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A DIFÍCIL LUTA A FAVOR DA NATUREZA
Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social da FJN
Nos meses recentes, tem se visto no Brasil todo tipo de investida
dos que atribuem à economia uma importância capital,
acima de qualquer outra consideração, inclusive o
meio ambiente. O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
Recursos Naturais Renováveis), por exemplo, é atacado
como inimigo do país. A ponto de o senador Antônio
Carlos Magalhães ter dito em discurso no Senado, em abril
de 2004, que "ou o Brasil acaba com o Ibama ou o Ibama acaba
com o desenvolvimento brasileiro". Na verdade, o Ibama apenas
faz o que manda a legislação, da qual ele é
guardião (um papel nem tão rigoroso assim, algumas
vezes). A lei não foi criada por esse órgão,
e sim pelo Congresso, exprimindo a vontade da população.
A qual, hoje, se inclina por atitudes de defesa ambiental, conforme
indicam pesquisas do Instituto Superior de Estudos da Religião,
do Rio de Janeiro. Ou seja, percebe-se a crise ambiental e que é
preciso fazer alguma coisa para contê-la. Nesse sentido, o
Ibama age coberto de toda legalidade.
Quem não observa princípios legais são, isto
sim, os produtores de soja que, contra as leis do país, impuseram
o plantio de soja transgênica, introduzida clandestinamente
no país. O governo, ao invés de opor-se ao crime,
sacramentou-o, liberando por medidas provisórias (a última
das quais em outubro de 2004) a cultura da soja geneticamente modificada.
A razão dada para isso é que os agricultores tinham
feito despesas, assumido débitos, etc. Uma conversa fiada
que não se aplica quando se trata, por exemplo, de condenar
o MST por estar, com suas invasões, violando a propriedade
privada. Na Amazônia (conforme registros precisos da Rede
Globo, inclusive no "Fantástico" de domingo 30
de janeiro último), atualmente, testemunham-se ações
irregulares de madeireiras que destroem ilegalmente a floresta.
Ora, a quem pertence o patrimônio da uma floresta, resultante
de décadas, ou até séculos, de desenvolvimento
das forças da natureza? Pertence a alguma madeireira? Ou
pertence à nação, especialmente aos povos que
protegeram o ecossistema para que ele nos desse essa floresta rica
de biodiversidade? A Constituição brasileira em vigor
estabelece que a floresta amazônica é "patrimônio
nacional". Acusar o Ibama de ser contra o desenvolvimento do
país porque ele tenta levantar a bandeira legítima
da defesa do bem público reflete a mentalidade estreita,
imediatista, de exploração máxima da natureza,
que caracteriza os defensores do interesse econômico acima
de qualquer outro propósito.
É a mesma coisa que acontece no Recife com a esdrúxula
permissão da Prefeitura para a construção de
dois espigões no cais da Mesbla, bem próximo ao bairro,
de simpático casario baixo, de São José. Ora,
o meio ambiente inclui, nas definições científicas
dele feitas, o ar e a paisagem. Um prédio alto rouba ar e
rouba paisagem, ambos representando bens públicos. Que direito
tem uma empreiteira de construir o que bem quiser no cenário
com o qual estamos acostumados há quinhentos anos, modificando-o
dolorosamente ? e ainda mais com o beneplácito do poder municipal?
Diante disso, é pura hipocrisia atacar o MST por invadir
propriedade. Sobretudo porque nosso desenvolvimento urbano se faz
com a invasão do espaço atmosférico por imobiliárias
movidas por pura ganância econômica (e não por
necessidade de sobrevivência). Deveria haver um plebiscito
para saber se é isso mesmo o que a população
quer, pois o que se constata agora é uma situação
de completa irregularidade e de desrespeito a princípios
de um desenvolvimento ecologicamente são.
Minha amiga Marisa Gibson, em sua (boa) coluna do DP de domingo
passado, disse que os produtores de camarão (em cativeiro),
como se não bastassem os problemas que enfrentam, teriam
um outro neste começo de ano: "a ministra do Meio Ambiente,
Marina Silva, está criando um grupo de trabalho para barrar
o crescimento da atividade". Ora, as fazendas de camarão,
onde quer que se implantem, causam enormes danos ambientais: destruição
de manguezais (aumentando a erosão litorânea e diminuindo
a proteção natural que o mangue oferece), diminuição
da pesca que havia anteriormente no local, prejuízos para
as comunidades pesqueiras, etc. Será que isso não
conta? Será que os produtores de camarão sofreriam
mesmo tanto (coitados!) por sua atividade? Francamente, precisamos
acordar para o passivo ambiental que não paramos de fazer
crescer.
18/02/2005
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