmos as nossas farras, até o irmão do professor Heraldo, que era Diretor do Iate Clube a quem sempre recorríamos para convites de carnaval. Tinha uma galera grande do colégio que passava as férias lá também, né corujinha?

Quando minha mãe, faleceu, achei que não iríamos sobreviver. Larguei tudo para ser a companheira do meu pai.
Viajamos muito. Fomos para o sul acampando e depois fizemos uma memorável viagem para o norte e nordeste. Essa viagem marcou tanto a sua vida, que nos seus últimos meses de vida, era uma das poucas coisas em que falava. Tinha alguns lampejos de lucidez, recordando os seus queridos alunos que, com suas famílias, tão gentilmente nos receberam, Chermont, Zeno, Zé Cunha.....e tantos outros.

Foi para Assunção, e passava todas as suas férias, em minha casa. Meu companheiro, meu amigo. Como foi difícil para mim cuidar de meu pai como um bebê. Como me doía. Mas fazia com tanto amor, tanto carinho, não era reconhecimento era puro amor. Nunca imaginei que pudesse amar tanto. Meu pai quanta saudade. Como eu gostaria que estivesses ao meu lado, como sempre estavas. Tomando nossa cervejinha, batendo nossos papos. Quantas vezes chorei em teu ombro minhas dores, tão pequenas (agora é que eu sei o que é verdadeiramente dor) Os nossos almoços de domingo sempre regados a amigos . O teu clube de teatro, quantas alegrias, né meu pai. Festivais de teatro. Fazias um trabalho
amador de primeira grandeza, muitos prêmios, seu elenco era formado sempre de grandes amigos.

Quantas serenatas, quantas vezes virávamos a noite esperando abrir a padaria para comprar o pão quentinho, as vezes esbarrávamos na massa e ela murchava, naquele dia não tinha o pão das 6h. Quantas vezes brincávamos de polícia e ladrão, com a polícia. Ganhávamos sempre, pois da varanda lá de casa podíamos controlar os movimentos do inimigo. Como a vida era boa. Nós éramos felizes e sabíamos disso. Talvez por isso meu pai, eu não consigo aceitar não ter mais a tua presença ao meu lado.

Queria, Gayer, agradecer teu carinho e toda a atenção que você teve comigo nos cuidados com o pai. Não fui tua contemporânea no colégio, mas com certeza aprendemos junto o que é amizade e amor ao próximo, serei sempre agradecida. A você gordo egge, que foi o mentor da idéia de solicitar dos amigos do colégio a ajuda nas despesas de remédios. Aos amigos que me ajudaram, alguns continuam ajudando, outros até
fazendo questão de se manterem anônimos, podem ter a certeza de que de onde ele está, e com certeza está muito bem, seu coração está feliz por saber que fez tantos amigos nessa sua passagem por essa vida. E tenho certeza que ficou dele, um pedacinho dentro do coração de cada um de nós.

Um grande e fraternal abraço a todos os amigos, em meu nome da minha família e do meu Pai.