|
Vitória da vida
Márcio Moreira Alves
14.11.01
Uma vitória da vida é sempre uma vitória das
mulheres.
Primeiro, foi uma vitória da Humanidade; segundo, do Brasil,
que liderou os países em vias de desenvolvimento; por último,
da obstinação de José Serra, que é como
um cão bulldog: quando agarra o focinho do touro, tranca
a mandíbula e não larga mais. Falo da redação
do Trips, o Tratado de Defesa da Propriedade Intelectual, votado
na reunião da Organização Mundial de Saúde
no Qatar.
Houve, nessa luta, mudanças de aliados e de circunstâncias.
O antraz foi um grande aliado dos países emergentes. A propagação
do terrorismo postal nos Estados Unidos fez com que o governo americano
encostasse a faca no peito da Bayer, proprietária da patente
do antibiótico específico contra a doença,
o cipro. Tinham a perspectiva de comprar 120 milhões de unidades
do remédio. Fizeram à empresa a chamada proposta do
padrinho. A que não pode ser recusada. “Ou vocês
reduzem o preço do remédio ou nós desrespeitamos
a patente e fabricamos um genérico”. Dado o tamanho
da indústria farmacêutica americana, o volume da encomenda,
a Bayer prontamente cortou o preço pela metade.
A questão do antraz e do cipro erodiu a posição
americana de defender o direito a patentes de qualquer maneira.
Moralmente, não poderiam mais sustentar uma posição
irredutível, como fizeram nas Nações Unidas,
onde ficaram isolados, ou na África do Sul, onde as multinacionais
desistiram na última hora de manter a ação
que moviam na Suprema Corte do país contra o governo, em
virtude das patentes de remédios contra a Aids. Dizem que
posicionamentos morais não influem em matéria de negociações
comerciais. É verdade, mas há limites. No caso do
julgamento na África do Sul, as multinacionais tiveram medo
do boicote às suas marcas pelos consumidores dos países
ricos. Fazendo as contas de custos e benefícios, temeram
ter prejuízo. Agora, no caso das negociações
na OMC, os diplomatas americanos devem ter pensado no seu público
interno. Como explicariam aos contribuintes um prejuízo de
centenas de milhões de dólares causado por uma defesa
dos interesses de um único setor produtivo, que tinha contra
si não só uma parcela importante da opinião
pública mundial como o posicionamento oficial de mais de
50 países, que acompanhavam a atitude do Brasil?
Surpresa foi a perda do apoio dos Médicos sem Fronteiras,
organização que já recebeu o prêmio Nobel
da Paz, e da delegação da Índia. Nas negociações
passadas, tinham sido ambos firmes sustentáculos das propostas
de José Serra. Os Médicos sem Fronteiras, por trabalharem
em alguns dos lugares mais pobres do mundo e necessitarem de remédios
baratos. Os indianos, porque têm 24 mil empresas farmacêuticas,
exportam US$ 200 milhões em remédios por ano e são
um dos maiores produtores de genéricos do mundo.
Acharam ambos que os brasileiros fizeram uma concessão exagerada
aos americanos na redação do acordo final. Em vez
de manterem um texto que excluía explicitamente o respeito
às patentes quando isso implicasse risco para a saúde
pública, concordaram com uma redação mais branda,
que apenas permite a quebra das patentes. No fundo, dá no
mesmo. A posição brasileira vence, mas não
esfrega a vitória na cara do adversário, humilhando-o.
Ganha, mas não tripudia, como recomenda a sabedoria política
mineira.
Um aliado de peso que o Brasil teve foi a Rede Internacional das
Mulheres para o Comércio (IGTN). Elas aprovaram um documento
prévio num seminário na Cidade do Cabo para apresentar
aos ministros reunidos no Qatar. Nesse documento, fazem a crítica
geral da agenda da OMC. Em relação à propriedade
intelectual, tratada no Trips, sigla que corresponde a Trade-related
Intellectual Property Rights, elas pedem simplesmente que se elimine
essa questão da OMC. Dizem: “O Trips ameaça
a segurança alimentar e a pequena agricultura, especialmente
quando permite o patenteamento por multinacionais de sementes e
dos recursos genéticos das plantas. O Trips restringe o direito
dos governos de planejar a saúde pública dos povos
e dá às empresas o monopólio de estabelecer
o preço dos remédios. E ainda estabelece severas restrições
à produção de remédios genéricos,
faz com que os medicamentos se tornem caros e inacessíveis
a homens e mulheres que vivem na pobreza”.
Como opção, as mulheres declaram que: “...defendem
a vida e procuram promover condições para que se viva
uma vida decente e digna. Essa a razão por que achamos que
a vida, que consideramos sagrada, não deve ser patenteada.
A vida é a nossa herança coletiva. Não deveria
ser vendida ou comercializada de qualquer forma”.
A mais antiga revista feminina americana, a “Lady’s
Home Journal”, tem como lema: nunca subestime o poder de uma
mulher. José Serra e a delegação brasileira
puderam avaliar a veracidade da frase. Uma vitória da vida
é sempre uma vitória das mulheres.
http://oglobo.globo.com/colunas/marcio.htm
© Todos os direitos reservados a O Globo e Agência O
Globo.
Colaborou
Mônica Laranjeira Jácome
Humanidade vem saqueando a Terra
Relatório das Nações Unidas diz que a crise
global é vasta e urgente
e sugere dar maior poder de decisão às mulheres
NAÇÕES UNIDAS - A raça humana vem saqueando
a Terra de forma
insustentável e dar às mulheres maior poder de decisão
sobre seu futuro pode salvar o planeta da destruição,
alerta o Fundo das Nações Unidas para a População
(FNUAP) em seu relatório de 2001.
''As mulheres representam mais da metade da força de trabalho
agrícola mundial e sabem administrar os recursos domésticos
de alimentos, água e energia'', diz o relatório.
''Estamos olhando o mundo de cima de um rochedo. É uma crise
global
de vastas proporções e que merece ser enfrentada com
urgência'', diz
Alex Marshall, editor do relatório Footprints and milestones:
Population
and environmental change (Marcas e marcos: População
e mudança
ambiental), divulgado ontem.
O aumento da população, o crescente consumo, estimulado
pelas novas tecnologias, e a globalização, vêm
provocando mudanças sem
precedentes no planeta e no meio ambiente, constata a ONU, citando
especificamente a destruição dos hábitats,
a contaminação e o degelo das calotas polares devido
ao efeito estufa. ''As atividades humanas afetam cada área
do planeta, não importa quão remotas, e cada ecossistema,
do mais elementar ao mais complexo'', diz o relatório.
Números - Os números citados são impressionantes
e assustadores. ''Desde 1960, a população mundial
dobrou para 6,1 bilhão de pessoas, a maioria em países
pobres. Até 2050 serão 9,3 bilhões. Os gastos
com o consumo mais que dobraram desde 1970, com aumento significativo
nos países mais ricos.
Ainda assim, metade do mundo sobrevive com menos de US$ 2 ao dia.''
O documento informa que ''durante toda a sua vida, um recém-nascido
de um país industrializado vai consumir e poluir mais do
que entre 30 e 50 recém-nascidos de um país em desenvolvimento''.
Se a raça humana aprendeu a extrair da terra os recursos
necessários
para sua sobrevivência não vem mostrando o mesmo empenho
em dispor sobre o lixo:
as emissões de dióxido de carbono aumentaram 12 vezes
entre 1900 e
2000 e, no processo, o clima do mundo está mudando. ''A grande
dúvida do século 21 é se as atividades do século
20 nos colocaram em rota de colisão com o meio ambiente.
Se isso aconteceu, o que pode ser feito?'', pergunta a ONU.
''À medida que a população aumenta e a globalização
prossegue surgem
perguntas cruciais: como utilizar os recursos disponíveis
de água e
solo para produzir alimentos para todos? Como promover o desenvolvimento
econômico e pôr fim à pobreza de forma que todos
tenham o que comer?
Como enfrentar as conseqüências humanas e ambientais
da industri alização e os temores do aquecimento global,
da mudança climática e a perda de biodiversidade?''
Mulher - Na opinião do FNUAP, as relações
entre meio ambiente,
população e desenvolvimento social passam pelo aumento
do poder
feminino. ''Remover os obstáculos ao exercício do
poder econômico e político das mulheres é também
uma das formas de pôr fim à pobreza'', diz o relatório.
''A igualdade de direitos entre os dois sexos, o direito à
saúde reprodutiva, incluído o direito de determinar
o tamanho da família, ajudará a diminuir o crescimento
da população, reduzir seu tamanho e reduzir a pressão
sobre o meio ambiente.''
A taxa de fertilidade, segundo a ONU, é mais alta nos países
mais
pobres e bem mais elevada entre os miseráveis desses países.
Não por acaso, lembra, eles estão entre os mais ameaçados
pela degradação do solo, pela escassez de água
e pelo déficit de alimentos.
''A boa notícia'', lembra o FNUAP, é que a taxa de
fertilidade dos países em desenvolvimento está caindo
para três crianças por mulher, metade do índice
de 1969, e a expectativa é de que entre 2045-2050 fique em
2,17 crianças por mulher.
Aids - Entretanto, a expectativa de vida em todo o mundo está
crescendo fora das áreas mais afetadas pela Aids. Em 1950
era em média de 46 anos, em 2001 passou a 66 anos. ''As pessoas
estão mais saudáveis do que em qualquer outra época'',
diz o relatório. Citando documento da Organização
Mundial da Saúde (OMS), o FNUAP diz que a epidemia de Aids
tem ligação com fatores de desenvolvimento - pobreza,
desnutrição, vulnerabilidade a doenças, desigualdade
de gênero e vizinhança insegura - e vem causando um
devastador
impacto sobre a saúde e a família, com reflexos sobre
o meio ambiente
e os problemas agrícolas, sobrecarregando, principalmente,
as camponesas.
Por essa participação intensiva da mulher, o FNUAP
insiste na
necessidade de se pôr em prática o acertado na Conferência
Internacional sobre População e Desenvolvimento, de
1994, sobre a necessidade de garantir os direitos da mulher como
a chave para o desenvolvimento sustentável.
Mais gente, pouca água.
NAÇÕES UNIDAS - O uso sustentável dos recursos
naturais,
principalmente da água, é destacado pelo relatório
do Fundo das Nações Unidas para a População
(FNUAP) como um bom começo para se tentar salvar o que ainda
resta do mundo. ''Nos últimos 70 anos, o uso da água
foi multiplicado por seis; 54% da água potável disponível
anualmente são utilizados, dois terços desses recursos
pela agricultura'', diz o relatório. ''Até 2025, o
índice pode subir para 70% devido unicamente ao aumento da
população.''
Muito países empregam meios pouco sustentáveis para
obter água e
estão exaurindo seus aqüíferos, como ocorre em
algumas cidades da China, da América Latina e do Sul da Ásia.
''A água de mares e rios é desviada para irrigação
e para a indústria, às vezes com resultados desastrosos'',
prossegue o FNUAP.
''No ano passado, 508 milhões de pessoas viviam em 31 países
onde há
falta dágua ou onde ela é escassa. Em 2005, serão
3 bilhões de pessoas em 48 países e, em 2050, mais
de 45% da população mundial, 4,2 bilhões de
pessoas, vão viver em países onde não terão
os 50 litros de água por pessoa considerados o mínimo
necessário'', calcula o relatório.
OMS - A Organização Mundial de Saúde (OMS)
estima que 1,1 bilhão de pessoas não tenham acesso
à água potável. Em países em desenvolvimento,
entre 90% e 95% dos esgotos e 70% dos dejetos industriais são
lançados, sem tratamento, nas águas de superfície
(rios, mares, lagoas) poluindo os recursos hídricos disponíveis.
Em muitos países industrializados, poluentes químicos,
de fertilizantes a
pesticidas, e a chuva ácida resultante da poluição
ambiental exigem o
tratamento da água a custos elevados e grande consumo de
energia.
O uso da água está diretamente relacionado à
produção de alimentos.
Entre 1985 e 1995 em 64 dos 105 países em desenvolvimento
analisados a produção de alimentos perdeu para o aumento
populacional. A situação foi mais grave no continente
africano. O organismo das Nações Unidas para Alimentos
e Agricultura, FAO, define um país pobre como aquele de ''baixa
renda e com déficit de alimentos''. Segundo o FNUAP, 800
milhões de pessoas vivem em
permanente estado de desnutrição e outros 2 bilhões
às vezes passam
fome.
''A capacidade de produzir alimentos em muitos países pobres
está
caindo devido à deterioração do solo, a falta
dágua, às práticas agrícolas não
apropriadas e ao rápido crescimento populacional. Boa parte
das terras férteis é dedicada a colheitas para exportação,
o que não só priva as populações de
alimentos como de solo para plantar'', explica o FNUAP.
Para abrigar as quase 8 bilhões de pessoas que se espera
vão povoar a Terra em 2025 e garantir-lhes um mínimo
de comida, será necessário dobrar a produção
mundial de alimentos e melhorar bastante sua distribuição.
No entanto, as variedades de cereais que costumam ter boa produtividade
também exigem fertilizantes e pesticidas específicos,
o que poderá afetar o equilíbrio ecológico.
JB 08 Novembro 2001
Colaborou
Mônica Laranjeira Jácome |