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Um clássico psicodélico
O que havia restado para o funcionário público aposentado
José Luiz Caetano, 49 anos, era apenas uma fita cassete,
que ele ouvia em suas viagens de carro pela serra. ''Chorava de
alegria e tristeza. Sentia um arrepio ao ver a amplitude do trabalho
que tínhamos feito.
Um clássico psicodélico
Disco gravado em 1971 por uma obscura banda de Friburgo vira cult
na Europa, onde colecionadores pagam até US$ 2 mil pelo LP
SILVIO ESSINGER
O músico José Luiz Caetano que, no começo
dos anos 70, tocava com a banda 'Spectrum': os colecionadores de
raridades psicodélicas da Alemanha mudaram a vida do aposentado,
que vivia amargurado com a falta de reconhecimento de seu trabalho
O que havia restado para o funcionário público aposentado
José Luiz Caetano, 49 anos, era apenas uma fita cassete,
que ele ouvia em suas viagens de carro pela serra. ''Chorava de
alegria e tristeza. Sentia um arrepio ao ver a amplitude do trabalho
que tínhamos feito. E tudo se perdera no vento, jogado em
alguma prateleira'', diz José Luiz. Na tal fita estavam as
músicas do disco Geração bendita, gravado em
1971 com sua banda Spectrum, formada por amigos beatlemaníacos
de sua cidade, Nova Friburgo. Sem repercussão alguma em sua
época, o trabalho acabou vingando só 30 anos depois,
por vias tortíssimas: depois de virar raridade, cult mesmo
entre colecionadores europeus, Geração bendita foi
relançado em outubro de 2001 em caprichada edição
de vinil, numa tiragem limitada, pelo selo alemão Psychedelic
Music. Mais: quem quiser comprar um LP original de 1971, em bom
estado, tem que desembolsar até US$ 2.000.
Saudado na Alemanha como uma pérola do rock psicodélico
sul-americano, o disco relançado vendeu toda a tiragem de
410 cópias em uma semana (outras 40 tiveram que ser guardadas
para os clientes da internet). Em abril, Geração ganhará
sua primeira edição oficial em CD, também na
Alemanha.
''O tempo ficou curto e a cabeça pequena'', diz José
Luiz, que, com toda a satisfação, deixou a pacata
vida de lado e hoje vive em meio a uma frenética troca de
e-mails e telefonemas com representantes de selos fonográficos
e colecionadores no exterior. Em 1998, ele estava completamente
desanimado, depois de tentar promover uma reunião da banda,
que rendeu apenas uma edição caseira do disco em CD.
Tudo indicava que se perderiam na memória as músicas,
feitas para a trilha sonora do inacreditável Geração
bendita, anunciado como ''o primeiro filme hippie brasileiro'',
feito em ''uma comunidade hippie autêntica''. Até que
um dia o músico foi procurado pelo colecionador Luiz Antônio
Torge, que mantém um site com capas de discos brasileiros
raros, o Rato Laser (www.ratolaser.hpg.ig.com.br).
Paulada - ''Há uns oito anos, um peruano que mora em Burbank,
nos Estados Unidos, me enviou uma lista de discos brasileiros que
procurava. No final da lista, havia um tal de Geração
bendita, que ninguém conhecia'', diz Torge. Um amigo conseguiu
então para ele a obscura bolacha psicodélica. ''Escutei
e foi aquela paulada. Ele não perde para nenhum baita disco
americano ou europeu do mesmo estilo.'' O colecionador só
conseguiu chegar a José Luiz por intermédio do diretor
do filme, Carlos Bini, o único nome completo na contracapa
do disco original, que fora lançado pelo extinto selo Todamérica,
especializado em cantores do rádio.
Logo a descoberta chegou a Thomas Hartlage, do Psychedelic Music
(www.psychedelic-music.com), em uma fita enviada por Torge. ''Fiquei
tão impressionado com o som e com as composições
que passei um ano tentando comprar o LP original. Por fim, consegui
uma cópia no Brasil, pela qual paguei US$ 1.500'', diz Hartlage.
E a fama de Geração bendita se espalhou. ''Ele é
uma jóia da música psicodélica'', elogia Hans
Pokora, autor da série de livros Record collector dreams,
que compila capas de raridades roqueiras do mundo inteiro. ''Além
de ser ótimo, ele é raro também, o que torna
a obra ainda mais cultuada'', acrescenta Luiz Antônio Torge.
''E o fato de as músicas não serem covers de bandas
da Europa ou Estados Unidos deixa os colecionadores loucos.''
Ouvir os poucos mais de 29 minutos do Geração surpreende
qualquer roqueiro, até o mais experimentado. Apesar do som
precário (os instrumentos eram de terceira mão e as
novas cópias do disco tiveram que ser tiradas de um LP, já
que as fitas master desapareceram), trata-se de um excelente disco
de rock, com ecos do psicodelismo de Jimi Hendrix, o peso de Cream
e Steppenwolf (a grande paixão da banda) e das impecáveis
harmonias vocais de Simon & Garfunkel e The Mamas & The
Papas. As guitarras falam alto em faixas como Quiabos (nome do sítio
onde vivia a comunidade hippie do filme), Pingo é letra e
Trilha antiga.
Viola e guitarra - Há também belas baladas, só
com as vozes dos integrantes e o acompanhamento de uma viola caipira
(substituindo o violão de 12 cordas, inacessível para
os garotos), que José Luiz Caetano comprou em 1970 e guarda
até hoje. Entre elas, Mary you are, Tema de amor, Mother
nature e Maria imaculada. A faixa mais psicodélica mesmo
é Concerto do pântano, com a combinação
da viola com slide e guitarra com efeito wah-wah. O hino hippie
A paz, o amor, você encerra o disco em grande estilo - nada
a dever, por exemplo, aos Mutantes de Jardim elétrico.
Produzido por Carl Kohler, dono do Quiabos, o filme Geração
bendita era a grande oportunidade que o Spectrum tinha de entrar
na mídia. ''Uma história nunca vista no Brasil! Uma
geração simples, divertida, humana, bela e inteligente!
Você vai fundir a cuca, bicho!'', anunciava o trailer do filme,
que originalmente seria um documentário, mas acabou virando
ficção com a entrada no projeto do diretor Carlos
Bini. ''O filme não é nenhuma obra-prima, mas retrata
uma época'', diz hoje José Luiz Caetano. Bondade dele:
Geração bendita poderia ser exibido hoje em dia como
uma curiosidade trash, com cenas de hippies queimando um aparelho
de TV, tocando flauta à beira do rio, queimando fumo e destroçando
com fúria um leitão assado.
Com interpretações constrangedoras e um fiapo de
roteiro, centrado na história de um burocrata que larga tudo
para viver com os hippies que acampam na praça principal
de Nova Friburgo, Geração bendita, o filme, tem uma
cena antológica, em que todos tomam banho nus num rio, no
qual um treslocado vai derramando um balde de tinta para colorir
a água. ''Alguns dizem que a minha bunda está ali,
mas eu não me vejo'', brinca José Luiz, que jura não
ter ido fundo na onda daquela época. ''Minha droga era a
música'', assegura.
Big Boy - Proibido a princípio pela Censura, Geração
bendita acabou sendo lançado só em 1972, e em poucos
cinemas, com o título de É isso aí, bicho!.
E nada aconteceu. Frustrados e sem empresário, os músicos
do Spectrum se separaram - isso, apesar de terem recebido elogios
e uma convocação de um de seus ídolos, o radialista
Big Boy, do Baile da pesada. Com nova formação, chegaram
a tentar a sorte em boates de Ipanema, numa onda meio Cream. Mais
tarde, com a adesão do vocalista (já falecido) Wirley,
embarcaram numa onda Led Zeppelin. Nessa, gravaram a trilha de outro
filme de Bini, O guru das 7 cidades. Depois acabaram mais uma vez,
só que definitivamente.
Com o fim do sonho roqueiro, José Luiz se casou, foi trabalhar
como professor de shiatsu e teve dois filhos. Mais tarde, um concurso
o levou a ser funcionário público. No meio tempo,
cursou dois anos de Direito, que o ajudaram bastante na hora de
se meter no complicado trâmite legal para a liberação
dos direitos do disco, quando do convite da Psychedelic Music para
o relançamento. Foi uma longa peregrinação
que envolveu todos os músicos de Geração bendita
ainda vivos: o baterista Fernando (que trabalha com informática
no Rio) e os guitarristas Sérgio (desenhista da construção
civil em Friburgo) e David (pecuarista em Bom Jardim). O baixista
do disco, Toby, morreu no começo dos anos 90 num acidente
de carro.
''O Geração ainda é um disco atual, em letra
e música'', acredita José Luiz, que montou um site
do Spectrum (www.spectrum.mus.br) e trabalha agora pelo seu relançamento
em CD no Brasil. Ele sonha inclusive fazer um videoclipe, com cenas
do Geração que estão em poder de Carl Kohler,
hoje recluso e desiludido com o meio cinematográfico. Trinta
anos depois, o músico continua no clima paz-e-amor do filme
- em sua opinião, o sonho não acabou e os anos 70
sequer começaram. ''O objetivo final do homem tem que ser
o humanismo'', prega José Luiz.
[14/FEV/2002]
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