CNF UMA VISÃO SISTÊMICA
Tenho, no meu pensamento, tentado identificar o que está
por trás e o que envolve, nos dias de hoje, o antigo CNF
e seus convivas – professores, alunos e funcionários. O
que faz permanecerem unidos numa convivência que parece
definitiva? Nos vinte e sete anos de existência do Colégio
Nova Friburgo (inaugurado em 1950 e fechado em 1977) passaram
muitas pessoas, muitos alunos, que receberam um treinamento
muito especial para a vida , esse treinamento é o que acredito
ter sido o fator que unes a nos todos. Um curso ginasial
e científico, ou de 1º grau, como se diz na linguagem da
educação de hoje, é mais importante que o ensino superior,
por várias causas: primeiro, porque, ocorre na mesma época
em que o jovem está em plena transformação física e mental,
passando para adolescência, o que é uma significativa mudança
na sua vida; depois, porque, a juventude atravessa o complicado
processo de definição daquilo que está querendo ser como
comparticipe da sociedade.
É justo nessa fase que os jovens, que se transformarão nos
homens de influência na sociedade, precisam de melhor atenção
e cuidados especiais. Qualquer deslize, nesse período, poderá
ser fatal na formação de suas personalidades.
Considerando esse aspecto é que consigo entender como o
CNF foi importante na nossa formação. Os que hoje comparecem
e se confraternizam, nos encontros da associação, estão
a clamar e ressaltar a educação, sem deslizes, que lhe foi
concedida no momento da plenitude do Colégio Nova Friburgo.
Esse aspecto é relevante mas, não foi só isso, o CNF nos
deu muito mais. Nos deu uma visão sistêmica do país. Lembro
que logo que cheguei me sentia com cara de búfalo do Marajó.
Ficava pensando como era possivel eu estar falando a mesma
língua, com diferentes sotaques é claro, com um cara de
Santa Catarina, do Paraná, etc. Eu olhava para os paulistas,
com certa desconfiança, porque diziam que eles eram imperialistas
e que dominariam o Brasil logo-logo. Os nordestinos, (grandes
figuras!) eu os imaginava, na minha ignorância infantil,
uns caras bravos. Lembravam-me a figura de Lampião (um dos
raros filmes, nacional, que eu havia assistido até então)
e me assustavam com uma valentia, talvez, desnecessária.
A minha vingança é que eu achava a Maria Bonita uma merda
de mulher e, então, eu generalizava: vão todos ter que se
contentar com as suas feias Marias Bonitas. Eu vou querer
para mim uma cabloca, cor de jambo, linda, brejeira, perfumada
com cheiro de açucena ou, quem sabe, uma alemã ( tipo Vera
Fisher ) que estaria alí, por Murí, perto de Friburgo e,
não menos cheirosa.
A visão sistêmica a que me refiro não se restringe ao aspecto
das características do nosso povo, na minha visão ingênua
e singela. O CNF me ensinou, com a convivência com pessoas
das diversas regiões do Brasil, e eu passei a entender que
as diferenças existiam mas poderiam ser diminuídas, que
todos pudéssemos nos sentir, de forma homogênea, brasileiros;
que o
nosso nível de conhecimento poderia ser mais próximo; que
as nossas oportunidades fossem definitivamente equivalentes.
Adquirimos, sim, uma visão orgânica do Brasil, ficou dentro
de nós um objetivo sistêmico. No fundo aprendi que somos
todos iguais e que podemos conviver dentro de uma certa
igualdade.
O CNF me ensinou, melhor, nos ensinou, a todos, que poderíamos
viver uma democracia. A demonstração permanente de congraçamento
entre professores alunos e funcionários apontava para essa
direção. Havia autoridade, sem autoritarismo. A solidariedade
existia como um laço ou vínculo recíproco entre nós. As
lideranças se forjavam como que por imposição do próprio
grupo dependendo, diretamente, da atividade que se estava
desenvolvendo. Não havia o chefe havia o líder com a noção
perfeita da distribuição eqüitativa do poder.
O ensino no CNF fugia do tradicional: não havia a sala de
aula e sim as salas ambiente que os alunos se deslocavam
-- verdadeiros laboratórios com equipamentos e ilustrações
específicas a cada matéria -- o que dava um caráter inovador
e diferenciado de todos os educandários existentes; havia
as atividades extra classe que proporcionavam, aos alunos,
uma visão global das diversas áreas do conhecimento. Era
possivel se ter uma boa noção das artes, sendo um aluno
vocacionado para as ciências exatas. Era possivel ser um
estudioso em matemática sem desconhecer a importância da
música, por exemplo. Era possivel ser bom de estudo e de
esporte. Como hoje, na moderna sociedade do conhecimento,
a pessoa não pode, ser apenas um
especialista, o saber específico dá lugar a algo mais geral.
Também, como na indústria, não se produz mais um bem, se
cria, sim, um processo. O nosso CNF, já, naquela altura,
insinuava isso tudo !
Então, visão sistêmica, democrata, generalista, e, com um
certo tipo especial de liderança, isso tudo, faz parte do
conteúdo do ex-aluno CNF aliás, muito bem definido em nosso
símbolo – saúde, saber e virtude.
Em uma certa ocasião, muito anos após termos passado pelo
CNF, identifiquei essa situação: estava em Brasília e, por
acaso, soube que o Márcio Braga estaria tomando posse na
Secretaria dos Esportes no Ministério da Educação. De imediato,
fiquei interessado em prestigiar a cerimônia. Cheguei um
pouco atrasado mais ainda ouvi o discurso do caro Márcio.
Claro, que ele se referiu ao Flamengo com entusiasmo e,
na mesma intensidade revelou sua gratidão pela escola da
Fundação Getúlio Vargas – Colégio Nova Friburgo, onde ele
aprendeu, entre tantas outras coisas, que a educação está
intimamente ligada ao esporte, tratando-se, pois, de segmentos
indissociáveis.
Dentro de sua linha de raciocínio Márcio disse que estava
na primeira fila do auditório um seu ex-professor do CNF
e que confirmaria àquela sua afirmação, referindo-se ao
colégio como uma entidade modelar. O meu testemunho não
foi solicitado porque eu não havia me apresentado, o fiz
logo após o encerramento da cerimônia, quando, na presença
de algumas pessoas ligadas à educação e ao desporto, sublinhei
àquelas suas palavras. Márcio, em ato, me confessou ter
duas paixões: referiu-se ao Flamengo e, evidentemente, ao
CNF.
Nesse meu texto queria prestar uma homenagem aos professores,
alunos, e funcionários do nosso CNF e, o faço, citando o
Márcio, apenas ele, mas, em nome de todos nós, porque, ao
reunir a todas as qualidades -- saúde, saber e virtude --,
foi ele, com sua liderança, que iniciou os encontros anuais
em Friburgo e, agora, temos a associação, fortíssima na
sua visão sistêmica e seus pressupostos de democracia, que
haverá de transmitir, para outras gerações, esses preceitos.
CNF 1958 / 1964
Belém / PA, julho de 2000
Afonso Brito Chermont