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Centro de Cultura Luiz Freire
PROGRAMA JOVENS PROTAGONISTAS NO PALCO E NA VIDA
TEATRO PARA O DESENVOLVIMENTO HUMANO E SOCIAL
ANO 2000
O Grupo de Teatro auto Falante, do Centro de Cultura Luiz Freire,
é formado por 50 jovens de comunidades de baixa renda da
R.M.R. - Caxangá e Santo Amaro, no Recife e Peixinhos, Alto
da Bondade, Ilha do Maruim, Complexo de Salgadinho, Vila Popular,
Ouro Preto, Favela da V-8, Águas Compridas e Bultrins, em
Olinda - na faixa etária entre 14 e 23 anos, de ambos os
sexos, das mais variadas matizes de pele, das mais variadas ascendências
étnicas, crist@s, espíritas, umbandistas e ateus/atéias,
homo, hetero e bisexuais, partidári@s e apartidári@s,
alguns ainda na escola, outr@s com 2º grau completo tentando
desesperadamente passar pelo vestibular, outr@s ainda tentando retornar
à escola depois de longo e tenebroso inverno de evasão.
Enfim, um retrato nítido e não retocado de um autêntico
interculturalismo. Alguns(as), vêm atuando no grupo desde
a sua criação em 27 de Dezembro de 1997.
O grupo representa, canta, dança, toca instrumentos, manipula
bonecos e tem levado a público com grande sucesso, principalmente
junto `@s jovens, obras cujos textos e concepções
cênicas foram elaborados de forma coletiva: “Nem Heroína,
Nem Fantoche: desejos enlatados num corpo de mulher” (homenagem
ao 8 de Março, Dia Internacional da Mulher), “Ser Jovem
É...”(@s jovens, por el@s mesm@s ), “Os Fantasmas
da Repetência Escolar” (a repetência sob a ótica
d@s alun@s ); “De Nós Para Xicão Xukuru”
(homenagem ao cacique assassinado há dois anos), “Assim
Nem Máquina Agüenta” (sket-protesto do Dia do
Trabalhador), “A Farsa do Boi” (juventude e meios de
comunicação), “O Cafajeste não Estava
Lá, Foi Você que Permitiu que Ele Entrasse” (@s
jovens e as eleições municipais), e “O Sentimento
do Mundo” (sket-protesto contra a violência) e, mais
recentemente, “Minha Cor Não Dói, Não
Sou Marginal, Nem Herói”, que tem por tema central,
a falsa democracia racial brasileira.
D@s cinqüenta jovens do grupo, trinta estão, atualmente
atuando no espetáculo sobre o racismo, trabalho final do
Projeto “Cidadania em Cartaz- Iniciação ao Teatro
para o Desenvolvimento Humano e Social”, que contou com o
apoio financeiro do programa da Capacitação Solidária.
Nesse projeto @s jovens participam de um módulo básico,
também denominado “Oficinas Cidadãs” que
incluem: 1) Identidade Pessoal e Coletiva; 2) Representações
e Relações de Gênero; 3) Direitos Humanos e
Estatuto da Criança e do Adolescente; 4) Saúde Sexual
e Reprodutiva; 5) Juventude, Educação e Trabalho,
6) Protagonismo Juvenil e 7) Leitura e Produção de
Textos, além das oficinas específicas de teatro: História
Geral do Teatro; História do Teatro no Brasil; Análise
e Produção do Texto Teatral; Expressão Corporal
e Vocal; Técnicas do Teatro do Oprimido; Jogos Teatrais;
Jogos Improvisacionais; Teatro de Bonecos; Maquiagem Teatral; Figurino
e Adereços Cênicos; Produção Teatral.
@s outr@s 20, já tendo passado por projetos semelhantes
nos anos anteriores, integram, hoje, as cinco equipes ACORDAI !!!
– Agentes Comunitári@s de Desenvolvimento Artístico
e Intelectual – projeto financiado pelo Instituto C &
A e que tem por objetivo propiciar a ess@s jovens formação
específica para realização de atividades artísticas,
de animação cultural e promoção da Cidadania,
com crianças e adolescentes de comunidades onde ess@s jovens
possuem maior penetração, seja por serem suas comunidades
de origem ou por já participarem do movimento cultural local.
Atualmente, o Centro de Cultura Luiz Freire e o Grupo de Teatro
Auto Falante vêm buscando recursos para viabilizar dois projetos
do grupo: “O Espetáculo da Paz”” e “SOS
Beberibe: verde que não te quero lixo”.
Das conversas com @s jovens acerca do crescimento constante e cada
vez mais assustador da violência em todas as esferas da vida,
a banalização crescente desta, através do contínuo
desrespeito aos direitos humanos, e a redução de valores
como igualdade, liberdade e fraternidade a meros slogans de uma
humanidade remota, surgiu a idéia do projeto “O Espetáculo
da Paz”.
O projeto consiste na realização de uma série
de Oficinas de Sensibilização e de Arte/Educação
com ess@s 50 jovens com o objetivo de criação, produção
e representação de um espetáculo teatral, uma
obra literária, um vídeo, uma homepage e um CD-ROM
voltados para a informação e mobilização
social - especialmente d@s jovens – sobre a necessidade de
uma mudança de pensamento/ação desde o âmbito
privado da microesfera social, até o âmbito público
da macroesfera planetária, no sentido da construção
coletiva de uma Cultura de Paz.
Tendo a Cultura de Paz sido escolhida como o tema central do trabalho,
os temas periféricos foram previamente definidos pelo grupo
e podem ser divididos em dois blocos:
· As Armas de Guerra - diversas situações
de desrespeito à dignidade e aos direitos da pessoa humana:
a violência doméstica, a vitimização
e a exploração sexual de jovens e crianças,
a violência nas escolas, a violência policial, a exploração
da mão de obra infanto-juvenil, o extermínio de jovens,
o massacre d@s índi@s, o racismo, a violência contra
gays e lésbicas, a fome e a miséria;
· As Armas de Paz - os caminhos possíveis para a
construção de uma Cultura de Paz: o respeito aos Direitos
Humanos, a prática da Solidariedade, a criação
de um mundo onde prevaleça uma Ética Universal, a
Liberdade, a preservação e re-criação
do Patrimônio Artístico-Cultural e Natural da Humanidade,
o aprendizado de convivência num Mundo Pluricultural, a Educação
com Qualidade para todo mundo, o acesso irrestrito à toda
e qualquer Informação, e Desarmamento/Desmilitarização
do planeta.
Todos esses temas serão trabalhados tanto nas Oficinas de
Sensibilização, quanto nas de Arte/Educação
– Teatro, Percussão, Canto, Dança, Leitura e
Produção de Textos - por 6 meses. Ao mesmo tempo,
durante esse período, todo o material produzido nessas oficinas
será disponibilizado via Internet. Também comporão
a reserva técnica para edição do livro, o vídeo
e do CD-ROM a serem lançados por ocasião da estréia
do espetáculo e, posteriormente, distribuídos nas
escolas públicas e vendidos a preços módicos
nas escolas particulares onde o grupo se apresentar, durante os
quatro meses seguintes, atendendo a um total de 32 escolas.
Idéias gerais do Projeto S.O.S BEBERIBE –
VERDE QUE NÃO TE QUERO LIXO
As vozes do Teatro Auto Falante
“O interesse pelos problemas do meio ambiente não
vem de hoje. Nosso envolvimento com a temática foi fortalecido
a partir da oficina de Brinquedos de Sucata realizada pelos Bagulhadores
do Mió, dentro do Projeto ACORDAI!!!. Por causa dela, realizamos
observação in loco, com registro fotográfico,
da praia do Del Chifre, foz do Rio Beberibe. Produzimos textos a
serem enviados ao Projeto GEO Juvenil, do PNUMA (Programa das Nações
Unidas para o Meio Ambiente), e com a reciclagem dos materiais coletados
nessa praia, criamos brinquedos, materiais didáticos para
crianças de nossas comunidades, além de criarmos o
bloco ‘A Cobra de Lixo’. Polêmica agremiação
eco-carnavalesca que tem levado às portas e janelas de suas
casas @s morador@s da Cidade Alta, nosso bloco pretende arrastar,
no Carnaval de 2001, foliões e folionas, incitand@-os a transformar
seu lixo em fantasias e adereços carnavalescos.
“Além disso, estamos no momento coletando e organizando
material e informações para elaboração
de um projeto de intervenção na área do meio
ambiente, que trate mais especificamente do lixo no Rio Beberibe.
“O Rio Beberibe, segundo principal rio da Região
Metropolitana do Recife, atravessa os bairros onde moramos. Antigamente,
espaço para o lazer, via de transporte, local de pesca e
trabalho das lavadeiras, hoje é um esgoto a céu aberto.
Sem falar no lixo que rola dos Altos, espalha-se nas ruas das comunidades
ribeirinhas, entope os canais, e na população - principalmente
as crianças – que fica sujeita a doenças de
todo tipo.
“Para agravar ainda mais o problema, esse rio, nosso Beberibe,
desemboca em mar aberto, na Praia do Del Chifre, uma área
que seria ótima para o lazer, para a curtição,
com manguezais, ruínas de antigo forte e um visual panorâmico
do Recife, cidade vizinha e capital do Estado de Pernambuco, de
dar inveja.
“Portanto, os problemas que envolvem o meio ambiente, não
estão só ligados à questão da saúde
da população. No nosso caso, afetam um dos ecossistemas
mais delicados do planeta, e que aqui é considerado essencial,
pois dele dependem várias pessoas para sobreviver e representa
um quadro de inspiração para muitos de nossos artistas.
Estamos falando dos manguezais. Não é à toa
que a expressiva cena artístico-musical contemporânea
de Pernambuco, uma das mais ricas surgidas no país na última
década, denomine-se Movimento Mangue, e tenha como principal
símbolo o músico e compositor Chico Science, olindense
que sempre se mostrou antenado na cena cultural e social da cidade.
“Se o lazer é um direito de todos e a praia, sendo
um espaço público, é nossa garantia de acesso
ao lazer, ao ser transformada num verdadeiro aterro de lixo, não
só temos um direito negado, como a natureza paga um alto
preço por aquilo que para nós deveria ser gratuito.
Lá encontramos, entre outros lixos, amontoados de plástico
(é maioria), dejetos humanos, animais em decomposição,
metais...
“Já começamos a nos mexer. Realizamos visitas
ao Espaço Ciência, à Fidem (Fundação
de Desenvolvimento Municipal), que elabora projetos voltados ao
desenvolvimento da Região Metropolitana do Recife, e estamos
agendando entrevistas com o Instituto de Oceanografia, da Universidade
Federal de Pernambuco, com outros órgãos públicos
e centros de estudos relacionados ao meio ambiente, para colhermos
informações e identificarmos algumas iniciativas com
as quais poderemos construir alguma parceria.
“Em parceria com técnic@s do Centro de Cultura Luiz
Freire e com o grupo Bagulhadores do Mió, estamos elaborando
um projeto que tem por objetivo desenvolver ações
que visem à recuperação do Rio Beberibe. Para
tanto, já definimos algumas estratégias .
· “mobilizar a opinião pública sobre
a necessidade da coleta seletiva e reciclagem do seu lixo doméstico;
· “identificar os catadores de lixo e resgatar a importância
ecológica e econômica do seu trabalho;
· “mapear e sensibilizar as empresas/iniciativas de
reciclagem de lixo para o trabalho conjunto com a população
e os catadores de lixo
· “atuar junto à comunidade escolar da área,
no sentido de desenvolver atividades de educação ambiental
· “envolver pescadores da Z-4 (Zona Pesqueira de Olinda)
e os surfistas - que insistem em ‘pegar onda, apesar do lixo
na praia do Del Chifre - para atuarem como agentes de proteção
ambiental nesta área;
· “favorecer as comunidades a elaborarem e encaminharem
propostas de uma legislação de proteção
ambiental para o Rio Beberibe e criar instrumentos de monitoramento
da execução dessa legislação;
· “pé na mídia: divulgar todo o trabalho
através da mídia (impressa, televisiva, eletrônica)
inclusive alternativa.
“Com essas estratégias que apresentamos, temos a
certeza de que esse é um projeto ambicioso, porém
fundamental para recuperar uma das áreas mais populosas do
município, castigada pela falta de infra-estrutura, abandonada
pelos poderes públicos, e que concentra todas as mazelas
socio-econômicas e ambientais e que, por isso, conta com uma
população – e em especial, com grupos de jovens
- com tradição de luta e resistência, seja através
dos movimentos artístico-culturais, da militância nas
associações de moradores, grupos de mães, escolas
comunitárias, grupos de saúde e outras formas de organização.”
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