|
NATAL SEM MAGIA (04-12-06)
José Augusto Carvalho
O Natal não é um dia, mas uma época por que
eu ansiava quando criança. Ainda em novembro, numa tarde
qualquer de um sábado qualquer, o mais velho dos meus irmãos
sentava-se diante de uma pequena máquina de escrever Olympia
e mandava-me ditar-lhe os meus pedidos a Papai Noel... Nunca recebi
o que pedira em nenhuma dessas cartinhas, mas sempre mantive a esperança
de que seria atendido, porque o Natal é sempre mágico
para todas as crianças.
Meus Natais perderam sua magia quando recebi pela primeira vez “presentes
úteis”: um estojo com lápis e borracha e uma
pasta para os livros e cadernos que ainda seriam comprados dois
meses depois, para a minha primeira aula, no Jardim da Infância.
Nunca mais vi magia no Natal, mas sempre procurei dar ao Natal dos
meus filhos o sentido de magia que eu havia perdido cedo demais.
O Natal não é um dia, mas uma época. Já
a partir de novembro, começam as promoções
e reclames (como se dizia) do comércio; as músicas
e jingles tocados à harpa nas ruas, nas lojas, nas rádios
e nas TVs; os desenhos de Papai Noel nas revistas e jornais... Esse
é o cenário talvez neutro, mas festivo, dos natais
dos brasileiros adultos.
O cenário menos neutro, talvez ainda festivo, é o
do 13º salário ou do abono salarial, para fazer menos
sofrida a dor do outro cenário, o nada festivo e nada neutro
da conseqüência: o das dívidas feitas com as compras,
o do arrocho do ano seguinte, o dos aumentos dos impostos a pagar
a partir de janeiro, o do horror da declaração do
imposto de renda... Um cenário que dura até o mês
de maio, quando se pode respirar melhor e sentir o gosto amargo
da teimosia de sobreviver.
O Natal não é um dia, mas uma época. Uma época
que lembra uma lei de Murphy: “As coisas sempre podem piorar.
A gente é que não tem imaginação.”
|