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O BENEMÉRITO
Era uma vez um colégio. Ficava no alto de uma montanha,
afastado por muitos quilômetros de distancia do Rio de Janeiro,
capital do Brasil, na época, e por alguns quilometros de
uma longinqua cidade do interior do Brasil, Nova Friburgo. A escola
fundada no início da década de 50 do século
XX, recebia alunos de toda parte do Brasil e do exterior.
Os alunos eram, em sua quase totalidade “internos”,
pois, vinham de lugares distantes, mandados por seus pais, que,
pensando no melhor ensino para seus filhos, ao ouvirem falar de
um educandário que tinha os melhores métodos de ensino
na época, com pedagogia avançada, estilo americano,
faziam um esforço, já que as despesas eram muito grandes,
e despachavam suas queridas criaturas com inúmeras recomendações,
para a longínqua escola localizada quase no cume da Serra
dos Órgãos para serem cuidados por professores cuidadosamente
selecionados por uma Fundação de renome internacional.
O ínício das aulas começavam em Fevereiro,
final do verão no sudeste do Brasil e logo em bela manhã
dos meados de Abril as crianças e adolescentes acordavam
tilintando de frio.
Tinha chegado o primeiro dia de Outono. Para os pequenotes da região
e mais ao sul, não extranhavam tanto esta mudança
de temperatura, mas, os que tinham vindo lá do Norte, embaixo
do Equador, usar vestimentas nunca antes experimentadas como agasalho.
luvas. cachecol, japona, gorro de lã e cobertor de lã
para dormir, era uma grande novidade e um martírio.
Mas tudo na vida as pessoas se acostumam. E lá não
foi diferente. A saudade da família, dos amigos deixados
no seu Estado de origem, as brincadeiras tradicionais de cada região,
tudo isso foi substituído gradativamente por novos amigos
e novos nomes para os jogos. Sim, porque a peteca virou “bola
ou bulica “, o papagaio virou “pipa”. As frutas
mudaram de nome. A tangerina virou “mexirica”, a ata
virou “fruta do conde “, o jirimum virou “abóbora”.
E o tempo foi passando. E a vida foi levando. As crianças
cresceram, acabaram sua fase de ensino médio . Muitos foram
embora, por vários motivos. Uns, os pais não conseguiram
continuar pagando os valores que foram subindo ano após ano,
com a “carestia” da época e que agora descobre-se
que era a inflação, outros porque não se adaptaram
ao colégio, outros porque foram expulsos porque eram sapecas
demais e infelizmente um, porque morreu.
Na época foi uma comoção geral. O nome dele
era Asdrúbal Lavareda. Estava brincando no “Clube agrícola”
e ultrapassou a parte permitida pulando uma cerca de arame farpado.
Quem passou por lá como eu, pode dizer que o Asdrúbal
foi traído pela beleza da natureza.
Daquele lugar avistava-se a cidade e você ficava extasiado
vendo as águas da “canaleta” indo ao encontro
de Friburgo e sumindo.
Muitos anos mais tarde, já idoso, com o nosso querido educandário
fechado devido a inúmeras mudanças no método
de ensino, e etc, um ex-aluno teve a brilhante idéia de criar
uma Associação de Ex-alunos, professores e servidores.
Foram anos de confraternizações e festas para rememorar
a amizade criada naquela época, inclusive instituindo-se
um título de benemérito aos mais lembrados, mais queridos
e aos que mais trabalharam em prol da continuidade daquela associação.
E os anos foram passando, a memória foi se apagando, ficando
apenas as fotos, os objetos e relatos de cada momento feliz ou não,
que se passou nesta fase da vida.
A cada ano o número de votantes a benemérito ia diminuindo,
ou por questões naturais ou porque alguns achavam que ninguém
era mais qualificado em saudosismo ao colégio/ginásio
do que eles, ou melhor todos que amavam e lembravam com amor e saudade
os tempos de cenefistas/genefistas deveriam ser agraciados. Daí
surgiu a idéia de um ex-aluno, morador distante de onde se
reúnem mensalmente os confrades, porém, amante eterno
do seu ex e extinto educandário, propondo que os títulos
de benemerência fossem transferidos para todos os ex alunos,
professores e funcionários que já se foram daquela
vida e que o nome desta comenda fosse ASDRUBAL LAVAREDA, a do 1º
aluno, servidor, professor a deixar aquela vida terrena.
Menos a última.
A proposta foi recebida com ceticismo. Porque homenagear sómente
os mortos , já que, quem comemora somos nós, os vivos
,que aqui estamos para nos homenagear e nos confraternizar?, ao
que o ex-aluno expulso do colégio a bem dos bons costumes
e amante eterno do ex-educandário respondeu.
É porque assim homenagear-se-ia todos aqueles que se foram
antes de nós e que sabidamente eram amantes do nosso querido
GNF/CNF.
E a última comenda?
A última comenda não será entregue, por falta
de eleitor e de quem a coloque no peito do homenageado.
Beijo carinhoso a todos que fazem esta família cenefista/genefista.
E mais uma recomendação. Cuidado com a 6ª batida.
Ela aumenta muito as nossas lembranças e apressão
arterial também.
Boa marcha e ótimo feriado !!!!
Belém , 29 de Agosto de 2006
Ruy Eduardo Seligmann (Toca 59-62 – Azul! )
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