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“VERDADE INCONVENIENTE”
Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social
Em julho de 1996, assisti na Universidade de Boston (EUA) a uma
palestra de Sandra Postel, atual diretora do Projeto Mundial de
Políticas Referentes à Água. Fiquei deslumbrado
com a complexa utilização que ela fez dos recursos
tecnológicos modernos para uma exposição pública.
Além disso, a conferencista dispunha de informações
impressionantes sobre o problema da água. Combinando seu
conhecimento da realidade com os meios que power-points e data-shows
– bem apoiados por uma retaguarda consistente – oferecem,
Sandra Postel transmitiu competentemente a mensagem que desejava
fazer chegar aos que, como eu, em auditório lotado, a ouviam.
Na verdade, os recursos tecnológicos da computação
se tornam dispensáveis quando o expositor é alguém
como o escritor Edson Nery da Fonseca, cujas palestras que assisti
até hoje sempre me causaram a maior admiração.
No seu caso, à erudição, ao conhecimento dos
assuntos, ao bom uso dos meios disponíveis, junta-se uma
capacidade de discurso elegante com a dicção mais
clara possível que o fazem distinguir-se como o melhor conferencista
que já vi falar no Brasil. Essas duas reminiscências
vêm-me à mente depois de assistir ao soberbo documentário
de Davis Guggenheim Uma Verdade Inconveniente. É que esse
filme, do começo ao fim – com breves inserções
de outro caráter –, constitui uma palestra acadêmica
do mais elevado nível. Assunto relevante e atual, roteiro
didático de exposição, conferencista sem pompa
e bem-humorado, seqüência de apresentação
que prende a audiência – a aula que qualquer professor
gostaria de dar, especialmente por conta da infra-estrutura de dados,
gráficos, fotos, filmes, vídeos, mapas animados, etc.,
à disposição da palestra. Que tem como expositor
o ex-vice-presidente americano Albert Gore, candidato derrotado
de modo não convincente pelo presidente George W. Bush em
2000.
O assunto do documentário, e da palestra, é o aquecimento
global, tema que tem preocupado Gore há muito tempo. Sabe-se
que Bush II não dá a mínima para o agravamento
do problema de aumento da temperatura do planeta causado pelo efeito
estufa. Nem por isso, o filme se prende ao plano da política
dos EUA, preferindo colocar-se no nível do interesse de toda
a espécie humana. Na verdade, até que caberia uma
insistência de Gore com respeito ao fato de que, por detrás
da eleição de Bush, estavam os interesses avassaladores
do petróleo. O presidente americano e seu vice, Dick Cheney,
como é amplamente sabido (Michael Moore fala bem disso em
seu filme Fahrenheit 9/11) têm estreitas ligações
com a indústria petrolífera. A invasão do Iraque,
supostamente para acabar com armas de destruição em
massa (queriam mesmo era pegar Saddam Hussein), tem como fundamento
primeiro o domínio do petróleo do Oriente Médio.
Guggenheim segue a mensagem, já antiga, de Gore, quanto à
questão do uso insustentável que se faz dos recursos
ecológicos do planeta. Sobre isso, Gore escreveu um livro
em 1992 (traduzido em português como A Terra à Procura
de Equilíbrio), que tem como subtítulo “ecologia
e o espírito humano”. Nesse livro, Gore fala da profunda
experiência pessoal que o fez tornar-se ambientalista: o atropelamento,
que testemunhou, do filho de 6 anos, deixando este, durante semanas,
entre a vida e a morte.
O filme de Guggenheim é fascinante e ajuda a esclarecer
a questão de como o mundo atual contribui para sua própria
desgraça através de ações que destroem
de forma irremediável os recursos ecossistêmicos do
planeta. Gore fala dos inúmeros desastres ambientais de grande
porte que estão acontecendo no mundo. Fala, inclusive, do
perigo de transposição de águas de rios (ele
não tem nada a ver com o São Francisco), mencionando
o exemplo do rio Colorado, nos EUA, e do mar de Aral, no Casaquistão-Usbequistão.
No filme, Gore enfatiza o que chama de “nossa emergência
planetária”. Mostra isso do modo mais convincente possível.
Não há como ficar paralisado diante da denúncia.
Mesmo uma publicação cética do ambientalismo
como The Economist conclui sua análise da película
dizendo: “Se o Sr. Gore estiver certo, e ele pode estar, o
tempo está correndo mais rápido do que a maioria do
mundo pensa”. Diante disso, só cabe lamentar como estão
atrasadas nossas elites do governo e oposição no culto
que devotam a um oco “espetáculo do crescimento. |