SONHO DE QUASE-CONSUMO
Menção Honrosa (CONTO) 8º Concurso
Literário FESP/RIO - 1999/2000
Deixou passar, deliberadamente, a semana de inauguração.
- Muita gente, não se pode nem andar direito, muito
menos escolher bem as compras.
Aproveitou o tempo para, em segredo, alimentar o seu incrível
sonho de quase-consumo. Finalmente, partiu para o tal supermercado,
o maior e mais completo da América Latina, segundo a propaganda
luxuosa e extremamente estimulante, distribuída apenas
para um público-alvo de grande poder aquisitivo. Tinha
conseguido o prospecto na casa do Dr. Charles Enrico Gomyd, pelo
nome, já se vê, autoridade governamental ou algum
manda-chuva de multinacional.
Ao entrar, sem esconder sua disposição, escolheu
um carrinho com corrente e amarrou-o a um outro. la começar
pela seção de eletro-doméstico, mas foi praticamente
impedido por um vendedor, tipo relações públicas,
da área da informática: o Senhor não gostaria
de conhecer nossas promoções especiais?
Ora, parecia até combinado. Aceitou a "provocação"
e começou escolhendo não apenas um, mas dois computadores.
Claro, tomou como base a sólida opinião do Seu Gomyd:
"Quem tem apenas um, não tem nenhum; a solução
ideal é ter um de mesa e outro para viajar "
Vai daí que foi logo apanhando um note book, aliás
um super note book (celeron 400, 64 Mb, HD de 6.4 Gb, CD-Rom 40x
etc etc) e um PC "de mesa" com todos os periféricos
possíveis e imagináveis "mesa de ping-pong,
meu camarada", (pensou e riu para seus botões). Quase
com impaciência fingiu ouvir e entender a longa e desnecessária
explicação decorada do vendedor. Mesmo assim ficou
maravilhado com a rapidez com que ele fazia aparecer uma série
infinita de lindos desenhos, inclusive um sobre futebol de verdade,
com o Flamengo vencendo sempre. Gostou também de saber
que o computador tinha uma agenda de endereços: Puta
agenda, malandro!
Livre do vendedor vitorioso (ou quase-vitorioso), conforme seu
desejo inicial, partiu para a seção de eletro-doméstico,
na ala dos importados: Caramba, isto aqui é mesmo um
assombro!
Escolheu um equipamento japonês, talvez o menor de todos,
mas, certamente, o mais completo e o mais caro. Pudera, nunca
vira tanto lazer num só aparelho: TV a cores, DVD, VIDEO
LASER, tape deck, gravador de rolo...
O volume quase que lota um dos carrinhos, mal cabendo um mix
incrível, recém-lançado, que deixava todos
os outros liquidificadores no chinelo. Nas virtudes e, também,
no preço.
Quase sem parar, ao passar pelos discos, escolheu, entre outros
até para o seu espanto de velho pagodeiro - um CD com o
trio Pavarotti-Carreras-Domingo e um recém-lançado
conjunto dos principais momentos de Maria Callas:
- Imagino estes três, mais a Dona Maria Callas formando
um grupo de puxadores de samba enredo lá na Escola, queria
ver a cara do Walter Alfaiate mesmo com aquele vozeirão!
Era apenas um começo, mas algumas pessoas já começavam
a olhá-lo com admiração.
- Este sabe o que é bom!
Sem nenhum roteiro prévio de compras, da seção
de eletro-domésticos, passou para a de bebida. Chateau
Mouton-Rotchschild 95 Pauillac: 1.000 reais, em promoção,
hun, deve ser um vinho razoáveL
Ato continuo colocou duas garrafas no segundo carro. Deu alguns
passos, pensou melhor, lembrou das sangrias que fazia com o vinho
Sangue da Terra (5 reais o garrafão), voltou e pegou mais
três garrafões.
Na mesma prateleira, mais adiante, passou para os uisques.
- "Com menos de 21 anos, para mim não serve ",
lembrou a frase preferida do Dr. Charles quando servia bebida
para seus amigos. Não os amigos da capoeira, também
queridos, mas, segundo ele, sem "embocadura" para apreciar
uma bebida mais refinada.
Vinha dai, aliás, através da apresentação
de Mestre Paulinho Botafogo (ou Paulinho da Jussara), sua amizade
com o Doutor, mais conhecido, nas rodas de capoeira da Central
e da Penha, como Gomyd Angoleiro ou, ainda, Gomyd Anestesia. Um
dos poucos capoeiras com dois apelidos, ninguém sabendo
explicar muito bem a origem de nenhum deles. Nem mesmo o Paulinho
da Jussara, extraordinária figura humana, boêmio,
filosófo, tocador de cavaco, tremendo compositor (premiado!)
, professor de português nas horas vagas e, por esporte,
dono de uma quitanda onde arma um senhor pagode de mesa todas
as sextas ("pagode em pé é coisa de paulista
almofadinha.t..).
- "Este negócio de uísque "di maior
de idade" écoisa mesmo de gente rica, mas tudo bem",
filosofou encerrando a divagação paralela e retomando
as compras".
Pegou três garrafas de Royal Salute, "21 years old"
e foi em frente. Ainda no corredor das bebidas, reconheceu um
rum cubano (Siete Años) que tomara certa vez com um colega
de infância que só falava em comunismo. Mais duas
garrafas. Talvez por associação de idéias
(Cuba), das bebidas partiu para a tabacaria. Uma sala especial,
temperatura especialmente controlada, onde um cubano, profundo
conhecedor de "puros" e extremamente simpático
(Señor Manuel) professorava sobre o assunto. Ficou alguns
minutos ouvindo, atentamente, as explanações; tempo
suficiente para decidir-se por duas caixas de Romeo y Julieta,
tamanho Churchill, e uma caixa de Partagas, em sutil homenagem
a Ernesto Che Guevara (segundo o Señor Manuel, Che Guevara
preferia esta marca). Seguiu em frente, levemente sorridente,
lembrando-se dos charutos que ousava enfrentar de vez em quando:
"mata-ratos da pior qualidade"!.
A rápida exposição do cubano, entretanto,
teve outros méritos, pois lembrou, não apenas a
importância de um bom casamento entre um bom charuto e um
bom vinho, mas, também, o casamento desta dupla, com um
sem-número de "appetizers" (tira-gosto, para
os íntimos). Partiu, então, acelerado, para a seção
de queijos, frios e iguarias afins.
- Que torresmo que nada, que muela de galinha, desta vez, teremos
caviar páté de foie gras. salmão e alguns
quilos de brie, emmental camembert, roquefort e outros fromages
". Com todo respeito à mortadela (partida a facão)
e ao queijão frito lá da quitanda do Paulinho da
Jussara.
Do pensamento à ação, com a ajuda do caderno
de propaganda, quase lota o segundo carro com cinco latas de caviar
russo, queijos franceses e vários outros produtos desconhecidos
("se estão nesta área só podem ser coisa
fina").
Analisando, especialmente seu segundo carro, atentou para uma
falha: como servir as bebidas e as iguarias?
A esta altura, orgulhoso, já estava trocando idéias
avançadas sobre a arte de se viver bem com alguns outros
clientes. Nenhum, entretanto, com os carrinhos tão invejavelmente
cheios como os dele.
A um destes, da maneira mais descontraída que pôde
teatralizar, perguntou onde ficava a seção de copos
e pratos.
- Importados. é claro; quero apenas copos de cristal
Riedel e louças de porcelana da China.
Conseguiu um terceiro carro para abrigar seus cristais e porcelanas;
conseguiu. também, que a gerência colocasse um auxiliar
para ajudá-lo com os três carros. Estava chegando
ao fim, faltava apenas mais uma coisa, um pequeno detalhe, mas
que não abriria mão, em hipótese alguma queria
fazer seu banquete, ao lado da mulherzinha amada (era aniversário
dela, seria uma surpresa), pisando num belo tapete persa. Não
foi fácil escolher, muito menos - é, comprou um
grande e um pequeno -sobre os três carrinhos. Como escolher
quando a vontade é comprar todos? Acabou optando por um
hadzistan para o seu quarto e um pequeno mossul para o banheiro
("por que não"?).
Sem pressa, escolheu a caixa com a maior fila.
Na fila foi virando celebridade: "Lindas compras hem"?
"Quem pode, pode, né"!
Ao perceber que estava chegando a sua vez, com insuspeitável
charme, pediu que olhassem seus carros, pois tinha que dar um
pulo no banheiro. Generosamente, como se fosse um adiantamento
de gorgeta, deu ao garoto que lhe ajudava uma nota de cinco reais,
exatamente a metade do que levava no bolso. Passou "batido"
pelo banheiro indo direto para o ponto do ônibus que o levaria
até a Central do Brasil; de lá, com mais duas conduções,
finalmente, chegaria ao seu quartinho humilde, num conjunto habitacional
do extinto BNH, na Baixada Fluminense.
Quartinho humilde, distante léguas e léguas do
imponente e recém-inaugurado supermercado, mas, diga-se,
a bem da justiça e da verdade, cheio de sonhos malandríssimos
de consumo.
No caminho de casa, na venda do compadre Paulinho, saindo da
rotina (normalmente levava 150 gramas) pendurou 400 gramas de
mortadela - "afinaL o presunto leva a fama, mas todo mundo
gosta mesmo é de mortadela - e um xarope de groselha. Passando
pelo cemitério tratou de descolar, também, uma linda
flor para sua namorada aniversariante.
Que adorou a rosa, mas ficou furiosa por não ter participado
da fascinante visita ao supermercado.
- "Já pensou - completou meio zangada, meio sonhando
- aposentar o leite de rosas e lotar mais dois carrinhos com altos
perfumes (começou a ler uma lista apanhada não se
sabe onde): bulgari, cacharet chanel, cartier. christian dior,
givenchy, guy laroche"...?!
Rio de Janeiro , 1 de janeiro de 2000
ANDRÉ LUIZ LACÉ LOPES