| ATUALIDADES - ARTIGOS DIVERSOS |
HIPERCARACTERIZAÇÃO
José Augusto Carvalho
A etimologia tem sido má conselheira dos que pretendem
explicar fatos atuais da língua. O uso leva com freqüência
ao esquecimento de como determinada palavra ou expressão
se formou. E pode ocorrer o que em lingüística se chama
hipercaracterização, que é uma redundância
incorporada à língua e que não é mais
sentida como redundância. Assim, pretender que suicidar-se
ou meio ambiente sejam incorreções por serem originalmente
pleonasmos (redundâncias de sentido) é pretender que
se recomende dizer nosco ou migo por conosco ou comigo, em que a
preposição com se repete. A alteração
de mecum para migo levou o falante a esquecer a preposição
embutida, e repetiu-a: comigo. Da mesma forma, o futuro irei ver,
por exemplo, se forma a partir do esquecimento de que a perífrase
com o presente de ir já indica o futuro: vou ver; o falante,
então, conjuga o auxiliar no futuro, por hipercaracterização,
o que, na verdade, não constitui um erro, mas um recurso
legítimo de expressividade.
Não há redundância em suicidar-se, porque o
sui se descaracterizou como pronome, tornando-se parte da raiz verbal.
Afinal, dizemos “nós nos suicidamos”, “vós
vos suicidais”, em que o sui ocorre sem referência à
3ª pessoa, distanciando-se, portanto, de sua origem etimológica.
Walter Porzig cita um caso interessante em seu livro Das Wunder
der Sprache (de 1957). O particípio alemão é
formado com a partícula -ge anteposta ao verbo. Assim, o
verbo kommen (vir) forma gekommen (vindo), no particípio.
Trinken (beber) forma getrunken (bebido); haben (ter) forma gehabt
(tido), etc. O verbo essen (comer) tinha a forma arcaica regular
gessen (comido), no particípio, mas o povo achou que a partícula
faltava e colocou-a de novo. Hoje, o particípio de essen
é gegessen, por hipercaracterização. É
como se, em inglês, disséssemos loveded por loved (particípio
de to love, amar), ou como se disséssemos camed por came
(vindo), que já é forma pretérita em inglês.
É por hipercaracterização que dizemos “milharal”.
De café se origina cafezal; de bambu, bambuzal; de algodão,
algodoal; de laranja, laranjal, etc. De milho deveria originar-se
milhal. Mas o sufixo repetiu-se: milhalal, que deu milharal por
dissimilação do l do primeiro prefixo.
Condenar ou justificar os usos atuais da língua pela etimologia
não me parece um atitude científica ou lingüísticamente
válida. Do contrário, estaríamos proibidos
de usar músculo (que significa “ratinho”) ou
hidrofobia (que significa “horror à água”),
ou rival (do latim rivus, rio, designativo etimológico de
ribeirinho, isto é, do habitante das margens do rio) por
exemplo, com o sentido que atribuímos hoje a tais formas.
Os tropos também contribuem para afastar a etimologia das
explicações de fatos lingüísticos atuais,
como a metonímia e a catacrese (que é uma metáfora
cristalizada), por exemplo. É por catacrese que dizemos pé
de mesa, barriga da perna, braço de poltrona, céu
da boca, ou expressões como andar a cavalo num burro, embarcar
num ônibus, enterrar uma agulha no dedo (não há
portanto incoerência em se dizer “enterrar no mar”,
posto que enterrar signifique “enfiar na terra”, originalmente).
É por metonímia que usamos nomes de marcas registradas
para produtos similares de outras marcas, como chiclete, gilete,
modess, etc.
A etimologia apenas indica e explica a origem das palavras, sem
implicações semânticas. Assim, pela etimologia,
sabemos que Lúcifer, de origem latina, significa “o
que leva (ferre) a luz (lux)”, equivalente ao grego fósforo.
Ora, se formos usar a etimologia, Lúcifer poderia designar
Jesus Cristo, mas passou a designar o diabo por um erro de interpretação
dos doutores da Igreja, em duas passagens de Isaías, cap.
XIV: o versículo 4, em que Isaías fala do rei da Babilônia,
e o versículo 12, em que o rei caiu do céu e é
chamado Lúcifer, tradução latina do hebraico
ben-xabar (filho da aurora), designativo da estrela da manhã
ou estrela d’alva. Os doutores da Igreja viram semelhança
entre o que Isaías dizia a respeito do rei da Babilônia
e a queda do anjo mau na mitologia cristã. E Lúcifer
passou a ter um significado ruim, apesar da etimologia.
Um caso mais recente de hipercaracterização em português
é a expressão canja de galinha. Originalmente, canja
é caldo de galinha com arroz. O falante esqueceu a significação
primitiva e reforçou-a: canja de galinha, o que me parece
construção legítima, ou, pelo menos, legitimada
pelos usuários cultos da língua, uma vez que, se existe
canja musical, como a que termina os programas de entrevista de
Jô Soares, na televisão, se torna necessário
especificar a canja de que se fala.
Portanto, embora meio e ambiente sejam sinônimos isoladamente,
a expressão meio ambiente está bem formada, por hipercaracterização,
abonada pelo uso corrente.
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