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ACERVO - ARTIGOS CNF

PLURAL DOS NOMES EM –ÃO

José Augusto Carvalho

O plural dos nomes em –ão é problemático, não só porque há três possibilidades de pluralização (em –ões, –ães e –ãos), mas também porque, graças ao hábito de se copiarem uns aos outros, sem a necessária análise crítica, gramáticos chegaram a inventar formas fantasma, conforme denúncia de Mattoso Câmara, nas últimas linhas do cap. XI do seu livro Estrutura da Língua Portuguesa.

Numa tentativa de sistematização, podemos inicialmente apresentar algumas regras categóricas, isto é, sem exceção: 1) As paroxítonas fazem o plural em –ãos: bênçãos, órgãos, sótãos. 2) Fazem o plural em –ões (oxítono): a) os aumentativos e falsos aumentativos (falso aumentativo é o que parece o aumentativo de um nome pela semelhança formal, como “botão” em relação a “bota”): torrões (torre), escovões, caixões, limões (lima), baiões (baio), anões (Ana); b) os nomes em que –ão designa origem, proveniência ou agente: saxões, bretões, comilões (que comem muito), babões, beberrões; c) todos os nomes femininos: visões, razões, estações, paixões; d) os nomes que têm forma igual à de verbos: porões (porão, v. pôr); serões (serão, v. ser), verões (verão, v. ver).

Regras dos COGNATOS: a) fazem o plural em –ãos os nomes que apresentam cognatos (palavras da mesma família) em que o –a do ditongo –ão permanece seguido de –n– e de qualquer vogal, exceto –i. Ex.: vilãos (vilanaço), artesãos (artesanato), irmãos (irmanar), verãos (veraneio), vilãos (vilanesco), anãos (anano); b) fazem o plural em –ães os nomes cujos cognatos conservam o –a seguido de –n– e da vogal –i: anães (nanico), escrivães (escrivaninha), capitães (capitania), vilães (vilania), charlatães (charlatanice); c) fazem o plural em –ões os nomes que mudam a vogal –a do ditongo em –o ou em –io, nos cognatos: leões (leonino), mamões (mamoeiro), ferrões (ferroada), frações (fracionar), funções (funcionário), feijões (feijoada), etc.

Repare-se que “vilão” e “anão” têm três plurais, que nossas regras justificam: “vilões” e “anões” (falsos aumentativos de “vila” e “Ana”), “vilães” e “anães” (por terem “vilania” e “nanico” como cognatos) e “vilãos” e “anãos” (por terem “vilanaço” e “anano” como cognatos). “Verão” faz “verões” (por causa da forma igual à do verbo “ver”) e “verãos” (por causa do cognato “veraneio”).

Essas são as regras principais. Os monossílabos tônicos quase sempre são exceções, mas as regrinhas dos cognatos se podem aplicar a alguns monossílabos: pães (cognato: “panificadora”); mãos (cognato: “manual”; “manicure” é adaptação gráfica do francês “manucure”); cães (cognato: “canino”); “são” (sinônimo de “sadio”), apesar da forma igual à do verbo “ser”, faz o plural “sãos”, mas há a forma cognata “sanatório”, por exemplo, que justifica o plural “sãos”. Felizmente, as exceções quase sempre são palavras de uso corrente, sem muito risco de levar o falante a dizer bobagem: cidadãos, cortesãos, cristãos (falsos aumentativos), alemães, etc.

A regra mais usual e mais freqüente é a do plural em –ões, que se aplica também a nomes próprios não-paroxítonos: Joões, Sebastiões, Simões (Simão), etc. Mas: Cristóvãos (paroxítono).

(Este artigo é resumo de um trabalho longo que publiquei numa revista em 1979 e que serviu, para minha alegria, como base para a dissertação de mestrado de Marinalva Freire da Silva, defendida em 1982 e publicada pelo Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Univ. Federal da Paraíba, em 1993.)


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