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ATUALIDADES - ARTIGOS DIVERSOS

VERBO VICÁRIO

José Augusto Carvalho

Verbo vicário (que alguns lingüistas chamam de “verbo pronominal”) é o que se usa em lugar de outro, anteriormente citado, para evitar-lhe a repetição. É da palavra latina vicarius, substituto, que se originou, por via erudita, vicário, e, por via popular, vigário (o sacerdote, o substituto do bispo), e suas formas derivadas, como vigarice, vigarismo, etc., que se relacionam ao “conto do vigário”, isto é, ao conto do substituto (a vítima leva o substituto do que acredita estar levando). Conto do vigário, portanto, não tem relação direta com o vigário, o sacerdote.

Nas nossas gramáticas são raras as referências ao verbo vicário, que merece um estudo em profundidade em nível de pós-graduação, pelas construções insólitas que seu uso acarreta. Os exemplos mais comuns de verbo vicário ocorrem com o verbo fazer, como em “Quem não passou neste vestibular pode fazê-lo no próximo (Fazê-lo está aí substituindo passar.).

Mas é com o verbo ser que se apresentam exemplos mais interessantes. Um desses exemplos colhi numa redação de vestibulando: “As coisas que os casais faziam era juntos”. O verbo era, no singular, está no lugar de faziam, plural; coisas é objeto direto de era. Outro exemplo: “Se eles perguntam é porque não sabem” – em que o verbo ser (é) substitui o verbo da oração anterior (perguntam). Reconstruído, sem o verbo ser, o período fica assim: “Se eles perguntam, perguntam porque não sabem”. Note-se que o verbo ser vicário fica no singular, apesar de substituir verbo no plural.

Essa é a particularidade do verbo ser vicário. Ele permanece na 3ª pessoa do singular mesmo que o sujeito esteja no plural e em outra pessoa, à diferença do verbo fazer, na mesma função. Observem-se os seguintes exemplos: 1. Quando nós falávamos era baixinho. 2. Eles sabiam a resposta, mas era só com o livro aberto. 3. Os que se vão calados raramente é por orgulho (Machado de Assis). 4. Eles vieram para casar-se onde pudesse ser. 5. Ele tinha medo e não sabia de que era. 6. Se te vais casar, tem de ser comigo. 7.Eu voltei mas foi para ficar (Roberto Carlos). Repare-se que o verbo ser vicário, varia em tempo, mas permanece sempre na 3ª pessoa do singular.

Na frase “O pouco que aprendi foi com esse professor”, citada por Domingos Paschoal Cegalla, como exemplo de verbo “ser vicário” (s.v. Ser), do livro Dicionário de dificuldades da língua portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996), embora se possa substituir foi por aprendi, não há verbo vicário; o pouco é sujeito simples de foi, que aí está no sentido de correr, acontecer (“O pouco que aprendi ocorreu com esse professor”). Observe-se que a substituição de o pouco por uma expressão plural leva à concordância no plural: “As poucas coisas que aprendi foram com esse professor”. Compare-se esse exemplo de Cegalla com os que enumero linhas atrás, em que o verbo ser fica sempre no singular.

Com o verbo fazer vicário, a concordância é normal e há sempre um objeto direto pronominal: l. As moças conversavam e faziam-no com alarde. 2. Os índios pescam, mas fazem-no com arco e flecha.

O verbo ser (que também pode ser transitivo direto, como em “Fui Covas no primeiro turno” ou “Era uma vez dois reis” ou “Sou mais as louras que as morenas”) é um mundo ainda a ser explorado pelos nossos estudiosos.

Com a palavra os pós-graduandos de letras.

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