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Edição de 16 de fevereiro de 2007

UM POUCO DE HISTÓRIA DA VELHA NOVA FRIBURGO

Jayme Jaccoud

A Cascata e a caveira de boi

Lembramo-nos bem daquele tempo. Lá se vai um punhado de décadas. Nós ainda éramos jovens e morávamos e estudávamos no Rio de Janeiro. Num dia, numa das nossas freqüentes visitas a Nova Friburgo, tomamos conhecimento de que um grupo de empreendedores friburguenses havia tomado a iniciativa de construir, no alto da bela “Cascata” das Duas Pedras, como era conhecida, vista e admirada por toda a cidade que não tinha edifícios ainda, um moderno hotel e cassino. Embora ainda não existisse a palavra “turismo”, todos sabiam que o cassino atrairia visitantes, como já vinha acontecendo em vários pontos do Brasil. Durante muitos anos, especialmente no início do século 20, a pequena cidade de Nova Friburgo fora uma cidade de veraneio, muito freqüentada pelo povo de Niterói e Rio de Janeiro, cidades que costumavam ser atacadas por surtos de febre amarela durante o verão. Esses visitantes, pelos anos 1930, começaram a desaparecer, seja pelo aparecimento, aqui, do tifo trazido pelas águas captadas abaixo de Mury, seja por medo da invasão de tuberculosos que aqui vinham procurar sua cura. A cidade foi se esvaziando no verão. A febre amarela desapareceu e o nosso tifo foi dominado. A cidade, ainda a Cidade dos Cravos, começou a perder o movimento dos veranistas e passou a depender das indústrias aqui instaladas. O hotel e cassino da Cascata era uma esperança. O jogo traria gente para movimentar a cidade. Iniciaram-se as obras. Enormes cortes e aterros começaram a se fazer no alto da Cascata. O terreno foi urbanizado, os prédios foram construídos, os móveis chegaram e, às vésperas da sua inauguração, a notícia, como um raio, caiu sobre a cidade. O general Dutra, presidente do país que substituía a ditadura Vargas, decretava a extinção do jogo no Brasil. Todo aquele capital aplicado na Cascata ficou inerte. Foi uma ducha de água fria que caiu sobre a cidade.

Passavam-se os anos e os proprietários da obra não sabiam o que fazer. Até a idéia de transformá-lo num hospital para tuberculosos surgiu. A reação do povo foi contrária. Com a eleição de César Guinle e a sua influência, conseguiu-se que a Fundação Getúlio Vargas adquirisse o imóvel para lá estabelecer um colégio moderno, um colégio laboratório, onde nele seria aplicado um novo sistema de ensino: o estudo dirigido. Um monte de obras foi executada.

Adaptaram o prédio às salas de aula, construíram o primeiro ginásio esportivo da cidade, pista
olímpica, piscina, auditório e um novo prédio para o “curso científico” com salas amplas, biblioteca, laboratórios de química e física, dormitórios e áreas de lazer. As atividades começavam às 8 horas e se estendiam até as 17h. Professores de gabarito moravam em casas construídas em torno dos prédios do colégio. Os alunos, em grande maioria internos, vindos de todo o Brasil, tinham quase que completa liberdade, com óbvias limitações. Tinham até um banco, que funcionava. Muitos nele fizeram o curso e, posteriormente, marcaram suas presenças em elevados cargos pelo país. Um deles chegou à vice-presidência da República e, como tal, por várias vezes, exerceu a presidência interina. Num dia, para surpresa e decepção geral, a Fundação fechou o colégio. Ele dava prejuízo financeiro. À curta mentalidade dos dirigentes da época não interessava só o elevado lucro social. O projeto do Colégio Nova Friburgo, como tanta coisa boa no Brasil, desapareceu.

Passaram-se anos e aquela maravilhosa instalação ficou abandonada, tomada pela saudade e pelas ervas daninhas. Há uns poucos anos surgiu uma nova esperança: a Uerj instalou, lá no alto da montanha, um campus universitário. Aquele colosso, perdido e abandonado, criou vida nova, ressuscitou. Um monte de jovens passou a alegrar aquele conjunto e a encher de vida aquelas íngremes ladeiras.

Chegou o verão de 2006/2007. A natureza, reagindo às milhares e milhares de toneladas de gases poluentes que o homem insiste em lhe enviar, mandou-nos uma chuva constante, impiedosa, que empapou as nossas montanhas e, com suas águas, espalhou em nossa terra a destruição e até a morte. Uma das suas ladeiras desapareceu, cortada pelo deslizamento das encostas. O campus da Uerj ficou isolado. A recuperação das íngremes ladeiras demandará muito tempo e dinheiro que a Uerj não tem e a nossa Prefeitura, menos ainda. O que os governos nos oferecem é insignificante.

Pela terceira vez, em pouco mais de meio século, acontece o terceiro grande desastre no morro da Cascata:

- O primeiro deles foi a não esperada proibição do jogo no Brasil, no governo Dutra, que aniquilou o projeto do grande hotel e cassino, às vésperas da sua inauguração.
- O segundo, o fechamento do Colégio Nova Friburgo, da Fundação Getúlio Vargas, um fantástico projeto educacional que orgulhava a cidade.
- O terceiro, o deslizamento da ladeira do campus da Uerj e o seu isolamento, justamente agora em que se falava na sua ampliação.

É muito azar para um mesmo local.

Isto nos faz lembrar uma história que, há alguns anos, contamos nestas páginas. Numa roda de amigos, conversando sobre o então fechamento do Colégio Nova Friburgo, um deles comentou: “Fecharam a ‘Fundação’. É a segunda vez que um azar ali acontece. É muita falta de sorte. Naquele local deve haver, enterrada, alguma caveira de burro!” Nós retrucamos que caveira de burro não sabíamos se ali existia alguma, mas “caveira de boi”, tínhamos certeza absoluta de que lá, enterrada, havia uma. E passamos a contar:

Na época em que faziam o aterro para a construção do hotel e cassino, trator era algo ainda inexistente em Nova Friburgo. Trabalhos daquela natureza, movimentos de terra, eram feitos na enxada e em carros de boi. A encosta, no local onde seria edificado o hotel, foi toda escavada a enxada e a terra carregada por carros de boi. A terra retirada ia sendo levada ao local de aterro onde o condutor fazia o boi manobrar o carro e, de ré, ia levando-o até a beirada, onde a terra era despejada morro abaixo. Num dia um dos carros, quando encostava de ré na beirada do aterro, descontrolou-se e rolou pelo aterro, terra, carro e boi. Quando se conseguiu chegar junto ao boi, ele estava morto. O proprietário foi aconselhado pelos colegas a sangrar o animal para aproveitar a carne. Ele retrucou: “Este boi já me deu muito o que ganhar. Da sua carne ninguém vai comer”. O carro foi içado e o serviço prosseguiu. Lá, debaixo do aterro que circunda o prédio principal da Uerj, alguns metros abaixo, existe uma caveira com esqueleto e tudo, mas de boi. Será que caveira de boi também dá azar?
Esperamos, para o bem da cidade e dos jovens que a freqüentam, que a Uerj consiga recuperar a sua ladeira e aumentar o seu campus.

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